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A extrema-direita está usando a guerra na Ucrânia como base de treinamento

Agora esses combatentes estão voltando pra Europa.

por Tim Hume; Traduzido por Marina Schnoor
02 Agosto 2019, 10:00am

Depois de cinco anos, Mikael Skillt ainda não sabe o que exatamente o fez largar seu trabalho de pedreiro e a namorada para lutar na guerra civil da Ucrânia.

“Já analisei muito isso, e quanto mais penso, menos entendo por que vim pra cá”, o homem de 43 anos disse a VICE News.

Mas uma parte inegável da atração era os ultranacionalistas ucranianos, muitos deles com visões neonazistas e supremacistas brancas não muito disfarçadas, e eles têm sido uma força motora da revolução. Skillt, na época um notório neonazista sueco com uma história de 20 anos na cena da extrema-direita, se sentiu obrigado a se juntar à luta deles.

“Todo cara que busca aventura sonha com isso, com criar a história”, ele disse.

Skillt perdeu a revolução, chegando em Kiev alguns dias depois da queda do presidente Viktor Yanukovych. Em vez disso, ele encontrou uma guerra. Um movimento separatista apoiado pelo Kremlin logo varreu Donbass, a região do sudeste da Ucrânia que faz fronteira com a Rússia. Skillt, que serviu por cinco anos na Guarda Nacional Sueca, se alistou para lutar com o Batalhão Azov, uma milícia recém-formada de extrema-direita com laços neonazistas, e foi para a linha de frente.

De 2014 a 2015 ele serviu como franco-atirador para o Azov, lutando em grandes batalhas em Mariupol, Marinka, Ilovaisk e Shyrokyne. “Consegui participar da maioria das grandes batalhas”, ele disse a VICE News.

“Acredito que a Europa corre grande perigo”

Mesmo tendo abandonado suas crenças de extrema-direita desde então, ele diz que ainda sente arrepios quando pensa em seu tempo no front.

“Essa irmandade que vem quando você compartilha a vida e a morte, é um veneno. Nunca usei drogas, mas imagino que a sensação seja a mesma.”

Skillt é um dos muitos extremistas de direita, algo em torno de centenas a alguns milhares, que foram para o oeste da Ucrânia pegar em armas desde que a guerra civil começou em 2014. Vindos de toda a Europa, América do Norte e do Sul, e até da Austrália, eles são atraídos pela oportunidade de lutar ao lado de radicais de direita nos dois lados do conflito. Muitos veem o combate como um treinamento crucial para a defesa da Europa branca, um lugar para forjar conexões internacionais e ganhar experiência de combate que acreditam que serão fundamentais em seus países de origem.

Quando voltam pra casa, eles estão mais endurecidos pela batalha e mais radicalizados que nunca, dizem pesquisadores, e muitas vezes voam abaixo do radar de serviços de segurança mais focados no retorno de jihadistas.

“Acredito que a Europa corre grande perigo”, disse Alberto Testa, especialista em radicalização de extrema-direita da University of West London, a VICE News. Ele disse que o oeste da Ucrânia se tornou um palco importante para a “luta jihadista branca” internacional da extrema-direita, onde os extremistas podem “treinar para o que alguns chamam de guerra racial sagrada”.

Pesquisadores alertam que a Ucrânia está radicalizando combatentes estrangeiros de extrema-direita do mesmo jeito que a Síria fez com jihadistas – mesmo que em menor escala – criando uma rede global de extremistas com experiência de combate que representam uma ameaça de segurança que só agora está começando a se manifestar.

“Você tem indivíduos endurecidos pela batalha, provavelmente mais radicalizados do que quando partiram.”

“Estamos muito preocupados”, disse Mollie Saltskog, analista de inteligência da firma de consultoria estratégica Soufan Group, que rastreia a mobilização de combatentes estrangeiros de extrema-direita. “Você tem indivíduos endurecidos pela batalha, provavelmente mais radicalizados do que quando partiram. Você tem uma rede global de supremacistas brancos violentos que agora podem facilmente manter contato em diferentes plataformas quando retornam, espalhando propaganda, conduzindo treinamentos – ou passando para a próxima luta.”

Uma ameaça negligenciada

Serviços de segurança ocidentais não estão levando a ameaça dos combatentes estrangeiros de extrema-direita a sério o suficiente, disse Daniel Koehler, diretor do Instituto de Estudo de Radicalização e Desradicalização da Alemanha, em grande parte porque estão focados nos jihadistas retornando da Síria e Iraque nos últimos anos.

“Parece que agências de inteligência não os consideram nem remotamente um risco tão grande quanto os jihadistas”, Koehler disse a VICE News.

Mas isso está começando a mudar lentamente, com combatentes voltando da Ucrânia e fazendo sua presença ser sentida em seus países de origem.

Far right extremism
Forças Especiais da polícia antiterrorismo mostram um míssil ar-ar apreendido durante uma operação contra a extrema-direita em Turim, Itália, em 15 de julho de 2019. Armas militares foram apreendidas com grupos de extrema-direita em várias cidades do norte da Itália. Três pessoas foram presas. ANSA/TINO ROMANO

Mês passado, a polícia italiana investigando uma rede de radicais de extrema-direita que lutaram na Ucrânia descobriu um grande arsenal de armas militares, incluindo um míssil ar-ar de 3,3 metros e lançadores de foguete. Desde janeiro, combatentes retornando da Ucrânia levaram bandeiras separatistas do conflito para as manifestações violentas dos “coletes amarelos” na França.

Em maio de 2018, a Ucrânia condenou um extremista de direita francês por planejar vários ataques terroristas, contra alvos que incluíam uma mesquita e uma sinagoga, na França. Autoridades disseram que o homem de 27 anos foi pego tentando contrabandear várias armas, que ele supostamente adquiriu através de milícias do oeste do país, para a França.

E em 2017, neonazistas suecos realizaram um atentado à bomba num abrigo de refugiados em Gotemburgo. Segundo relatos, os perpetradores receberam treinamento paramilitar de um grupo ultranacionalista russo que recrutou e treinou voluntários para lutar pelos separatistas.

Treinando para a guerra racial

Os extremistas estão sendo atraídos para conflito através de redes de recrutamento que apelam para radicais de mesma mentalidade nas redes sociais e em encontros na vida real, estabelecendo o conflito como uma causa das redes de extrema-direita pelo globo.

“Há essa ideia de que uma batalha está começando para preservar a cultura branca europeia, e é disso que vem o desejo de aprender habilidades de combate”

O Azov, em particular, tem produzido vídeos de propaganda estilo ISIS, distribuído panfletos em shows neonazistas no Leste Europeu, e mandado representantes para conferências da extrema-direita na Escandinávia. Apesar de o grupo negar ser neonazista, e dizer publicamente em 2014 que “apenas 10 a 20%” de suas forças se identificam como neonazis, seu primeiro comandante e agora líder da ramificação política do grupo tem um histórico em grupos neonazistas. Seus esforços de recrutamento visam redes de extrema-direita, incluindo argumentos explícitos da guerra como uma oportunidade para ganhar experiência de batalha que pode ser repassada para militantes em seus países de origem.

“Há uma preocupação no mundo inteiro entre a extrema-direita com países europeus perdendo sua maioria branca através da imigração”, Marilyn Mayo, pesquisadora sênior do Centro de Extremismo da Liga Antidifamação, disse a VICE News. “Há essa ideia de que uma batalha está começando para preservar a cultura branca europeia, e é disso que vem o desejo de aprender habilidades de combate.”

Joachim Furholm, um neonazi norueguês e recrutador para o Azov, usou uma entrevista com um meio de comunicação nacionalista branco dos EUA ano passado para encorajar extremistas americanos a se juntar a ele.

“Posso liderar um pequeno grupo de voluntários de todo o Ocidente, dando alguma experiência militar e, espero, poder mandar alguns desses caras de volta para passar seu conhecimento”, ele disse a Radio Wehrworlf.

Na entrevista, descoberta pelo site investigativo Bellingcat, Furholm disse que seus esforços também ajudaram forças nacionalistas brancas em um país onde ele acreditava que elas tinham a melhor chance de ascender ao poder.

“É como uma placa de Petri para o fascismo... e eles têm intenções sérias de ajudar o resto da Europa a recuperar suas terras de direito”, ele disse.

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Voluntários da Corporação Nacional Azov acendem localizadores numa manifestação na frente do parlamento ucraniano em Kiev, Ucrânia, em 26 de novembro de 2018. Eles tinham bandeiras amarelas e azuis com o símbolo nacional ucraniano, o tridente, e uma grande faixa escrito "Não recue!" . (AP Photo/Efrem Lukatsky)

Especialistas estimam que centenas, talvez milhares de combatentes estrangeiros de extrema-direita têm participado da guerra na Ucrânia, lutando tanto do lado dos nacionalistas ucranianos como do lado dos separatistas pró-Rússia, num conflito que ferve desde que o Kremlin começou a apoiar os separatistas em 2014.

Kacper Rekawek, líder dos programas de defesa e segurança da think tank Globsec da Eslováquia, disse que alguns recrutas até parecem indiferentes com de que lado estão.

“Às vezes é por acaso que um combatente acaba do lado A ou B”, disse Rekawek, que entrevistou vários combatentes estrangeiros. “Eles só querem estar na guerra, sentir a adrenalina.”

Os combatentes aplicam uma variedade de lentes ideológicas ao conflito para justificar seu envolvimento em qualquer um dos lados.

“Às vezes é por acaso que um combatente acaba do lado A ou B”

Aqueles que se juntaram à milícia de extrema-direita ucraniana se veem como colegas ultranacionalistas europeus indo contra a agressão russa. Rekawek disse que neonazistas suecos que se juntaram ao lado ucraniano se veem basicamente como “a continuação de Segunda Guerra Mundial no front do Leste Europeu. Você é um europeu branco lutando contra o Ásia, na forma da Rússia”. Em alguns casos desconcertantes, russos de extrema-direita lutam ao lado de nacionalistas ucranianos contra as forças separatistas apoiadas pelo Kremlin, ele disse.

Enquanto isso, os combatentes de extrema-direita estrangeiros que se juntaram aos separatistas pró-Rússia veem a batalha como a defesa do direito dos separatistas contra o imperialismo ocidental. Muita gente lá também tem um senso de lealdade com Vladimir Putin, defendido por muitos na extrema-direita como um dos últimos defensores da Europa cristã branca tradicionalista.

“No lado pró-Rússia, não parece haver uma agenda ideológica coerente”, disse Sara Meger, professora de relações internacionais da Universidade de Melbourne. Enquanto muitos dos combatentes estrangeiros do lado ucraniano estão num espectro da extrema-direita, aqueles apoiando o lado separatista se veem lutando ao lado de um número significativo de voluntários estrangeiros de extrema-esquerda, que veem seu lado do conflito como “uma luta contra a hegemonia americana”.

Rekawek disse que a lealdade dividida da extrema-direita em se tratando do conflito ucraniano significa que colegas da cena da extrema-direita na Europa acabam em lados opostos das linhas de frente. “Esses caras se conhecem de antes”, ele disse.

Carolus Löfroos, um homem de 30 anos de nacionalidade dupla finlandesa e sueca, que também lutou para o Azov em 2015 e 2017, disse a VICE News que tinha uma relação cordial com alguns conhecidos do lado oposto.

“Sim, eu achava que eles eram idiotas”, ele disse. “Mas pelo menos estavam lutando pelo que acreditam que é certo, mesmo se colocando em perigo pra isso, que é algo que respeito.”

Löfroos disse que enquanto suas opiniões “sempre foram do lado direito do espectro”, ele se considera apolítico, e rejeitou a sugestão de que o Azov tem políticas neonazistas. “Não ligo se as pessoas me chamam de extrema-direita, nazi ou sei lá o quê. Eu queria lutar... e o Azov na época parecia a melhor escolha para fazer isso.”

Skillt disse que, nas horas vagas na linha de frente, ele conversava pelas redes sociais com um extremista russo-norueguês, “Vlad”, que ele conhecia de protestos da extrema-direita na Suécia em 2011. “A gente conversava sobre a situação – se chegasse ao ponto de termos que lutar, que fosse. Nenhuma misericórdia seria dada e nenhuma misericórdia seria pedida”, ele disse.

A rede

Para muitos combatentes estrangeiros de extrema-direita atraídos para a Ucrânia, o resultado da guerra é quase uma consideração secundária.

Rekawek disse que a Ucrânia cumpriu as necessidades, expressas por muitas ideologias da extrema-direita, de um “espaço seguro” para nazistas fora do Ocidente, onde eles podem fazer conexões e se organizar longe dos olhos dos serviços de segurança domésticos.

Outros, como Löfroos, simplesmente queriam lutar. Falando de seu retorno ao campo de batalha fora de Donetsk, o ex-soldado descreveu a situação meio como um ano de licença ou mesmo férias.

“Voltei... para rever alguns amigos, ver como a guerra tinha progredido, e para lutar para propósitos estritamente recreativos”, ele disse a VICE News. “Guerra é como uma filosofia ou ciência que é um prazer estudar.”

Através da influência do Azov, em particular, a Ucrânia tem cada vez mais esse papel, emergindo como um centro-chave na rede transnacional da extrema-direita. Desde sua formação em 2014 como uma milícia voluntária comandada por um ex-líder de partido neonazista, com membros vindos da cena hooligan, o Azov tem se desenvolvido como uma besta de três cabeças cada vez mais poderosa. Olena Semenyaka, secretária internacional do Azov, se gabou ano passado de que o movimento tinha “se tornado um pequeno estado dentro do estado”.

“Apenas ter essa experiência já te torna mais perigoso”

Além do batalhão, que foi formalmente incorporado ao exército nacional ucraniano, eles também contam com um ramo político e um movimento de vigilância de ruas, que está ligado a ataques a eventos gays e acampamentos romani. (Os EUA, que fornece apoio militar para a Ucrânia, proibiu oficialmente o Azov de receber qualquer ajuda militar por sua ideologia supremacista branca.)

O Azov, que não respondeu os pedidos de comentário da VICE News, também vem cultivando laços fortes com grupos políticos de extrema-direita pela Europa. Pesquisadores dizem que o movimento agora tem um papel-chave numa perigosa rede extremista que está atraindo recrutas neonazistas envolvidos com MMA e na cena hooligan.

A influência deles se estende até os EUA. Em 2018, três membros do grupo nacionalista branco violento da Califórnia Rise Above Movement viajaram para se encontrar com representantes do Azov durante uma turnê de contato, até participando de uma luta num clube de artes marciais afiliado ao Azov.

Skillt, que hoje mora em Kiev, desde então abandonou suas alianças de extrema-direita. Mas ele diz que o impacto da guerra em combatentes estrangeiros não deve ser subestimada.

“Apenas ter essa experiência já te torna mais perigoso”, ele disse. “Se você já esteve sob fogo cruzado e tem treinamento suficiente, você vai reagir por instinto básico.”

Imagem do topo: Um soldado voluntário ucraniano do batalhão Azov mantém sua posição numa base militar no Mar de Azov, 26 de fevereiro de 2015, perto da cidade de Mariupol, sudeste da Ucrânia. Foto de Rafael Yaghobzadeh / Abaca / Sipa EUA (Sipa via AP Images)

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