Sexo

Por dentro dos karaokês que também são clubes de sexo ilegais em Pequim

A fotógrafa Valya Lee passou três meses trabalhando disfarçada e tirando fotos com seu celular.

por Lucy Andrews; Traduzido por Marina Schnoor
06 Agosto 2019, 10:00am

Como muitas coisas na China, trabalho sexual é ilegal, mas continua prosperando atrás de portas fechadas. Em muitos casos, agências de acompanhantes se mascaram como bares de karaokê, que são conhecidos como karaoke television bars, ou “bares KTV”.

Muitos desses bares KTV são exatamente o que dizem ser – lugares para encher a cara e cantar karaokê – mas vários também permitem que os clientes façam propostas para as funcionárias. Por essa razão, a polícia trata esses estabelecimentos com ceticismo, e bares KTV sofrem batidas regulares. Mas provar que esses lugares estão realmente facilitando trabalho sexual é difícil, então a polícia geralmente multa os gerentes que empregam ilegalmente mulheres estrangeiras – como muitos lugares fazem.

Por três meses, uma dessas mulheres era a fotógrafa russa freelance Valya Lee, que trabalhou como “garota de festa” em vários clubes de Pequim. Ela capturou sua experiência com um celular para mostrar uma indústria que o governo chinês diz não existir.

Falamos com Valya sobre o que ela viu em seus três meses em Pequim, e o que ela aprendeu sobre trabalho sexual na China moderna

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VICE: Oi, Valya, você pode falar um pouco sobre você e como esse projeto surgiu?

Valya Lee: Claro. Bom, como você sabe meu nome é Valya Lee. Tenho 25 anos e sou uma fotógrafa freelance da Rússia. Nasci perto da fronteira com a China, então estudei língua e cultura chinesas por vários anos, e acho que foi por isso que me interessei por projetos que examinam as relações entre Rússia e China.

E para capturar essa série você conseguiu um trabalho num bar KTV?

Sim. As garotas são chamadas de “hostesses” ou “garotas de festa”, mas a tradução direta do chinês é “garota que fornece entretenimento na companhia de álcool”. A maioria das funcionárias são chinesas, mas muitas garotas vêm da Rússia e Ucrânia, e a principal tarefa delas e deixar o cliente bêbado e garantir que ele se divirta. Ninguém sabia que eu estava fotografando dentro do clube, só minhas amigas. Muitas vezes os gerentes confiscavam meu celular antes do meu turno, então comecei a carregar dois celulares: um para o meu gerente confiscar e um para tirar as fotos.

Parece perigoso. Alguém chegou a ver sua câmera?

Ninguém me viu tirar as fotos. Celulares são tão comuns que se tornaram quase invisíveis, mas claro que trabalhar num bar KTV tem seus próprios riscos.

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Qual foi a coisa mais assustadora que aconteceu enquanto você trabalhava disfarçada?

A coisa mais assustadora provavelmente foi num dos meus últimos dias. Esse cliente que todo mundo conhecia no clube sugeriu que eu passasse a noite com ele, mas recusei. Não achei que seria um problema, mas meu gerente realmente tentou me persuadir. “Esse homem é muito poderoso, um chefão”, ele me disse. Aí ele começou a me ameaçar, dizendo “você é ilegal aqui e posso te entregar para a polícia se você não cooperar”. Fiquei com medo, mas sabia que era um blefe. Quando ele disse que ia chamar a polícia, eu disse “bom, então vamos fazer a ligação juntos”. Nesse ponto ele recusou, mas decidi que era hora de terminar o projeto.

Suponho que os caras sempre tentavam alguma coisa, considerando que você estava fingindo ser uma “garota de festa”. Como você lidava com isso?

Sim, na primeira vez que me propuseram fiquei muito estressada, porque na sala onde eu estava isso não era “OK”, o que a gente chamava de sala segura. Mas as propostas foram se tornando mais frequentes, então eu só ignorava a pessoa ou dizia que recusava.

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Como o clube funcionava? Como era uma noite típica?

Tudo começa numa sala onde as garotas esperam ser escolhidas por um homem. Quanto mais caro o KTV, maiores são as exigências de padrão de beleza: as garotas precisam ser altas e parecer modelos. Cheguei a trabalhar num clube onde as garotas eram escolhidas por suas habilidades vocais. Nessas salas, os homens apontam para uma mulher ou dizem para a madame – conhecida como “Mami” – de que garota gostaram. É aí que alguns clientes informam a Mami que precisam de serviços sexuais. Nesse caso, antes de entregar a garota para o cliente, a Mami geralmente perguntava se “tudo bem?” Se ela fazia que sim com a cabeça, negócio fechado.

O que acontecia então?

Aí você fazia companhia para o cliente. Depois de um tempo trabalhando nos clubes, desenvolvi um conjunto padrão de assuntos de conversa, e sempre deixava o copo do cliente cheio. Os clientes geralmente querem que as garotas também bebam, mas a gente discretamente derramava nossos drinques no chão. Aí os clientes cantavam, sozinhos ou comigo. Quando descobriam que eu era russa, eles sempre queriam cantar músicas como Katyusha, Moscow Nights ou algo do repertório do Vitas.

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As garotas trabalhando nesses clubes não tinham problema com fazer sexo pago com os clientes?

Vi muitas chinesas com medo de perder o emprego, então elas tentavam atender os pedidos dos clientes. Mas mulheres estrangeiras como eu não ficavam sob tanta pressão, especialmente porque sabíamos que metade de tudo que ganhássemos iria para a Mami, pelo risco do cliente entregar garotas estrangeiras para a polícia para não ter que pagar. Todas as garotas sabiam que esse era um risco, então pessoalmente nunca conheci nenhuma mulher estrangeira que transava com os clientes.

Considerando que trabalho sexual é ilegal lá, como esses bares operam?

Todos têm um bom sistema de segurança, então se a polícia chegava, sabíamos com antecedência. Mesmo assim, tive que me esconder no vestiário ou no estacionamento várias vezes. Se suspeitam que você é uma trabalhadora sexual estrangeira, você provavelmente terá que pagar uma grande multa e encarar deportação.

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O que você aprendeu sobre corrupção enquanto estava lá?

Acho que corrupção é a mesma coisa em todo lugar: com dinheiro e poder, você pode fazer qualquer coisa independente da lei. Dito isso, sempre me surpreendia com o jeito como os gerentes continuavam reinternado que seu estabelecimento não fornecia serviços sexuais, só para entregar uma mulher para fazer sexo com um cliente em seguida. Isso acontecia em todo lugar.

Como eram os clientes?

Eram completamente diferentes porque os KTVs atraem vários públicos. Você encontra especialistas bem pagos, professores e servidores públicos. Estrangeiros são muito raros – pelo menos enquanto eu estava trabalhando, nunca encontrei nenhum.

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Fale sobre as garotas chinesas com quem você trabalhava. Quem e de onde elas eram?

As garotas eram de várias províncias. Uma vez conheci uma garota que tinha uns 19 anos, e obviamente estava desconfortável trabalhando nisso, mas era sempre escolhida rapidamente. Um dia ela foi expulsa de uma sala depois que um cliente viu que ela tinha aparelho nos dentes. Ela foi demitida depois desse incidente. Aparentemente, ela tinha vindo para Pequim porque queria estudar atuação.

Muitas garotas trabalham nos bares KTV porque não têm dinheiro para pagar os estudos ou dívidas. Geralmente ninguém conta para os parentes onde trabalha. Mesmo se odeiam o trabalho, geralmente as mulheres não podem sair porque se acostumam com os altos ganhos. Os outros trabalhos simplesmente não fornecem a mesma renda.

No geral, qual a principal coisa que você aprendeu trabalhando em bares KTV?

Lembro que quando eu via uma garota russa trabalhando como go-go dancer, eu a julgava por não se comportar direito. Mas agora, depois de estar no lugar delas, decidi que você não pode julgar um livro pela capa.

Entrevista por Lucy Andrews. Fotos por Valya Lee.

Matéria originalmente publicada pela VICE Ásia.

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