O Cristo Bomba é a trilha sonora perfeita para a implosão do sistema

Ouça 'Billy', o novo EP de uma das bandas mais desgraceiras do hardcore brasileiro recente.

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18 Fevereiro 2016, 1:23pm

Formado há seis anos, o Cristo Bomba é uma das bandas mais desgraceiras do punk/hc recente. As músicas são caóticas, transbordam energia e barulho e servem de base para mensagens carregadas de questionamentos e críticas sociais. “Fomos criados, crescidos, ainda vivemos e aprendemos no meio do punk. Por mais que a gente não se prenda unicamente ao rótulo musical ‘punk’, quando tentamos explicar o som, os nossos pensamentos são punks. Nas ações da banda e nas ações da vida, inclusive”, explica Sandro, o vocalista. Billy, o EP que estamos lançando para streaming nesta quinta (17) com exclusividade, é o segundo play do quarteto, que conta ainda com o Adriano (guitarra), o Phil (baixo) e o Levi (batera). O primeiro foi o álbum A Diferença Entre Linces e Lobos, de 2013.

Billy demonstra um amadurecimento natural da banda, que agora está apostando na profusão de riffs mais rápidos e frenéticos e descendo a afinação, o que deixou as bases ainda mais pesadas. O vocal também chega um pouco diferente da fase anterior, menos agudo nos berros. As letras, em português, tratam de assuntos que não foram abordados no Linces e Lobos, álbum mais concentrado na crítica à religião. Aqui, surgem argumentos contra a manipulação da informação pela grande mídia, o conformismo, e o ataque às autoridades governamentais. Curta esse coquetel molotov sonoro enquanto lê o ideião que troquei com eles:

Noisey: Como foi a participação de vocês no projeto Converse Rubber Tracks? O que vocês desfrutaram de mais legal nessa experiência?
Levi:
Ficamos sabendo do projeto por amigos, nos inscrevemos e meio que esquecemos da parada. O tempo foi passando (risos)... Um tempo depois, já estava rolando o papo com a galera do estúdio Toth, pra gente gravar umas músicas que tínhamos no gatilho, e receber o convite do Rubber Tracks foi uma "benção". Porque a gente tinha pouca grana pra fazer o trampo, mas também não perdemos o lance que já havíamos bolado com a galera do Toth.

O esquema de gravação e produção da faixa "Infestar" no Family Mob e no Toth Studio foi muito diferente do processo que rolou em A Diferença Entre Linces e Lobos?
Sandro:
Foi completamente diferente. A Diferença Entre Linces e Lobos foi produzido e gravado no estúdio Ecos da Cantareira pelo Matheus Vianna e o Carlos Abreu, que na época eram nossos respectivos guitarrista e baixista. O fato de produzir na nossa "casa" daquela época foi bom porque pudemos trabalhar bastante o lance de pré-produção. Na gravação do Billy, que tem o single "Infestar", convidamos os caras do Toth Studio para acompanhar a gente no Family Mob (ao lado do Jean Dolabella e do Kabelo), já que tínhamos o plano de realizar a gravação dos vocais no Toth, que também seria o responsável pela mix e master do trampo. O Danilo Souza e o Fernando Uehara, proprietários do Toth e guitarristas do Bullet Bane, foram os caras que assinaram a produção do EP. Outra diferença desse EP é que todas as músicas são composições da atual formação, enquanto que o Linces trazia meio que um best of do que havíamos feito até aquele momento, com todos os integrantes que passaram pela banda.

Qual é o rolê dos integrantes da banda no cenário punk de São Paulo? Vocês já tiveram outras bandas?
Levi:
Eu tocava com a galera que dava rolê de longboard comigo. Aclive!, era o nome da banda, bem massa. A gente conseguia tocar nuns campeonatos de downhill, umas pistas de skate, foi uma época bem legal! Depois, começei a trampar em um estúdio, toquei e fiz bastante rolê com a galera anarco-punk do Crise. Toquei um tempo no Total Terror DK (banda dos caras do Sick Terror) e no End Hits, com o Adri e o Sandro. Nessa época, montamos o Cristo Bomba com o Chero (na guitarra, hoje baterista do Horace Green), para aproveitar o tempo livre no estúdio antes de começar o movimento das bandas.

Phil: Em 2004, tive a minha primeira banda, chamada Alternoid. Fizemos gravações de algumas músicas, e a banda durou até o final de 2007. Em 2009, formamos o Berne, que contava com alguns dos integrantes do Alternoid e que fez seu último show no D.I.Y. Fest de 2012 no Parque da Juventude. Inclusive, essa banda da qual eu fazia parte tocou junto com o Cristo Bomba nesse dia [risos] e, em 2013, fui convidado para tocar com os camaradas [risos].

Sandro: A primeira banda que tive e com a qual comecei a tocar e gravar foi o Stronger Than Before, acho que em 2005, 2006... Porra, não lembro o ano ao certo! Tinha influências de grind, punk e hardcore old school. Lá pra 2010, me juntei com uns meliantes aqui da zona norte e começamos a compor as primeiras coisas com o Cristo Bomba. Gravamos uma demo e, antes que começássemos a fazer shows, fui convidado pra cantar no End Hits, que já tinha o Adriano na guitarra e o Levi na bateria, o que representa 75% do Cristo Bomba de hoje. O End Hits era mais grunge, punk, seguia a linha Farside, Seaweed, cheia de melodias e pancadarias. Em 2011, começamos a tocar com o Cristo.

Adriano: Eu, muito tempo atrás, tocava em uma banda chamada Bandits, de hardcore. Depois, participei de alguns projetos, mas me firmei no End Hits, banda na qual o Sandro e o Levi também tocaram. Com a pausa, entrei no Manual e, mais tarde, no Cristo Bomba. E estamos aí até hoje, sempre tocamos. Pelo menos eu estou desde os 14 anos na estrada tocando punk rock, hardcore e, no momento, além do Cristo, toco no Eviltruckers, banda de rock’n’roll de caminhoneiro [risos]. E tamo aí, fazendo música sempre!

Uma curiosidade: por que vocês escolheram uns samples do filme Watchmen pra usar no primeiro disco?
Sandro:
As letras daquele disco não têm nenhuma ligação com o filme, porém o Matheus Vianna, que sempre ficava ouvindo os bounces, como parte do trampo da produção do disco, teve a sacada genial quando assistiu Watchmen naquela época. Ele assimilou algumas falas do filme às temáticas de nossas letras. Quando ele mostrou pra gente, ficamos malucos! Os trechos utilizados e o personagem do Rorschach representam bem o espírito daquelas músicas.

Quais são as influências da banda na música e fora dela também?
Sandro:
Acho que a maior influência na hora de escrever as letras ou sugerir os temas pra criar em cima é o que a gente passa no dia a dia. Desde as primeiras que surgiram, já falávamos de acomodação com a rotina, ciclo, trabalho, religião, mídia e política. De certa forma, isso continua nos atingindo, fortalecendo nosso caráter crítico a esse comportamento pré-estabelecido pela sociedade e suas heranças; e é o que nos dá força pra desempenhar nossos corres até fora da banda mesmo.

Phil: Essa pergunta é um pouco complicada (risos). Creio eu que, pelo fato de nos juntarmos nesse momento em que todos já tivemos experiências musicais com outras bandas, as referências são as mais diversas, indo desde o hc/punk até música instrumental, não necessariamente dentro da vertente do rock. Eu mesmo procuro escutar muito mais outras coisas, como samba, a música brasileira no geral, jazz, soul, funk, blues, brass band no estilo New Orleans e música jamaicana. Tudo isso influi no processo de criação. Somos uma banda hc, mas não descartamos influências de outros estilos. Não ficarei surpreso se, no próximo CD, tivermos alguns sons ou partes de músicas viajadas em outros estilos. Na verdade, até espero que isso aconteça!

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