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Em ‘Memoro Fantomo_Rio Preto’, o Sentidor transforma a depressão em belas e melancólicas paisagens sonoras

No segundo disco do seu projeto eletrônico, o guitarrista mineiro João Carvalho, do El Toro Fuerte, usa samples e barulhos pra tranquilizar um período difícil da sua vida.

por Lucas Panoni
13 Julho 2016, 6:00pm


Foto por Flávio Charchar.

Quem vê o guitarrista da El Toro Fuerte João Carvalho tocando com sua banda de rock triste em Belo Horizonte ou tomando uma cerveja pelos karaokês de São Paulo, jamais imagina que sua vida até pouco tempo atrás não era tão glamorosa assim. A ele se aplica o velho ditado “você vê as pingas que eu bebo, mas não vê os tombos que eu levo”. É por isso que paralelamente ao trabalho com a El Toro, ele mantém o projeto de música eletrônica experimental Sentidor que, nesta quarta (13), chega ao seu segundo disco, um álbum duplo chamado Memoro Fantomo_Rio Preto. Você pode ouvi-lo no player abaixo em primeira mão abaixo:

Memoro Fantomo_Rio Preto é um passeio sensorial por cantos obscuros dos pensamentos de João. Gravado entre o novembro de 2015 e maio de 2016, o álbum é um registro em duas partes de noites em claro provocadas por uma forte depressão. “Compor essas músicas foi a minha forma de dar sentido a um período de perigosa dessignificação na minha vida. Elas funcionam como a trilha de migalhas de pão em meio ao caos; são uma linha de acesso aos porquês”, explica João, sob o pseudônimo de Sentidor, no texto de introdução do disco.

A primeira parte, “Memoro Fantomo” — memória fantasma, em Esperanto, o idioma universal desenvolvido pelo médico polonês Ludwig Lazar Zamenhof por volta de 1887 — sugere lembranças mal resolvidas que precisam ser revisitadas e novamente tranquilizadas. “Eu costumava voltar pra casa de madrugada, sem conseguir dormir, então pegava o computador e compunha paisagens sonoras até que as memórias ficassem mais incômodas”.

“Rio Preto”, a segunda parte, tem esse nome por derivar de sua última crise depressiva, depois de uma visita à Reserva Estadual do Rio Preto, em Minas Gerais. “Durante os três dias que passei lá, visitando cachoeiras e sítios de pinturas rupestres, as memórias fantasmas se tornaram mais intensas e se transformaram num êxtase que durou quase três dias”. As faixas sem nome, apenas com numerais romanos, sugerem os cinco estágios do luto: a negação, a raiva, a barganha, a depressão e a aceitação.

Diferente de suas composições com a El Toro, em Sentidor João não se expressa por meio de palavras. Todo o projeto é instrumental e transcende linguagens. Além das faixas, o álbum conta com registros fotográficos ricos em saturação e dupla exposição, o que sugere lembranças turvas de momentos importantes de sua vida. Baixando o disco pelo Bandcamp, você recebe junto as fotos do projeto.

Com Memoro Fantomo_Rio Preto, Sentidor entra para o rol de artistas da Geração Perdida de Minas Gerais, grupo que já conta com trabalhos significativos de Fernando Motta e Jonathan Tadeu. Aliás, Sentidor se apresenta com os dois em São Paulo nesta semana: nesta quarta (13) com Fernando Motta e Jonathan Tadeu em São Bernardo do Campo e no sábado, dia 16, só com o Jonathan Tadeu, na Vila Mariana.

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