Por que a pornografia não é uma unanimidade entre as mulheres brasileiras?
Foto por Larissa Zaidan/VICE.
Semana do Sexo

Por que a pornografia não é uma unanimidade entre as mulheres brasileiras?

Para além dos prós e dos contras, uma zona cinza separa as consumidoras e as críticas pelo gênero mais polêmico do audiovisual.
06 Setembro 2018, 3:09pm

Minha relação com a pornografia não é das mais comuns. Demorei para descobrir o gênero porque não tinha um computador só meu em casa e morria de medo de ser descoberta vendo filmes de sacanagem. Vez ou outra, durante minha adolescência, olhava umas revistinhas de sexo e me arriscava em ver por alguns minutos o canal de pornografia que vinha junto no pacote de TV a cabo. Ao mesmo tempo, comecei a descobrir minha sexualidade, meus desejos e me sentia uma completa maluca. Achava que eu era a única que gostava de BDSM (na época nem sabia que esse termo existia) e por isso tinha algum problema mental. Era uma tortura.

Quando comprei meu primeiro notebook pude explorar esse universo sem ter medo de ser pega. Nisso, descobri outras mulheres que compartilhavam as mesmas fantasias sexuais. Descobri fóruns. Consegui me educar sexualmente ao descobrir a produtora Kink de São Francisco, EUA. Foi um caminho estranho. Porque ao mesmo tempo que lia sobre o impacto negativo da pornografia na percepção sexual de jovens, consegui entender que eu não era uma maníaca sexual e que existem várias mulheres que desejam coisas parecidas na hora do sexo. Também fui pesquisando mais a fundo e descobrindo performers femininas que falavam abertamente da indústria e como estão confortáveis em ter esse trabalho.

Desde que a pornografia se tornou uma indústria rentável em meados dos anos 1970, ela nunca foi vista como algo para as mulheres. O mercado do sexo, aliás, sempre foi algo construído por homens e destinados para os olhares de seus pares, onde as mulheres representam apenas objetos sem vontade própria que não são donas de seu próprio desejo. Quando algo existe para elas, não é sobre como se descobrir ou se dar prazer, mas sim como agradar seu parceiro masculino.

O que conhecemos hoje como pornografia, no entanto, é resumido a produções audiovisuais inicialmente exibidas em cabines sujas, cinemas pornôs e depois entrou na nossa casa através de VHS, DVDs, canais de televisão por assinatura e, finalmente, a internet caseira. Antes de ocupar grande parte do espaço da internet, ela já foi um mecanismo de transgressão contra a moralidade e censura como as obras proibidas, escritas e ilustradas, de Marquês de Sade, Henry Miller e toda a guerra editorial contra a obscenidade discutida em tribunais norte-americanos durante os anos 1960 e 1970.

A indústria de filmes pornográficos perdeu rapidamente qualquer resquício de rebeldia e transgressão quando se estabeleceu como algo lucrativo e socialmente tolerado a partir de seu consumo “caseiro” e individualizado. E assim surge uma resposta das mulheres contra essa indústria encabeçado por parte do movimento feminista nos anos 1970 e 1980, justamente pelas péssimas condições de trabalho que validam a exploração de atrizes, maus tratos em sets e também o tratamento da sociedade contra as mesmas mulheres que estrelam produções adultas. Para piorar, a pornografia acabou recebendo uma função que não a pertencia: educação sexual. Com a ausência de programas que levem a educação sexual e dos nossos corpos para jovens, ela acabou se tornando a porta de entrada para muita gente aprender sobre sexo. Mas a pornografia raramente fala sobre a realidade. Ela é uma ficção do sexo, assim como o romance e leis da gravidade em filmes de Hollywood são ficcionais.

Motivadas pelas mesmas críticas das feministas antipornografia, outras mulheres enxergaram um caminho diferente e começaram a dirigir e produzir seus próprios filmes onde o corpo da mulher sai da posição de exploração. Surge então o movimento da pós-pornografia criado pela pornógrafa e trabalhadora sexual Annie Sprinkle nos anos 1980 que defende a possibilidade de mulheres serem donas de seu próprio corpo e se apropriarem da pornografia como um instrumento para discutir a sexualidade proibida das mulheres.


Conheça a nova era de mulheres que dirigem e produzem pornografia no Brasil no nosso documentário:


No entanto, há diversos atritos entre as mulheres que possuem visões diferentes sobre a pornografia e muitas vezes esse assunto polariza as mulheres que, de um lado, defendem que a pornografia não possui nada a ser aproveitado e é misógina por natureza, e as mulheres que defendem ela como um instrumento para tratar do sexo e o prazer feminino sem moralismo, porém acreditam que isso já será feito quando as narrativas pornográficas pertencerem às mulheres, especialmentes as não-brancas e LGBTs.

Dentro do movimento feminista existem argumentos de ambos os lados que devem ser ouvidos e levados em consideração, mas, como tudo nessa vida, não é um assunto fácil.

“Nos filmes, reforça-se um padrão de masculinidade e de feminilidade que é adoecedor e que reforça a cultura de estupro - além da higienização dos corpos femininos, no sentido de produzir um padrão de beleza racista e completamente artificial”, explica Carla Gomes, psicanalista.

A historiadora Luciana Rodrigues compartilha da mesma visão e também adiciona sua descrença sobre a tentativa de transformá-la em algo diferente. “Não adianta achar que iniciativas pontuais de sites x ou y, ou de uma produtora em específico, são relevantes quando a gente pensa nesse plano mais geral. Em última instância, a própria pornografia reafirma a lógica de consumo do sexo, reforçando o imaginário do direito ao sexo, que é uma lógica que, na prática, só reatualiza as estruturas patriarcais já existentes. Então, pornografia não é libertador, a gente não precisa repensar pornografia, ela é um instrumento do patriarcado pra formar corpos, subjetividades e sexualidades. Precisamos é conversar sobre os corpos, isso que emancipa”, argumenta.

Para a estudante de psicologia de 18 anos, Carla Ritschel, consumir filmes adultos foi prejudicial para sua saúde sexual. “Comecei a ver pornografia com 9 anos, ainda em fase de desenvolvimento, pela facilidade de acesso. Nesse tempo eu ‘aprendi’ o que era esperado de mim no sexo, que eu deveria gostar de pau grande (mesmo minha anatomia não possibilitando isso), como meu corpo deveria ser, o que eu deveria fazer pra agradar um homem e como me portar pra quererem transar comigo, até os 15-16 anos, que foi quando comecei a perceber a nocividade da indústria, pra mim mas principalmente pra quem está na tela, que é geralmente invisível.” No caso da estudante, seu gozo acabou sendo muito melhor depois que procurou a usar sua imaginação e estimular seu cérebro para se masturbar. “Acho que a pornografia nos limita muito, e sugiro que todas exercitem suas mentes,” complementa.

A homogeneização de corpos na indústria, maus tratos contra as performers femininas e más condições de trabalho são questões bastante levantadas quando se discute o assunto. As abordagens, no entanto, variam. Algumas performers acreditam que é possível a indústria tóxica ser mudada caso mais mulheres e/ou LGBTs se apropriem dela e façam filmes que correspondam mais com a realidade. Há também quem defenda que a indústria precisa ser mais regulada para fornecer melhores condições de trabalho para as mulheres que fazem parte dela.

Nos últimos anos, inclusive, ele tem crescido por conta do boom de produtoras adultas comandadas por mulheres que acreditam que é possível se apropriar da pornografia e concentrar sua narrativa para as mulheres, ao invés de pedir sua total destruição ou censura.

Embora muita gente acreditar que a pornografia seja incompatível, muitas mulheres relatam consumir e buscar conteúdos pornográficos para se masturbar ou sanar curiosidade. Segundo uma pesquisa do PornHub, só no Brasil e nas Filipinas, as mulheres representaram 35% dos acessos no site em 2017. Nesta reportagem, muitas mulheres toparam falar sem revelar nomes por medo de serem julgadas no trabalho ou na vida.

Não me sinto muito contemplada na pornografia porque boa parte do conteúdo bissexual é meio toscão”, conta B.B., professora universitária. “BDSM eu curto, mas desisti de procurar nesses sites grandes porque acho tudo meio cafona, esteticamente feio mesmo e dá muito trabalho ficar filtrando até achar algo legal.”

A indústria mainstream de filmes adultos, especialmente centralizada em conteúdos norte-americanos, foram as mais citadas no sentido de oferecer filmes pouco legais para os olhares femininos. A solução para muita gente (eu inclusa) é procurar pornografia amadora no Tumblr ou recorrer para literatura erótica. “Ainda acho a maioria do conteúdo muito artificial, corpos "perfeitos" tudo muito sincronizado e forçado . Não conheço muitas plataformas de conteúdo voltado para um público feminino ou mais real. Tumblr e literatura erótica são meus consumos em porno”, conta L.C. por e-mail.

O Tumblr também é o principal local de procura para a programadora L.M.. “Recentemente eu até criei um tumblr novo pra juntar as coisas que eu gosto. Na prática é 90% gif de doggy style mesmo”, conta. “Em geral eu não gosto de coisas muito exageradas/extremas (subjetivo né), de caras feios e velhos, pau grande demais, boquete e anal (eu gosto das duas coisas, mas acho boquete um saco de assistir e anal em pornô geralmente se enquadra no que eu considero exagerado/extremo). É mais fácil eu ficar molhada com um soft porn cafona do que com um pornô tradicional.”

A pornografia amadora sem vinculação a produtoras mais tradicionais também foi bastantes levantada como uma alternativa mais responsável em consumir pornografia sabendo que há o consentimento explícito da mulher na cena. “Depois de uma fase assistindo a documentários e lendo depoimentos das atrizes, parei de procurar pornô porque o desconforto que notava só foi se tornando mais e mais real a medida do que eu lia e via. Recentemente entrei nessa conversa com o meu parceiro e ele me mostrou que existe uma categoria no PornHub de amadores que são vídeos verificados, os usuários se comunicam entre si e se você pesquisa com atenção vê que a maior parte são casais com esse fetiche mesmo que gostam de gravar esses vídeos ou pessoas solo. Até onde eu vi é gratuito e bem cuidadoso o que me deu mais segurança, sem contar a parte das mulheres estarem bem confortáveis e estarem realmente excitadas”, conta Fernanda Ferzola.

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