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Noisey

A solitária e mágica lente de Gabriela Deptulski

A criadora do universo onírico do My Magical Glow Lens conta como despertou sua visão anti-conceitual de mundo e começou a fazer música dentro do próprio quarto.

por Beatriz Moura
28 Março 2016, 6:35pm

Em março, na coluna Mulher do Dia, vamos diariamente parar por um minutinho o torno informacional para respirar e pensar sobre quantas vezes nós levamos realmente a sério o fato de que muitas das nossas artistas preferidas são, todos os dias, mulheres.


Divulgação

A Gabriela Deptulski estava cansada de tentar arrumar gente pra montar uma banda com ela. Daí, um belo dia em 2013, na solidão do seu quarto em Vitória (ES), a menina de 27 anos começou a ter umas piras muito loucas sobre a sua percepção da realidade e resolveu transformar, sozinha, tudo isso em som. Foi assim que surgiu o seu projeto de indie-pop psicodélico My Magical Glow Lens.

“Tentei criar uma espécie de lente mágica que nos levasse pra essa minha visão mais livre e anti-conceitual do mundo”. A vocalista e guitarrista da banda me explicou que passou a não separar mais os sentidos por causa dessa sua nova “visão”. Um lance meio surreal, mesmo, em que ela mesclava olfato, paladar, visão, tato e audição. “Como se eu não fosse um ser humano racional que só via o mundo nas noções tradicionais impostas a nós”.

Foi dessa viagem sinestésica que surgiu o seu primeiro EP, que leva o mesmo nome do projeto. O disco foi feito todo no esquema “one-girl-band” — a Gabriela gravou vocal, guitarra, bateria e masterizou o material inteiro sozinha — e é um dream-pop lo-fi que reflete bem as viagens psicodélicas e solitárias da garota.

Em 2015, a capixaba lançou o seu novo single, “Windy Streets”, com a participação do grupo novaiorquino The Post Nobles. E, para acompanhá-la nos shows, ela agora conta com a presença do Rafael Eskerda na bateria e do Gill Mello no baixo. Entre na lente mágica de Gabriela na nossa entrevista abaixo:

Noisey: Como você entrou no mundo da música?
Gabriela Deptulski: Aprendi os primeiro acordes no violão com meu pai. Fiz minha primeira composição lá pelos 11 anos. Tive duas bandas quando mais nova, mas isso faz bastante tempo. Fiquei muito tempo sem tocar. Depois que voltei, tive dois projetos nos quais gravava sozinha em casa, antes do My Magical: O Sky Machine e o Magic Vox.

E como surgiu o MMGL?
O My Magical surgiu de uma pira minha de uma nova visão que tive do mundo. Eu estava em casa um dia e comecei a ver a realidade de uma forma um tanto inovadora e diferente. Então, tive a ideia de fazer músicas para tentar expor tudo isso. Resolvi gravar tudo sozinha, pois achava que ninguém iria se interessar por essas ideias. Foi assim que tudo começou: eu no meu quarto, tentando criar uma lente mágica que levasse a gente pra esse tipo de visão livre e anti-conceitual do mundo.

Nessa forma de ver o mundo, eu não separava visão, audição, tato, olfato, paladar. E não era um ser humano racional que via o mundo nas noções tradicionais que nos foram impostas. Assim, eu consigo associar as sensações de maneira muito livre. Basicamente, nessa visão de mundo, sou capaz de criar o tempo todo.

Como é ser mulher no meio da música?
Bom, primeiro, ser uma garota aqui é o seu pai demorar 10 anos pra entender que você é musicista e começar a te apoiar. É tocar sozinha em casa há 10 anos até que alguém queria tocar com você [Risos]. Também é aprender a se fazer ouvir. É falar pro parceiro de banda: "O andamento dessa música é mais lento", ou pro técnico de som "o palco está montado de modo que não vamos nos ouvir muito bem"; e eles entenderem isso como um insulto, como se você não fosse capaz de opinar a respeito do instrumento ou aparelho que eles operam, porque na cabeca deles, você nao tem esse conhecimento. Talvez porque, pros homens, apenas eles são os detentores daquele conhecimento e você, mulher, não tem capacidade de opinar sobre isso. Aí, você tem que falar com firmeza e mostrar que não vai continuar se não forem feitas as alterações que considera necessárias... Ou seja, é meio que ter que se impor o tempo todo porque, se você não se impõe de algum modo, ninguém te ouve e todos passam por cima de você. Mas, realmente não sei se isso acontece por eu ser menina ou por ter ideias muito diferentes das de todo mundo. Provavelmente, por causa das duas coisas.

Quais minas você tem como influência?
Minha maior influência feminina é a Karen Dalton. A Larissa, baterista da banda Ventre, vem sendo um grande exemplo. Posso citar também a Cat Power, Miley Cyrus, Grimes, Oklou, Beyoncé, Britney, Lorde, Björk, Rita Lee, Ceu e Adriana Calcanhotto... Todas essas são mulheres que conseguiram colocar em prática suas ideias sem medo.

Você acha que as coisas tão melhorando para as mulheres na música?
Sim, muito! Acho que, em todos os âmbitos, estamos sendo mais compreendidas e ouvidas. Mas ainda falta muito pra chegar onde queremos. Vivemos uma época muito boa, de revolução: os negros, as mulheres e homossexuais podem, pela primeira vez, expor a opressão que sofrem e estão sendo (mesmo que não sempre) apoiados. Pela primeira vez, no Brasil, essas desigualdades criadas pelo preconceito humano estão começando a cair por terra. Isso é maravilhoso!

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