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Noisey

‘The Marshall Matters LP’: O Disco que Não Tá Nem aí pra Porra Nenhuma

Quinze anos depois de seu lançamento, o clássico do Eminem ainda é um dos mais controversos e vulgares álbuns a se esgueirar no mainstream.

por Dan Ozzi
03 Junho 2015, 12:00pm

No meu Ensino Médio, ou você era roqueiro ou era playboy.

“Roqueiro”, um termo cunhado e usado pelos playboys, abrangia qualquer pessoa que não curtisse rap, ignorando as milhares de sutilezas entre Linkin Park e Fugazi. “Você é roqueiro, broder? Você curte aquelas merdas do Eminem? Curte Marilyn Manson, cara?”.

Eu era um roqueiro por definição.

Um “playboy”, termo usado por nós, roqueiros, era qualquer adolescente cujo Honda Civic tinha vidros fumê, piso neon, um aerofólio ridiculamente grande ou qualquer outra bobagem automotiva que em pouco tempo ficaria famosa na franquia Velozes e Furiosos. Se você ligasse um Puff Daddy enquanto ia para uma sessão de bronzeamento artificial, você era um playboy. Tenha em mente que isso foi uma década antes do reality Jersey Shore ser sequer um vislumbre nos olhos de um produtor da MTV.

Por quatro anos, os dois círculos sociais raramente se cruzaram ou concordaram em algo exceto num episódio ou outro de South Park. Então, no meu último ano na escola, enquanto os playboys ouviam “Hypnotize” e os roqueiros se revoltavam contra [insira qualquer tendência popular entre os playboys aqui], o Eminem lançou o The Marshal Matters LP e, de repente, o abismo entre os dois círculos diminuiu.

Eminem era aquele artista com o qual os adolescentes pareciam se conectar anonimamente. E é óbvio que ele era. Ele representava tudo que os anos do Ensino Médio simbolizam: raiva cega, rebelião equivocada e frustração adolescente. Ele era um dedo do meio personificado. Um Dennis, O Pimentinha para maiores de 18 anos da geração da internet discada.

No dia do lançamento do disco, minha escola se transformou numa cidade fantasma. Todos os tipos de playboy e roqueiros cabularam aula para ir comprar o CD. Tendo acontecido durante o surgimento de programas de compartilhamento de música como o Napster, alguns jovens empreendedores com conexões rápidas de internet logo piratearam umas cópias para vender na escola. Todos estavam falando disso. Quando dei por mim estava tendo conversas profundas sobre música com uma galera que eu fazia de tudo para evitar desde o primeiro ano. O amor da minha cidade natal pelo Eminem era tão grande que a Rolling Stone fez uma matéria de capa sobre ele em 1999 sobre um show local onde uma fã, possivelmente uma colega de classe minha, tirava onda por ter encostado no pau dele.

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Para os playboys – crianças ricas que queriam ser rappers – ele era um herói. Um branquelo que deu um jeito de entrar numa indústria predominantemente negra. E para os roqueiros, Eminem era um cara bem de boa. Em 1999, ele fez 31 shows na Warped Tour junto com bandas como Pennywise e Blink 182, e durante cada apresentação, uns punks geniosos tentavam jogar lixo nele. Um vocalista de uma banda punk icônica que pediu para não ter seu nome revelado uma vez me disse que várias bandas da turnê fizeram uma vaquinha para contratá-lo para bater no Eminem. Mas quando os dois estavam no mesmo ambiente, ele olhou para o Eminem e pensou: “Ele é só um cara qualquer, não posso bater nele”. Em vez disso, ele pediu para tirarem uma foto deles juntos. A credibilidade do rapper foi suada, porém finalmente conquistada.

A estrada que o levou até este nível de respeito não foi fácil. Após a estreia pouco divulgada do Eminem com o álbum Infinite que despencou após seu lançamento em 1996, o rapper de Detroit adotou uma nova personalidade para si mesmo. Ele incorporou o Slim Shady, um alter-ego que teve sua estreia no seu álbum de 1999, o The Slim Shady LP.

Slim Shady era o Eminem deixando o sarcasmo e inseguranças de sua personalidade virem à tona descontroladamente por meio de uma violência gratuita com estética cartunesca. A maior parte dos temas do seu álbum eram centrados em coisas com as quais os adolescentes se identificavam – ser pobretão, trabalhar em empregos que pagam pouquíssimo, tomar porrada, tentar transar no banco de trás do seu fusquinha. Neste mundo fantasioso, qualquer pessoa que cruzasse o caminho do Slim seria jurado de uma vingança de um jeito brutalmente sádico. Em uma música, um valentão infantil chamado DeAngelo Bailey (o nome do cara na vida real) foi impiedosamente espancado com objetos retirados do armário do porteiro (e, na vida real, Bailey processou o Eminem logo em seguida). Em outra, sua filha pequena serviu de cúmplice enquanto o cadáver de sua mãe era colocado em um porta-malas de um carro e jogado no oceano (uma cena que também foi retratada na capa do disco). E no single “My Name Is”, o professor de inglês que tentou reprová-lo ficou famoso por ter suas bolas grampeadas em uma pilha de papel.

Mas o grande dom do Eminem era fazer com que a violência e a raiva fossem engraçadas. Seu humor serviu como uma ferramenta de comunicação eficaz para atrair uma nova geração de fãs de rap. Ele uniu elementos da vida real semi-autobiográficos com um cenário de um mundo imaginário vívido por meio de trocadilhos, formulação das frases e duplos sentidos que eram mais sagazes do que ele costumava levar crédito enquanto um rapper polêmico. As críticas foram em sua maior parte positivas, mas até mesmo as não tão positivas assim ao menos reconheceram sua criatividade cômica e extenso vocabulário. O crítico Nathan Rabin, na revista The AV Club, notou que apesar do Slim Shady ser “bobo e sem inspiração”, o “extremismo surreal, ultra-violento, trailer-trash/rap-pós-gângsters é, pelo menos, um ar fresco num mundo do rap que anda desesperadoramente em baixa quanto a novas ideias”. Mas nem todos os adultos estavam achando graça.

Enquanto The Slim Shady LP lançou o Eminem em novos patamares de fama e riqueza, sua mais nova celebridade veio acompanhada de uma multidão que o taxava de misógino, homofóbico e defensor da violência doméstica. Timothy White, editor-chefe da Billboard na época, reivindicou que Eminem estava “fazendo dinheiro ao explorar a miséria do mundo”. Grupos de defesa e pais preocupados saíram de suas tocas. Até a própria mãe do Eminem entrou com uma ação contra o rapper por ele ter dito no álbum que ela usava drogas, da qual ela recebeu meros 1.600 dólares, apenas 10.998.400 dólares a menos do que ela pretendia ganhar. Todo mundo queria que o Eminem calasse a boca, o que explicaria suas fotos de divulgação com uma fita adesiva sobre ela.

Há duas formas de encarar esse tipo de crítica negativa em que as pessoas querem te vilanizar como um monstro: você pode deixá-la te arrastar pelo espiral da vergonha até que você peça desculpas publicamente e vá embora com o rabinho entre as pernas, ou você pode simplesmente abraçar a sua personalidade de monstro. E o Eminem fez mais do que isso. Bem mais do que isso. Ele abraçou até não aguentar mais.

Depois de um ano sendo escorraçado pelos holofotes públicos, ele lançou The Marshall Matters LP em 2000, disco de 72 minutos que berrava um VAI SE FODER bem grande pros vários inimigos que ele fez desde o surgimento do Slim Shady. Foi a reação automática do Eminem e ainda assim era complexamente sobreposta e brilhantemente executada. As letrinhas brincalhonas que adornavam a capa do The Slim Shady LP tinham ido pro saco. Este era um novo Eminem. Um Eminem mais obscuro e mais cínico. Deixava de ser um bobão juvenil e passava a ser um adulto descontente. E se você só estava ouvindo o disco para saber o que o Eminem achava das críticas que o rodeavam, parabéns, ele tinha uma resposta para você: ele estava pouco se fodendo.

Este é o principal recado do álbum: o auto-proclamado “Sr. Tô Nem Aí” ouviu, sim, as reclamações sobre como ele estava arruinando o país – ele só não tá nem aí.

A resposta a quem o apoiava não foi muito mais calorosa do que isso. Em “The Way I Am”, a música em resposta à pressão de ter atraído fãs fanáticos da noite pro dia, você pode ouvir o Eminem fervendo nas suas rimas. “I don’t know you and no, I don’t owe you a mothafucking thing/ I’m not Mr. N’Sync, I’m not what your friends think/ I’m not Mr. Friendly, I can be a prick [Eu não te conheço e não, eu não te devo porra nenhuma/ Não sou o Sr. N’Sync, não sou o que os seus amigos acham/ Não sou o Sr. Amigável, posso ser um babaca]. Ele pode ter encontrado uma audiência de adolescentes do subúrbio moldando a personalidade a partir da sua imagem, mas ele também deixou claro que não tinha interesse em ser amigo ou um modelo para eles.

Depois de responder ao rol de críticas já existentes, ele arrumou mais um milhão de novos motivos para ser odiado – zoar celebridades que faleceram recentemente ou ficaram paralisadas, tomar Vicodin, sodomia, incêndio culposo, assassinato policial, decapitação animal, impregnação de astros do pop, dirigir bêbado, bater em mulher, zoar autistas, sexualizar o presidente, homofobia e crimes de ódio. Crimes de ódio a dar com pau. Nas palavras dele, Eminem era “um bad boy que tira sarro das pessoas que morreram em acidentes de avião e ri pra caralho desde que não aconteça com ele”.

A questão da homofobia era um para-raios de ódio pelo Eminem, e é fácil entender o porquê. Seus ataques aos gays eram descarados. Ao ouvir o álbum mesmo que superficialmente, você se depara com letras como:

“My words are like a dagger with a jagged edge
That'll stab you in the head, whether you're a fag or lez.

Or the homosex, hermaph, or a trans-a-vest.
Pants or dress, hate fags? The answer's ‘yes’.”

[Minhas palavras são com um punhal com dentes
Que vai apunhalar sua cabeça, se você é bicha ou fancha
Ou homossexual, hermafrodita ou traveco
De calças ou vestido, se eu odeio viados? A resposta é ‘sim’.]

Não é minimamente ambígua. Eminem foi confrontado com isso – e ainda é – em diversas entrevistas e ele geralmente contava a mesma história: que suas músicas são narrativas fictícias ou, no máximo, realidades extremamente exageradas. Ele muitas vezes comparava sua música com filmes de terror e mencionava que ele não tinha nenhum problema com homossexuais na vida real (um ponto que mais tarde ele tentaria provar publicamente com sua performance no Grammy com o Elton John, a qual foi protestada pelo GLAAD). Era uma armadilha pronta para engoli-lo. Se você levasse a homofobia do álbum a sério, também levaria o resto das piadinhas? Você achou que sua proeminência de bestialidade, assassinatos de celebridades e assaltos a mão armada era verdade? Em uma música, um dos cúmplices do Eminem se gaba de ter chamado dez amigos para estuprar sua própria irmã no dia do seu aniversário. Você acreditou nisso também? Eminem estava te desafiando a entrar no seu parque de diversões transtornado de onde você sairia sem saber no que você mesmo acreditava.

As pessoas gostam de olhar para relíquias ofensivas icônicas da cultura pop como The Marshall Mathers LP e dizer para si mesmos que esse tipo de coisa não aconteceria hoje – que fizemos um avanço cultural enorme na aceitação da cultura gay e na igualdade das mulheres e o Eminem seria combatido por guerreiros da justiça social e blogueiros indignados que temos aos montes atualmente. E talvez isso fosse verdade com a misoginia e zoação de gays do stand-up clássico Eddie Murphy - Sem Censura ou com o comentário social extremamente racista de Banzé no Oeste. Mas não com o Marshall Mathers.

Enquanto o The Marshall Mathers LP definitivamente possuía material politicamente incorreto o suficiente para manter os funcionários da Slate entretidos até o próximo milênio, Eminem usava uma armadura feita de um material 100% foda-se-você. Como a introdução do disco, “Public Service Annoucement”, advertia: “Slim Shady não tá nem aí pro que você pensa. Se você não curtiu, pode ir chupar o pau dele. Ao comprar este disco, você acabou de beijar sua bunda. Slim Shady tá de saco cheio das suas merdas, e ele vai te matar”.

Não fazia sentido reclamar do Eminem. Ele já fez isso por você e te deu uma resposta bem ali no disco. No primeiro verso, ele fez uma piada sobre assediar sua mãe sexualmente antes de zoar qual seria a resposta dos seus críticos a isso. “Olha, agora ele está estuprando a própria mãe, assediando uma prostituta, cheirando cocaína e nós demos a ele uma capa na Rolling Stone?”, ele colocou para fora a forma como achava que a sociedade o via. E riu deles desafiadoramente: “Isso mesmo, trouxa, e agora é tarde demais. Tenho três discos de platina e a tragédia já rolou em dois estados”. A piada era você mesmo por tê-lo tornado famoso.

Houve diversas outras ocasiões em que ele insinuou uma autoconfiança e depois riu na cara do arrependimento. “Desculpas?” O que essa palavra significa? Ela não estava no vocabulário do Eminem – não havia muito espaço entre “escroto” e “cuzão”.

E numa jogada totalmente brilhante, Eminem fez uma adição de última hora no disco antes dele ser lançado. No meio de um álbum obscuro repleto de condenação vil à cultura pop, ele acrescentou “The Real Slim Shady”, uma faixa satirizando o ranking Top 40 que também calhou de ter uma pegada otimista e atraente o suficiente para tocar nas rádios. Apesar de trazer à tona as questões de violência doméstica que circundavam o então casal-celebridade Pamela Anderson e Tommy Lee, mandar um “foda-se” pro rapper queridinho/inofensivo Will Smith e acusar a pop star Christina Aguilera de lhe ter passado uma doença venérea, ficou na quarta posição no ranking da Billboard. E simples assim, Eminem ficou rico graças ao sistema que o demonizava. Parabéns, América, você caiu que nem um patinho.

Então, teve os versos dos convidados. É engraçado relembrar o The Marshall Mathers LP depois de 15 anos, agora que os maiores astros de rap do mundo estão buscando colaborações com um Beatle de 72 anos de idade. Tirando a pequena aparição do Snoop Dogg e Dr. Dre (o produtor do disco que também foi “morto” de propósito em uma música), o Eminem evitou completamente qualquer celebridade. Em vez disso, ele foi para a rua e montou uma crew ralé de desajustados do hip-hop que eram ameaçadores demais, atrevidos demais e bizarramente sinceros para se encaixar em qualquer outro lugar. Eles eram os indesejados do gênero, mentes perturbadas que pareciam ter acabado de sair de uma prisão ou hospício, e o Eminem os colocou na linha de frente de um dos álbuns mais vendidos da década. E, para sua sorte, sua querida banda de psicopatas não decepcionou.

“Remember Me?” foi uma música executada pela equipe de rap fantasia dos seus pesadelos, contando com versos do RBX e Onyx Sticky Fingaz que combinaram termos impróprios como “retardado” e “putas lésbicas” e fizeram referências a estuprar a mãe e “foder minas sem camisinha”. Ah, e só para lembrar que ele não permitiria que seu ódio ficasse para trás em sua própria música, Eminem a encerrou com um verso sobre o tiroteio na Columbine High School, uma tragédia que não tinha nem um ano de idade quando gravou a faixa. E depois soltou um “viadinho” gratuito no fim para fechar com chave de ouro. Em outra música, Eminem passou o microfone para o seu chapa membro do Bizarre, o D12, que era relativamente desconhecido na época (e, sejamos sinceros, ainda é), e ele lançou uma mentira sobre ter comido sua pitbull enquanto estava doidão de ácido e agora precisava que ela abortasse.

Em seus álbuns seguintes, o talento inquestionável de Eminem enquanto MC permaneceu, no entanto, ele nunca mais foi capaz de capturar aquele ódio puro novamente, o qual parecia uma fonte inesgotável em The Marshall Mathers LP. Talvez ele finalmente tenha se acostumado com a fama de ser o rapper polêmico mais famoso do mundo e a reação em grande escala que vem com ele. Ou talvez ele se cansou do seu jogo contra os branquelos americanos, derramando sangue num tanque de tubarões e vendo as pessoas irem à loucura. Ou talvez seja o fato que todos nós ficarmos velhos e a ideia de um quarentão enchendo o saco de boy bands de moleques pareça tosca.

Faz 15 anos que o The Marshall Mathers LP foi lançado. Às vezes eu posto uma música dele no Facebook e fico esperando a reação da galera. O que posso concluir a partir dos meus amigos do Ensino Médio é que a a maioria deles cresceu, fez uma carreira, e alguns deles até tiveram filhos. Eu não tive. Fico imaginando o que eles acham de mim agora, os roqueiros e os playboys. Pra falar a verdade, eu tô pouco me fodendo.

Dan Ozzi é qualquer coisa que você disser. Siga-o no Twitter - @danozzi

Tradução: Stefania Cannone