Identidade

Mulheres transgênero explicam o que acontece quando elas não 'parecem trans'

Quando uma mulher não parece transgênero, pode ser tranquilizador, perigoso e totalmente banal, tudo ao mesmo tempo.

por Sessi Kuwabara Blanchard; Traduzido por Marina Schnoor
31 Julho 2019, 4:50pm

Foto por Alyza Enriquez.

Quando tinha 10 anos, eu era um menino que parecia uma menina. Eu tinha cabelo comprido castanho que cobria meu peito onde meus seios deveriam aparecer, e uma voz delicada ainda não tocada pela testosterona.

Um dia, minha vizinha de 90 e poucos anos parabenizou minha mãe pela linda mocinha que eu estava me tornando. “Ah, Clementine, esse é meu filho!”, minha mãe corrigiu rapidamente. Não sei se fiquei mais envergonhada de passar por menina, ou por ter gostado de passar por menina.

Treze anos depois, meus seios realmente apareceram – cortesia da medicina moderna – mas minha voz também ficou grossa. Hoje, até consigo passar por mulher, se fico em silêncio. Quando pego o trem toda manhã, enquanto os garanhões de Wall Street entram no vagão, fico timidamente mordendo minhas pontas duplas e cuidado da minha vida, sou cis... até que uma fonte ou editor me liga, e eu atendo freneticamente antes que o trem saia da plataforma: “Alô – te ligo de volta em cinco minutos”. A vibração profunda da minha voz paira no ar. Os olhos se voltam pra mim, os caras levantam a sobrancelha, e as garotas respiram aliviadas porque a mulher mais bonita do vagão é uma travesti.

Passar é uma recusa da masculinidade não-consensual com que convivi por 19 anos – tipo como quando eu era vegetariana e comia hambúrguer nos churrascos da família por falta de uma opção melhor na época. Muitas pessoas trans sentem passar como uma percepção dos outros do seu autêntico eu. Outras pessoas trans não conseguem passar por cis, não têm interesse nisso, ou as duas coisas: Xris, uma mulher latina trans de 21 anos de Westchester County, Nova York, disse “nunca vou conseguir passar [por uma mulher cis] no meu corpo atual. Sou uma mulher barbada”. Politicamente, disse Xris, ela acredita que passar é “um ato de assimilação”. Para ela, passar não é uma questão de ser vista por quem ela realmente é – uma mulher – mas ser vista como algo que ela não é – cisgênero.

Além de uma afirmação de identidade, passar por um gênero, quando é fisicamente disponível para uma mulher trans, pode ser um jeito dela acessar fontes que de outra maneira não conseguiria. A função disso como uma prática de sobrevivência foi articulada pela primeira vez por escritoras negras da Renascença do Harlem, como Nella Larsen, para descrever a experiência de afro-americanos de pele clara que passavam por brancos, intencionalmente ou não, durante e depois do período da escravidão para ter acesso a riquezas, privilégios e segurança numa sociedade racista. Eles transgrediam a ideia de identidade racial como fixa.

As experiências negra e trans não podem ser igualadas, mas percepções do que é trans, que uma pessoa não passar por cis, podem resultar em discriminação e preconceito, especialmente para mulheres trans negras. Uma em cada seis pessoas trans já relataram perder um emprego, e 88% delas não recebem “tratamento e serviços iguais”, de negócios e agências do governo, por causa de sua “identidade e expressão de gênero”, segundo a maior pesquisa americana sobre transgêneros conduzida em 2015.

“As pessoas consideram os direitos dos outros com base em sua aparência”, disse Gillian Branstetter, gerente de relações-públicas do National Center for Transgender Equality e mulher trans. Um estudo que entrevistou quase 4 mil americanos descobriu que “o nível de conformidade de gênero de uma pessoa transgênero na aparência, mas não seu gênero autoidentificado ou idade, afeta como outras pessoas percebem seu sexo”, e por sua vez, “a atitude delas quanto aos direitos transgênero”.

Passar pode ser a diferença entre ter acesso a recursos, direitos e respeito – ou não. Trabalhando numa organização ativista nacional, Branstetter viu em primeira mão como isso pode se desenrolar. “Uma membro da nossa equipe estava numa reunião com um congressista”,ela contou. “E disseram pra nossa colega 'não estamos preocupados com você, porque você parece uma mulher'.”

Algumas mulheres trans são equipadas com um senso maior de agência quando passam. “Uma parte de mim gosta quando estou numa conferência ou seminário e digo 'Frequentei um colégio só de meninos', e os caras cis dizem 'O quê!'”, disse Lavelle Ridley, uma mulher trans negra de Toledo, Ohio. “Tem algo muito poderoso, até atraente, em controlar sua narrativa, ou revelar essa parte de você. O poder de decidir quando você sabe isso sobre mim – é uma boa sensação.”

O termo transfóbico para passar por cis dentro do contexto da atração sexual, “armadilha” [“trap”], é usada para acusar mulheres trans de enganar e se aproveitar não revelando sua identidade para homens héteros. Mulheres trans muitas vezes são retratadas como armadilhas em pornô “shemale” (uma gíria ofensiva). Para John Phillips, acadêmico e autor do livro Transgender on Screen, o tipo de prazer único gerado pelo gênero shemale vem da “tensão de esconder e revelar”, especialmente o pênis.

O que alguns homens acham sexy em mulheres trans também pode ser uma base para violência. Alguns homens percebem que se sentem atraídos por alguém que parece uma garota, mas desafia suas noções do que é uma garota, e entram em pânico. “Pânico trans”, na verdade, foi a defesa no caso do assassinato de 2002 de Gwen Arujo, uma latina trans de 17 anos da Califórnia. Ela se envolveu sexualmente com quatro homens numa festa, que a obrigaram a tirar a roupa. Quando descobriram que ela tinha um pênis, eles a torturaram e mataram.

Para reduzir a condenação de homicídio para homicídio culposo, a defesa argumentou que o “crime foi cometido no 'calor do momento'”. Como na defesa do “pânico gay”, usada nos tribunais dos anos 1960 e mais famosamente no julgamento do assassinato de Matthew Shepard, a defesa do pânico trans dizia que a descoberta da informação "retida" sobre o “verdadeiro sexo” da vítima “induziu ao pânico que levou à violência”.

“Minha segurança é ser visivelmente trans”, disse a DJ Jasmine Infiniti, uma mulher trans negra de Nova York. “Sou sempre direta, mesmo quando abordada na rua: 'Você sabe que sou trans, certo?' Mesmo assim, ainda teve vários casos onde os homens disseram 'Você está tentando me enganar' e ficaram violentos.” Em 2017, Infiniti estava andando no Brooklyn com algumas amigas, incluindo a colega DJ London Jade, quando elas foram assediadas. “Os caras disseram tipo 'Ei, e aí, gatas!'”, disse Infiniti. “Uma mulher que estava com eles disse 'Elas são transformers'”, querendo dizer transgênero. “Os homens se sentiram emasculados porque assediaram sexualmente o que eles não viam mais como uma mulher. Eles quebraram meu maxilar.”

Também já experimentei os perigos de passar. Num verão em Baltimore, eu estava andando por uma rua movimentada. Dois caras de carro desaceleraram do meu lado, fazendo cantadas. De repente: “Ah, merda, é um cara!” O motorista começou a rir do amigo que tinha colocado a cabeça pra fora da janela – e que agora estava passando por uma reversão inesperada de vulnerabilidade. O holofote não estava mais em mim, mas no homem, cujo rosto ficou vermelho de vergonha. Para corrigir o curso, ele gritou “Maldita bicha” e “Morre, traveco”. Entrando na primeira loja que vi, comecei a chorar – mas pelo menos estava a salvo.

Eu e Infiniti já encaramos assédio na rua de homens que se sentiram “enganados”, mas os resultados disparatados ilustram como a violência não se distribui igualmente. Outra mulher trans do Brooklyn, Islan Nettles, foi assassinada por um homem ridicularizado pelos amigos por flertar com ela, uma garota que ele não percebeu como trans. Diferentes de mim, ela era negra. Ser percebida como negra e trans pode ser fatal.

“Quando estou com outras pessoas negras, é quando me sinto mais observada”, disse Lavelle. O medo dela não vem da noção equivocada e racista de que homens negros são mais transfóbicos que seus colegas brancos – é que ser trans é um fato mais notado que sua negritude, já que essa última coisa é uma experiência compartilhada. “Na maioria dos espaços brancos, não me estresso com passar. Já sou o outro. Me estresso com a diferença. Qualquer diferença de gênero que eles percebam já está enraizada em como eles veem minha diferença racial”, ela disse.

Infiniti concorda. “Nesses casos, não preciso passar. As pessoas não-brancas já me veem como exótica.”

Vera Blossom, uma trans filipina e mulher não-binária de Las Vegas, consegue passar por mulher cis. O tratamento que ela experimentou antes e depois da transição deixou claro pra ela como passar racialmente e por gênero são coisas interligadas. Blossom disse que antes ela era “percebida como um homem asiático, uma das categorias menos desejáveis de homem”. Ela usava “plataformas de dez centímetros, shorts curto e cabelo roxo, e ninguém apontava”, ela disse. “Eu estava tentando ser vista. Mas não importava o que fazia, ninguém olhava pra mim.”

A experiência de Blossom se encaixa no tropo racista de homens do sudeste asiático com indesejáveis ou femininos. Depois da transição, ser asiática começou a mediar como ela passava: “A atenção vem, eu querendo ou não. Ninguém mais tem uma opinião morna sobre mim”, ela disse. “Ir de um homem asiático para uma mulher asiática é ir de uma etnia e gênero que todo mundo ignora para um que as pessoas tendem a bajular.”

Meu pai é nipo-americano. No colégio, quando cortei o cabelo e tentei ser um garoto (embora sem muito sucesso), eu ainda era interpretado como um asiático oriental, geralmente com resultados racistas. Uma vez, eu estava na biblioteca estudando com uma amiga, quando olhei ela tinha desenhado um retrato meu. Kim Jong-Sam, era o título – uma mistura do nome do líder norte-coreano e meu nome morto. No desenho, meus olhos estavam puxados e meu rosto arredondado.

Ri na época, mas experiências racistas como essa moldaram minha ligação com a uma identidade que muitos não viam, e não veem, logo de cara. Talvez ser um homem asiático hiperfeminino tenha e ajudado na transição, mas enquanto eu me tornava uma mulher, os significantes visuais das raízes japonesas desapareceram do meu corpo. Quando mudei meu nome para Sessi, também mudei meu nome do meio para Kuwabara, o sobrenome da minha obāchan – avó. Eu queria interferir na minha capacidade de passar por branca. Me tornar mulher estava interligado com manter minhas raízes japonesas.

Mas por mais sutil que seja, tenho conseguido escolher como outros interpretam minha raça e etnia. Mas não tenho escolha em como outros me veem como mulher. Por definição, para ser uma mulher, eu tinha que ser trans. Em contraste, mulheres cis, só por existir, são vistas como mulheres. Seu ser é distinto do seu tornar-se. Para mulheres trans, essa última parte desloca a primeira. Quando as pessoas me veem ou sabem que sou trans, minha aparência parece uma nota de rodapé de aviso de isenção de responsabilidade. Por isso gosto de passar: meu quadril curvilíneo, coxas grossas e pele macia pertencem a mim, não às questões dos outros. Posso ser um corpo, não uma explicação.

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Matéria originalmente publicada na VICE EUA.

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