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Rolls, o Gracie que Morreu Antes de Virar Lenda

A inspiradora e trágica história do lutador que revolucionou o jiu-jitsu e que, para muitos, foi "o maior Gracie que já existiu."


O jovem Rolls depois de ganhar a faixa preta. Foto: Arquivo Pessoal

Mesmo que você não seja praticante ou fã de lutas, é provável que você já tenha visto, por curiosidade ou tédio, a porradaria que rola quase todo sábado dentro do octógono. Dizem por aí que é o esporte que mais cresce no mundo. E tudo começou com uma família de brasileiros, os Gracie. Foram esses caras que criaram o Brazilian Jiu-Jitsu (como os gringos chamam), o MMA (Mixed Martial Arts) e o UFC (Ultimate Fighting Championship). Se o mundo das artes marciais fosse uma monarquia, com certeza essa seria sua família real. É a linhagem que detém o saber místico do fight.

Você já deve ter ouvido falar dos dois patriarcas da família, os irmãos Carlos e Hélio. Pode ter ouvido falar também de Carlson, o filho de Carlos que lutou na década de 60 para provar a superioridade do jiu-jitsu nacional. Capaz de ter lido sobre Rorion, o filho de Hélio que criou o UFC e o seu irmão Royce, que, mesmo franzino, venceu todos os oponentes nas primeiras edições do campeonato. Se for um pouco mais interessado, deve ter ouvido falar do Rickson, o lutador que teve invencibilidade de mais de 500 combates. Ou ainda pode ter visto lutas de Renzo, Royler, Ryan, Roger e tantos outros que levaram o nome da família adiante nos últimos 30 anos. O que poucos sabem e falam é que, nessa ampla e curiosa árvore genealógica de campeões, existe um Gracie desconhecido que, para muitos – inclusive gente da família –, é o melhor Gracie de todos os tempos. O Rolls.


Prazer, Rolls. Foto: Arquivo Pessoal

A história da linhagem Gracie se divide entre os filhos de Carlos e de Hélio. Rolls teve origem diferente, mesclada. Ele era filho de Carlos, mas foi criado por Hélio. Isso ocorreu por dois motivos. Nessa época Hélio e a esposa Margarida tentavam, sem sucesso, ter o primeiro filho e Carlos, então com 48 anos, estava casado com a segunda mulher, Geni. Rolls nasceu no Rio de Janeiro, em 1951, fruto de um relacionamento extraconjugal de Carlos com a namorada Cláudia. O pai biológico decidiu dar o filho ao irmão. Assim, pensou, resolveria os problemas nas duas casas. Cláudia, à época com 18 anos, aceitou a proposta. Ela queria que o filho não fosse excluído. Desejava que o garoto fizesse parte do grande clã de lutadores que já se destacava nos anos 50.

Hélio começou a ensinar jiu-jitsu a Rolls antes do menino aprender a andar. Aos 12, o garoto ajudava o tio nas aulas na Academia Gracie. Nessa época, Cláudia trabalhava na companhia aérea Lufthansa e havia se mudado para Nova Iorque, nos Estados Unidos. Ela manteve contato com o filho e o chamava para algumas viagens. Por causa da mãe biológica, Rolls teve na adolescência uma oportunidade que os outros Gracie não tinham: ele podia viajar e conhecer o mundo.

Aos 16 anos, faixa preta e com inglês fluente, Rolls fez uma longa viagem à Europa, onde visitou vários países, conheceu museus e passou a gostar de artes. Isso fez com que seus horizontes se ampliassem. Ele voltou de lá com uma bagagem cultural enorme e, segundo aqueles que o conheceram, foi o que fez mudar os rumos do jiu-jitsu.


Treino com o irmão Carlson. Foto: Arquivo Pessoal

O GRACIE CUCA FRESCA

Rolls levou sua vontade de conhecer novos lugares e culturas para a prática esportiva. Ele era o Gracie "mente aberta". Era o maior praticante das técnicas de Carlos e Hélio, mas nunca se deu por satisfeito só com aquilo.

Sua visão mais abrangente do esporte o colocava em conflito constante com o tradicionalismo imposto por Hélio Gracie, o homem que o criou como filho. Rolls também se sentia preterido em relação aos primos, filhos de sangue de Hélio, que nasceram depois dele. Como resultado, deixou a academia do tio para se juntar a seu irmão mais velho Carlson na Academia Gracie Copacabana. Juntos, eles revolucionaram o esporte em todos os sentidos.

"O Rolls estava a frente do seu tempo", conta o Mestre José Henrique Leão Teixeira Filho, ex-aluno da Academia Gracie Copacabana. "Ele sempre procurou estudar diferentes formas de luta agarrada (grappling). Acho que isso acontecia também por ele ser um lutador competitivo por natureza e não existir muitas competições de jiu-jitsu na época. Ele sempre procurou lutar, nos torneios de judô, sambo e luta livre (greco-romana) e, dessa forma, acabou estudando muitas diferentes formas de alavancas e finalizações que poderiam ser introduzidas no jiu-jitsu."


Arm-Lock voador no irmão Carlos. Foto: Arquivo Pessoal

Nos anos 70, o judô havia se tornado esporte olímpico e o caratê estava em alta com os filmes de Hollywood. Para dar a volta por cima, o jiu-jitsu precisava de um grande campeão. Alguém que possuísse, além de técnica, o carisma e a liderança para guiar uma geração de jovens. Rolls Gracie assumiu a responsabilidade.

"A família Gracie criou um conceito de treino e filosofia de vida muito importante dentro da sociedade carioca e isso se espalhou pelo mundo todo. O Rolls era muito carismático e adorava competir, influenciou toda uma geração a competir e desenvolver mais o esporte. Sem ele e o Carlson, o jiu-jitsu não seria o que é hoje", conta Leão Teixeira.

Até aquele momento, o único objetivo da família Gracie era provar que a arte suave poderia, em combate real e sem limite de tempo, dominar qualquer modalidade de luta. Com Rolls, o jiu-jitsu passou a se desenvolver como atividade esportiva por meio de competições organizadas, com regras, pontuações e limite de tempo. Ele foi o elemento fundamental na criação e fortalecimento da Federação de Jiu-jitsu do Brasil, que regulamentou a graduação das faixas e as regras de arbitragem.


Treino de defesa pessoal de Rolls. Foto: Arquivo Pessoal

Em 1973, ocorreu o 1º Torneio Oficial de Jiu-Jitsu do Estado da Guanabara, com a participação de academias do Rio, São Paulo e Belo Horizonte. Rolls foi campeão em sua categoria de peso e também na categoria absoluta, ou peso aberto, onde lutadores de qualquer peso e tamanho podem se inscrever. Ele repetiu o feito no ano seguinte ao vencer todas as lutas com autoridade.

Apesar de ter alçado o jiu-jitsu ao patamar de esporte, Rolls não se desligou do vale-tudo. Em 1976, ele fez uma demonstração para a TV Tupi. Alguns dias depois um professor de caratê foi ao programa e desafiou Rolls e seus alunos. Aceito o desafio, os alunos de jiu-jitsu venceram todos os combates. Rolls fez a luta principal contra o professor que fez o desafio. Resultado: venceu com facilidade.

Rolls não só fazia jus ao título de melhor lutador de jiu-jitsu da época; ele também era reconhecido por suas habilidades no boxe, na luta greco-romana, na luta olímpica e no judô – modalidade pela qual foi Campeão Brasileiro Universitário. Ele foi também Campeão Brasileiro de Luta Greco-Romana em 1975, Campeão Panamericano de Wrestling em 1979, Campeão Pan Americano de Sambo no mesmo ano e bronze no ano seguinte.

Nessas competições internacionais Rolls levou, pela primeira vez, o nome da família Gracie para os Estados Unidos. Ele foi o primeiro a treinar, dar aulas e a competir fora do Brasil. Pode-se dizer que foi o embaixador da força do Jiu-Jitsu Brasileiro – Brazilian Jiu-Jitsu, se preferir – para os gringos. Ele acreditava que a família Gracie poderia conquistar o mundo com suas artes marciais.

Mais de três décadas depois, podemos dizer que ele estava certo.


Uma das muitas vitórias na carreira. Foto: Arquivo Pessoal

EM BUSCA DA QUEBRA DE LIMITES

Rolls também foi o primeiro a desenvolver um estilo mais ofensivo nas lutas. O jiu-jitsu, a partir dele, deixou de se restringir à abordagem natural de defesa. Suas aulas ensinavam uma postura mais agressiva; seus alunos eram incentivados a partir para cima do adversário. O esporte, logo, se tornou mais dinâmico. Exigia mais do atleta. Para atingir um nível mais elevado dos alunos, o professor introduziu vários métodos de preparação física e alongamento. A inspiração vinha da ginástica olímpica e de surf, dois de seus principais hobbies.

Outra paixão do atleta era voar de asa delta. Como em todas as outras modalidades, teve destaque. "Ele estava sempre lá querendo aprender com os pilotos mais experientes. Ele aprendeu rápido e logo se destacou. Era realmente muito talentoso e destemido", conta Carlos Eduardo Renha Rocha, mais conhecido como "Mosquito", companheiro de tatame e de muitos voos. "O Rolls era um sujeito querido, muito educado e respeitado pela comunidade do vôo livre."

Rolls logo ficou conhecido por voar em condições adversas. Saltava em dias que outros praticantes tinham medO. Um desses voos foi responsável pela sua morte precoce, em 1982, aos 31 anos, no município de Mauá, em São Paulo. Deixou sua esposa e dois filhos, os hoje lutadores Igor e Rolles.

"Meu pai tinha sede de conhecimento, sempre queria saber mais, e essa filosofia o fez buscar novos horizontes, dar voos mais altos e consequentemente o tornou um fenômeno, uma lenda", explica o filho Rolles, de 37 anos, que hoje dá aulas na academia do primo Renzo em Nova York. "Ele foi o líder da família durante muito tempo, foi um elo que segurava todo mundo junto. Depois de sua morte as coisa mudaram um pouco, a família cresceu e se espalhou muito."


Rolls com os filhos. Foto: Arquivo Pessoal

Quando a trágica morte ocorreu, Rolles tinha quatro anos. Mesmo com tão pouco tempo de convivência, ele guarda boas lembranças. "Me lembro dele me levando pra dar uma volta de moto, da gente soltando fogos, indo ao parque da cidade dar comidas aos peixes", diz. "Lembro dele dando aula até que meu irmão e eu começávamos a correr em volta dos alunos e ele nos colocava em uma espécie de prateleira de cimento que ficava ao redor do tatame onde ficavam as mochilas e de onde não conseguíamos descer. Lembro também do dia do seu último voo, eu estava no carro em Mauá."

Para Rolles, o acidente fatal interrompeu a longa caminhada de seu pai para elevar o jiu-jitsu. "Acho, sem exageros, que se meu pai estivesse vivo, o jiu-jitsu seria um esporte olímpico", diz. "O maior sonho dele era o de participar de uma olimpíada e acho que ele faria de tudo para isso acontecer."

Certa vez Hélio Gracie, o pai de criação de Rolls, disse que ele "era tão corajoso que se você não o conhecesse, iria jurar que aquele era um sujeito que estava tentando cometer suicídio". Rolls, disse Hélio, dirigia carros a uma velocidade tremenda e sobreviveu a duas capotagens. Ele era um ótimo surfista e não tinha tamanho de mar que o impedisse de entrar. Para Hélio, isso pode explicar a morte prematura de seu filho. "Eu queria só que ele tivesse sido mais prudente", falou, antes de concluir que "Rolls tinha o maior coração de todos os Gracies". Coração e mente enormes, por assim dizer.

Aqui nesse vídeo tem um pouco mais da história de Rolls. Saca só: