Clay Rossner vem fotografando o ressurgimento do vinil e o resultado é uma maravilha

O fotógrafo norte-americano vem capturando a essência do ato de colecionar vinis com a sua série ‘Records’.
02 Março 2016, 11:00am

Todas as imagens cortesia de Clay Rossner.

O interesse renovado pelo vinil que vem crescendo nos últimos cinco anos pode ser atribuído a uma combinação de motivos, mas, em termos gerais, tudo se resume à estética. Você alguma vez curtiu observar o download de um mp3 tanto quanto desembrulhar um disco e ficar olhando a capa? A menos que você seja o Bill Gates ou talvez uma das mulheres que compram aquele player de mp3 que você mete na vagina e toca música para o bebê nascer, o mais provável é que não. O afeto reservado ao vinil deve-se – além do bizarro impulso capitalista que todos temos de nos definirmos pelo que possuímos – à estética visual da coisa. As cores específicas, uma arte de capa bem pensada, e agrados adicionais que podem acompanhar um lançamento, se o artista ou o selo em questão fizeram um esforço extra para tornar o aspecto físico de um disco uma experiência tão real quanto a própria música.

O fotógrafo Clay Rossner, morador de Nova Jersey, nos Estados Unidos, vem capturando a essência do ato de colecionar vinis com a sua série Records. Quer se trate de Salad Days, de Marc Demarco, cercado de motivos verdes e um cinzeiro cheio de bitucas, ou badulaques e anotações de diário espalhados em volta de Carrie & Lowell, de Sufjan Stevens, cada imagem cuidadosamente construída traduz em elementos visuais o sentimento muitas vezes intangível de um disco específico. Clay, hoje com 24 anos, começou a mexer com fotografia aos 12, quando seu irmão mais velho deixou que ele pusesse as mãos em sua câmera analógica Nikon SLR. Mais ou menos na mesma época, sua família mudou de cidade, me contou ele por e-mail, e todo fim de semana ele ia visitar os amigos em sua cidade natal, e voltava carregando um monte de filmes para revelar. O resto é história.

Records é uma série que selos indie como a Orchid Tapes vêm apoiando constantemente, talvez porque as fotos de algum modo comuniquem toda a vibe de um disco num instante. Nesse sentido, são como resenhas de uma imagem só. Batemos um papo com o Clay sobre o projeto, sobre colecionar discos, e sobre a relação entre música e fotografia. Estamos estreando também seu retrato mais recente — do lançamento combinado, pela Run For Cover, dos EPs Waste Yrself & DC Snuff Film, do Teen Suicide — que você pode ver acima.

Noisey: E aí, Clay! Então, quando você começou a fotografar discos desse jeito, e qual foi o motivo?
Clay: Eu comecei a série na primavera de 2014. Tinha acabado de concluir um projeto que me tomara um ano inteiro, documentando meu irmão e alguns amigos dele morando juntos, então eu estava à procura de algo diferente. Na época eu morava com sete dos meus amigos mais próximos, e alguns de nós tínhamos coleções de discos, então foi muito bom poder botar para rodar diferentes discos o tempo inteiro. Os discos eram uma grande parte da nossa rotina, da manhã até a noite. Nada melhor que Tom Waits com ovos, ou Ceremony no último volume com uma cerveja.

Total. Hoje estamos estreando sua mais nova adição à série – Waste Yrself & DC Snuff Film, do Teen Suicide. Poderia falar um pouquinho sobre essa foto?
Sou fã do Teen Suicide já faz um tempo, e fotografei a primeira prensagem de I will be my own hell because there is a devil inside my body, mas as músicas com as quais eu mais me identificava eram as de estilo mais pop, do waste yrself. Essas músicas têm um som íntimo abafado que adoro. Fiquei pensando por algum tempo nos objetos. Quando vi pela primeira vez as fotos que coloquei no retrato, pensei nesse disco. Incluí a caneca de chá quase vazia porque café e chá são geralmente o que estou bebendo enquanto faço os arranjos para as fotografias, e senti que era apropriado. A câmera descartável na fotografia faz referência às fotos que Sam Ray, do Teen Suicide, costumava postar no blog dele. O som de grande parte do disco dá a impressão de ter sido gravado em fita, então é por isso que o toca-fitas está ali.

Você usou discos específicos da sua coleção na série, ou vai só escolhendo o que tem vontade no momento?
No início eu estava escolhendo os meus favoritos, os favoritos dos meus amigos, ou discos que tocavam muito na minha casa. Foi uma coisa empolgante, porque eu preparava uma mesa e me sentava, fazia mudanças e perguntava a opinião dos outros, e se o disco era de alguém, eu ficava sabendo o que aquele disco fazia a pessoa sentir. De vez em quando ainda fotografo os discos dos meus amigos, e tem vezes que é difícil. Tive de recusar discos, ou devolvê-los para as pessoas, e isso não é mole, mas às vezes certas músicas simplesmente não dão aquele clique; não me fazem sentir nada.

Quando você começou a colecionar vinis? Qual foi o primeiro disco que comprou na vida?

Comecei a colecionar de verdade mais ou menos em 2008/9, mas meu primeiro disco foi o single “Hash Pipe”, do Weezer.

Minha mãe não me deixou comprar esse disco porque era sobre maconha, mesmo na época eu tendo 12 anos, e sem a menor ideia do que era um “hash pipe” [cachimbo de haxixe].

Haha! Eu também não fazia ideia do que era um cachimbo de haxixe, e acho que meus pais sabiam disso também. Eu era um pouco obcecado pelo Weezer. Comprava qualquer coisa relacionada ao Weezer. Meus pais eram super de boa em aceitar o que eu e meus irmãos queríamos explorar no mundo da música. E a gente compartilhava muito também.

Os objetos em torno de cada disco são muito específicos, e têm muito a ver uns com os outros. Você tem alguma regra ou meio que um processo de seleção para os objetos?

Não tenho nenhuma regra, mas sou muito meticuloso. Às vezes vou a antiquários ou brechós, mas é raro encontrar alguma coisa, na maioria das vezes são itens que eu já tenho. Hoje moro em um apartamento bem pequeninho, e ele é meio que um depósito de tesouros. Tenho muita coisa, e um monte de pequenas coleções. Sou um colecionador por natureza, então tenho pilhas e prateleiras cheias de pequenas coisas e badulaques. É bom demais.

Um dos meus aspectos favoritos da série são as diferentes estampas que você usa como pano de fundo. Parece quase papel de parede. O que são?
Todo mundo adora as estampas, eu adoro também, e elas são a parte mais desafiante. Compro em diferentes lojas de tecidos, brechós, e algumas delas são toalhas de mesa da minha mãe.

Muitos dos discos na série foram lançados pela Orchid Tapes, que também tem muito amor e carinho na hora de criar as embalagens e as apresentações das coisas. O que faz você gostar tanto desse selo?
Warren Hildebrand e Brian Wu, da Orchid Tapes, tratam cada lançamento com grande capricho, é uma coisa incrível. Isso é uma coisa que eu respeito e aprecio muito. Eles também têm um rol maravilhoso de artistas, então me impressionam em todos os sentidos. Eles realmente elevaram o meu moral quando comecei o projeto, e continuam a prestar apoio.

Olhando com atenção, dá para encontrar algumas referências não tão óbvias, mas você chega a esconder algumas referências pessoais nas fotos?
Todas as fotos têm coisas pessoais, e me divirto muito colocando nelas as referências não tão óbvias. Fico ouvindo o disco sem parar antes de fazer a foto, então acabo conhecendo ele muito bem.

O aumento do interesse por possuir vinis nos últimos cinco anos gerou críticas afirmando que esse fenômeno está, na verdade, prejudicando os selos menores. Você tem alguma opinião sobre esse assunto? Eu percebi que a maior parte das suas fotografias são de lançamentos de selos independentes.
O aumento do interesse por discos de vinil com certeza prejudicou os selos de menor porte. Todas as lojas de disco que eu frequento têm uma grande seção dedicada exclusivamente ao “Record Store Day”, só com discos pelos quais ninguém se interessa. O Record Store Day deveria ser dedicado a bandas que ainda estão em atividade, e às pequenas empresas independentes. Não que eu não ache que mais gente deveria estar interessada em ter discos. É uma coisa muito legal. Só que é difícil quando uma encomenda é feita em junho e você recebe o disco em novembro. Já ouvi de várias bandas que elas não têm discos em mãos quando saem em turnê, por causa dos atrasos nas fábricas de prensagem. Eu nem consigo imaginar o quanto isso deve ser frustrante. [Para a série] eu não escolhi deliberadamente os lançamentos independentes; acontece que eles são os meus favoritos. Eu me identifico mais com eles, e muitas vezes vou ver os shows dessas bandas. Fotografei The Queen is Dead, do The Smiths, porém não me oponho a fotografar outros “grandes” lançamentos.

Hoje em dia não existe uma necessidade real de comprar vinis, para ser sincera. Dá para achar a maioria dos discos na internet. Por que você compra vinis?
Porque os artistas colocam muito de si nas suas músicas, e na maneira que escolhem de lançá-las. Acho que é importante prestigiar as bandas e os selos, mesmo que esse não seja o mais conveniente dos formatos. Eu curto o ritual de ouvir discos, e como que isso pode dar toda a graça para uma noite. A arte de capa e o que um disco tem de físico são o que dão valor à coisa.

No que mais você está trabalhando atualmente?
Eu também faço várias fotos de shows de bandas, e gosto muito disso. É um desafio fazer fotos ao vivo assim, ainda mais em espaços de house ou DIY, mas isso é parte da diversão. Estou trabalhando também numa nova série sobre mim mesmo, mas não tenho muita certeza sobre nada desse projeto, então não dá para falar nele ainda.

Valeu, Clay!

Você pode encontrar outros trabalhos do Clay no site dele, em seu Tumblr e na sua loja.

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Tradução: Marcio Stockler

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