Noisey

Fotos raras da família RZO

Idealizador da revista ‘RAP Brasil’, Alexandre de Maio acompanhou o o rap na Zona Oeste de SP na época da gravação do clássico do RZO, 'Evolução É Uma Coisa'.

por Eduardo Ribeiro
20 Maio 2015, 6:59pm

O RZO situava-se no epicentro da explosão do rap nacional na virada dos anos 2000. Eu poderia meter essa ficha sem peso na consciência de cometer um equívoco histórico. Mas, mesmo assim, fui buscar embasamento com um cara gabaritado a fim de sustentar tal prerrogativa, o Alexandre De Maio. Ele é uma figura ativa de milianos no movimento hip-hop e em causas e projetos sociais, nos quadrinhos, no jornalismo, na ilustração. Entre 1999 e 2009, editou a revista RAP Brasil, acompanhando de perto o período de amadurecimento do nosso rap. "RZO, depois d'Os Racionais, era o grupo de rap mais importante do Brasil", dispara De Maio. "Todas as festas em São Paulo tinham que contar com a presença do RZO, e eles eram bem recebidos em qualquer quebrada por causa de seu espírito de comunhão".

Segundo ele, a banca que dominava a Zona Leste era a turma do Consciência Humana, enquanto na Zona Sul o destaque do momento recaía sobre o Sabotage. Coincidência ou uma daquelas gratas surpresas do cotidiano, é neste exato momento em que o grupo está de volta ao front que o Alexandre me aparece com um bolo de fotos encontradas em meio aos seus pertences. Imagens longe de serem um primor estético, porém ilustrativas da fase em que o RZO se preparava para nos brindar com um clássico instantâneo: o álbum Evolução É uma Coisa. Era o começo de um novo milênio, e quem vinha da periferia não podia deixar para depois.

Esse manifesto tinha sua base, seu corre, seu próprio contexto. Um vislumbre dos bastidores desse panorama todo vocês podem sacar nos cliques que o De Maio compartilhou com a gente e na ideia que troquei com ele. Aqui vai uma primeira seleção das imagens. Dividimos o material em duas partes porque é foto pra caceta. Chega mais:

"Aqui é a famosa laje do Helião. À esquerda, Dina Di, rapper de grande expressão no cenário underground que morreu [por complicações] no parto do seu segundo filho (RIP). Negra Li, no centro Sandrão e DJ Cia, atrás dele DBS e mais uma galera que sempre colava nos ensaios."


Noisey: Conta aí um pouco pra gente sobre o rolê em que essas fotos foram feitas. Qual era o ano, o contexto da parada, e o que estava rolando de relevante na cena nessa época?
Alexandre De Maio: A maioria dessas fotos é de uma época rica do rap brasileiro. Sabotage tinha acabado de lançar seu disco e o RZO lançava seu álbum mais esperado. O grupo era presença obrigatória nas festas de rap que explodiam nas periferias. Eu já tinha alguns anos publicando revistas de rap e criei uma grande amizade com Helião, Sandrão, Sabotage, DJ Cia e toda rapaziada da Zona Oeste, e vivia frequentando a laje do Helião. Muitas fotos são na famosa laje do Helião, era o centro do rap, todo mundo colava lá. Desde o moleque que estava começando até rappers como Mano Brown. O jeito como Helião, Sandrão e a rapaziada te recebiam era um diferencial. Num ambiente violento e dentro de uma realidade em que todos queriam relatar a violência sofrida, o RZO trouxe o conceito de familia, a importância de um ajudar o outro. Apesar de ainda estarem no underground, sempre dividiam o que conquistavam com os manos mais próximos. Além do do Helião e do Sandrão, eles dividiam os holofotes com rappers como DBS, Marron, Negra Li, Dina Di, Calado, Negrutil, enfim, uma infinidade de rappers. E era assim em tudo. Eles iam ser capa da revista e chamaram todo mundo para aparecer nas fotos, não era média, era real. O próprio disco do Sabotage foi isso, em vez de trabalharem no disco do RZO, primeiro fizeram o do Sabotage, que precisava mais. Eles tratavam todos de forma igual e isso me ensinou muito na vida, na revista, e reforçou meu amor pelo verdadeiro rap.

"Sandrão e Sabotage, no cemitério São Paulo, eu acho."


Alguns manos ali nas fotos ascenderam, outros não estão mais no rolê. Tem algumas histórias bonitas, tristes, alegres, engraçadas, não tão engraçadas ou simplesmente curiosas que você se lembra imediatamente ao olhar para elas e que possa compartilhar com os leitores?
São muitas histórias de superação e outras, de decepção, de uma realidade jogada na sua cara que você não sabe muito como lidar. Conquistamos muitas coisas, mas perdemos muitos amigos. Você tem talentos que ali no RZO conquistaram suas primeiras oportunidades, como Negra Li, hoje conhecida nacionalmente; do outro lado tem a Dina Di, uma rapper de letras da qualidade de um Mano Brown, e que acabou morrendo de negligência médica durante o parto da sua segunda filha. Você tem o DBS, que lançou seus discos e hoje faz shows por todo o Brasil; do outro lado tem o rapper Negrutil, uma aposta que acabou morrendo de ataque cardíaco. Vejo as fotos e o sentimento que mais me vem à cabeça era o clima de amizade, o quanto eu me sentia em casa nos ensaios do RZO. Também lembro do clima musical que era a laje do Helião, não só para ensaios do RZO, era para trocar de ideia, me lembro do Sabotage sair do fim da Zona Sul e atravessar a cidade para chegar até lá e falar: "Mano, adoro colar aqui, a gente conversa o dia inteiro sobre música, lá na Zona Sul é só ideia de crime."

"Ainda na laje do Helião, local de ensaio do RZO, de blusa vermelha o rapper Negrutil ao lado da rapper Dina Di, ambos mortos. Ao fundo o rapper Negro Vando."


Qual era o seu envolvimento com a cena hip-hop daqui anos antes de começar sua carreira como jornalista lançando a revista Rap Brasil? E, como foi que rolou essa oportunidade de já chegar botando uma revista de rap nas bancas? Você elaborou o projeto e vendeu a ideia pra editora Escala?
Tudo começou com os quadrinhos. Uma criança foi atingida por uma bala perdida numa rua perto de casa durante uma disputa entre a polícia e as biqueiras. Resolvi fazer uma história em quadrinhos sobre isso, a ideia era o usar lance dos quadrinhos para falar de uma questão real que era a violência. Desenhei essa história da menina e achei que seria legal colocar alguns dados sobre a violência em São Paulo no final dos quadrinhos. Misturar entretenimento, arte e informação. Ao mesmo tempo, já estava crescendo ouvindo Racionais e Sistema Negro nas festinhas do Lauzane, na Zona Norte. Foi aí que pensei na ideia de uma revista chamada Páginas das Ruas, com quadrinhos feitos a partir de letras de rap e com umas dez páginas de matérias no final. Coloquei o projeto em baixo do braço e corri atrás de editoras, tomei muitos nãos, mas a editora Escala, que estava começando na época, fez uma contraproposta: "Por que você não faz uma revista de rap com um encarte de 16 páginas de quadrinhos? ". Em 1999 saiu a primeira edição da revista RAP Brasil e o projeto durou até 2009.

Foto para o disco 'Evolução É uma Coisa'.


Depois da RAP Brasil, você continuou editando outros títulos vinculados à cultura urbana e ao hip-hop. Na cobertura que todos esses veículos fizeram sob o seu comando, rola de elencar os momentos-chave da evolução e firmamento do rap nacional entre 1999 e 2009?

1999 - Momento de divulgação

A missão naquela época era ensinar as pessoas sobre a cultura hip-hop e sua filosofia. A revista era para se chamar Hip Hop Brasil, mas em uma pesquisa na rua descobrimos que ninguém sabia o que era hip-hop. Então mudamos para RAP Brasil, mas na capa colocamos com o mesmo peso os quatro elementos. Era um momento de conscientizar o próprio movimento que o rap fazia parte de uma cultura maior.

2002 - A força

O rap já tinha conquistado uma voz muito forte. E um videoclipe do grupo Facção Central foi censurado, era o rap incomodando a sociedade. A capa com o grupo Facção Central trazia os rappers algemados com seguinte frase: "Pode prender, pode matar, não é assim que a guerra vai acabar". O rap adquiria a consciência da sua força.

2005 - Reflexão

No aniversário de cinco anos da revista, a capa foi o rapper Mano Brown. Até então, suas aparições na mídia eram raras, e na entrevista histórica, ele continuava questionando a ação da polícia; mas enquanto alguns rappers conquistavam a televisão, Brown provava que existia um caminho fora da grande mídia.

2007 - Amadurecimento musical

Fiz uma edição conceitual para mostrar o amadurecimento musical do rap. Na capa, Rappin Hood ao lado de Jorge Ben mostravam que o rap tinha conquistado uma identidade brasileira e o respeito dos maiores músicos do nosso país. Na mesma edição, o documentário Brasilintime reunia DJs e bateristas, gringos e brasileiros, e as matérias falavam sobre quem inventou o rap com samba e quem estava fazendo o Beatchoro e o Bossa RAP.

2009 - Um novo momento

Uma das últimas edições foi com o rapper Sandrão, em carreira solo, fazendo uma conexão com o Japão e mostrando que o rap brasileiro tinha conquistado seu espaço e que agora precisava se reinventar.

"Esse dia foi o ensaio de fotos para capa da revista RAP Brasil, a pauta era então recém-lançado disco Evolução É uma Coisa . Nessa foto, vemos DBS, Sandrão, Negra Li, Dina Di, Negro Vando, DJ Cia, Negrutil, Calado, Helião e mais alguns parceiros da quebrada."


Essas imagens que você desengavetou são daora porque justamente nesse momento o RZO voltou, né? Queria que você comentasse um pouco a importância do grupo para o rap nacional, e qual foi o elemento, ou os elementos, que eles trouxeram para a música e o movimento nesses anos todos.
O RZO é importante porque valoriza o que o rap e a cultura hip-hop tem de mais bacana que é o sentimento de amizade, de família e que juntos somos mais fortes. Acho que foi isso que trouxe o grupo de volta, você pode ficar 20 anos sem ver alguém, mas se a amizade era verdadeira, o sentimento não desaparece, basta um show para voltar.

Como era muita gente para aparecer na foto e não cabia todo mundo na laje do Helião, fomos até uma rua próxima, assim todos poderiam aparecer. Além dos já citados anteriormente, nessa foto temos Julião e, atrás do Sandrão, está o escritor Alessandro Buzo, que no dia tinha saído do Itaim Paulista, no fundo da zona leste, só para participar da sessão.
"Essa foi a minha primeira visita ao RZO, cheguei em Pirituba umas seis da tarde e encontrei ensaiando Sandrão, Helião, Marrom e Negra Li. Isso em 1999. Não existia a laje do Helião, que seria construída no mesmo local. Eles ensaiavam embaixo de uma escada onde não cabíamos nós cinco ao mesmo tempo. Dentro dos dois metros quadrados, uma parte era ocupada pela escada, e não dava nem para ficar em pé. Mas foi nesse pequeno espaço que surgiram grandes clássicos do rap nacional."
"Essa foto foi tirada durante a gravação do filme Antonia, da Tata Amaral, na foto estão Tina, Negra Li, Leilah, Luana, Angélica e Cindy Mendes."
Ensaio para capa da revista RAP Brasil – Helião.
Ensaio para acapa da revista RAP Brasil – Sandrão
Rapper DBS - Ensaio para capa da revista RAP Brasil .
Helião, Sabotage, Sandrão, David do Gueto, no show no Usina durante um festival de rap na antiga casa de shows, no final da Cardeal Arcoverde.


Veja a segunda parte da coleção de fotos do RZO aqui.

Leia mais no Noisey , o canal de música da VICE.
Siga o Noisey no Facebook e Twitter .
Siga a VICE Brasil no Facebook , Twitter, Instagram e YouTube .