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Music by VICE

O Pai do Grindcore É Pai de uma Menina: Shane Embury do Napalm Death

A gente trocou uma ideia com ele enquanto a nenê chorava e, aparentemente, já podemos dizer que ela tem o grind no sangue.

por Greg Pike
27 Maio 2014, 7:50pm

Parafraseando o Apocalipse Now, eu adoro o som do Napalm Death de manhã. Para nós que fazemos parte dos 97% que acordam ranzinzas e insociáveis, café forte e grindcore alto é um combo que vale a pena. Já que a tristeza adora companhia, o grindcore age como um parceiro mal-humorado a postos contra o sol da manhã, facilitando um pouco tirar as calças rabugentas e colocar aquelas calças ok-respira-acho-que-isso-não-é-tão-mal-vamos-encarar-o-dia-afinal. Experimente. Na pior das hipóteses, ouvir bandas explosivas como o Napalm Death pela manhã vai abafar seu roommate cantarolando alegremente na porra do corredor – e talvez ainda prevenir um potencial degolamento.

Para aqueles não familiarizados com o grindcore, é uma mistura entre hardcore e death metal. Os vocais são todos AUUUGGHH, a bateria está sempre explodindo, BRATATATATATAT; e a guitarra e o baixo fazem, DIRNT-DARNT-DIRNT-DARNT-DIRNT-DARNT! As músicas são supercurtas. E tocadas rápido pra caralho. No geral: o som do Satanás arrotando e cagando ao mesmo tempo.

O baixista Shane Embury é um dos fundadores do grindcore e o membro mais antigo do Napalm Death. Enquanto o exército dos EUA supostamente toca grindcore incessantemente para destruir psicologicamente terroristas suspeitos nos esconderijos secretos da CIA ou em Guantánamo, Shane tem feito turnês e gravado discos do abrasivo gênero desde 1987, e sua sanidade parece intacta. Ele vive com a sua esposa e a filha em Birmingham, Reino Unido, o berço do heavy metal, que também lançou o Black Sabbath, Judas Priest e Godflesh. Quando nós o telefonamos, ele e seu baterista tentavam fazer seu bebê parar de chorar.

Noisey: Oi Shane, como vai? [bebê chorando] Agora é uma boa hora para conversar?

Shane Embury: Numa boa, cara. Eu estou na casa do baterista agora. A coisa está um pouco maluca no momento. Temos alguns dias de folga da turnê, e eu estou com o meu bebê de 4 meses. Danny, nosso baterista, está alimentando minha filhinha pela primeira vez, então é um tipo de experiência interessante. A gente recém voltou do mercado e ela parece bem feliz por enquanto, então isso é bom.

Ela é sua primeira filha?

Sim. Ela nasceu em dezembro, então tem sido uma trabalheira. Tenho estado bastante fora. Minha esposa é japonesa, então ela a levou para ver seus pais por algumas semanas uns dois meses atrás. Agora a parte interessante. Ela entrou no período da dentição e, como dizem, começou a colocar coisas na boca. Ela vai, eventualmente, começar a engatinhar, então será, ai meu deus... [risos] Vamos ver!

Você já começou mostrar música pra ela?

Bem, eu canto um monte pra ela. Eu canto todos os tipos de música, menos coisa pesada. Eu acho que sou razoavelmente afinado. Estou intrigado, no entanto, ela tem dedos bem longos, então estou pensando, hmm, pianista? Guitarrista? Eu vou colocar uns heavy metal e mexer os pezinhos dela no ritmo com o bumbo. Você sabe, pé direito, pé esquerdo. Esse tipo de coisa. Se ela vai prestar atenção a isso, eu não sei. Mas talvez em algum nível primitivo será como ensiná-la algum tipo de coordenação sem que ela esteja ciente disso.

Que tipo de música você toca pra ela?

Bem, outro dia eu tinha uma demo de uma faixa do At the Gates, porque sou amigo de um daqueles caras. A gente ouviu aquilo e ela estava se balançando entre o meu joelho e o pulso, no ritmo. Aquela foi a primeira prova dela do som de guitarra pesada, a faixa supernova do At the Gates, sobre a qual eu provavelmente não deveria comentar, mas aí está.

Você está em Birmingham agora. Por que tanto heavy metal veio da região do West Midlands da Inglaterra?

As pessoas dizem que é porque é uma área industrial. Mas havia muitas áreas industriais. Mais do que qualquer coisa. Eu acho que foi o Tony Iommi quem disse, “é mais do que deprimente lá e todo mundo só quer dar o fora.” Talvez isso tenha sido o ponto de partida de alguma forma. Mas quando você tem aquela história musical em volta, é inevitável que comece a tentar criar algo interessante por você mesmo. Quando olho para trás, me dou conta de que algumas dessas bandas se formaram na rua onde eu cresci. Quando eu era jovem, eu não me dei conta disso.

Eu ouvi que vocês tocam muito melhor quando as condições são as piores, e vice-versa.

Você tem duas opções: você pode reclamar das coisas, o que algumas pessoas fazem, or você pode simplesmente ver o que acontece. Às vezes, inevitavelmente, quando as condições são realmente ruins no início, aqueles shows tornam-se super bons.

A banda toda apareceu num episódio de Skins recentemente? Isso parece meio fora de contexto pra vocês.

É, é um programa estranho. Isso foi há mais ou menos 18 meses atrás. Eu não diria que é algo a que eu vá assistir o tempo todo. Na verdade, quase nunca. Eu acho que um dos caras que criou a série é um fã extremo de metal.

Parece que assim que bandas atingem um certo número de anos juntas, elas basicamente tornam-se uma instituição que passou do ponto de separar. E o Napalm Death está na ativa desde 1981.

Bem, nos primeiros dois anos e meio depois que eu entrei, antes de Barney, Mitch, Jesse e então Danny entrarem na banda, a coisa era meio agitada, porque estávamos todos vivendo em regiões diferentes. Não era tão perto. Éramos muito jovens, com alguns shows aqui e ali, porque a cena estava realmente apenas começando. Mas eu acho que por volta de 89 ou 90, quando os outros caras vieram, nós quatro vivemos em uma casa sabe Deus por quantos anos, e nos aproximamos muito uns dos outros. Isso provavelmente tem bastante a ver. Quero dizer, houve algumas vezes, ao longo dos anos, quando nós estouramos, você sabe, dizendo alguma coisa completamente fora de propósito, só porque nós todos tínhamos nossas diferenças uns com os outros. É como um casamento, de certa forma. Quando brigamos um com o outro de vez em quando, você tem que olhar com atenção para a situação e dizer, Ei, você sabe, eu tenho a chance de viajar o mundo em turnê, conhecer pessoas interessantes, visitar países interessantes e tocar música que eu realmente amo. Você precisa esvaziar seu ego uma vez que outra e se dar conta de que por algumas coisas não vale a pena brigar. Mas eu acho que nem todo mundo sabe fazer isso.

Como foi seu primeiro contato com a banda?

Eu vi eles pela primeira vez em Março de 86, literalmente a quadras de onde eu estou agora. Eu fiquei super amigo dos caras. Naquela altura, eu tinha um emprego de meio turno e devia ter 18 ou 19 anos. Eu mesmo estava em algumas bandas e fiquei muito atraído pela agressividade da coisa. Amei a mistura de harcore e death metal do estilo da Celtic Frost. Aquilo era incrível. Então nos tornamos grandes amigos e eu passei a segui-los por aí. Eles faziam um show aqui, outro ali. Eu pulava na van com eles. Eles gravaram o lado A de Scum, que originalmente deveria ser um disco de 12 polegadas, e eu estava lá com eles no estúdio, só passando o tempo e adorando tudo. E então me pediram para me juntar à banda e eu não aceitei imediatamente. Esse é o meu maior arrependimento, mesmo. Não ter feito isso.

Isso teria incluído a gravação do lado B de Scum?

Sim. Foi meio maluco. Nicholas Bullen, que foi um dos principais caras que formou a banda originalmente, tinha recém saído para tocar bateria em uma banda chamada ‘Head of David”. Tinha um show punk em Coventry, e Nick me perguntou, Você quer tocar guitarra? E eu falei, Bem, posso tocar guitarra OK, mas sou muito mais um baterista ou um baixista. Mas ainda disse, Sim, claro. Então eu fui com o baterista Nicky e o baixista Jimmy e nós tocamos algumas músicas que mais tarde apareceram no segundo álbum. E tudo estava pronto pra começar. Mas, não sei, meio que foi demais pra mim. Fiquei com medo e disse, Não sei tocar guitarra tão bem. A coisa meio que desandou depois que o Nick convidou o Frank Healy, infelizmente. Eles acabaram gravando o lado B e o resto é história.

Como você acabou se juntando a eles?

Quando o Jimmy saiu eles disseram que precisavam de um baixista por um período de limboem 1987. Eu conversei com o vocalista e disse que me sentiria confortável de tocar baixo porque (risos) tem quatro cordas e não seis. Todo mundo tem arrependimentos. Um arrependimento que eu tenho é que eu gostaria de ter entrado nisso mais cedo. Mas eu curto baixo um pouco mais. Ele meio que te dá um pouco mais de liberdade pra fazer mais barulho no palco. Com a guitarra, às vezes, você tem que realmente cuidar o que está fazendo. É um pouco mais precisa. Assim que eu entrei, a primeira coisa que fizemos foi a Peel Session.

Como foi conhecer John Peel?

Eu lembro que havia todo esse equipamento vintage estranho nos estúdios da BBC. Ele era um cara super legal. Super prático. Ele simplesmente tomou gosto pelo Napalm Death e outras bandas daquela cena. Ele tocava de tudo, de Napalm Death a The Smiths, de The Cure a música tribal africana super underground. Ele costumava misturar um monte. Os primeiros shows no John Peel Sessions eram uma mistura de metalheads, punks, e garotos do indie noise. Você via um show do Slayer ao lado do show do Dinosaur Jr., e eu gostava daquilo. Estávamos todos nos metendo em outras áreas.

A política do punk e do metal eram mesmo tão severas quanto dizem?

Algumas pessoas costumavam me apontar o dedo por coisas bobas, tipo beber uma lata de Coca-Cola. Na época do Scum, os princípios de todo mundo eram bem diretos. Originalmente, eu venho do metal, que era um pouco menos político do que o punk. Se eu estivesse bebendo uma lata de Coca-Cola e algum cara com um sapato que custou 200 libras me dissesse algo, eu tinha que retrucar, Você está sendo meio hipócrita, não? Naquela época, quando surgiu o CD e, quando o segundo álbum do Napalm saiu em CD, fomos tachados de vendidos. Tempos bem estranhos, pensando bem. Eu não entendia aquilo direito, vindo do metal. Eu amava a atitude e a agressão do punk, mas só encontrava hipocrisias políticas na cena. Você prega união e camaradaria e pensamento livre e individualismo. Mas se você não consegue tocar em algum festival por qualquer motivo político que seja e espalhar sua mensagem, bem, qual o sentido? Você pode ficar no seu quarto ou ir à mesma balada o tempo todo e tocar sempre as mesmas coisas. Mas você não passa seu ponto de vista pra ninguém novo.

O politicamente correto parece estar bem mais focado no mundo online hoje em dia. Se você fala uma coisa errada, corre o risco de ser enxovalhado nas mídias sociais.

É uma época em que você é monitorado 24 horas por dia, 7 dias por semana, ou pode ser. Se algo de errado é citado mal ou tirado de contexto, alguém pode ter a impressão de que você é isso ou aquilo. Então é mesmo bem difícil. Todo mundo tem opinião agora. Qualquer um pode twittar, qualquer um pode responder, qualquer um pode postar. Eu apenas tento ser honesto. E há coisas fodidas demais no mundo, mas no geral, quando se trata de política, eu tendo a guardar minha opinião só para mim.

Greg Pike é um escritor vivendo no Canadá. Ele está no Twitter.

Tradução: Francine Kath

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