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O King Diamond Voltou

Após uma cirurgia de ponte de safena tripla, a voz icônica do metal volta aos palcos para uma estridente vingança satânica.
14 Outubro 2014, 6:10pm

Após uma cirurgia de ponte de safena tripla realizada há quatro anos, o King Diamond volta com uma estridente vingança satânica. Após dominar diversos festivais europeus com vários shows que culminaram na apresentação diante de 92.000 fãs no Wacken Open Air no verão alemão, o artista antes conhecido como Kim Bendix Petersen e sua banda embarcarão em sua primeira turnê norte-americana em quase uma década. No embalo da turnê será lançado um best of duplo com faixas escolhidas pelo próprio King e seu guitarrista de longa data Andy LaRocque a partir dos catálogos da Roadrunner e Metal Blade. Em algum momento do próximo ano podemos esperar o primeiro disco inédito do King Diamond desde Give Me Your Soul... Please, de 2007. E talvez, somente talvez, o reverenciado satanista holandês e dono da mais característica voz do heavy metal se reúna com sua antiga banda Mercyful Fate. Falamos com King recentemente de sua casa em Dallas para tentar saber mais.

Noisey: Você está se preparando para a sua primeira turnê nos EUA desde 2005. O que passa pela sua cabeça agora?

King Diamond: Acho que nunca estivemos tão confiantes. Mal podemos esperar para encher a cabeça das pessoas com todas estas imagens e criarmos estas lembranças. Nossa nova produção, o setlist, a coisa toda flui muito bem. Ensaiaremos por quatro dias em Dallas antes de cair na estrada. O container com o material da produção acaba de chegar em Houston, com o mesmo palco que usávamos na Europa, e é enorme. Acho que viajaremos com 18 pessoas ao todo, incluindo a banda, mas sem contar com os motoristas. Serão dois ônibus pra caber todo mundo.

Antes do Mercyful Fate você tocou em uma banda chamada Black Rose – vocês usavam cabeças de porco e sangue de animais no palco. Bandas modernas de black metal como Watain, Gorgoroth, e Mayhem usam isso tudo hoje. Você se sente, ao menos em partes, responsável por isso?

Eu sei – eles tomam banho naquilo, praticamente! Nós não faríamos isso. Sangue de porco fede pra caralho, sabe? Não acho que o Black Rose tenha inspirado estas bandas a fazer isso, porém. Elas provavelmente inventaram isso ou leram em algum canto. É algo ritualístico, de certa forma, e meio que coisa delas mesmo.

No mínimo você deve sentir como se tivesse passado por muito desde então...

Com certeza, naquela época fazíamos tudo nós mesmos. Até mesmo cuidava da pólvora das bombas de luz – misturava magnésio e oxigênio para obter aquelas explosões. Mas agora nos preocupamos com coisas como o timing de um caixão se abrindo, onde vão ficar as cruzes, os baphomets, as cores das luzes durante certas músicas. Mas é demais – é o que sempre quisemos. Agora finalmente podemos nos apresentar como quisemos durante nossa vida inteira.

Ao longo dos últimos anos houve um grande interesse em torno do King Diamond e Mercyful Fate. A que você atribui isso?

Acho que a música está fechando um ciclo. Depois de minha cirurgia, [o fundador da Metal Blade Records] Brian Slagel vivia dizendo, “você vai ver – o King Diamond está voltando”. E ele estava certíssimo. Estamos tocando com bastante destaque nestes festivais europeus ultimamente. Mas os americanos ainda não nos viram, saca? Então rola um pouco de incerteza, especialmente porque há muito tráfego aqui quando fazemos estes shows. Daí vejo que Nova York esgotou os ingressos em três horas. Acho que cinco ou seis de nossos shows estão esgotados, o que é ótimo.

Um novo best of seu será lançado em novembro. O que você pode nos falar sobre ele?

Andy e eu gastamos um bom tempo em cima dele, mas finalmente o concluímos. Será um disco duplo, com material tanto da Metal Blade quanto da Roadrunner, juntos pela primeira vez, ou seja, cobre toda a nossa carreira. Pela primeira vez, Andy e eu pudemos escolher as músicas, e nós as melhoramos. A Roadrunner fez a remasterização alguns anos atrás, e elas ficaram mais altas sim, mas foi a única coisa na qual eles mexeram. Os detalhes se perdiam por conta de tanta compressão. Então Andy e eu fomos lá e pegamos as versões mais antigas que podíamos destas canções e as melhoramos. Logo, quando você comprar este disco duplo, você ouvirá muito mais graves sem perder o feeling da coisa. Definitivamente soa melhor, cara.

A quantas anda o novo disco do King Diamond?

Agora que meu estúdio caseiro está pronto, estamos com todo o gás. Provavelmente começaremos a trabalhar nele após a turnê, no começo do próximo ano.

Você disse que algumas das letras para o novo álbum serão inspiradas nas experiências que você teve durante a sua cirurgia e período de recuperação...

Seja lá qual for a história do próximo disco, certamente estes elementos farão parte dela.

Você passou por umas situações esquisitas durante esse período.

Quando acordei, após a cirurgia, eu estava deitado na cama do hospital e só conseguia ver em preto e branco, além de sentir como se alguém estivesse me estrangulando lentamente. Era o tubo de respiração, a pior sensação que já tive na vida. Antes de ser operado me disseram que se eu achasse que poderia respirar por conta própria ao acordar, deveria tentar sinalizar isso a eles. Mas não tinha ninguém por perto quando acordei. Minha esposa estava lá, mas eu não conseguia vê-la. Estava prestes a entrar em pânico, como se estivesse morrendo, então tentei arrancar o tubo da minha boca. Minha esposa viu e me impediu, e aí chamou as enfermeiras. Três delas vieram e se inclinaram sobre mim, parecido com aquele ângulo de câmera quando alguém está numa nave e os aliens estão prestes a fazer experimentos. Tudo continuava em preto e branco. Foi muito estranho. Ao invés de me ajudar, elas me prenderam na cama. Não conseguia me comunicar, mas se elas pudessem me ouvir, teriam me ouvido implorando por minha morte.

Tipo naquela música do Metallica, “One”.

Exatamente. Eu pensava tipo “me matem, porra, eu não aguento isso!”. Mas você não tem como se comunicar. É pior do que qualquer coisa que se possa imaginar. Você ouve aquelas histórias terríveis de gente sedada antes da cirurgia, mas que continuam despertas e sentem tudo, agora se você não está sedado, a dor é total. Depois que me amarraram na maca, pediram para minha esposa sair, e então me sedaram. Quando acordei pela segunda vez, deixaram ela voltar.

Quanto tempo você passou no hospital?

Dez dias. Na verdade pude ir pra casa mais cedo que a maioria das pessoas que passam pelo procedimento porque Livia [esposa de King] estava ajudando a cuidar dos curativos – ela fez isso na frente dos médicos para que soubessem que ela dava conta de fazê-lo em casa. Então tive que provar que podia respirar sozinho. Basicamente tive que aprender a respirar de novo, com força o suficiente para encher esta bolinha de plástico na ponta de um tubo, antes que me liberassem. Tiveram que colapsar meu pulmão por conta da cirurgia, e precisavam verificar se o mesmo não aconteceria enquanto eu dormia. Então tive que treinar para encher aquela bolinha. Também tive que provar que conseguiria andar, então minha vida se tornou uma encenação daquele trecho de “The Graveyard” – “walking the halls at night” [vagando pelos corredores à noite]. Quando Livia saía do hospital, às duas ou três da manhã, eu descia o corredor com ela e então ficava indo de uma estação de enfermeira a outra, a noite toda. Não conseguia dormir bem porque ainda tinha alguns tubos ligados em mim e tinha pesadelos o tempo inteiro. Eventualmente pude ir pra casa, mas foi como uma montanha-russa.

E aí que tudo ficou esquisito de vez…

Por um tempo eu não tinha certeza de estar mesmo aqui. Tinha que confirmar com a Livia. Saíamos pra caminhar e eu segurava seu ombro e dizia “você consegue sentir isso?” ou então ela estava trabalhando no computador enquanto eu assistia ao telejornal, e perguntava “você consegue me ver? Me diga o que estou fazendo...” e isso durou dois ou três meses. Os primeiros dias foram péssimos. Eu tinha que andar todos os dias, mas meus pés estavam inchados e não cabiam nos meus sapatos. Era dezembro, e eu tinha que aguentar a neve nas minhas meias. Em um primeiro momento tive que andar 800m por dia, coisa que mal conseguia. Era brutal. Era como começar tudo de novo – aprender a andar, aprender a respirar. Eu estava tão fraco que mal conseguia levantar um copo. Quando abrem seu peito assim, todos os músculos e nervos tem que se religar, é horrível.

Você diria que está quase 100% agora?

Nunca voltarei a ser 100%. Estou bem melhor agora e minha voz está melhor do que nunca porque parei de fumar, mas ainda tenho uma hérnia de disco que me incomoda. Se deixo de caminhar dois ou três dias seguidos, dói. Mas porra, tô vivo, sabe? É o que tem pra hoje. O lado bom é que consigo cantar melhor do que nunca, e tenho essa nova técnica de respiração que funciona belamente. Cantando como canto, recebo 1/5 do oxigênio que os outros caras da banda. Isso não facilita em nada. Além disso, fico subindo e descendo escadas no nosso palco, e olha que é um show de 90 minutos.

Você participou recentemente do podcast de Eddie Trunk com o fundador da Metal Blade, Brian Slagel. Quando Eddie te perguntou sobre possíveis shows do Mercyful Fate, Slagel entrou na conversa e disse que se certificaria de que eles ocorreriam. Qual a sua posição em relação a esses possíveis shows?

Estou apenas esperando o Brian me dizer como isso será possível! [risos] Não estou dizendo que não vão acontecer, é claro, mas teria que rolar do jeito certo. Não deixaria atrapalhar o King Diamond, isso é o mais importante. Mas seria loucura afirmar que não há chance disso acontecer.

Você é provavelmente o membro mais famoso da Igreja de Satã, depois de seu fundador, Anton LaVey. Que papel a Igreja tem na sua vida atualmente?

Está ao meu lado todos os dias, mas não é como se eu precisasse falar com alguém de lá para confirmar isso. Na verdade vou dar uma ligada pra Karla [LaVey, filha de Anton] pra que a gente se encontre quando estivermos em São Francisco, mas sou o que sou, e sempre fui assim. Meus pensamentos não mudaram. Não é uma religião – nunca foi. É uma filosofia de vida. Me vejo como uma pessoa espiritualizada, mas não acho que ninguém deveria proclamar provas da existência de um Deus. Ninguém pode provar. Por isso que não afirmo que exista um, muitos ou nenhum deus. Mas minhas crenças apenas se fortaleceram como resultado de minhas experiências.

Quando te visitei, no ano passado, você me mostrou uma carta que Anton LaVey havia escrito a você. Na ocasião, você disse que eu esqueceria o que havia nela depois de lê-la, o que realmente aconteceu. Sei que você não vai dizer o que há escrito nela. Mas você poderia nos falar de seu significado para você?

A carta que lhe mostrei, sempre levo comigo nas turnês. Aquela experiência de conhecer o Dr. LaVey, ir à Igreja e receber certas confirmações significou muito pra mim, mas eu não precisava da Bíblia Satânica para confirmar minha filosofia de vida. Eu já via as coisas daquela forma antes de ler o livro, mas foi interessante ver aquilo na forma escrita. E então conhecê-los e ver o quão sério levavam aquilo que faziam – não era um truque para ganhar dinheiro. Encontrei com LaVey, somente eu e ele, onde conversamos por uma hora na câmara ritual. Disse a ele como me sentia e ele tirou seu pingente de Baphomet e pressionou-o contra minha mão. E então me falou sobre algumas daquelas coisas que você leu naquela carta, aquelas que te disse pra esquecer. [risos] Todo mundo que a leu, esquecerá.

J. Bennett ainda não faz a menor ideia do que a maldita carta dizia.

Tradução: Thiago “Índio” Silv