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Music by VICE

Kendrick Tirando o Drake em ‘Compton’ É o Auge de uma Treta de Anos

E se o Drizzy morder a isca, a batalha não vai ser vencida com memes.

por Ryan Bassil
18 Agosto 2015, 2:43pm

O “grand finale” de Dr. Dre foi lançado no final da semana passada – uma trilha sonora inspirada no filme biográfico Straight Outta Compton que, de acordo com o jornalista Jeff Weiss, é “bem melhor que qualquer disco de rap feito por um velho eremita bilionário da tecnologia com mais de 50 anos”. É algo que merece ser mencionado, com certeza. Mas vamos deixar o tchauzinho grandioso de Dre de lado um pouquinho e focar no seu auspicioso pupilo, Kendrick Lamar, que participa de três faixas em Compton, porque em duas delas –“Darkside / Gone” e “Deepwater” – há trechos que algumas pessoas interpretaram como cutucadas subliminares ao suarento grande nome do hip-hop canadense, Drizzy Drake.

E cá estão eles:

“Darkside / Gone”: “Got enemies giving me energy I wanna fight now/ Subliminally sent to me all of this hate / I thought I was holding the mic down". [Tenho inimigos que me dão força com os quais quero lutar agora/ Me enviam todo esse ódio subliminarmente / Achei que estava com o microfone na mão]

“Deepwater”: “Motherfucker know I started from the bottom" [Filho da puta, saiba que eu vim de baixo]

"They liable to bury him, they nominated six to carry him / They worrying him to death, but he's no vegetarian/ The beef is on his breath, inheriting the drama better than/ A great white, nigga, this is life in my aquarium" [Eles são capazes de enterrá-lo, nomearam seis para levá-lo/ Estão enchendo-o de preocupações, mas ele não é vegetariano/ O sangue está na sua respiração, pegando todo aquele drama melhor que/ Um tubarão branco, meu nego, esta vida no meu aquário]

Se você escolher interpretá-las dessa forma, então “Darkside/Gone” referencia “Energy” de Drake e “Deepwater” cita “Started From the Bottom”, bem como o apelido que Drake deu para sua cidade natal e as resenhas de Views From the 6. De primeira pode até parecer que as primeiras notícias do tipo “Kendrick Lamar Zoa Drake” no final da última semana eram meio exageradas. Mas ao observar tudo sob o prisma das interações entre ambos, possivelmente começando quando Kendrick lançou “Control” em 2013, fica claro que existe uma tensão real entre os dois. Então tracemos esta saga desde seu surgimento até os dias de hoje.

Nas palavras de Drake: “Nunca fui descuidado – tudo foi sempre calculado”. Para quem acompanhou a treta recente com Meek Mill, esta autoavaliação de Drake segue valendo. Meek foi cirurgicamente golpeado com “Back to Back” e um show no OVO Fest em que o Champagne Papi tocou diante de um backdrop de memes cuja intenção era sacanear Meek por dizer que ele usa ghostwriters. Drake saiu praticamente como vitorioso e meio que o novo rei do rap.

Kendrick e Drake começaram como amigos. Drake foi um dos primeiros artistas fora da turma de Kendrick a ouvir Section. 80 e isso não só lhe rendeu uma participação como um interlúdio inteiro em Take Care, de 2011. Kendrick retribuiu o favor em GKMC; eles saíram em turnê juntos; eles lançaram “Fuckin’ Problems” com A$AP Rocky (e em suas turnês recentes, continuam tocando este som ao vivo). Mas desde que Kendrick lançou “Control” em 2013 – em que ele comprou briga com 11 rappers diferentes e exigiu que “aumentassem o nível” – Drake parece ter passado a vê-lo, assim como as acusações de Meek Mill, como uma ameaça à majestade. No ano passado, seu relacionamento, dependendo de como você interpreta certos trechos, mudou quando Kendrick disse “estou terminando nossa amizade, baby, prefiro morrer sozinho”, e na anteriormente mencionada “Energy”, Drake diz: “Esses caras do rap/ que tenho que fingir que curto/ fodam-se esses caras pra sempre”. Quando o caldo entornou?

Assim como com Meek, mas de forma um pouco mais sutil, Drake tentou jogar Kendrick pra escanteio ao dar de ombros de forma maliciosa e calculada assim que passou a encará-lo como uma ameaça. Quando “Control” foi lançada, Drake fingiu que não era com ele. “Parecia um pensamento ambicioso pra mim”, disse à Billboard em 2013. “Só isso. Sei bem que Kendrick não vai me matar, em lugar algum. Então quando chegar a hora, creio que poderemos revisitar o assunto”.

Em outra entrevista com Elliott Wilson, Drake foi ainda mais duro: “Você ainda ouve [“Control”] agora? A essa altura? Mal posso esperar pra ver o que [Kendrick] irá fazer porque agora é hora de mostrar sua consistência. Tipo, rolou um disco. Consistência é mais que isso. Estou ansioso pra ver o que ele vai fazer. O cara é talentoso pra caralho. Em termos de competição, me preocupo mais com consistência, com o conjunto da obra. Estou falando de discos de sucesso, de Kanye West. Ele sempre vai ser o cara que vai tentar ir além. É esse tipo de cara que aspiro superar”.

Observando o passado, pode-se ver que as respostas de Drake estão cheias de duplo sentido e manipulação. Em duas frases ele fala que Kendrick é “talentoso pra caralho” e então que é um artista que não é consistente e que não consegue fazer discos de sucesso. Em um golpe ágil, ele colocou Kendrick um nível abaixo dele e de Kanye West. O lance é que Kendrick nunca atacou Drake diretamente – convém que “Control” é interpretada como um convite a “subir o nível” e não uma ameaça (Kendrick finaliza com “tenho amor pra [todos vocês]”) aos rappers mencionados.

Mas a reação de Drake mostra que ele não levou a provocação de Kendrick tão de boa, por mais que os dois tenham sido colegas que amadureceram juntos. Pelo contrário, Drake ofereceu respostas ríspidas e um trecho que muitos tomaram como uma provocação subliminar: em “The Language” ele rima “fuck any nigga that’s talking shit just to get a reaction/ fuck going platinum, I looked at my wrist and it's already platinum/ I am the kid with the motor mouth” [foda-se qualquer nigga falando merda só pra chamar a atenção/ fodam-se os discos de platina, olhei pro meu pulso e já tem platina nele/ Sou o moleque que não fecha a matraca]

O trecho pode ser interpretado como que o colocando acima de “Control”. E foi aí que o angu desandou.

Continua abaixo...

Durante um cypher no BET Awards Kendrick respondeu “nothing’s been the same since they dropped ‘Control’ / And they tucked a sensitive rapper back in his pajama clothes” [as coisas não tem sido as mesmas desde ‘Control’ / E eles colocaram um rapper sensível de volta em seus pijamas], atacando Drake, chamando-o de criança. Suponho que ele tenha visto a reação de Drake a “Control” como infantil: o rap devia tratar de apoiar uns aos outros, a ir mais fundo, em vez de se ofender quando alguém sobe o nível da coisa. Foi uma pequena ameaça, mas Drake pelo visto tomou nota daquilo porque, meses depois, ele foi pra cima. Sempre calculista, ele provavelmente sabia que chatear Kendrick poderia ser mais prejudicial à sua carreira, então no OVO Fest do ano passado, ele pareceu dar um jeito na tensão mandando um salve pro Kendrick: “Kendrick participou do meu disco. Fizemos turnês juntos. É um dos caras mais fodas aí fora. Ele é lendário. Ele devia estar bem ali. Tem muitos reis nessa porra”.

Aos meus ouvidos, os elogios de Drake pareceram mais falsos que Gucci de camelô; ele tentava dar um jeito na cagada do ano passado porque não queria que Kendrick se armasse – e possivelmente acabasse com ele – em vez de fazer uma avaliação sincera de seu colega, que poderia ter acontecido meses antes, quando “Control” foi lançada. No último disco de Kendrick, To Pimp a Butterfly, ele destaca a importância do respeito. Certamente Kendrick viu nesta mudança de atitude em relação a ele que Drake não tinha lá muito respeito por seus parceiros artistas, então uns meses depois do OVO Fest ele lançou isso aqui na sua participação em “Pay For It” de Jay Rock, que alguns interpretaram como uma resposta a Drake em “The Language”: "I tell 'em all to hail King Kendrick, resurrectin' my vengeance/ been dissectin' your motormouth, 'til I break down the engine... endin' our friendship, baby, I'd rather die alone/ your diaphragm is dietary, what you eatin' on?" [Digo a todos para saudarem o Rei Kendrick, ressuscitando minha vingança/ tenho dissecado sua matraca, até acabar com o que a faz funcionar... acabando nossa amizade, baby, prefiro morrer sozinho/ seu diafragma é alimentar, tem comido o quê?].

O que nos leva a “King Kunta” de To Pimp a Butterfly, que muito bem poderia ser a maior faixa de provocação subliminar já escrita. Um verso agora famoso em especial – “A rapper with a ghost writer? What the fuck happened?/ I swore I wouldn't tell/ But most of y'all sharing bars like you got the bottom bunk in a two man cell” [Um rapper com um ghostwriter?/ Que que tá pegando?/ Eu jurei que não falaria nada/ Mas vocês aí dividindo tudo como se estivessem na cama de baixo numa cela pra dois] – antecedeu as acusações de Meek Mill de que Drake usa ghostwriters. Kendrick diz que “botou o mundo pra falar” e que as pessoas querem “cortar minhas pernas”.

Estas linhas poderiam muito bem ser encaradas como bravatas genéricas, mas dois anos após o lançamento de “Control”, uma das pessoas que tentou derrubar Kendrick foi Drake. Diferentemente do que aconteceu com Meek, Drake não conseguiu exercer seu poder por meio de uma faixa direta, porque ele sabe que perderia. No lugar disso, fez provocações subliminares, deu declarações cuidadosamente elaboradas e deixou ostensivamente claro seu apoio a Kendrick. Em Compton, os versos de Kendrick sugerem que ao desrespeitá-lo daquela forma, Drake está nadando em águas perigosas. É a maior – e talvez a única – ameaça feita a Drake até então; o fato de que ele está pronto “pra lutar” diz muito. E levando em conta o que é dito em “King Kunta”, talvez existam mais segredos aí que Kendrick poderia colocar em áudio, havendo oportunidade.

A treta de Drake com Meek Mill deu o que falar. Comentamos que seu “mito caiu um pouco”. Já se referiram a ele como “o extremo lógico do triunfo do macho beta da última década: a evolução final do nerd que virou popular”; já foi discutido que a “discussão em torno do valor de Drake como rei não deveria ser silenciada por vozes gritando ‘Vida longa ao Rei’”; e algumas pessoas apoiaram Drake porque ele cria raps genuínos que transcendem culturas. Mais do que qualquer outra coisa, porém, apesar das diferenças da treta de Drake com Meek Mill e seu longevo feudo subliminar com Kendrick, está claro que Drake é um manipulador do rolê. Ele cai em cima de gente mais fraca (Meek), mas não consegue fazer o mesmo com alguém no mesmo nível que ele, recorrendo a táticas de poder mais bem planejadas.

Os versos de Kendrick são 100% direcionados a Drake, e sugerem que ele não vai aguentar essa abordagem por muito mais tempo. Em um artigo publicado na NPR na semana passada, o jornalista Kris Ex sugeriu que artistas como “Kendrick Lamar e J. Cole parecem extremamente desinteressados em jogar o jogo da forma que tem que ser jogado para chegarem ao trono” e que Drake ocupa o ponto mais alto porque é vendável, assim como bem-sucedido musicalmente. Ele é rentável, essencialmente. Mas se Drake tretar mesmo com Kendrick, o lance não vai ser a coroa e memes, mas sim a importância do respeito. A pergunta é: ele vai cair na isca de Kendrick?

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Tradução: Thiago “Índio” Silva