O imensurável legado de Stephen Hawking

Cientistas brasileiros falam da importância do falecido físico para se entender o universo em que vivemos.

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14 Março 2018, 4:22pm

Em 2009, em entrevista à revista britânica New Scientist, o físico britânico Stephen Hawking declarou que não tinha medo de morrer. “Tenho vivido com a perspectiva de uma morte prematura há 49 anos”, explicou ele, portador de esclerose lateral amiotrófica (ELA), doença neurodegenerativa que o obrigou a viver em uma cadeira de rodas desde os 21 anos e a se comunicar por meio de um sintetizador eletrônico desde os 43. Tampouco tinha pressa. “Ainda há muito por fazer”, acrescentou o titular da cadeira de Isaac Newton na Universidade de Cambridge entre 1979 e 2009, quando anunciou sua aposentadoria.

Para Alexandre Cherman, diretor de Astronomia do Planetário do Rio, Stephen Williams Hawking, que morreu ontem aos 76 anos em sua casa em Cambridge, na Inglaterra, deixou de ser apenas um cientista para virar um “astro pop”. “Cientificamente falando, seu maior legado veio de seus trabalhos originais da segunda metade do século passado, sobre o Big Bang e buracos negros, temas fascinantes mesmo para quem não gosta de física, astronomia ou matemática. Socialmente falando, ele nos deixa algo muito maior. Por sua mente brilhante e corpo frágil, virou uma lenda em vida. Um Neymar da física, um John Lennon da astronomia. Vai demorar até encontrarmos outro ‘alimentador científico’ para a sociedade”.

Cherman tem razão. Hawking foi uma espécie de celebridade científica. Escreveu alguns best-sellers – os mais famosos são Uma Breve História do Tempo (1988) e O Universo Numa Casca de Noz (2001) –, participou de inúmeros seriados – de Jornada nas Estrelas a The Big Bang Theory –, gravou participação na faixa Keep Talking, do álbum The Division Bell (1994), do Pink Floyd, e teve sua história contada no filme A Teoria de Tudo (2014), de James Marsh – que valeu um Oscar, um Bafta e um Globo de Ouro para o ator Eddie Redmayne. “Perdemos uma mente bonita, um cientista surpreendente e o homem mais divertido que eu tive o prazer de conhecer”, afirmou o ator britânico, em um comunicado.

Vice-reitora da Universidade Católica da América, em Washington, e pesquisadora do Goddard Space Flight Center (GSPC), um dos mais importantes centros de estudo da Agência Espacial Norte-Americana (NASA), a astrofísica Duília De Mello afirma que o legado deixado por Hawking é “imensurável”. “Vai desde nosso entendimento dos buracos negros até a cosmologia em geral. Não bastasse, ainda inspirou uma geração inteira de jovens com seus livros que traduzem em linguagem acessível os mais complexos conceitos da Física, como singularidades e multiversos, entre outros. Que descanse entre as estrelas!”, falou.

Ao longo da carreira, Stephen Hawking procurou montar os mais complicados quebra-cabeças: da origem do universo à existência de Deus, da vida interplanetária à inteligência artificial. Bem-humorado, admitiu, certa vez, não ter decifrado o maior de todos os enigmas: as mulheres. “Elas são um mistério completo!”, gracejou Hawking, divorciado duas vezes e pai de três filhos. “Foi uma das mentes mais lúcidas e brilhantes do nosso século”, elogia o astrônomo Fernando Roig, do Observatório Nacional. “Não publicou tantos livros quanto Carl Sagan ou Isaac Asimov. Mas os poucos que escreveu eram muito bons”.

Para o físico e astrônomo Marcelo Gleiser, do Dartmouth College (EUA), Stephen Hawking pode ser considerado, depois de Carl Sagan, o cientista que mais popularizou a astronomia. “Seus livros foram traduzidos no mundo inteiro e atraíram dezenas de milhões de leitores, inspirando-os a aprender mais sobre a física e a astronomia. Hawking é um verdadeiro exemplo, não só pela sua incrível criatividade científica, mas pelo seu amor à vida e sua força ao encarar o sofrimento de sua doença”, destaca Gleiser.

Cherman explica que, se Sagan tornou a ciência popular por meio de seu programa de TV, Cosmos, Hawking ajudou a alertar a humanidade para a importância dela. Como se dissesse: “Nossa salvação está aqui!”. “Prefiro classificar Hawking como um conscientizador. Em tempos recentes, falava sobre a importância da exploração espacial, a vida fora da Terra, entre outros assuntos. Até aí, também falo. Eu e a maioria dos cientistas. Mas, como era Stephen Hawking falando, todos escutavam. No meu entendimento, esse é o maior legado que ele deixou”, afirma Cherman.

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