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Apps de transporte podem estar te levando à falência

Como a tecnologia "cashless" – quando não manuseamos dinheiro vivo ou cartão – afeta o orçamento sem que a gente "veja".

por Mariana Rodrigues
23 Janeiro 2019, 4:06pm

Foto: Benjamin Thompson via Flickr

A fotógrafa e bancária Danila Carvalho, 25, tomou um baita susto quando abriu sua fatura do cartão de crédito: “Gastei R$ 2.131,00 em Uber em um mês”, conta. Danila tinha usado o aplicativo de transporte privado mais de duas vezes por dia num total de 85 viagens naquele mês, ou seja, em praticamente todos os seus deslocamentos.

Os aplicativos de transporte particular, como Uber, 99 Táxis e Cabify, chamaram atenção a princípio pelo preço. Mas eles também apresentaram e ao mesmo tempo popularizaram a categoria de pagamento “cashless” – na qual não manuseamos dinheiro ou nenhuma representação dele como cartão de crédito ou débito para pagar por um serviço ou produto. É só cadastrar o cartão de crédito no aplicativo e pronto.

Nas lojas Amazon Go – atualmente há nove delas nos Estados Unidos – o consumidor faz um tipo de check-in pelo celular, pega o que quer e sai andando, sem fila e sem caixa. A questão com essa inovação é que não estamos acostumados com essa “mordomia” toda.

Por isso, a nova forma de pagamento bagunça nossa capacidade de saber de cabeça quanto aproximadamente estamos gastando, habilidade que a psicologia econômica chama de contabilidade mental.

A arquivista Gabriela Queiroz, 32, percebeu isso quando as viagens que fazia com os aplicativos de transporte privado começaram a pesar no cartão: “Uso os aplicativos para passeio e para o trabalho. Moro perto do trabalho e são essas corridas curtas que contribuem muito para eu me assustar no final do mês. São corridas de aproximadamente R$ 7 ou R$ 10, aí eu penso ‘ah só R$ 10, vou pegar hoje’, e no final do mês esse monte de R$ 10 acaba virando R$ 150”, disse.

O que falta no caso do pagamento cashless é algum indicativo do dinheiro indo embora, tão presente quando compramos com dinheiro vivo mesmo. A psicanalista Vera Rita de Mello Ferreira, doutora em psicologia econômica, explica o fator inibidor de gastos do dinheiro: “Ninguém gosta de perder nada, é o que chamamos de ‘aversão à perda’. Todo mundo gosta de manter tudo o que tem, seja o tempo, o dinheiro, a beleza, o namorado, tudo o que as pessoas acham que é delas elas querem manter pra sempre. Com o dinheiro é a mesma coisa”.

O cartão de crédito em si já suaviza o aspecto de perda do dinheiro. Ele é mais prático quando elimina a necessidade de fazer contas de total e troco, além de acabar com a necessidade imediata de ter dinheiro para concluir a compra. Por isso ele já impõe certa habilidade para controlar os gastos. Mas, se já estamos acostumados a “passar o cartão”, não passar nada é um desafio extra para a nossa cabeça.

Vale dizer que o aplicativo não é o que faz a gente gastar mais. Na verdade, ele “contribui para perder o controle mais facilmente”, pontuou Vera Rita. “Quando você separa no tempo a ação (compra) do desembolso efetivo, a tendência é sentir menos a dor da separação do dinheiro. Você só vai sentir isso quando o saldo diminuir ao pagar o cartão, ou quando você olhar o seu extrato, no caso de débito.”

Já que a tendência é que as novas formas de pagamento sejam cada vez mais presentes, a dica da especialista para quem está se acostumando com eles é separar os gastos no cartão em categorias. “Por exemplo, você fazer essa conta: tudo o que foi gasto em Uber, e você estabelecer um teto pra esse tipo de gasto.” Essa foi a solução usada pela Danila, depois que gastou mais de R$ 2 mil em um mês: “Antes eu somava quanto tinha [que pagar] por mês em cada cartão de crédito. Depois, passei a fazer a conta por serviço, anotando no papel mesmo, e aí eu comecei a ver o quanto que eu gastava com coisas supérfluas. Consegui ter uma visão bem legal”. Essa visão fez a Danila retomar antigos hábitos: “Eu comecei a tentar voltar a ir pro trabalho de ônibus. Eu ainda não consegui diminuir totalmente, mas pelo menos não estou chegando em valores tão exorbitantes”.

Já para quem tem dificuldade de se controlar financeiramente, Vera Rita recomenda gravar no celular ou escrever o preço da corrida enquanto está esperando o carro chegar, pra depois fazer a soma, fazendo com que isso se torne um hábito. “A ideia é aproximar a ação da consciência. Pessoas mais organizadas vão ter facilidade de fazer isso”, falou. E fica também um desafio, para quem tiver coragem: “Pra quem é completamente desorganizado uma boa ideia é fazer a conta de quanto gastou em um ano, aí pode ser um susto maior que ajuda a cair a ficha”, recomendou a psicanalista.

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