Fabio Michelin adapta consoles das antigas para funcionar nas TVs de LED. Crédito: Felipe Larozza/ VICE

O restaurador que modifica videogames antigos para deixá-los mais modernos

Eis o cara que torna possível o sonho dos gamers nostálgicos.

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17 Julho 2017, 2:13pm

Fabio Michelin adapta consoles das antigas para funcionar nas TVs de LED. Crédito: Felipe Larozza/ VICE

Fabio Michelin gosta de pensar que seu trabalho é próximo ao de Mu de Áries, de Cavaleiros do Zodíaco. Assim como o personagem do anime dava nova vida às armaduras de bronze de Seiya, ele renova videogames que estão encostados no canto. "O Mu pegava as armaduras todas quebradas e fazia novas. É algo que tento fazer com os consoles antigos", conta.

Há seis meses ele montou a GamesCare no bairro em que mora, em Pirituba, São Paulo, onde mexe em Super Nintendo, Saturn, Master System e outros consoles das antigas. Ao criar página no Facebook para o local, não teve dúvida: botou a imagem do Cavaleiro de Ouro como foto de perfil. "Essa era a associação que eu queria passar mesmo."

O trabalho de Michelin é quase artesanal. Além do conserto, passa também por restauração e conservação desses aparelhos. O mais impressionante, porém, são as modificações que faz para que os videogames dos anos 80 ou 90 se adaptem às TVs de LCD modernas. Vamos lembrar que, até pouco tempo, padrões como o HDMI não existiam e resolução 1080p não era a norma.

Crédito: Felipe Larozza/ VICE

Ligar um aparelho velho desses hoje em dia pode ser mais trabalhoso e frustrante do que se imagina. É só ver as conexões atrás do seu videogame antigo e perceber que muitos possuem aquela saída RF (que colocava na entrada da antena na TV e mudava pro canal 3 pra funcionar, lembra?) ou vídeo composto, o cabo amarelo que não é dos melhores para qualidade de imagem.

"Hoje, se você pegar um console retrô, de dez ou 15 anos atrás, e ligar em uma TV moderna de LCD, a imagem não vai ficar legal porque hoje as resoluções de tela são maiores, os sinais de vídeos evoluíram e não são mais analógicos. Por isso fica ruim", explicou Michelin.

Por sorte, hoje é possível fazer com que aparelhos como Master System, Super Nintendo e PlayStation 1 sejam modificados para terem saída de vídeo componente (aqueles três cabos verde, azul e vermelho), que possui melhor qualidade de imagem pra TVs atuais. Em outros videogames, como GameCube, Nintendo 64 e até mesmo o Nintendinho 8-bit, é possível colocar uma saída HDMI. Mas antes que os donos de Phanton System fiquem empolgados, a versão alternativa do NES que muitos brasileiros possuem não é compatível com esses mods.

Crédito: Felipe Larozza/ VICE

Toda essa mágica é possível graças a placas especiais, feitas exclusivamente para converter o sinal de vídeo de videogames e que são vendidas na internet. "Pra fazer a modificação tem que remover o processador da placa do videogame, o processador que gera o vídeo e colocar essa placa especial no lugar, além de fazer novas conexões", explicou o técnico. "A placa faz um processamento nervoso lá dentro e sai HDMI."

Mexer com uma placa de videogame antigo já exige o máximo de cuidado. Imagina então fazer modificações nela? "Além de ter um conhecimento diferenciado pra fazer modificações desse tipo, tem que ter também aquele carinho, um cuidado, porque um videogame antigo é como se fosse o filho de alguém", comenta Michelin, entre risadas. Sua clientela, afirma, são muitos colecionadores de games retrô ciumentos com suas peças raras.

Crédito: Felipe Larozza/ VICE

Claro que serviços como esse têm seu preço. Felizmente não é nada no nível que Shiryu teve que pagar à Mu para consertar as armaduras. Michelin diz que colocar saída HDMI em um Nintendinho, por exemplo, sai na faixa de R$ 400 a R$ 600 com ele.

Quem tá com um Mega Drive encostado e quer modernizá-lo com saídas de vídeo componente vai gastar cerca de R$ 250, menos do que se fosse comprar o recém-relançado versão da Tectoy e ainda teria uma qualidade de imagem melhor.

Por falar nisso, por mais que Michelin produza verdadeiras mágicas, ele não faz milagre e diz ser impossível modificar o novo Mega Drive da Tectoy para ter uma saída HDMI, algo que muita gente sentiu falta. "Ele tem uma estrutura interna diferente dos antigos e já processa um sinal digital", diz. Ele diz isso com propriedade, já que possui um dos modelos e já abriu pra fuçar. "Pode ser que daqui há algum tempo alguém faça uma dessas placas especiais que suporte, mas acho difícil."

Crédito: Felipe Larozza/ VICE

Além das modificações há outras formas de adaptar as saídas de um console antigo e que não necessitam mexer internamente na placa. Uma delas é o uso de upscaler, um aparelho do tamanho de um decodificador da NET, que pega a saída de vídeo do videogame e converte em HDMI, além de aumentar a resolução da imagem 240p (que era o padrão de antes) para 720p ou 1080p. Só que, nesse método, a qualidade da imagem não chega a ser a mesma de quando o videogame é modificado.

Já para quem tem um Master System e Mega Drive (os originais dos anos 90, não os relançamentos dos anos 2000 da Tectoy), Dreamcast, PlayStation e Sega Saturno, há a possibilidade de usar também um cabo do tipo Scart, que conecta na saída RGB desses consoles e, depois de passar pelo mesmo upscaler, reproduzir uma imagem de qualidade topíssima.

Crédito: Felipe Larozza/ VICE

A bronca em fazer essas outras adaptações está no preço dos equipamentos extras. O upscaler mais famoso e top no mercado, o Framemeister, custa o mesmo valor de um PS4 e Xbox One aqui no Brasil. "O Framemeister seria a Ferrari dos upscalers porque ele foi feito pra processar imagem de videogame, mas têm outros modelos que dá pra achar de valores menores", disse Michelin.

Nos últimos tempos vem aumentando o interesse pela nostalgia nos videogames. Não é à toa que Super Nintendo e Mega Drive estão sendo relançados em pleno 2017. Para aqueles que ainda conseguiram guardar seus videogames velhos de guerra, então, fica a dica de que ainda é possível jogá-los, mesmo na TV de Led de 50 polegadas da sala. É a mágica da tecnologia ajudando a preservar as memórias do passado.