Os Maiores Popstars do Mundo São Contradições Ambulantes

Lorde, hiper-realidade, e porquê continuamos comprando o papo do pop.

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20 Maio 2015, 12:00pm

No começo do ano, Lorde cantou seu hit "Royals" – que critica os excessos e o materialismo do pop atual – no evento de gala do Grammy Awards. Enquanto estátuas aladas cintilavam na tela, Lorde, de 18 anos, cantava e convulsionava, compartilhando suas críticas aos gastos excessivos com um público de celebridades, que brilhavam em seus ternos Tom Ford e vestidos Gucci. “Cristal, Maybach, diamonds on the timepiece" ("Cristal, Maybach, diamantes no relógio"), cantava ela. "Jet planes, islands, tigers on a gold leash.” ("Jatinhos, ilhas, tigres em coleiras de ouro.")

Talvez pareça surreal que alguém critique a estética capitalista da cultura pop na cerimônia musical mais chique do mundo, mas o casamento de Lorde com o Grammy foi estranhamente perfeito. Soltar bombas recheadas de verdades a respeito dos luxos da cultura pop em um bar de subsolo ou numa galeria de arte provavelmente só teria o efeito de irritar todo mundo. Contudo, o mais significativo é que Lorde virou meio que um ícone para os materialistas que ela decidiu criticar. Kanye a adora, "Royals" foi trilha sonora da propaganda de um telefone Samsung que custa US$700; ela já colaborou com a MAC Cosmetics. É justamente essa contradição – eu sou isso e também sou aquilo – que faz parte de uma tendência social maior que está zoando com a definição de autenticidade e de contracultura.


Lorde cantando "Royals" no Grammy

A origem disso é aquilo que se costuma chamar, para entrarmos um pouco na linguagem acadêmica, de hiper-realidade – um fenômeno observado pela primeira vez nos anos 80 pelo sociólogo francês Jean Baudrillard. Programas como The Only Way is Essex são o ápice da hiper-realidade, nos quais, mesmo que esteja dito com todas as letras que são roteirizados, é necessário que o espectador aceite a ideia de que as personagens são completamente genuínas. É uma ideia que também foi explorada e provavelmente satirizada nas fotos de Nicki Minaj para a capa recente da Dazed, na qual a cantora se veste como uma "dona de casa" hiper bem-arrumada, cuidando distraidamente de tarefas banais, como preparar sanduíches com presunto vagabundo e maionese barata – enquanto está cercada por símbolos de riqueza em sua mansão multimilionária.

O lance é que, por mais que mensagens anticapitalistas como a de Lorde tenham ressonância, a maneira como são recebidas indica que não queremos, de modo algum, rejeitar a cultura do consumismo. Queremos comprar a ideia de rejeitá-la.

Nós acreditamos que existe alguma coisa, um ser humano de verdade, por trás daquelas fotografias surreais, por trás dos clipes sexualizados e das páginas de Facebook bem-ordenadas. Mas, ao contrário do que acontecia na era do radicalismo sem papas na língua dos anos 60, os próprios astros se mantêm de boca fechada. Assim como acontece com os produtos industrializados, parte de ser uma celebridade em 2015 é vender um estilo de vida para os fãs. E, com as grandes entrevistas sendo todas homogêneas, resta pouco espaço para que os jornalistas façam uma análise cruzada do que está sendo vendido. E sem esse acesso – sem artigos que metam o dedo na ferida e consigam espiar o que jaz por trás dos flashes das câmeras – os departamentos de RP e marketing estão mais livres do que nunca para torcer e distorcer, transformando seus astros em caricaturas do que eles gostariam de ser. A gente engole e vai aceitando.

Naturalmente, o pop tem seu próprio catálogo de significantes e símbolos, criados para invadir a sua mente. Os astros do pop usam sinais que aparecem brevemente, como imagens punk (Pink), itens nostálgicos (Adele) e dançarinos 'exóticos' (maioria dos astros pop brancos) para criar impressões semiconscientes que não são parte essencial da música. E, por estarmos nessa época movida a propagandas, nós processamos tudo isso no piloto automático. O resultado é um baita estupro mental composto de metáforas vagas, que fazem um complexo jogo de referências umas às outras, sem que tenham qualquer origem clara.

Contribuindo para a aceleração do simbolismo hiperativo está a nossa cultura em que tudo se grava e tudo se televisiona. Falando em 1993 à The Paris Review, o autor pós-moderno Don DeLillo explica como o cinema (e hoje, a internet) permite que "nos examinemos, nos imitemos, reformulemos a nossa realidade... de maneiras que não eram possíveis às sociedades anteriores". De acordo com ele, a "identidade dupla" que deriva daí nos desliga do aqui e do agora, e "transforma alguns de nós em atores fazendo ensaios".

A auto-imitação que DeLillo identifica vem acontecendo desde o início dos anos oitenta. Naquela época, viu-se um renascimento do wrestling profissional americano – um esporte até então desacreditado, visto como farsa – e isso foi um sinal de como as demarcações entre cópia, paródia e original autêntico começaram a ficar borradas. Em vez de uma competição, o wrestling profissional virou um espetáculo – um símbolo do drama esportivo que não estava acontecendo de fato. Mas, como a TV era cheia de simulações caras e altamente realistas, a distinção entre ficção e realidade parecia pouco importante. Por coincidência, foi nesse tempo que a expressão "the real thing" entrou no léxico da juventude. Skatistas profissionais como Rodney Mullen eram "the real thing" – no sentido de não ser um falso, um poser – e o mesmo se dizia das melhores batatas chips e refrigerantes. Até alguém como Hulk Hogan, o wrestler ideal, podia ser "the real thing". Dizer que alguma coisa não era fake – mesmo que fosse – tornou-se um modo de dizer que a coisa era foda, incrível.

Nesta era vimos o pop, que sempre fora a essência da artificialidade, desenvolver uma relação mais complexa com a autenticidade. Em 1998, o clipe de "...Baby One More Time", da Britney, anunciou um novo tipo de superstar – ao mesmo tempo moralmente imaculada (a roupa de estudante de colégio cristão, a afirmação de que ela nunca fora para a cama com o namorado Justin Timberlake, com quem morava) e sobrenaturalmente sexy (a roupa de estudante de colégio cristão, o fato de que ela obviamente tinha ido para a cama com Justin Timberlake). Para sua imagem pública, esse equilibrismo foi essencial, pois quase tão forte quando a taradice evidente do público é a sua rejeição imediata dessa mesma taradice. A genialidade de Britney foi mesclar vulgaridade e virtude, e isso foi possível porque o pop não estava mais limitado a vender uma ideia realista – mesmo que a ideia fosse apenas: "VOCÊ QUER SEXO".

Na década e meia que transcorreu desde então, essa dualidade acabou se transformando na segunda natureza da nossa cultura. Nós todos vimos o renascimento do folk de Mumford-e-todo-mundo, um reflexo do medo primitivo que as massas sentem do pop superficial e da tecnologia que avança a passos largos. Isso teve seu paralelo em Hollywood, onde filmes como Coração Louco e Inside Llewyn Davis: Balada de um Homem Comum retratavam esses valores de volta-às-raízes na telona. Por trás dessa tendência, contudo, há um paradoxo. Ao sentir um anseio por aquilo que o folk representa – basicamente um refúgio contra o brilho decadente – o público da explosão do folk de fato não rejeitava esse brilho. Em vez disso, eles receberam uma marca nova, e ainda mais brilhante, de folk, que em breve passou a ser difícil de diferenciar do pop normal.

A ideia da hiper-realidade também não se limita necessariamente ao pop mainstream. Veja o gênero lo-fi, em que bandas como Yuck, Wavves e grande parte do que é lançado pela gravadora Captured Tracks prestam homenagem aos seus ídolos. Suas referências retrô relembram o underground americano do início dos anos 80, quando a austeridade social e tecnológica fazia com que, entre os turnos do trabalho na fábrica, ou seja lá o que fosse, uma nova raça de bandas indie-pendentes tivesse que gravar com pressa em seus quartos ou em estúdios vagabundos de gravadoras.

Grande parte do lo-fi desta década, contudo, não nasceu áspero, mas teve sua aspereza acrescentada. Quando os fundamentalistas resmungam "sei lá, cara, acho que pra mim fica melhor desse jeito", o que está implícito aí é que a inspiração da velha guarda é tão totêmica que, em vez de adotar tecnologias musicais modernas e baratas – em vez de evoluir e assim matar nossos ídolos – é necessário conter-se deliberadamente, para dessa maneira parecer mais autêntico. Mas esse símbolo é corrupto porque, assim como aconteceu com o ressurgimento do folk, a rejeição do pop superficial e industrializado deu origem a um inverso absurdo: a música underground superficial e industrializada.

Isso tudo só mostra que o capitalismo transforma em commodities as virtudes anticapitalistas. Todos nós já vimos (ou fomos) adolescentes idealistas que criticavam as autoridades usando camisetas dos Ramones fabricadas por semi-escravos e compradas na New Look. A gente aceita que, em uma cultura planejada, 'indie' tenha se transformado em um símbolo raso de ousadia. E assentimos com ambivalência ao ver que o punk cava sua própria cova no quintal traseiro da Brewdog, cheio de garrafas produzidas em massa de cervejas IPA Punk ou Hardcore, que usam símbolos de rebelião e independência para seduzir o mercado que gosta de tudo "artesanal". Essa contradição profunda é o que move o mundo.

Mas isso talvez seja reversível, de algum modo. Em seu famoso livro Viagem na Irrealidade Cotidiana, o sociólogo Umberto Eco descreve um holograma que, de frente, retrata duas mulheres nuas se beijando e trocando carícias. Mas, quando visto de outro ângulo, por trás ou de cima, a imagem desaparece. É esse desaparecimento da distinção entre o que é real e o que é representação que nos impede de compreender se o que estamos vendo é ou não genuíno. É isso o que torna a imagem hiper-real. Em outras palavras: os elementos de uma cultura talvez pareçam perfeitamente autênticos – talvez pareçam "the real thing" –, mas, vistos de outro ângulo, sua essência desaparece.

O pop marginal de Lorde faz uma ligação tão sutil entre essas ideias que a gente até esquece que é arte. "Royals" é uma música pop que faz a mente formigar porque, embora esteja numa embalagem bonitinha, pronta para o consumo das massas, é uma música que critica os luxos (um "tipo de luxo", diz a letra) que são tão inalcançáveis para a maioria dos ouvintes do pop. Mas é em "Buzzcut Season", uma das faixas de Pure Heroine, que a cantora realmente lança uma luz sobre seu desassossego cósmico. Enquanto as bombas caem na tela da TV, ela e suas amigas ficam distraídas em volta da piscina, "onde tudo está bem". E então a consciência de si acaba se infiltrando: "Entre na brincadeira", ela tenta se convencer, "finja que é hiper-realidade". O que ela está querendo dizer é que os confortos do primeiro mundo são uma espécie de ilusão. "Nada é errado quando nada é de verdade", ela canta inocentemente no refrão. "Quero viver em um holograma com você". Para Lorde, o que está por trás do holograma virá mais tarde. Mas, por enquanto, ela nos ajuda a pular para fora da matrix de signos e símbolos enganadores com aquele primeiro e pequeno passo: reconhecer e perceber que estamos dentro dela.

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Tradução: Marcio Stockler