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Dando close com a Karol Conká em Paris

Aproveitamos a pausa na turnê internacional da rapper curitibana para fazer umas compras e botar o papo em dia sobre disco novo, a vida como popstar e, lógico, feminismo.

por Felipe Maia
10 Junho 2016, 12:00pm


Karol Conká. Todas as fotos pelo próprio autor.

Parisienses tem mania de usar preto. Vez ou outra, eles arriscam acessórios neutros ou aquele Stan Smith no pé. A matiz de tons facilita a identificação dos turistas, quase sempre com roupas coloridas. A exceção é a Karol Conká. De cabelo rosa, brinco amarelo e meia com estampa de onça, ela não está na Europa a passeio. A rapper faz sua terceira turnê internacional e toca na edição francesa do Afropunk — festival que celebra a cultura negra.

Um ótimo pretexto para sair em busca da cultura africana da cidade, bater umas fotos e trocar uma ideia no apertado metrô de Paris sobre o disco novo, machismo e cabelo.


Esperando o metrô.

"Isso aqui não tem no Brasil!", exclamou ela quando parou em vitrine de Château d'Eau. O bairro que concentra cabeleireiros e lojas especializadas em cabelos afro entrou na lista de lugares favoritos da Karol. E os vendedores de lá agora tem em Karol uma das freguesas preferidas. A rapper saiu carregada de pacotes com metros e metros de cabelos de cores, tamanhos e funções diferentes. Quem chegava perto queria saber quem era aquela mulher.


Dando uma olhada nas vitrines da Galerie Lafayette.


Garfando as madeixas.

Uma cabeleireira resolveu não esperar a resposta e puxou a rapper pra sua loja, deu cartão e quase marcou uma sessão pra renovar o penteado. As novas aquisições vão para o clipe de "É o Poder", música feita em parceria com o Tropkillaz. A faixa faz parte do novo álbum, previsto para esse ano. O disco terá participação do Boss in Drama, do guitarrista Gee Rocha e do rapper Don Cesão, amigo de longa data da Karol. Ela também convidou a cantora Ludmilla, mas a parceria ainda não está fechada. Todas as letras terão a assinatura com K, à exceção de "Cabeça de Nego", do Sabotage. Parte da renda do disco será revertida para a família do rapper. "Vai ter rap, música pra balada e vai ter uma linha vocal mais avançada, com melodias", me disse ela.


Várias opções de produtos para mulheres negras.


Agarrou tudo!

Essa é uma das razões que colocou "Back to Black", da Amy Winehouse, no seu novo repertório. Tentar algo novo é algo a que Karol está acostumada desde seu primeiro disco, "Batuk Freak", de 2013. Além de letras que vão na tangente da denúncia de problemas sociais, o álbum tem bases que funcionam no freestyle e na pista. "O rap nacional falava muito de problema e estava certo, senão muita gente não saberia o que acontece nas periferias", me disse ela. "Mas tendo em vista que temos esse estilo, eu quis trazer um estilo novo e por isso minhas músicas falam de auto­estima, soluções."

Isso não quer dizer que Karol não bata de frente. Ao contrário. Ao observar bares repletos de homens ao lado de uma estação de metrô próxima ao famoso Moulin Rouge, a rapper lembra do dia em que deu um chega pra lá em um homem que a abordou naquela mesma Paris. "O machismo é desgastante, mas eu aprendi que quando a gente ignora a gente faz o problema continuar ou aumentar", me disse ela. "Tem que problematizar, sim, tem que ir nas redes, tem que falar."


Pausa para uma foto enquanto ela tira uma foto.

A rapper troca essa ideia poucos dias depois de vir à tona o estarrecedor caso de estupro coletivo no Rio de Janeiro. Ela não atribui ao funk a culpa irrestrita pela violência contra a mulher. Por outro lado, também acredita que a música tem uma responsabilidade: achar uma saída para o que tem de ruim por aí. Nesse sentido ela não nega que se identifica não só com o público feminino, mas também com a galera LGBT. "Música falando besteira sempre existiu, em todo lugar", me disse. "Que o hip hop é uma cultura machista, a gente sabe, mas o que muita gente não sabe é que ele está deixando de ser."

Com trinta anos e três passagens na gringa, a rapper está confortável com o título de popstar. Para ela, as turnês são um sinal de que as coisas estão no caminho certo. Depois do rolê, voltamos para o centro cultural de hip hop no meio da cidade onde uma molecada ensaiava uns passos. Ela chega a comparar Paris e Curitiba. "As pessoas também não se vestem de maneira colorida, falam baixo, são reservadas". Karol estava em casa e não pensou duas vezes quando alguém lhe fez cara feia: soprou um beijinho e deu uma piscadela pra moça que andava de preto.

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