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Music by VICE

Uma História Oral de D’Angelo

D’Angelo é um dos grandes enigmas da música moderna. Seus discos transcenderam as noções comuns de soul, hip-hop e pop, alçando uma esperançosa posição para a música urbana.

por Dan Buyanovsky
27 Novembro 2014, 12:51pm


As ilustrações deste texto são de autoria de Anna Khachiyan

Em uma tarde de maio, D’Angelo, sentado calmamente com um cigarro pendurado na boca, olha bem fundo nos olhos de Questlove, em tom de desaprovação.

Momentos antes, Quest, um colaborador frequente do artista, havia subido ao palco durante uma mesa-redonda patrocinada pela Redbull Music Academy apresentada pelo escritor Nelson George, mencionando o terceiro disco de D’Angelo, em produção há 14 anos. George e D desviaram do assunto e logo encerraram o que até então havia sido um papo bastante positivo, sem dar quaisquer novas informações sobre aquilo que se tornou o Chinese Democracy de nossos tempos. Para os incontáveis e pacientes fãs de D’Angelo, isso não foi algo exatamente novo.

Nascido Michael Eugene Archer, D’Angelo é um dos grandes enigmas da música moderna. Seus dois discos, o jovial Brown Sugar de 1995 e o virtuoso Voodoo, de 2000, transcenderam as noções comuns do que é soul, hip-hop e pop, alçando D à posição de símbolo de esperança para a música urbana (o crítico Roberto Christgau referiu-se a ele como um “Jesus do R&B”). Logo, porém, ele se viu às voltas contra as pressões da fama e notoriedade.

Após o lançamento do clipe de “Untitled (How Does it Feel)”, que fez de D’Angelo um sex symbol, e a tumultuosa Voodoo Tour que seguiu, o artista condenou-se a um período sabático de uma década e meia cheia de problemas legais, uma dedicação obsessiva ao seu ainda-não-lançado terceiro disco, e raras aparições públicas.

Em uma tentativa de jogar alguma luz tanto sobre D’Angelo, o artista, quanto sobre Michael Archer, o indivíduo, embarquei em uma jornada para conversar com seus amigos, colaboradores, e críticos, sobre um criador que fazia dava sentido ao mundo pré-2000 ao canalizar o feeling do funk e seus sentimentos em canções atemporais, mesmo nunca tendo aprendido muito bem como lidar consigo mesmo.

Para quem vê de fora, D pode ser encarado como uma pessoa preguiçosa e não confiável, com facilitadores como Questlove que aparecem a cada dois ou três anos com falsas promessas de um novo disco iminente. Mas de acordo com todos que o conhecem, é exatamente o contrário. Há mais de dez anos D’Angelo está preso em um inferno pessoal, dando duro para encontrar os sonos que só ele poderia ouvir e entregar aos fãs um álbum da melhor qualidade possível.

Os Envolvidos

Robert Christgau: Autoproclamado “Decano dos Críticos de Rock Norte-Americanos”, que serviu como editor de música por três décadas para o The Village Voice, e desde lá já teve textos publicados em veículos como Esquire, Rolling Stone e Newsday, dentre outros.

Jocelyn Cooper: Ex-executiva do ramo musical que assinou o primeiro contrato de D’Angelo como compositor e produtor. Atualmente, parceira do Afropunk Festival.

Tina Farris: Tour manager do The Roots e tour manager assistente de D'Angelo.

Lee Foster: Sócio/gerente geral do Electric Lady Studios, onde D’Angelo gravou Voodoo e seu terceiro disco, ainda não lançado.

Gary Harris: Ex-executivo do ramo musical, cuja participação foi essencial para o lançamento do disco de estreia de D’Angelo através da EMI Music.

Mark Jenkins: Preparador físico que trabalhou junto a D’Angelo no final dos anos 90.

Alan Leeds: Tour manager de D'Angelo e ex-tour manager de Prince.

Kevin Liles: Veterano da indústria musical que assinou um contrato de gerenciamento com D’Angelo por meio de sua empresa, a KWL Management.

DJ Premier: Lendário produtor de hip hop e uma das metades do Gang Starr. Produziu “Devil’s Pie”, no álbum Voodoo, de D’Angelo.

Questlove: Amigo próximo de D’Angelo e colaborador frequente em Voodoo e no futuro terceiro disco. Também é baterista do The Roots.

Redman: Rapper veterano. Participa de “Left & Right”, faixa de Voodoo, como um dos dois vocalistas convidados do disco.

DESCOBERTA E ESTREIA

Em 1993, um jovem Michael “D’Angelo” Archer, com 18 anos, então integrante do grupo de hip-hop IGU, foi descoberto por Jocelyn Cooper, então executiva de artistas e repertório da Midnight Music, que contratou D como compositor-produtor. No decorrer de um ano, ele descolou um trabalho compondo e produzindo “U Will Know” para um grupo de R&B chamado Black Men United e logo estabeleceu-se como uma espécie de menino-prodígio dos bastidores. Enquanto isso, o músico tentava timidamente engrenar uma carreira solo, experimentando com ideias para músicas em seu quarto na Virgínia e gravando rascunhos com uma mesa de quatro canais.

Estas gravações formariam a espinha dorsal de seu disco de estreia, Brown Sugar, um esforço versátil que mostrava uma nova abordagem do R&B. Abespinhado de referências à maconha – que lhe renderiam muito carinho parte da comunidade hip hop – baladas soul galanteadoras, e uma sarcástica música lenta sobre o assassinato duplo de sua namorada e um amigo que estava comendo ela, Brown Sugar nos apresentava um talento inegável. D seguiria adiante com uma turnê do disco, por mais que ainda estivesse desenvolvendo-se como performer, apresentando-se quase sempre atrás de um piano.

Jocelyn Cooper: [D'Angelo] foi o primeiro compositor que contratei, em 1993. Ele fazia parte de um grupo chamado IGU, e os integrantes desse grupo vieram até meu escritório e tocaram algumas músicas, que eu adorei. Perguntei a eles quem era o produtor e algumas semanas depois eles voltaram com o [D'Angelo]. Ele era único. Sentou ali no escritório e tocou piano pra mim, algumas baladas. Foi incrível e tinha uma pegada – era hip hop, era funk, era soul. Tive o privilégio de ir até a Virgínia e visitá-lo em sua casa e no quarto onde criava suas músicas, um pequeno closet onde ele havia produzido estes sons e samples incríveis em uma EPS-16+. Digo, ele não tinha dinheiro nenhum. Logo que D’Angelo começou, lhe conseguimos muitos trabalhos com filmes e televisão, e ele produziu discos antes de lançar o seu. Ele já tinha lançado muitas coisas antes de Brown Sugar.

Kevin Liles: Ouvir seus arranjos vocais e a forma como ele produzia e compunha, tudo soava novo. Ele era um músico completo, e só queria fazer grandes músicas. E quando você encontra arte, você tem vontade de colocá-la no Smithsonian, não quer que fique presa em um lugar e a um certo tipo de sonoridade, você quer que o mundo conheça aquilo. Foi isso que me atraiu nele.

Questlove: Eu havia perdido minha fé no R&B moderno. Faltava musicalidade pra mim. Desde Prince nenhum cantor negro havia me impressionando como D’Angelo. Existiam muitos cantores excelentes, mas a música feita por eles era mundana. De suas composições no teclado a suas batidas eletrônicas meio capengas, quase humanas, senti que havia encontrado ali um semelhante e quis fazer parte daquilo.

DJ Premier: Conheci D’Angelo porque éramos do mesmo selo. Eu e Guru sempre dávamos uma sacada no que estava saindo de novo. Quando surgiram os caras do Arrested Development, fomos os primeiros a ouvi-los. O mesmo rolou com o D’Angelo, foi tipo “ele consegue tocar tudo e cantar e parece ser bem de rua com essas tranças, e isso e aquilo, e tem uma puta voz emotiva”. Nos mostraram a demo dele e “Brown Sugar”, aí percebi que ele fazia referência a fumar toras de maconha. Naquela época, todos éramos grandes entusiastas da erva.

Redman: Nunca tinha ouvido nada como “Brown Sugar” minha vida inteira. Falando de erva e tal. Achei corajoso fazer aquilo no meio do R&B, e aquela porra era incrível. Ele mixou como se fosse uma mulher. Foi genial. Virei fã, só por causa da relação com a maconha que ele tinha. Daí vinha a música em cima disso, quando saiu o disco e ouvi o resto das faixas, em termos de letras e como artistas, o cara é tão foda que chega a ser ridículo. Firmado no seu som, especialista nos vocais, a música complementando tudo, ele complementando a música, a banda, a vibe, tudo era incrível.

Robert Christgau: Eu tinha minhas dúvidas. Achava que ele era bom. Achava que era melhor que o Maxwell, que ouvia as mesmas coisas que ele, mas não de forma tão alta ou empolgada.

Alan Leeds: A primeira vez que o vi [D'Angelo] foi em um show que estava fazendo com o Morris Day & the Time em Houston. Tive a oportunidade de assistir ao D e fiquei relativamente impressionado, mas qualquer um que visse seus primeiros shows... Ele não estava exatamente fazendo uma turnê, ele tinha essa bandinha bem boa que o acompanhava. Ele só meio que ficava ali no piano, não era nada muito animado. Eu meio que caí fora com a impressão de que ele era um Donny Hathaway moderno, porque não vi muito além disso.

Cooper: Ele tocava desde os três anos de idade. Sabia que isso daria em algo.

VOODOO

Após Brown Sugar e sua turnê subsequente, D’Angelo foi bem recebido por uma comunidade de músicos de mentalidade similar, músicos estes responsáveis por uma espécie de renascença criativa no hip-hop e R&B. Dentre eles, destacou-se Questlove, do The Roots, que serviria de diretor espiritual do segundo disco de D, Voodoo. Gravado inteiramente no Electric Lady Studios, em Nova York, Voodoo era a peça criativa central de um movimento coletivo que também deu origem a Like Water For Chocolate, de Common, Mama’s Gun, de Erykah Badu, e Things Fall Apart, do The Roots. Marcado por instrumentos mais soltos, tocados por uma equipe de virtuosos, composições que seguiam fluxos de consciência, e texturas de fundo distribuídas obsessivamente em camadas, Voodoo era uma declaração única de um artista que estava com o pé no acelerador. A ajuda recebida em nada atrapalhou, já que D e Quest usaram uma série de músicos de estúdio renomados para ajudar a dar vida para esta visão. Ao longo de quatro anos, os produtores J Dilla, Q-Tip, e DJ Premier, os rappers Method Man e Redman, o baixista Pino Palladino, o guitarrisat Mike Campbell, o trompetista Roy Hargrove, e muitos outros contribuíram para o disco, que ganhou o Grammy de 2001 de Melhor Álbum de R&B, também sendo coroado como disco de platina.

Cooper: [A transição entre Brown Sugar e Voodoo] se deu mesmo entre o engenheiro de som e Questlove, que entrou na vida de D mais ou menos naquela época. Podendo experimentar com Quest e com grana para ficar no estúdio e fazer seu trabalho, ele evoluiu como performer, artista e compositor.

Questlove: É importante notar que nunca dissemos “esta é uma faixa oficial”. Na verdade, me corrijo: “Send It On” foi a única faixa oficial feita. Todo o resto foi composto em horas de jams e pesquisas. Estas jams duravam umas cinco horas. O engenheiro de som, Russ Elevado, gravava todos os trechos com os quais nos empolgávamos em uma fita DAT. Depois das jams, parávamos pra ouvir aquilo. Às vezes copiávamos e colávamos (“The Root”, “Greatdayndamornin”), mas na maioria das vezes regrávamos tudo até chegar à perfeição ("Chicken Grease","The Line").

Lee Foster: Parecia-me que meus colegas eram D’Angelo e Badu e The Roots. Eles estavam em cima [do Electric Lady] há alguns anos àquela altura. Lembro de ser algo bem comunal. Você via o Questlove voltando para uma sessão do D’Angelo, e o D’Angelo subia para uma sessão da Badu, aí chegava o Nas. O Mos Def sempre aparecia, o Common também. Eles eram um grupo de pessoas que tinham decidido que com certeza este era o mecanismo que os ajudaria a criar e gravar e registrar o que estavam fazendo. E aí eles caíram em cima da coisa.

DJ Premier: Electric Lady, é o estúdio do Jimi Hendrix. Você entra lá e o D’Angelo já deixou o clima no jeito. A capa do disco dos Isley Brothers pendurada na parede. O encarte de 1999 de Prince, junto de sua banda, The Revolution. E também discos do Jimi Hendrix e do Grand Central Station e também Sly And The Family Stone. Todas essas bandas foda. E ele disse, “eu deixo isso tudo por perto pra me inspirar e fazer música nessa pegada”.

Questlove: Eu não sabia que estávamos fazendo história, mas tinha mesmo alguma coisa pegando ali no Electric Lady. Logo depois, todo mundo queria gravar ali, esperando pegar um pouco daquela inspiração.

Foster: Haviam momentos em [que D’Angelo] mandava trancar todo o prédio [do Electric Lady]. Ele tomava três quartos só pra ele, e na parte de cima parecia uma creche, com brinquedos pra todo lado. Havia todo e qualquer instrumento musical que você possa imaginar, bem ali no chão. Ele podia, literalmente, sair e andando e pegando as coisas. E eu pensava “é normal isso?”.

Redman: Eles ligaram pro nosso agente [para falar sobre trabalhar com D em “Left & Right”], mas quando ele nos avisou, não recebemos aquilo como uma pergunta. Ele nem precisava perguntar da gente. Foi tipo “liga só, o D’Angelo falou. É isso aí”. Podia ter sido “o D’Angelo pediu pra vocês carregarem as malas dele na próxima turnê” e eu teria topado na hora.

DJ Premier: A primeira música que ouvi ele tocar do Voodoo foi “One Mo’gin” e eu falei “mano, isso é funkeado pra cacete”. Ele sabe como botar o funk na parada. Não é algo que todos conseguem. É como George Clinton disse, “o funk não se só se mexe, como consegue remexer”. Eu sou daquele planeta Era Uma Vez um Tempo Chamado Agora... E nem todo mundo vem dali. Acreditem – D’Angelo não é terráqueo

Questlove: Na época que Voodoo foi lançado e vi aquela resenha horrível de três estrelas na Rolling Stone escrita por James Hunter, tive que aceitar o fato de que nem todos entenderiam sua visão. Tratando-se de um feito artístico, senti que tudo foi justificado quando começamos a mostrar o disco pras pessoas e vimos suas reações iniciais. Devo mencionar que o disco pareceu complicado pra muita gente. Daí percebi, de repente, que há uma diferença entre aqueles que usam a música para fins artísticos e outros que usam como pano de fundo em geral.

Christgau: Voodoo foi um disco que as duas mulheres na minha casa – esposa e filha – amaram, especialmente a forma como o baixo foi usado no disco, e elas deixaram isso bem claro.

DO SOUL AO SEXO DURANTE A VOODOO TOUR

Para acompanhar seu renascimento criativo em torno do Voodoo, D’Angelo também passou por uma transformação física, aliando-se ao preparador físico Mark Jenkis para, literalmente, entrar em forma para lutar. O clipe de “Untitled (How Does It Feel)” funcionou, de forma eficaz, como uma reapresentação de D para o público, um vocalista de soul que já havia estado um pouco acima do peso e que se escondia atrás de um piano durante os shows, aparecia no clipe sem camisa e inacreditavelmente sarado, a câmera rodeando seu corpo quase nu como um tubarão segue sua presa. Na época da turnê de Voodoo em março de 2000, muitas mulheres iam aos shows para ver de perto D’Angelo, o sex symbol, gritando para que ele tirasse sua camisa momentos depois de ter começado sua apresentação.

Mark Jenkins: Eu estava cuidando do assessor do D na época, que era um cara bem magro, e consegui fazer com que ele ganhasse um pouco de massa a ponto de D perceber e falar “você pode me treinar?”. A seu favor, ele me deixou no controle, então o que eu falava pra ele comer, ele comia, e o que eu falava pra ele beber, ele bebia. Trabalhamos duro mesmo, era um treino muito intenso. E seu corpo começou a mudar.

Leeds: Recebi uma ligação logo que o Voodoo estava sendo finalizado, em que me perguntaram se poderia ser o tour manager para a turnê do disco. O que vi no primeiro ensaio foi de cair o queixo. Assim que o vi [D’Angelo] ensaiar toda a performance – sair de trás dos teclados, ficar ali na frente do palco, fiquei estupefato porque não achei que ele faria isso. Era algo que ia além da presença de palco, ao ponto de você começar em Prince e James Brown e toda essa linhagem. Eu estava chocado mesmo. Ninguém tinha visto esse lado dele.

Jenkins: Me passaram datas específicas para filmarmos [o clipe de “Untitled (How Does It Feel)”]. Estávamos no escritório falando sobre o vídeo, e eu falei “Bicho, do jeito que o cara tá, podemos filmar só o corpo dele”. [risos] Eu falei de zoeira, mas o que estava dizendo pra eles era “ele está ficando bem, cara. Acho se você só filmar o corpo dele, o bagulho vai ser louco e as pessoas vão pirar”.

Leeds: O importante é que ele tinha deixado de ser um cara que ficava atrás do piano para se tornar um performer fenomenal. Mas pra todas as minas que viram o clipe, ele tinha deixado de ser um gordinho escondido atrás de um piano e se transformado em um puta sex symbol, o que a longo prazo, quase foi um retrocesso pra gente. Com certeza atraiu um público que talvez não estivesse ali, não há duvidas disso. E se você se importava com a bilheteria, isso era ótimo, mas ali no palco não era tão bacana assim. porque era quase como se ele estivesse meio relutante.

Redman: Em seu primeiro disco, ele não era um sex-symbol. Era um negão boa-praça com tranças no cabelo.

Cooper: Ele foi hiperssexualizado naquele clipe, e por mais que tenha ficado muito bonito, isso meio que depõe contra a genialidade do cara pra muita gente.

Leeds: Virou meio que um Frankenstein que chegou a atrapalhar a música. Sacamos de cara no primeiro show. A turnê começou no House of Blues em Los Angeles. Acho que não tinham rolado nem quinze minutos de apresentação antes das garotas começarem a gritar “Tira, tira, tira, tira!”

Tina Farris: Eu comecei aquele negócio todo do “Tira!”. Eu comecei. Eu estava no House of Blues, em Los Angeles. Tipo, me desculpa, sei que você é uma estrela do R&B, é esse o lance. Você está ali sendo seduzida por um cantor, um crooner. É isso que ele é. Ele estava lá sendo sexy, e eu era jovem, e com um monte de jovens ao meu redor que gastaram grana naqueles ingressos. Não tenho como pedir desculpas.

Leeds: Quando aquilo começou, dava pra ver no rosto dele, era quase um pânico. E ele desceu do palco muito, muito desiludido, tipo “Bicho, esse lance de sex symbol é bacana, fizemos o vídeo, tá ligado, fico grato que as garotas me curtam, mas não tô aqui pra isso. Não é o Chippendale’s, eu sou um músico. Quero que as pessoas saiam falando da minha música. O resto deveria ficar em segundo plano”.

Questlove: Nenhum de nós estava preparado pro clima de Circus Maximus dos shows. Havia noites em que faziam uma “contagem de 86” – em outras palavras, contávamos o número de vezes que alguém era expulso. Às vezes, o número chegava na casa das centenas. As mulheres sempre subiam no palco para tentar agarrar o cara e brigavam em busca de lugares melhores. Celebridades também. Não vou citar nomes, mas uma de minhas cantoras favoritas de R&B ameaçou jogar outra mulher para fora da sacada do House of Blues. Por mais que de primeira isso soe como lisonjeiro, essa experiência devorou a alma do cara. Ele sentia que as pessoas não estavam vendo o todo.

Farris: Eu não percebi [as frustrações de D’Angelo]. Eu o ouvi falando sobre, mas achei que isso passaria.

Jenkins: O que sempre digo pra ele é o seguinte: “acho que falei como seu preparador, porque por mais que tenha te deixado em forma, não te ensinei a como integrar isso ao seu estilo de vida”. Ele ter se revoltado e deixado de cuidar do corpo uma época, acho que aquilo [ser visto como um sex symbol] virou um catalisador pra todo o resto. Imagina só, você é um cara introvertido que toca piano, e a transformação toda levou menos de 90 dias, então em dois ou três meses tem gente te pedindo pra tirar a roupa, é um puta choque. Não acho que ele estava pronto pr’aquilo.

JESUS DO R&B

Em Nova York, durante a Voodoo Tour, D’Angelo e sua banda tomaram de assalto o Radio City Music Hall com um show que ajudou-o a fazer a transição de talento em ascensão com potencial ilimitado a superstar de pleno direito. Robert Christgau escreveu sobre o show para o Village Voice, se referindo descaradamente a D’Angelo como o “Jesus do R&B”.

Christgau: Quase caio pra trás já no começo. O que rola num bom show é... Tem essa química que rola. Feromônios. Eu acredito em feromônios. Acredito em vibrações. Não sou místico nem nada, mas acredito que essas coisas acontecem, e tenho certeza que rolaram naquele show.

Redman: Eu tava bem chapado naquela noite, a única coisa que consigo me lembrar é que havia muita empolgação no ar. A noite toda foi simplesmente grandiosa.

Cooper: Foi incrível, porque ele estava mesmo vivendo seus sonhos. Ao final do show, todos os músicos estavam no palco, então um a um eles começaram a descer e deixaram-no lá, sozinho, ao piano, tocando. Eu estava chorando histericamente, porque tudo que ele havia dito querer em um show e em sua vida e carreira, aconteceu naquele momento.

Liles: Vê-lo tocar o Voodoo, montar uma banda com os melhores instrumentistas do mundo, foi um momento especial em nossa cultura.

Christgau: Em qualquer turnê, há noites boas, talvez algumas noites ruins, e de vez em quando você tem sorte, alguém está na pegada e você está lá e vai lembrar daquilo pro resto da sua vida, que aliás eu lembro. Minha filha, que já esteve em muitos shows comigo, viu os Rolling Stones ao meu lado e os B-52s aos quatro anos de idade, e ela diz que aquele foi o melhor show da vida dela. Ela lembra até hoje.

Leeds: [A resenha de Christgau] significava que estávamos conseguindo passar a mensagem adiante mesmo com as garotas que estavam ali só pelo lado Chippendale’s da parada. Aquilo nos dizia que o nível de show que ele e a banda estavam dando não comprometia o lado sex symbol da coisa, a ponto de alguém como Christgau não se distrair com aquilo. A única coisa que era afetada era sua mentalidade.

DEZ OBSCUROS E SILENCIOSOS ANOS

No rastro da Voodoo Tour, D’Angelo praticamente sumiu do olhar público, enfurnando-se em estúdio para começar o trabalho em seu terceiro disco solo. Com a relutante identidade de sex symbol engolindo-o, ele logo travou uma batalha com a imagem que tinha de si mesmo e logo afundou num fosso de autodestruição. Em 2002, D’Angelo foi fichado por resistir à prisão após policiais terem tentando lhe dar uma advertência por dirigir perigosamente. Três anos depois, sem nenhuma atualização definitiva sobre um possível futuro disco, D foi preso acusado de dirigir alcoolizado, possessão de maconha, e possessão de substância controlada (cocaína). Oito meses depois, ele se feriu gravemente em um acidente em que seu Hummer saiu da estrada e bateu em uma cerca, antes de capotar. D foi levado até o hospital mais próximo por via aérea, e logo após, entrou em três programas de reabilitação diferentes. Cinco anos depois, ainda sem sinais de um novo disco ou intenções de lançar um novo disco, D’Angelo foi preso na região do West Village, em Nova York, após solicitar serviços de uma policial disfarçada de prostituta.

Foster: Acho que durante alguns anos, talvez, não que queira falar isso por falar, mas acho que talvez as pessoas próximas dele não estivessem apoiando-o como deveriam.

Leeds: Ao final da Voodoo Tour, D estava mesmo falando sobre tentar entrar em estúdio e gravar coisas novas. Porque ele já estava de saco cheio. Era tipo “estive lá, fiz isso”.

Foster: Eu recebia telefonemas, às vezes diretamente do D’Angelo, em que ele dizia, “Lee, eu tenho que voltar lá, cara. Tem que ser no Electric Lady. Vai rolar lá”. E também em um monte de noites ele dizia “Tira tudo do chão, preciso ficar aqui sozinho”. Parecia que ele estava ali tentando entalhar algo no gelo.

Liles: É sempre difícil para os artistas se encontrarem. É sempre complicado colocar-se em primeiro plano, quando você está acostumado a colocar seus fãs e música na frente. A redescoberta de si leva um tempo, especialmente quando você não está só se redescobrindo, mas ainda se vê às voltas com as expectativas de terceiros.

Foster: D'Angelo, para quase todos nós, é meio que um mistério. Obviamente trata-se de um savant, uma pessoa brilhante, todas essas coisas incríveis que se pode falar de um artista incrível como ele. E muitas vezes, historicamente, pessoas assim acabam se atrapalhando.

Jenkins: Mantivemos contato o tempo todo. Ligo pra ele de tempos em tempos pra saber se ele tá bem, e digo “quando você estiver pronto, vamos tocar o barco. Temos o mundo pra conquistar”. Eu tentava deixar claro pra ele que eu estava ali sem pressionar muito.

Gary Harris: Ele entrou em contato comigo em 2005 a respeito da possibilidade de agenciá-lo e ajuda-lo a entrar em determinado estágio da reabilitação... Ele estava com problemas. Eu conhecia, adorava sua música, conhecia sua família. Não parecia haver mais ninguém na época interessado em ajuda-lo. Nunca deixei de acreditar em seu talento e que ele iria esforçar-se para entrar na linha, algo com que o poderia ajudar numa boa.

Jenkins: [Tem sido difícil], enquanto fã. Difícil enquanto amigo. É difícil de um milhão de formas.

Farris: Ah sim [tive algumas frustrações], tipo, qual é cara? Se você vai ser o próximo Marvin Gaye, tenho que ouvir as paradas. Eu quero ouvir as paradas. Eu sinto falta das suas paradas.

UMA VOLTA TEMPORÁRIA


"I Found My Smile Again” foi a última faixa de D’Angelo, lançada em 2008.

Em 2011, D’Angelo calmamente ressurgiu de seu período sabático com o anúncio de uma turnê europeia com 11 shows que esgotou em um dia. No ano seguinte, ele viajou ao lado de Mary J. Blige em sua Liberation Tour, e tocou em grandes festivais como o Bonnaroo e o Made In America.

Leeds: Recebi uma ligação do D e ele disse “Acho que finalmente estou pronto pra fazer uns shows... Quero fazer um lance discreto, pra poder ir acostumando uns caras novos da banda, experimentar umas músicas novas e me acostumar a tocar guitarra o palco”, que era mesmo uma questão de confiança. Estávamos determinados a fazer shows em locais pequenos e manter tudo bem intimista, mas pra que compensasse financeiramente, teríamos que tocar em uns festivais.

Jenkins: Quase conseguimos quando Ammy [Wallace, da GQ] estava entrevistando-o. Ele fez aquele ensaio pra GQ e dava pra ver que o cara tava quase de volta. Bem mais próximo de como estava naquele clipe. Nosso objetivo sempre foi voltar para onde havíamos começado.

Farris: Ao esperar alguém voltar por 12 anos, você tem sua própria empolgação com a coisa. Enquanto ele passava por aquele período sabático, pudemos ficar imaginando como seria: “O que vai acontecer? Olha essa galera toda que apareceu enquanto ele esteve sumido. Quando o D voltar, vai mandar esses caras pro caralho”.

Cooper: Ele compôs discos que tiveram um impacto na vida das pessoas, e quando você cria discos inteiros com esse efeito, as pessoas não te esquecem. Há pouquíssimos artistas hoje em dia que fazem isso, e ele é um deles. O lance dele é a arte mesmo.

Leeds: Ele toca pra si mesmo antes de tocar pro público. Isso não significa que ele não ligue pro público – ele liga e muito – mas se ele não está curtindo aquilo e se expressando através da música como quer, então ele não vai tocar. Você tem entender que estamos falando de alguém que poderia estar inacreditavelmente rico agora, ter seguido uma fórmula, fazer outro disco em um ano e meio e fazer shows em estádios e outro clipe sensual, ter mantido o peso e seguido adiante. E seja lá qual for o motivo, ele foi e falou “é, beleza, isso é legal, mas não é o que eu curto. Não tenho pressa de ser assim. Só quero tocar o que me empolga e quando for hora de fazer uma turnê, farei. Não vou fazer isso por conta de uma fórmula ou o que a indústria diz ser apropriado”.

O INDEFINÍVEL TERCEIRO DISCO

Por volta da época em que D’Angelo ressurgiu, em 2011, seu frequente parceiro e produtor Questlove disse à Pitchfork que o terceiro disco do cantor – provisoriamente intitulado de James River na época – estava, finalmente, “97% pronto”. Quest seguiu falando que o disco estava “99% pronto” em 2013. Em 2014, Kevin Liles, um veterano da indústria musical e um dos mais recentes integrantes da equipe de D’Angelo, disse à Billboard que “esse ano haverá um disco”.

Foster: Boa parte dos elementos básicos foi feito rapidamente, lá por 2003 ou 2004, e de lá pra cá foram feitos muitos ajustes e experimentos todos esses anos.

Cooper: A única coisa que o impede de lançar o disco é ele mesmo. Queria que D parasse de mexer nele.

Leeds: Quase não existe uma forma lógica de explicar o acontecido. Ele provavelmente compôs e gravou faixas o bastante para cinco discos. E a única resposta que posso te dar que é honesta é que ele ainda não terminou o disco que que quer seja. Claro que o elefante na sala é que quanto mais tempo passar, mais pressão haverá para que o disco seja a obra-prima que as pessoas esperam que seja.

Liles: Os rumores são loucos. Provavelmente tem uns 40 sons diferentes gravados. Nos últimos dois anos, provavelmente mexemos em 16 desses. O que teremos é um trabalho que vai resumir os últimos 10 anos de D’Angelo... As expectativas vêm de diversas formas e de diversas pessoas. Acho que D’Angelo quer dar a sua perspectiva. Não acho que ele toque para estas expectativas, ele toca em busca de emoção, e é isso que você ouvirá neste disco.

Jenkins: Ouvi um pouco do disco, e o que ouvi é ótimo. Ele evoluiu, mas deixou o suficiente para que as pessoas consigam identificar o que gostavam nos dois discos anteriores.

Redman: Conheço D como profissional e sei que ele vai levar esse disco adiante. Vou ligar pr’aquele filho da puta e falar na cara dele “Aí mano, tô com você em qualquer coisa que você precisar, de um verso, um refrão, um improviso” – sei que vai ser foda.

Liles: Posso dizer, sinceramente, que enquanto indivíduo, ele tem os pés no chão. Espiritualmente, ele encontrou Deus em si. E enquanto músico, seus dedos e sua voz estão criando sons e arranjos que você não encontra em canto nenhum da internet ou rádio hoje em dia.

Leeds: Com certeza é o tipo de disco que assim que você ouvir, vai dizer “isso é D’Angelo porque não teria como ser outra pessoa”.

Christgau: Eu acreditarei que [o terceiro álbum de D’Angelo] é um bom disco quando chegar nas minhas mãos e eu ouvi-lo. Mas sou um cético. Não acho que ele tenha o perfil de gênio. Acho que ele tem o perfil de um artista nada confiável. Posso te falar do que tenho certeza que irá acontecer – ninguém saberá o que fazer com o disco quando escreverem sobre ele. Vão falar muita merda sobre ele. Tenho certeza. O disco muito esperado nunca ganha resenhas espertas. É preciso tempo para absorvê-lo.

Redman: As pessoas dirão que ele está de volta primeiro por respeito, porque ele é um puta artista: “ei, o D’Angelo voltou”. Daí quando eles ouvirem, vai mudar pra “ei, o D’Angelo voltou”. E aí, se ele estiver em forma? Você ouvirá “ei, o D’Angelo voltou! Aquele filho da puta!” É isso que ele quer. É essa porra que ele quer.

Harris: D'Angelo, o músico, é excepcional. D’Angelo, o homem, não permite que o músico mostre sua arte pro mundo com frequência.

Leeds: Todo mundo é diferente, e todo mundo tem diferentes motivações pra fazer discos. E seja lá qual for o motivo, pressões financeiras ou pressões para subir no palco e tocar algo de novo não foram o bastante para que D lançasse o disco. Esse é o artista nele que é tão difícil para os outros entenderem, porque vai contra tudo que esse negócio mercenário se transformou.

DJ Premier: Você tem que entender que quando você solta sua música no mundo, você não acumula energia, você a libera no mundo. E quando isso acontece, é uma ligação emocional que não dá pra explicar a não ser que você tenha criado aquela música e aquela energia. Algumas pessoas dizem “ah, deixa eu lançar meu disco”. Mas aí tem pessoas como o D, que precisam deixar tudo certo tintim por tintim. E se isso demorar dez anos, então vai demorar dez anos.

Leeds: A ironia é que depois de 14 anos, levando em conta como este disco soa, talvez esta seja a época certa pra ele. Se eu tivesse lançado o mesmo disco que ele tinha oito anos atrás? Teria confundido todo mundo. Talvez as coisas aconteçam como devam acontecer.

Farris: Não importa quanto tempo eu tenha que esperar ou quão frustrado fique com ele, tudo que ele tem que fazer é abrir a boca e cantar, e me apaixonarei de novo.

Questlove: Na minha opinião, o disco ainda está 99.44% pronto. Falta só uma palavra, e essa palavra é D’Angelo. Até onde sei, não é preciso mais nada a ser composto. Sem versos a serem reescritos. Isso acontece com muitos de nossos grandes. A beleza do isolamento – de ser seu próprio criador – é não ser influenciado pelo o que o mundo ofereceu. O lado ruim do isolamento é que você entra na sua cabeça e muitas vezes entra em dúvida e questiona seu talento. Eu ouvi esse disco. Ajudei a criar esse disco. É um salto em relação à Voodoo. Tem que ser. Está sendo feito há 14 anos e ainda parece ter sido lançado amanhã. É foda ser tão atemporal assim.

Isso é tudo que posso dizer. Está pronto. É brilhante. O D’Angelo só não sabe disso ainda. E não sei se sou eu quem devo fazê-lo perceber que está pronto.

Dan Buyanovsky é um jornalista residente em Nova York. Siga-o no Twitter.

Anna Khachiyan é uma ilustradora residente em Nova York. Siga-a no Twitter.