Publicidade
Noisey

Séculos Apaixonados Comenta as Faixas de seu Disco de Estreia, 'Roupa Bonita, Figura Fantasmagórica'

"Eu sei que no fundo nós somos um bando de hipsters, vou fazer o quê?"

por Taís Toti
18 Novembro 2014, 12:26pm

O Noisey viu o Séculos Apaixonados nascer, tava lá quando ele deu os primeiros passos, e orgulhosamente mostrou ele pro mundo. Agora é a hora da gente soltar aquela lagriminha emocionada por ver o quanto esse meninão cresceu. Esta terça (18) é também conhecida como o lançamento de Roupa Linda, Figura Fantasmagórica, primeiro álbum da banda carioca de AOR/pop de motel/soul de roqueiro.

Para marcar este evento tão importante nas nossas vidas, o Gabriel Guerra (voz e guitarra), o Lucas de Paiva (teclado, saxofone e voz) e o Arthur Braganti (teclado e voz), principais compositores do grupo, fizeram um faixa-a-faixa especial para o Noisey. Eles contam tudo que você quis saber sobre essas belas canções logo abaixo dessa imagem bonita feita pela brasiliense Alice Lara para a capa de Roupa Linda, Figura Fantasmagórica.

"Cinturões"

Arthur Braganti: Escorre libido dessa. É o vapor da água quente da jacuzzi que embaça o espelho do motel. Eu sinto que é a melodia sinuosa que nasce quando o amante fica sozinho nesse quarto, fuma um cigarro numa fantasia de romantismo, sabendo que talvez não veja mais esse objeto de amor.

Gabriel Guerra: Como é o cartão de convites do disco, era necessário começar da forma mais dramática possivel. A introdução vem de outra música que Lucas tinha feito, que era parecida com "Cinturões", mas não tinha a mesma pegada. Mesmo assim, essa intro era linda, não tem como não amar essas flautas sintetizadas. A letra abre como "algo que me faz lembrar que todos eles são reprovados, menos eu", nada melhor que começar um disco declarando que você é melhor que o resto. Tem uma leve desafinada na minha voz uma hora, eu fedo. Eu amo o som de galinha que a guitarra faz nessa, também amo a perfomance/solo de sax do Lucas.

Lucas de Paiva: A primeira idéia desta música veio de quando eu estava no Canadá. Os acordes principais da música (do "refrão") estavam na minha cabeça há um tempo, mas eu ainda não tinha colocados eles em alguma música. O resto da galera (Vellozo, João, Arthur e Guerra) estavam no Rio trabalhando na Peixe Paixão. Eventualmente depois da minha volta ao Rio nós passamos ela pelo tratamento Séculos e cada um refez a sua parte na música substituindo os elementos iniciais da demo. A ideia desta música é ser música de sexo mesmo.

"Punhos da Perseverança"

Arthur Braganti: O sujeito se reerguendo. Eu penso mesmo que um bom jeito de ter uma experiência gloriosa dessa, é ouvir enquanto galopa-se um cavalo desgovernado.

Gabriel Guerra: Nossa homenagem aos Four Tops, essa frase inicial não existia, eu fiz essa canção tentando ser uma coisa meio ensolarada, quase "You Gotta Get What You Give" do New Radicals. Quando fui mostrar pro João, ele puxou essa virada e marcação de caixa no tempo da música, clássica de Motown, e ficou impossível não fazer a linha. Além disso o piano do Lucas salvou essa música de virar uma sujeira durante a mixagem (piano é definitivamente um instrumento melhor para se fazer acordes do que a guitarra)... Outra coisa que esteve sempre clara pra mim quando fazia as músicas do Séculos era que tinha que ter uma música usando a figura mais clichê de liberdade do mundo: o cavalo solto correndo pelos campos. Em troca eu queria definir que o dono do campo sou eu, ou que talvez, eu seja só um cavalo com séria crise de personalidade

Lucas de Paiva: Adoro esta música. O Guerra veio com o arranjo inicial dela. Ele tinha uma noção do clima da música e o resto da galera veio acrescentando. Como muitas músicas da banda o arranjo veio antes da melodia e a letra veio por último.

"Totem de Um Amor Impossível"

Arthur Braganti: A cena grandiloquente. O riff principal é completamente "avante" enquanto a letra olha pra trás e é uma parábola, um conto ancestral, tipo um mito fundador de um folclore, o mito do cão que volta. Olhar o passado só pode se ele for perdoado.

Gabriel Guerra: Canção definitiva que formou os Séculos Apaixonados, me lembro de fazer exatamente no dia 26 de dezembro de 2012. Minha festa de natal que tinha passado com amigos foi meio qualquer coisa, eram tempos confusos, minha cabeça estava loquinha, fazer essa canção foi revigorante. Tem toda a simbologia bíblica do "cão voltando ao vômito assim como o insensato volta a insensatez" que dá o tom (e inspiração para escolha da capa). Independente de tudo, a Bíblia continua sendo uma das mais belas leituras do mundo. Me lembro de no início de 2013 convidar o Bonifrate pra cantar nessa, mas esqueci porque isso não aconteceu, o que foi bom, porque pude usar ela futuramente para um real compromisso, e não apenas um projeto.

Lucas de Paiva: A música que deu início a tudo. Algo que o Guerra tinha passado para o Arthurzinho e que ele chegou a me mostrar há muito tempo também. Ele me disse que a bateria vinha de algo do Al Green e da Sylvia, era uma coisa meio soul antiga. Eu me amarrei nessa música desde o início e foi algo que criou uma certa vida depois da demo, passou a ter sax, os elementos começaram a falar mais. A demo também era bem maneira já.


Foto por: Alex Batista/Divulgação

"Ralenti as Baterias do Coração"

Arthur Braganti: O tributo às baladas Motown, mas que no fim deságua na apoteose que é o que falamos sobre o orgasmo que leva o amante às lagrimas.

Gabriel Guerra: Essa levada em 6/8 eu roubei de "How Can You Mend A Broken Heart?" do Al Green, canção que foi crucial pra mim no final de 2012 (a época dos tempos confusos). Refrão gigantesco em que tive a pachorra de lançar a frase "você é a pessoa mais bonita que eu já vi" e depois chamar a conclamada de burra e ignorante... Parece que o jogo virou, não é mesmo? Tem uma progressão esquisita de acorde, fiz assim porque estava em dúvida em como fazer o refrão no dia que era pra apresentar a música pra João e Lucas, fiz em menos de 3 minutos, joguei todos os shapes de acorde de guitarra que me viam a cabeça e deu certo, estranhamente, é um dos melhores momentos no show, me lembra um pouco "Ordinary World" do Duran Duran, não exatamente a melodia, só a grandiosidade. O som da bateria é bizarramente mofado, mas ficou lindo... isso pra não falar dos passarinhos.

Lucas de Paiva: Essa música tem uma vibe tão esquisita para mim. Eu me amarro nela, eu já falei pro Guerra que a progressão dela é doidona. Ele vai modulando sutilmente entre tons sem tocar as tônicas direito. A música inteira ficou grande e tensa, parece U2 injetando morfina para mim. Vale lembrar também que esta música é uma das poucas em que nós mantivemos nossas gravações de bateria real. Muito do que se ouve da bateria é um canal só de ambiência comprimido até o talo. O som da bateria é bem cagado, mas de alguma forma aquilo funcionou na mix final.

"Refletir é Inútil"

Arthur Braganti: É a que lembra que nada desaparece. Os afetos ficam, e a gente gosta de alisar essas cicatrizes, e dança exibindo elas, celebrativamente.

Gabriel Guerra: Não que refletir seja inútil, mas toda a ideia de que você necessita pensar um pouco quando alguém falar a maldita frase "vai passar" eu acho é terrível. Rancor é um sentimento que não passa, é eterno, não dá pra se enganar... mas todo mundo sabe quais são os limites da vingança, então determinar o que fazer chega a ser uma crueldade do maior nível pra quem tem que escolher entre o "aceitar" e "se revoltar", os resultados dissos são sempre pérolas. Negar o tempo enquanto cura é uma coisa que nunca pensaria em fazer na vida, ou em uma canção, mas nesse exato momento, não só na hora que estava dódói do coração, mas na hora que escrevi a letra, caiu como uma luva, me senti fazendo um favor para mim mesmo. Sobre a música, eu não preciso nem falar, tudo que tem esses arranjos de orquestra com bastante ataque das cordas é feito para dar certo. Eu ia falar que essa música me parece uma amalgação de outras três músicas que fizeram sucesso antigamente, mas seria muita maldade revelar isso, deixo aqui o desafio. O baixo do Vellozo vai pra quinta da escalada da música depois do segundo refrão, muda todo o clima, impressionante.

Lucas de Paiva: Essa também veio num dia. Muitas vezes eu costumo fazer o arranjo no computador aí fico tentando tirar uma melodia do que eu estou ouvindo. Em "Refletir" eu só comecei a gravar qualquer coisa depois que a canção estava pronta (menos a letra que foi o Guerra que escreveu e que veio no final). Sei lá, eu acabo pensando mais como produtor do que como alguém que faz canções muitas vezes, e essa veio um pouco diferente para mim. O resto da galera veio depois e deu uma força legal para música.

"Peixe Paixão"

Arthur Braganti: É sobre o vapor da barca Rio-Niterói, que a gente pegava pra ensaiar na casa do Vellozo e as cenas que a barca oferecia, é sobre a água de enxofre do vulcão de Santorini e como nadar nelas é estar imerso numa metáfora do amor. O peixe mítico, que mesmo depois de morto, com seu sabor de delícia, ainda pode intoxicar. Por isso quase uma murder ballad.

Gabriel Guerra: Com certeza a que teve mais mudanças de arranjo... Ela só pareceu estar resolvida quando um dia o João veio aqui em casa e fizemos um arranjo de bongo, deu um movimento que não tinha antes... ensaiamos e arranjamos ela em Niterói na casa do Vellozo, então quando eu ouço a linha de sax já me bate a memória da ponte. Róbson merecia um Oscar por esta interpretação de texto.

Lucas de Paiva: Essa daqui é o grande Arthur Braganti canalizando as energias de Carole King. A música que eu inicialmente achei que fosse a maior candidata a música que a minha mãe vai gostar. A letra é uma das minhas favoritas do disco e ela continua com esta temática de cães, vômito e outras coisas comuns no mundo estranho de letras do Séculos. Medusa estrela do mar e o medo de amar.
O arranjo dela foi uma loucura de resolver. Os garotos batalharam muito com ela antes deu chegar do Canadá e depois quando gravamos ela ficou ainda mais diferente. Ela acabou ficando mais lenta do que no show e entupida de elementos. Foi uma gravação complicada e o processo mais árduo, mas o resultado me deixou satisfeito. Ficou um vocal Serge Gainsbourg com uma melodia atrás, sax pra caralho e um solo de gaita tocado por mim. Sons de trovões do ROLA(ND) de Arthurzinho e crianças rindo na introdução. Foi também um dos melhores usos do Robson Gomes no disco inteiro, nosso querido narrador da banda.

"Só no Masoquismo"

Arthur Braganti: O título já é auto-explicativo, lembra que essa fala também da volúpia que vem no sofrimento apaixonado.

Gabriel Guerra: Essa é do Lucas, incrivelmente boa ao vivo e incrivelmente dificil de cantar, por mais que não pareça. Querido Pougy, amigo de infância, fez este solo de gaita no início, o qual eu amo, tudo que tem uma leve orientação de blues em uma canção que renega totalmente o blues eu aprovo [risos]. Nossa canção com menos acordes também, só três, o que é uma coisa rara pra gente. Os metais em crescendo no meio? Lembram "Don't Stop Til Get Enough"? Essa opinião sido algo recorrente entre amigos. Eu votei sim.

Lucas de Paiva: Eu acho que essa música me lembra um pouco Michael Jackson. É o sax, eu sei, mas eu acho isso tão bom. Faz muito tempo que eu não vejo alguém que meio que parece Michael Jackson e ele é uma referência tão óbvia de se ter. Rola também um ar de "All Night Long" do Lionel Richie nessa música. A progressão é a mesma mais ou menos, uma 4a que vai para uma 5a e volta, sem resolver na tônica em nenhum momento. Mas essa música mostra bem o que o disco representa. Gaitas, sax, coisas divertidas que não têm pretensão de ser algo que remete muito ao underground. Eu sei que no fundo nós somos um bando de hipsters, vou fazer o quê? Mas a ideia do disco era fazer algo que não fosse muito longe da realidade de todo mundo. A gente pelo menos não queria que a música fosse muito craniana, não queria que o disco lembrasse a última banda que conseguiu um "Best New Music" na Pitchfork. Era para ser um negócio honesto e eu acho que esta música mostra isso. São elementos normais de músicas normais que querem ser divertidas e que nós acreditamos (pelo menos eu) que há a possibilidade de tocar na rádio.

"Campeonato de Recordações"

Arthur Braganti: Pra mim é a via-crúcis do apaixonado. Suas quedas, caminhos e a redenção. O solo de guitarra final acende uma luz que mostra o povo boquiaberto vendo o sujeito flutuar.

Gabriel Guerra: De longe a mais positiva no álbum, eu queria terminar o disco com algo esperançoso (lado que só parece presente em "Punhos"), ou que pelo menos pagasse os demônios exaltados nas duas últimas faixas passadas,. A frase que termina dá o tom das ambições futuras: "Dói ser eterno". Começou em uma madrugada com eu brincando com a guitarra e tremolo do amplificador, dando esse ar meio Everly Brothers, saiu rapidinha ela, não creio que demorou mais de 15 minutos para ser feita. Em troca, durou uns meses pra terminar a letra, a gente só foi terminar ela faltando dois dias pra entregar para a master, passei alguns dos primeiros shows murmurando e falando qualquer coisa no lugar. Aliás, tem minha interpretação de solo Brian May no final da música, até eu me espanto que consegui fazer essas harmonizações, talvez para o próximo disco eu faça algo tipo "Prowler" do Iron Maiden ou "For Those Who Love To Live" do Thin Lizzy... Harmonização em terça é uma coisa muito linda para ser renegada.

Lucas de Paiva: A última música do disco e a última música a ser feita. A canção toda é do Guerrinha e cada um fez a sua parte ali. Assim como as outras músicas do Guerrinha, ela foi meio que mostrada ali na hora com ele tocando a guitarra e levando a melodia e o resto da banda foi se encaixando. Eu acho essa música linda, é a música mais Oasis do disco. Por isso que eu acho ela tão animal. Tem algo na forma que nós fizemos a gravação e uma fumaça que impede ela de ser totalmente Oasis, mas ela tem um clima tão gostoso e aquele solo do Guerrinha que bate no final sempre me emociona. Um bom fim para um disco eu acho.