Mar, caranguejo e tosqueira são os três acordes básicos do rock de Vila Velha

De Mukeka di Rato a Muddy Brothers, fomos à cidade do Espírito Santo para entender o espírito roquista pinguço colando nos shows, escutando disco com Mozine, bebendo cerveja e comendo tranqueira. Aliás, bebendo muita cerveja.

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05 Maio 2016, 11:00am


Fotos por Renata Henriques.

Subindo as escadas do estoque de um pub no centro de Vitória, no Espírito Santo, eu me sentia exatamente o que era: um repórter forasteiro levemente alcoolizado usando coque masculino enquanto perguntava a Fabio Mozine, fundador da Läjä Records, qual o tipo de música que seria a cara daquelas redondezas. “Um hardcore surf music podre, uns cara tocando de chinelo havaiana, bermudinha jeans com patch do Crass, camisa florida e um bonezinho escroto”, me disse ele. “E eu to levando pro estereótipo Läjä de Vila Velha. Mas se você perguntar isso pra minha mãe pode ser que ela te responda Roberto Carlos”.

Não é como se o jeito de se vestir fizesse diferença em Vila Velha, levando em consideração que a palavra “rock” no dicionário capixaba se refere a muito mais que o gênero musical em si. Rock, para eles, é sinônimo de rolê, festa, balada (and I think it’s beautiful). E naquela noite quente de sexta-feira, os plurissemanticamente rockeiros do Muddy Brothers fariam a primeira apresentação em sua terra natal desde o lançamento do disco Facing The Sky (Backwards) – que saiu aqui no Noisey em março deste ano. Também era o primeiro dia deste repórter na inóspita cidade. “O Renato e o Will são de Aracaju, mas quando se mudaram pra cá, adotaram o estilo Vila Velha rapidamente. Com certeza se você cavucar ali no Muddy Brothers, vai encontrar um vilavelhismo nos caras” me dizia Mozine, que faria mais tarde a abertura da casa com sua gangue d’Os Pedrero. E era isto que eu procurava: os picos, histórias e roques mais vilavelhistas que pudesse encontrar.


Nem se eu pudesse prever o futuro imaginaria que passaria um fim de semana inteiro aprontando em um motel de Vila Velha. Foto por Renata Henriques.

O vilavelhismo sobre o qual Mozine se refere pode ter tido início em meados dos 1990, quando a onda era ir à praia, beber e tocar punk. O Mukeka di Rato, banda em que Mozine é baixista, estava em seu ápice na cidade naquela época. Aliás, foi justamente este ápice, somado à decadência das grandes gravadoras, que deu o gás que faltava para Mozine assumir o espírito empreendedor e criar a Läjä Records, na intenção de gravar os próprios discos e vender os merchs de banda. Hoje, graças ao trabalho próspero do patrão, a “empreza” expandiu os horizontes alcançando gêneros completamente diferentes do hardcore punk, como o black metal do Bode Preto, o stoner rock do Muddy Brothers e a lambada brega do Figueroas. João Lucas, vocal do Muddy Brothers, acha que o que uniu as tribos não foi o Norvana, mas o mar: “A gente tem uma relação forte com o mar, talvez por sempre termos morado aqui. E tem o detalhe da água gelada ser um poderoso cura-ressaca”.

Isto é o que eu descobriria horas mais tarde, já que aquela sexta feira começou cedo. Por volta de 9h30 da manhã o ônibus estacionava no Terminal Rodoviário de Itaparica, depois de uma viagem de 15 horas desde São Paulo. João Lucas me surpreendia com seus cabelos esvoaçantes emaranhados em sua longa barba perguntando: “E aí, vamo tomar uma?”. Aceitei, mas não sem um café antes.

Pedi uma média e a garçonete respondeu “só temos café pequeno ou grande”. Me lembrei que não estava em São Paulo. Enquanto isso, João tomava uma Stella Artois e me dava uma triste notícia: “É capaz que a gente não consiga comer caranguejo. Eles estão na época da andada, e fica proibida a comercialização”. É popularmente conhecido como “andada” o período em que os caranguejos saem de suas tocas para se reproduzir e ficam muito vulneráveis à caça. São sete períodos ao longo do ano, desde fevereiro até abril, e o sexto (de 8 a 14 de abril) coincidiu com minha passagem pelo estado do Espírito Santo. O estabelecimento que servir caranguejo durante este período pode ser interditado, segundo a lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998. Lamentei dando um gole em sua cerveja.

Uma foto publicada por Lucas Panoni (@panonilucas) em

Depois de um breve tour por pontos lendários de Vila Velha (a terceira ponte, a ilha da Xuxa e a praia de pescadores em que a perna de Lars Grael apareceu boiando), deixamos as coisas no quarto e fomos encontrar Lorran, amigo de João e meu fiel escudeiro durante toda a viagem, na praia de Itapoã. Enquanto isso, munidos de cerveja e um fino, João me contava a história de uma banda de hard rock chamada Lion Heart, que tocava no saudoso Entre Amigos, lar de bandas como Dead Fish e Mukeka di Rato, e fazia um som livremente inspirado em Kiss e Van Halen, cujas letras do hit “A Noite Me Chamou” diziam coisas entre “em qualquer lugar a diversão vai rolar” e “com rock na veia ninguém me detém”, e deixavam todo mundo incerto sobre ser uma banda séria ou de brincadeira.


João Lucas Ribeiro demonstrando seu porte físico de leão da montanha para Lorran. Foto por Renata Henriques.

Depois de um delicioso bobó de camarão, profanado por uma porção de batata palha, Lorran e eu acompanhamos João até o estúdio Sabotage, onde a banda faria seu último ensaio antes do show, contando com Pedro Moscardi (do Mango/Single Malt) tocando baixo e teclados. Como o estúdio não comportava tanta gente, Lorran e eu esperamos do lado de fora, tomando xixa e conversando sobre todas as coisas do mundo. “Xixa é legal porque não te deixa bêbado, ela te nocauteia”, disse ele. Aproveitei pra reparar no rótulo da bebida: uma índia de peitos desnudos oferecendo a cuia de um líquido misterioso. “Isso tem cara de cilada”, pensei. Recordar os detalhes do fim de semana não é uma tarefa fácil quando se está em Vila Velha.

A noite nos chamou para a passagem de som no Liverpub, aparentemente a casa mais rock do famoso Triângulo, a Vila Madalena de Vitória. Foram 24 long necks de Heineken para esta tarefa. Logo depois disso, a xixa fez efeito e eu não me lembro de mais nada a não ser alguns flashes de situações aleatórias, como o copo de Jack Daniels na mão de João ou a longa fila que eu deixei Lorran cortar para entrar comigo no banheiro. Por sorte trombei a fotógrafa Thaís Carletti, que me descolou umas fotos bem maneiras do evento.


Fotos do show por Thaís Carletti

***

Na manhã seguinte, acordei de cueca no chão do quarto de João, com uma manta enrolada por cima de mim. Lorran dormia com ele em sua cama. “Até que acordamos cedo pro nosso padrão”, disse João, olhando no relógio do celular. Era meio dia. Tínhamos mais doze horas de sábado para aproveitar antes de João pegar o avião de volta para sua casa em São Paulo e eu seguir meu rumo. Começamos pela praia, novamente, para curar o bode e a ressaca que atingia nossos corpos. O mar em Vila Velha é gelado e as ondas são violentas. Dois minutos ali dentro já são suficientes para te deixar novo em folha.


Flagra do momento em que eu e Lorran levamos um sacode da onda enquanto João pega um jacaré com a maestria de Poseidon. Foto por Renata Henriques.

Dali fomos ao Três Irmãos, bar famoso por seu delicioso caranguejo. Lá encontramos Igor Pellegrini, ex-baterista do Colt Cobra. Ainda tínhamos esperanças de conseguir comer aqueles deliciosos crustáceos, mas fomos rapidamente desiludidos pelo garçom, que mais uma vez salientou a andada dos bichinhos. Pô, bem que eles podiam se reproduzir parados né? De preferência, dentro da panela. Ficamos chateados e acabamos pedindo uma porção de peixe frito. E dá-lhe cerveja.


Quando não tem caranguejo a gente fica #chatiado. Foto por Renata Henriques.

Então descobrimos que o patrão Mozine também estava evitando a ressaca (mantendo-se bêbado) num bar ali perto. O Nando’s Frango vende frangos assados inteiros e em pedaços. Ele também tinha um pernil do tamanho de um travesseiro. Chegando lá, Igor flagrou o frasco de melatonina na mesa de Mozine e, indelicadamente, mandou: “Só assim pra dormir hein Mozine?”. O patrão, com um palito na boca e pernas arreganhadas, saudou a todos dizendo: “Ó os petistas aí! Fala mal do PT agora, Nando, quero ver!”. Mozine bebia com Alexandre Mignone, um agitador cultural famoso em Vila Velha, e quando não estavam falando sobre música, arranhavam um portunhol debochado para ter um ar revolucionário. “Antes que eu mande vocês tomarem nos seus ‘cuelos’, tá aqui a conta”, disse a atendente do Nando’s.


Um repertório infindável de impropérios no Nando’s Frango. Foto por Renata Henriques.

Peguei carona no carro de Mozine até a sua casa, o QG da Läjä Records. Os meninos foram a pé. Chegando lá, fui direto xeretar os discos do chefe da casa. João havia me dito que ele tinha uma pá de discos do Belchior. “O Mote e Glosa tá por aí em algum lugar”, me avisou. Quando encontrei o bolachão, me emocionei e lasquei um beijo na capa. Inauguramos a tarde de música na casa de Mozine com “Todo Sujo de Batom”.


A coleção de discos de Mozine tem brega, hardcore e muito Belchior. Foto por Renata Henriques.

Ainda sóbrio, Mozine me mostrou o escritório da Läjä, com seu estoque de discos, bonés e camisetas. “Sempre trabalhei em casa. Daqui sai mercadoria pra todo canto do Brasil, e o trampo aqui é 24 por 7”, me disse Mozine, organizando os produtos. Ele ainda contou que o que mais gosta de ouvir trabalhando é brega. “O foda é que dá vontade de beber”, confessou.


Mozine me mostrando a Läjä Golpes, seu “império podre”.Foto por Renata Henriques


Adquiri uma camiseta do Crackinho e já vesti na hora. Ficar seminu no escritório da Läjä foi meu sonho por muitos anos​. Foto por Renata Henriques.

Mas foi quando João chegou com uma jarra de margarita que seguimos o protocolo de amar, beber e chorar largado. Mozine foi mostrando discos clássicos do brega, como Raimundo Soldado, Alípio Martins e Adelino Nascimento. Notei a riqueza de significado do verso “eu contava com a despesa/ foi somente tristeza que você me deixou”, da música “Não Tem Jeito Que Dê Jeito”, de Raimundo Soldado.


Aquele abraço sincero e carinhoso que só existe entre patrão e funcionário. Foto por Renata Henriques.


Agora um retrato posado para registrar o momento. Foto por Renata Henriques.

Quando a margarita acabou, fomos para a tequila e Igor me mostrou o hardcore niilista do FYP, o disco Dance my Dunce, com suas letras desbocadas como “Dum Coz I Say So” e “Fuck You And a Half”. De longe uma das bandas mais toscamente porcas que eu já ouvi – e isso é um elogio.


Muddy Brothers na Läjä Records: total respeito. Foto por Renata Henriques.


João ainda incrédulo no som da banda paulistana de Rock-Samba Lee Jackson. Foto por Renata Henriques.

Foi então que Mozine surpreendeu a todos com um disco chamado Rock Samba, de uma banda paulistana da Jovem Guarda chamada Lee Jackson. Na capa, ninguém menos que Bill Haley apresentando os brasileiros. O disco é exatamente o que o nome indica: uma fusão do rock clássico 12 compassos com o mais quente samba brasileiro, e fez com que, a partir daí, a banda abrisse todos os shows de Bill Haley e Seus Cometas no Brasil. Um dos pontos altos do LP é uma gloriosa versão de Rock Around The Clock com Brasileirinho, que faz você pensar estar em uma festa de carnaval dentro da estátua da liberdade. Eufórico, Mozine provocava: “Sambô é o caralho!”.


Além da caixa de feira, tem mais discos na estante. “Aqui em casa ficam só os meus preferidos”, conta Mozine. Foto por Renata Henriques.

Depois disso, seguimos com mais Belchior, mais hardcore e encerramos os trabalhos com o Uah-Bap-Luh-Bap-Lah-Béim-Bum, um dos últimos discos de Raul Seixas. Ouvindo “Canceriano Sem Lar”, refletimos sobre o estado de saúde de Raul poucos anos antes de sua morte graças ao uso excessivo de álcool e drogas – não que isso tenha influenciado em nossas decisões a partir dali.


Uma bela selfie-ostentação para deixar claro que na vida o que importa são as coisas simples. Foto por Renata Henriques.

Varados de fome, seguimos ao Alcides – Carnes y Tragos, hamburgueria recém-inaugurada na região do centro de Vila Velha. Alcides, o dono, me contou que às vezes organiza algumas apresentações de cantores de folk e blues para embalar o preparo dos deliciosos hambúrgueres: “É evento que fecha a rua”. O carro chefe é o Bruce Leroy, que tem esse nome baseado no filme O Último Dragão, tipo aqueles kung-fu/comédia que passava na sessão da tarde. Ele é feito com carne de bacon moída e temperada com maionese caseira e molho barbecue. É de lamber os beiços.


O famoso sinal do Ronaldinho para saudar o hamburgão do Alcides. Tá tranquilo, tá favorável. Foto por Renata Henriques.


Depois de comer, tive que ser arrastado. Foto por Renata Henriques.

O Alcides foi apenas um pit stop rápido para o que viria a seguir, a noite de karaokê numa casa chamada Canto Livre, que mais parecia um buffet de festa de debutante. O salão era hermeticamente fechado por paredes de vidro e tinha mesas e cadeiras de plástico e cheiro de fritura em toda sua extensão. As luzes coloridas e o globo de espelhos davam o ar glamuroso que todo karaokê precisa, e as pessoas cantavam clássicos do sertanejo e pagode 90. Foram poucos os que tiveram a honra de ouvir João Lucas brilhar cantando “I Have Nothing”, uma das músicas mais bonitas de Whitney Houston. Em seguida, acompanhei Lorran em “Fanatismo”, do Fagner, e “You and I” da Lady Gaga, com a fotógrafa Renata Henriques, que teve as manhas de nos acompanhar o rolê inteiro.


João Lucas Ribeiro e seu olhar penetrante, cantando a música mais bonita de Whitney Houston. Foto por Renata Henriques.

No retorno pra casa, passamos pelos cantos mais obscuros de Vila Velha, onde João tinha uma surpresa para todos. Em um terreno baldio perto de um córrego poluído, algum maconheiro junkie pichou “Muddy Brothes” na parede – assim mesmo, sem o R. “É a homenagem mais Vila Velha que já fizeram pra gente”, comentou João, lisonjeado.


Mesa de plástico, hambúrguer na sacola e porta garrafas escrito “beer” – precisa falar mais alguma coisa? Foto por Renata Henriques.

Terminamos o rolê comendo outro hambúrguer — a famosa larica dos muleke — que, na antípoda do Alcides, era um podrão de 14 reais que vem embrulhado num saco plástico, cujo dono havia morrido há poucos dias. Chegamos em casa às 5 da manhã com a certeza de que Vila Velha é uma cidade bastante subestimada, e parada obrigatória de quem gosta de um passeio pela tosqueira.

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