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Há 20 anos, o Racionais uniu todas as quebradas com 'Sobrevivendo no Inferno'

PorPeu AraújoeAmanda Cavalcanti

Em 1997, o grupo paulistano mudou do avesso a MPB e fez Brasil definitivamente perceber que o "rap é o som". Artistas comentam a importância do álbum em suas vidas e obras.

No final dos anos 1990, tinha uma coisa obrigatória na escola em que eu estudei: saber todas as letras do Sobrevivendo no Inferno do Racionais MC's. A parada era tão séria que se alguém passasse a bola pra você de uma letra e você gaguejasse era lona. Tomava uns tapas na cabeça para largar de ser vacilão. Olhando para isso hoje, há exatos 20 anos do lançamento oficial do álbum, alguns podem meter o papo do "que absurdo", "que agressividade". Se pá era mesmo, mas foi o jeito bastante hormonal que encontramos de cultuar uma das maiores obra-primas da música brasileira. Uma arte, que diferentemente do que as rádios nos apresentavam no período pré-internet, falava direto com a gente, citava os bairros que conhecíamos, histórias comuns no cotidiano de qualquer quebrada.

Se eu ouço o beat de "Capítulo 4, Versículo 3" até hoje fecho a cara, fico bicudão — porque é o jeito certo de ouvir — e canto, canto lá no fundo da alma como se os moleques da escola ainda estivessem do meu lado para conferir se eu sei a letra toda ou então eu espero aquela banca de brothers das antigas colando do lado pra gente cantar abraçado como se estivesse num show, naquele pique Wu Tang Clan.

Não sei quantificar quantas vezes eu ouvi um carro rebaixado passar do meu lado com o "Diário de um Detento" no talo e lá dentro dois, três maninhos fechando a cara para a sociedade. Quantas vezes passei em frente ao Carandiru — "apressado, católico" — pensando neste som e nos "cidadãos José" lá dentro. Que inferno, que bagulho pesado, os caras balançando as pernas nas grades, matando o tempo para não morrer lá dentro.

Este disco é um dos mais importantes para as quebradas, para mim, para os meus amigos e para mais milhões de moleques que saíram das bordas para o mundão.

O show de lançamento foi no ginásio do Corinthians, na Zona Leste de São Paulo, depois de o disco já ter estourado nas lojas há quase um mês. Sobrevivendo no Inferno alcançou o disco triplo de diamante com 1,5 milhão de cópias vendidas apesar de ser lançado pela Cosa Nostra, uma gravadora independente e bem de rua.

O álbum ainda tem umas curiosidades meio surreais, tipo ter parado na mão do Papa Francisco. Em 2015, o Haddad, então prefeito de São Paulo, presenteou a Santidade com uma cópia — que anda bem cara — do LP. Se você passar pelo Vaticano e ouvir "Tô Ouvindo Alguém me Chamar" agora já sabe o motivo. Não sei se o papo do prefeitão com o Papa rolou por causa da capa gótica, assinada pelo Marcos Marques, com uma cruz que reproduz uma tatuagem do Mano Brown, mas a questão é que está lá e virou um símbolo tão significativo quanto os versos de "Mágico de Oz".

E assim como eu, abaixo, tem mais um monte de gente que tem algo a dizer sobre os 20 anos do Sobrevivendo no Inferno, o álbum que levou um clipe de muitos minutos à MTV, que apresentou nossos bairros, que falou diretamente com a gente e que nos representou.

Chamamos uma galera do rap tão emocionada quanto eu para falar sobre o disco. Choremos todos:

DJ Nato PK

Lembro que quando saiu o disco eu estava cursando o Senai em São Bernardo do Campo, tinha 16 anos e eu estava no início da discotecagem. Ouvia todo dia. Um ponto importante pra mim, além de todo conteúdo dessa obra, foi o emprego do KL Jay nos scratches com frases, ele era mais um rimando, mas com os toca-discos (a música "Periferia é Periferia" não me deixa mentir), tanto que me roubou mais ainda a brisa ao ver eles executarem no show ao vivo essa música com os scratches. Foi uma forma de conhecer outros raps devido a essas frases, e trago essa ideia comigo até hoje na composição de refrões com meus scratches.

Drik Barbosa

Lembro que meus tios, que eram meus vizinhos na época, estavam ouvindo o disco e fiquei impactada. Aprendi a gostar de rap ouvindo o que eles ouviam e cada música deste disco era tipo um filme, só que eu sabia que eram histórias reais. Muito jovem, eu não sabia ainda explicar de que forma os versos me tocavam. Hoje entendo que é porque tudo o que vi crescendo na quebrada, eles transformaram em música, eles falavam por quem não podia falar, sobre as tretas, a violência, a fé. Da mesma forma, eu procuro falar sobre as minhas vivências nas músicas, as boas e as ruins. Racionais me fez pensar, questionar e me inspira a seguir rimando pelo que acredito.

Nego Gallo

É importante pra caramba, porque mudou naquele momento a forma de se falar, de se escrever e pensar rap no país. É um ícone. É importantíssimo desde a introdução e a forma como ele interpreta aquela oração, por "Qual Mentira Vou Acreditar", uma música importante pra mim, porque dava muitas indicações a um jovem negro de como as coisas aconteciam. Era uma outra forma de se falar. A gente só tem a agradecer pela contribuição que o Racionais deu todos esses anos a essa cultura. É importante reconhecer o processo e seguir aí buscando a fórmula mágica da paz.

Rael

Eu me lembro que começa com "Jorge da Capadócia" e é uma oração que parecia que todo jovem negro de periferia tinha que ouvir. Naquela época, o índice de morte nas periferias estava num nível muito alto, nos eventos de rap que tinham às vezes morria gente, polícia matava na porta do bar ou o próprio segurança da festa, ou tinha treta lá dentro, então aquilo era como uma oração para blindar a gente na rua. Depois vinha "Gênesis" e, na sequência, as estatísticas dos jovens que morriam, no interlúdio do Primo Preto antes da "Capítulo 4, Versículo 3". Só esse começo pra mim mostrou que parecia que o Brown vivia em todas as favelas do Brasil, ele narrou a história de várias quebradas ao mesmo tempo. Embora ele seja do Capão Redondo, parecia que ele estava conectado com todas as favelas e estava falando tudo o que tava acontecendo. Na minha carreira acarretou, porque eu senti a necessidade de também falar sobre essas coisas, preciso também contribuir com o rap de alguma maneira, preciso fazer isso, me envolver nisso. Aí comecei a ir mais em show, me aprofundar mais neste discurso e nessas coisas que ele estava falando. É um disco icônico, clássico e que levou o Racionais para outro nível.

Filipe Ret

Sobrevivendo no Inferno, pra mim, é o álbum número um de relevância no rap nacional. Pra mim ele é a bíblia do rap nacional, o disco mais importante sem sombra de dúvidas. Lembro até hoje da organização das faixas, a terceira faixa ser a faixa mais pesada, que é "Capítulo 4, Versículo 3", que eu tenho certeza que moveu e transformou muita gente do rap. A energia que aquele disco tem é muito forte. "Fórmula Mágica da Paz", que é a faixa 11, tem um tom de final. Toda a estrutura do disco eu tenho na minha cabeça. Talvez tenha sido o primeiro disco que eu ouvi como disco mesmo, escutei todas as faixas, gostava da capa. Tem uma história curiosa desse disco, que é que todos os discos que passavam pela minha mão rachavam, quebravam. Parecia que o disco tinha uma energia tão forte que eu via muita gente com o disco quebrado. Ele quebrava. Eu tenho certeza que a maioria desses MCs que hoje vingaram no rap nacional, a imensa esmagadora maioria, foi transformada pelo Sobrevivendo no Inferno. A energia do Mano Brown e do Edi Rock, os samples que usaram de soul antigo são sensacionais, muito bem feitos. E foram lançados numa época sensacional, com a energia certa. É o disco número um do rap nacional eternamente, na minha visão.

MC Papo

Esse disco foi a explosão! "Diário de um Detento" vencendo prêmio de melhor clipe, "Capítulo 4, Versículo 3" sendo executada ao vivo na MTV no VMB… Eu cresci ouvindo "Fórmula Mágica da Paz" como um mantra. Sem esse disco, com certeza eu não seria o artista que sou hoje.

Eduardo Brechó

Brechó molecote no show do Racionais em 1998. Foto: Keila Marques

Sobrevivendo no Inferno foi um disco que eu esperei ansiosamente. Até então, eu não conhecia essa sensação do que era esperar um disco do Racionais e foi uma sensação que me acompanhou em toda a minha vida adulta. É quase que um motorzinho para me manter vivo e começou neste álbum. Já era um tempo muito longo quatro anos. A gente era fissurado no Raio-X do Brasil. "Fim de Semana no Parque" e "Homem na Estrada" foram as músicas que realmente faziam sentido pra mim e já eram os hinos da minha vida. Eu tive a oportunidade de ir a um show do Racionais antes deles lançarem o Sobrevivendo no Inferno e tive a oportunidade de ver eles cantarem "Capítulo 4, Versículo 3" e "Fórmula Mágica da Paz", isso foi na Zoom, em Ribeirão Preto. Já eram hinos antes de ser lançadas.

Eu lembro de ir na loja do Maninho e Klebinho, que eram dois caras do rap lá em Ribeirão Preto, no dia que chegou o disco e começou a tocar "Fórmula Mágica da Paz" e não era daquele jeito e eu lembro que foi uma decepção muito grande pra gente. Aí o Maninho tentou passar um pano e falou: "ô, veio mais gangsta", só que conceitualmente aquilo ali pra mim não fazia muito sentido.

A gente recortava todas as reportagens que saíam de rap e começou a aparecer muito mais coisas do Racionais. Os nossos ídolos demoravam muito para aparecer na imprensa e isso mudou com o Sobrevivendo no Inferno. É um álbum que tem uma maturidade sobre o que é aquela língua da rua. Mudar de 50 mil manos para um milhão de manos, 10 milhões de manos, a gente sentiu isso no dia a dia.

Quando "Diário de um Detento" estourou naquela coisa de os boys quererem ser malandro ouvindo Racionais ficava aquele ranço, eu me lembro disso, porque é um disco que foi responsável por popularizar o acesso ao Racionais, ele levou para outras camadas da sociedade. Uma mudança de mercado e de comportamento do jovem de classe média, mas o show do Racionais nessa época o bicho ainda pegava demais, era perigoso mesmo. Eu fui no show de lançamento do disco em Ribeirão, em 1998, eu tava lá.

Os mais velhos dizem que "Pânico na Zona Sul" foi um marco para as pessoas entenderem o que elas eram, mas Sobrevivendo no Inferno trazia uma estética muito própria com palavras que só a gente entendia e uma atitude que a gente se reconhecia naquilo.

niLL

Sobrevivendo no Inferno, pra mim, é um manual. É um manual de como ser uma pessoa negra num país racista. É um manual de sobrevivência. Então é um bagulho importante pra caralho. Quando eu ouvi de primeira não tinha muita noção da parada que ele tava visando, ouvia mais por causa das ideias cotidianas. Daí, quando você cresce, você começa a enxergar os problemas reais. Mas é um dos meus discos favoritos. Vai passar mais 20, mais 40, mais 60 anos e nêgo vai estar ouvindo e ainda vai estar fazendo sentido.

Flip

O Sobrevivendo no Inferno eu via muita gente falando, via a capa por aí. Na época, eu vinha bastante pro centro da cidade ir atrás de CD pirata de Playstation e vi numa barraquinha a cinco reais o disco. Eu comprei, e na época eu tava bem punk rock, skatista, hardcore. Vi a capa e achei que viria um disco bem Facção Central. Na hora que eu coloquei pra rodar, que começou "Jorge da Capadócia", fiquei de cara. Já gostei de cara porque é muito música. No meio tem uns rapzão que eu ouvi pra caralho, sei cantar de cabo a rabo todas as letras de todas as faixas. No final, quando ouvi "Fórmula Mágica da Paz", foi outro baque porque ela é muito "musical" também, aquele sample bem arranjado, o Brown numa levada bem funk. Superou minhas expectativas. Eu tava esperando um disco de rap sangrento. E as letras eram bem religiosas. Achei louco, quebrou um paradigma que tinha na minha cabeça. "Diário de um Detento" é uma música que eu ouço até hoje direito porque o jeito que o Brown rima — não só nessa, mas em outras faixas também — eu me inspiro muito. É uma parada simples de pergunta e resposta. Isso dá uma objetividade pra mensagem que você quer passar. O Edi Rock também chegou monstro nesse disco.

Ao mesmo tempo que tem música pesada, depressiva, de storytelling pesado, como "Tô Ouvindo Alguém Me Chamar", tem umas bem descontraídas, como "Qual Mentira Vou Acreditar?". Ela fala de racismo de um jeito descontraído, meio que achando graça. E eu achei isso muito foda. Até hoje isso me inspira. Minha filosofia é essa: o racismo é tão ridículo que em qual mentira vou acreditar?

Eu chapei muito, desde sempre. Perdi o CD pirata e comprei outro, várias vezes. Depois baixei, já tive em fita, de tudo quanto era jeito. Na época eu via muita MTV e gravava os clipes que eu mais gostava pra ver depois. Lembro que saiu um Racionais ao vivo na MTV, e eu gravei e ficava vendo e prestando atenção na postura de palco. Nessa época eu nem pensava em ser rapper, tava na onda punk rock, hardcore, skate, bate-cabeça. Só que eu já tava começando a me inclinar pro rap, e foi da hora eu curtir Racionais e o Sobrevivendo no Inferno sem a pretensão de ser rapper. Hoje em dia tem muito moleque que já começa a ouvir rap e já entra em batalha, já ouve rap com ouvido de rapper. E é diferente.

Resumindo, o Sobrevivendo no Inferno foi importante pra eu ser rapper, é até hoje, me inspiro ainda na forma de escrever do Brown. O disco é importante porque tem a parte bem "música", bem funk, tem a parte muito rap, tem a parte storytelling, tem a parte pesada e depressiva, e tem a parte mais importante, que é a que fala do racismo. Fala de um jeito descontraído, isso era muito foda e é até hoje.

Foto da sessão para a capa do Sobrevivendo e que foi parte da exposição desse ano em homenagem às três décadas do grupo. Foto: Klaus Mitteldorf

Rico Dalasam

"Fórmula Mágica da Paz" foi o som que abriu minha cabeça pras várias fitas. Eu tinha 8 pra 9 anos e nos anos seguintes essa música me acompanhou e coincidia com as coisas que eu começava a viver na pele ali na periferia da Zona Sul e cada quebrada que eu ia nos meus primeiros passeios pela ZS que eram citadas nesse e em outros sons desse disco. Pra mim era como se eu estivesse em Jerusalém, andando nos lugares que Jesus andava. Cabeça de adolescente preto é um filmão!

Ogi

Esse disco do Racionais é o que tem de mais forte na minha memória afetiva. Ele saiu quando eu tinha 17 anos, ali na minha adolescência, e numa época que eu tinha parado de pixar. Voltei a fazer o rolê no ano seguinte, fui viajar pros Estados Unidos e, quando eu voltei, todos os meus camaradas do pixo tavam cantando isso. Principalmente a "Fórmula Mágica da Paz", que começou a circular com outro beat. E isso marcou o rolê. Tanto que todos os caras daquela época da pixação, quando colocam essas músicas, às vezes até choram porque teve uns amigos que morreram nessa época. O Goiabinha sempre escrevia alguma coisa da "Fórmula Mágica da Paz". Tem um vídeo dele escrevendo “só Deus sabe a minha hora”, que é uma frase desse disco.

As músicas que eu piro mais são "Capítulo 4, Versículo 3", que o Primo Preto vem falando dos dados e manda o "aqui quem fala é Primo Preto, mais um sobrevivente." E aí entra o Brown. Mano, tem vários punchline. É foda. Depois tem "Tô Ouvindo Alguém Me Chamar", que é uma puta música foda também. Essas duas me marcaram muito. "Diário de um Detento" também, porque a gente fez muito rolê ali praqueles lados da Zona Norte, Carandiru, eu tinha família que morava lá em Santana, e sempre ficava olhando pra cadeia e imaginando como devia ser foda. É uma coisa bem marcante desse disco. "Qual Mentira Vou Acreditar?" também. Essa música sempre me pegava, porque tinha muito a ver com esse rolê. E "Mágico de Oz", também, do Edi Rock, que é muito foda. E "Fórmula Mágica da Paz". Esse disco é praticamente completo na questão de eu gostar das faixas. Sempre vai ter essa memória afetiva muito forte pra mim. Talvez ele não tenha sido tão importante na minha libertação quanto foi o Holocausto Urbano, mas é o que tem a memória afetiva mais forte, o que eu canto de cabo a rabo todas as letras.

Neto (Síntese)

Sobrevivendo no Inferno foi o beabá da minha vida. Eu conheci tinha uns sete anos de idade, mais ou menos no ano 2000, 2001. Entrou junto com a cultura hip hop na minha vida, pelos meus primos um poucos mais velhos que eu. Eles moravam na rua de cima da minha casa e começaram a colar com uns caras mais velhos, virar mortal, dançar break, ouvir rap. Eu lembro que ia assistir eles dançarem o break deles e ouvirem aquelas músicas, os breakbeat, os raps. E no meio disso chegou na minha mão o Sobrevivendo no Inferno. Piratão, com a capa roxa, não era nem preta. No outro dia, fui comprar o CD na feira na esquina de casa.

O bagulho acompanhou minha vida, foi o que eu aprendi antes de aprender qualquer outra coisa. Foram todas as primeiras letras que eu aprendi a cantar de cor. Fora a moda de viola, os sertanejos do meu pai, e as MPB da minha mãe, o Racionais é a música que eu lembro de ter o primeiro contato. A gente pensava muito no bagulho, tentava imaginar como eram os caras, como eles trocavam ideia, como eles viviam. Isso a gente criança, com oito, dez, doze anos. E a gente vivendo uma realidade parecida, mas sendo uns moleques de interior, vivendo em outro ambiente. Mas com o mesmo sentimento, a mesma energia. Pra época, foi a coisa mais revolucionária que aconteceu. Depois se consolidou muito, terminou de se expandir, de se fazer entender, no Nada Como um Dia. Mas o Sobrevivendo foi a parada mais forte que teve, guiou a minha infância, me fez entender que era o rap que falava sobre a realidade. Era gente sensível levando a vida a sério, vendo todas aquelas mazelas do terceiro mundo. Foi o que me situou, me ajudou a me reconhecer por gente.

Acho que esse disco tem uma importância parecida pra gente da minha geração, que teve o rap passado meio que de família, dos malandros mais velhos da quebrada. Era literalmente a Bíblia. A Bíblia e o revólver. Tudo junto, a igreja de um lado, o bar do outro, e o chão de terra onde o sangue não seca. Eu acho que aquilo foi uma ilustração fiel do cenário que o Brasil passava nos anos 90, e poder ouvir aqui em São José dos Campos, ir crescendo e ir entendendo o que você tá falando naquelas letras que você canta de cor, é uma função de trazer a luz. De fazer você se reconhecer como gente. E de alguém a quem você dá atenção, de quem você confia na narrativa.

Tô aqui na comunidade da Santa Cruz, ouvindo "Fórmula Mágica da Paz", e o bagulho fala com o nosso coração até hoje. Dá um rumo de realidade até hoje em frente a tudo que acontece, frente ao opressor, frente aos nossos iguais. E acima de tudo é a música, a cultura, o balanço, a musicalidade, o jeito de cantar, a emancipação mental. Uma das coisas mais importantes que aconteceu na minha vida foi conhecer o Sobrevivendo no Inferno. O rap nacional em si, a cultura hip hop. Salvando vidas. Salvando mentes.

Delatorvi

Pra mim os 20 anos de Sobrevivendo no Inferno significam um legado. Foi como se fosse um grito de Rosa Parks, do próprio Emmet Till, pra mostrar que apesar de estarmos sendo mortos, estamos vivos. Sobreviver no inferno é algo aparentemente tão controverso mas tão real pra jovens negros periféricos. E pensar que de 97 a 2017, pouca coisa mudou pra gente. E o pouco que mudou foi por merecimento nosso, nunca visão do mérito deles. Deles entenderem o quanto a gente lutou pra sobreviver. "Vários patrícios falam merda, pra todo mundo rir...haha! Pra ver branquinho aplaudir", dá pra refletir vendo os Bruno Fabils e Danilo Gentilis da vida lucrando monetariamente na área do "humor". Esse disco é uma voz contra a normatização do racismo que esses caras perpetuam.

Esse disco mudou vidas, até pra fazer a ponte pro lado mais comercial que seria o Nada Como um Dia após o Outro Dia. Mesmo cantando problemáticas, ele traz vontade de vencê-las.

Os Racionais são referências, e pra mim é o melhor disco da história do rap nacional. Principalmente pela "Capítulo 4, Versículo 3", destaques pros três versos juntos, do Ice Blue, Edi Rock e do Brown. Alternância de flow, ser uma storyteller, e um som tão grande que me agrada de ouvir ainda. Tecnicamente, socialmente e historicamente perfeito. A melhor música do rap nacional.

Juca Guimarães (jornalista)

O disco é revolucionário porque ele mostra um amadurecimento muito forte da banda como grupo — você percebe que eles estão mais unidos, as letras estão mais contundentes. É um grupo que chegou na maturidade, um álbum que tem uma identidade marcada. É um disco que foi feito sem dúvidas, um disco certeiro: pensado, planejado, e executado. Não tem aquele negócio da banda que está a muito tempo junta nem da banda inexperiente; eles eram malandros que já estavam por dentro do que eles queriam. Foi um recado bem claro.

Sobrevivendo no Inferno é uma radiografia, é um raio-x de um momento específico do Brasil e do mundo. 97, 96, final de década. Plano Real tava há uns três anos funcionando, a economia tendo certa melhora mas ainda mostrando muita desigualdade. Uma certa insegurança, uma violência crescente. Isso tudo tá no disco. O disco tem todas essas características que indicam que o inferno existe, que ali tinha um inferno. E eu acho que tudo isso é discutido nas faixas do disco: são 11 faixas que abordam problemas, situações contundentes, e uma rima e uma poesia muito bonitas. De um lado é cruel, mas o jeito que o disco foi composto tem muita beleza, uma lírica ácida e humana que eu gosto bastante.

Eu vi dois grandes shows dessa turnê, um logo depois do lançamento e um mais pra 2001. E é muito legal ver a evolução da banda nesse período, como eles dominaram bem tocar essas músicas ao vivo. É um disco muito bom de estúdio, mas todas as faixas ao vivo ganham um peso, uma cor, uma vibração muito grande. Isso é mérito da banda também. Fazer uma turnê muito boa com um disco muito bom.

Don L

Meu chapa, tenho que dizer é difícil resumir em poucas palavras o que esse disco representa. É difícil falar desse disco sem falar das histórias sobre Racionais de fora dos palcos, que vão muito além das músicas. De como os caras, estando entre os artistas de maior sucesso do país depois desse disco, ainda tinham representantes exclusivos em cada cidade ,que era quem podia falar com Racionais, produzir show dos caras, distribuir o CD deles nas lojas, e que sempre era um cara preto ou morador de favela. De como os caras sempre fundiram a música, o discurso, a vida, e a atitude fora dos palcos. E de como a partir desse disco ficou mais claro que tão importante quanto o que Racionais fez pra ser o que eles são, foi o que eles não fizeram. Os "nãos" inéditos que o Racionais deu pro Brasil branco. Isso foi outra coisa sem precedentes. Sobrevivendo no Inferno os consolidou como os caras que iam suprir uma carência brasileira de um Marcus Garvey, um Malcolm X, um Public Enemy e um 2Pac. Talvez mais do que isso ao mesmo tempo, por terem feito o papel de todos esses caras juntos, levando o movimento negro e a luta de classe pra favela em um nível sem igual. Muito moleque de favela que tem 17 anos hoje em dia, que nem era nascido quando esse disco foi lançado, conhece e muito provavelmente sabe cantar as músicas, que permanecem totalmente atuais e relevantes. Olha, só eu já tô me estendendo aqui e não acho que eu consegui exprimir 10% do que esse disco representa, então vou resumir aqui dizendo o seguinte: eu acredito que esse disco seja a obra mais importante da cultura brasileira, pelo menos no meu tempo de vida.

DJ Marco

Este disco ajudou a elevar a autoestima da juventude afrodescendente brasileira do final dos anos 90. Abriu discussões sobre o problema do racismo covarde que existe no brasileiro. Denunciou o extermínio dos jovens pretos no Brasil causado principalmente pela polícia. Este disco serve de referência e despertou o sonho de ser MC/DJ de vários artistas que estão na ativa hoje. Estabeleceu a indústria hip hop no Brasil, abriu o mercado de vendas para discos, moda e shows. Também incentivou a independência de outros grupos, bandas, músicos.

Diomedes Chinaski

O Sobrevivendo no Inferno representa tudo na minha vida. Eu comecei a escrever rap quando fui na casa do meu primo em João Pessoa e ele tava ouvindo esse disco e o Ao Vivo em João Pessoa do Racionais. Este álbum me mostrou que era possível fazer música sem apenas falar de coisas fúteis, porque o que eu tava acostumado a ouvir em rádio era só música sobre amor, etc. Eu sempre quis compôr, mas não queria escrever sobre aquilo, mas quando ouvi o Sobrevivendo no Inferno percebi que era possível fazer uma música que tivesse análises mais profundas sobre a sociedade. Só que ele é ainda mais importante do que isso: ele é o disco que ensinou sociologia para as periferias do Brasil. Nenhum sociólogo conseguiu fazer isso, nenhum intelectual, ninguém. Não existe nenhum livro de literatura, de sociologia, antropologia ou do caralho que for mais relevante do que o álbum Sobrevivendo no Inferno.

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