A Cor do Som

O Espírito do Hardcore Tosco Moleque nas Artes do Alex Vieira

O editor da Revista Prego e integrante das bandas Merda e Morto Pela Escola remexeu as suas pastas e mandou pra gente os cartazes que acredita serem os mais loucos que já criou.

por Eduardo Ribeiro
30 Junho 2015, 2:00pm

Nem só de músicos vive a música. Na coluna A Cor do Som, vamos atrás dos artistas visuais que contribuíram para a cena musical brasileira, caçando os ouros do baú de cartazistas donos de abrangentes portfólios para contar as suas histórias.

Alex Vieira começou a fazer umas artes punks ainda moleque e nunca mais parou. Ao contrário, quanto mais passa o tempo, mais ele acha coisas pra agilizar. Sua mente, povoada de elementos caóticos, não cessa de criar. Para ele, tanto faz o formato ou a plataforma, o importante é que o barco precisa seguir vencendo a correnteza. Figura ilustre no cenário hardcore de Vila Velha, Espírito Santo, o Alex tem um livro muito style de 304 páginas que oferece uma apresentação legal de seu trabalho. Para quem não acompanhou toda a sua trajetória criativa, vale dar um bizu, chama-se Quadrinhos, Arte Punk & Psicodelia. Já li, e recomendo.

Seja na praia dos quadrinhos, ilustrações, capas de discos, artes de rua, colagens, pinturas ou gravuras, tudo o que ele faz é sempre engraçado e crítico ao mesmo tempo, rabiscado com um traço bom de repousar os olhos. O Alex também edita a Revista Prego, que está entre as publicações independentes mais espirituosas das feiras de zines dos últimos tempos.

No momento, sua principal ocupação é administrar o Prego Espaço de Arte, um pico de criação, venda e exposição de arte em sua cidade. De lá saem trampos de ilustração, design gráfico, animação, pintura, murais e vários outros lances. Fora isso, o cara toca bateria no Merda e dá uns gritos no Morto Pela Escola.

Noisey: Você começou a trabalhar e a experimentar com desenho e artes gráficas e visuais antes ou depois de começar a fazer flyers e cartazes de shows? Conta aí como rolou a oportunidade de fazer os primeiros. Te convidaram ou você foi convidado?
Alex Vieira: Os cartazes foram minhas primeiras experiências com artes gráficas. Antes disso, tinha feito pouquíssimas coisas nessa área. O primeiro foi um cartaz falso, lembro até hoje, fiz num programa de computador bem tosco. Juntei algumas bandas que curtia na época, fiz esse cartaz improvável e colei na parede do meu quarto. A ideia era colar na rua depois, mas nunca rolou. Os primeiros cartazes oficiais que criei foram de shows da minha primeira banda chamada Ajudanti di Papai Noel. Alguém tinha que fazer e a gente se revezava nessa função.

Como era a estética dos flyers e cartazes de shows em Vila Velha quando você começou com isso? Eles eram inspirados em cartazes gringos de algum rolê específico?
Os cartazes daqui eram bem característicos. Tinha alguns artistas que faziam à mão, mas sempre teve a galera que fez no computador. Com certeza rolava uma influência do que estava acontecendo em outros estados do Brasil e até mesmo uma influência gringa. Mas não tinha muito uma preocupação artística na coisa, por mais que alguns desses autores fizessem coisas muito fodas. As influências iam desde ilustrações tipo Pushead, passando por influências de quadrinhos, até imagens bizarras da internet.

O que mudou no seu jeito de produzir as coisas ao longo do tempo?
De início a técnica que eu mais utilizei foi a colagem. Muitas imagens recortadas de livros e aplicação de decalque transferível a seco para fazer as letras. Depois, como eu já estava mais empolgado com desenho, passei a fazer vários cartazes com desenho, e alguns deles flertavam com a linguagem dos quadrinhos. Acho que a mudança foi mais essa mesmo. Nos últimos cartazes que criei, por mais que apresentem colagem, o desenho sempre aparece. Nos primeiros cartazes que eu fiz não usei nada de computador, já nos mais recentes passei a usar recursos digitais, mas sem perder as características artesanais.

Qual é o universo que você mais cobriu?
Comecei fazendo cartazes apenas para shows. Depois que eu já estava mais inserido no meio das artes, fui convidado para criar cartazes de outros tipos de evento, como mostras de cinema, festivais, exposições, debates e diversas atividades culturais. Ainda assim, o que mais produzi foi cartaz para show de punk/hardcore.

Quais as festas, bandas e artistas mais recorrentes nas suas artes?
Muitos dos cartazes foram para shows das bandas em que eu toco ou toquei (Ajudanti di Papai Noel, Morto Pela Escola, Los Muertos Vivientes, Merda...), shows que eu mesmo organizei, ou algum amigo.

Você tem apreço especial por alguma arte específica, de repente pela história envolvida em sua produção?
Curto vários. Mas especialmente por volta de 2010, a galera do Velho de Câncer, de Porto Alegre, me convidou pra fazer vários cartazes na sequência. Fiz cada um de um jeito e curto todos eles por terem me possibilitado experimentar diferentes linguagens artísticas.

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Alguma coisa se perdeu ou mudou na cultura da divulgação dos flyers com as redes sociais? Qual o valor do papel como suporte na mágica desse barato?
Com certeza. Aqui no Espírito Santo, pelo menos, praticamente não se faz mais cartazes de show para a rua. Inclusive tem uma lei que proíbe a colagem de cartazes, com multa e tals. Lembro que quando comecei a fazer cartazes, sair para colar era uma aventura pela cidade que até me abriu os olhos para outras manifestações artísticas, como o graffiti, o lambe-lambe, estêncil, stickers. O papel é o suporte que materializa e multiplica nossas ideias.

Enquanto para muitos moleques a relação com o punk/DIY começou centrada na música, você parece que já chegou atraído pela estética difundida em praticamente todas as plataformas: sonoras, visuais, idealistas, midiáticas, e até comerciais, afinal você botou de pé até mesmo uma distro, né? Como você percebe isso hoje, olhando em retrospecto?
Cara, na real eu me interessava pela possibilidade de criar algo novo e poder distribuir isso, entender como funciona tudo. Já organizei show, montei distro, selo, zine, banda, e participei de várias outras ações coletivas dentro do meio independente. O hardcore pra mim foi uma escola que me incentivou a produzir e me levou para vários lugares aos quais dificilmente eu iria se não tivesse produzido nada. Abriu algumas portas que foram essenciais pra alguém como eu, que não tinha nenhum tipo de referencia artística na minha família.

Em qual das expressões você diria que se saiu melhor? Nas HQ's, capas de discos, cartazes, ilustrações, edição de revistas...
No fim das contas eu vejo isso tudo como uma coisa só. São suportes diferentes, mas sempre vão ter elementos que dialogam entre si.

Cartazista de show punk também tem seus mestres inspiradores?
Claro. Tem vários artistas fodas que fazem cartazes brutais. Quando comecei eu pirava muito nos cartazes do Mário Alencar (Curitiba). Mas é claro que existem vários gênios que nos influenciaram por aqui, como os mestres da arte punk: Winston Smith, Raymond Pettibon, Gary Panter, Gee Vaucher, Tim Kerr, Randy Biscuit Turner... Atualmente, tenho curtido muito as artes da cena punk de Nova York, caras como o Sam Ryser, a Heather Benjamin, Alexander Heir, e vários outros artistas fodas.


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