Noisey

O tempo espiral de Luiza Lian em 'Oyá Tempo'

Com álbum inspirado na entidade guardiã dos portais do tempo, a cantora une passado, presente e futuro em batidas eletrônicas e temas espirituais.

por Amanda Cavalcanti
09 Agosto 2017, 9:46pm

Luiza Lian nasceu em São Paulo, mas queria ser baiana. A cantora de 26 anos hesitou por alguns segundos quando a perguntei onde ela tinha nascido, mas acabou respondendo que era paulistana. "Eu sempre quero mentir e dizer que sou baiana, mas nunca consigo", disse Luiza, que morou em Trancoso durante toda a primeira infância e voltou para São Paulo no final dos anos 90.

A vontade de omitir sua verdadeira cidade natal não seria perceptível pela trajetória musical de Luiza, que emergiu de uma cena quase estereotipicamente paulistana com seu álbum autointitulado em 2015, lançado pelo selo RISCO e gravado por músicos membros das bandas Charlie e os Marretas e O Terno. Dois anos depois, a cantora reinventou seu trabalho em Oyá Tempo, lançado em março e cujo show completo será apresentado pela primeira vez no Auditório Ibirapuera no sábado (12).

Oyá Tempo é breve em som — as oito faixas, todas com menos de cinco minutos, mal batem juntas a marca dos 25 — mas composto por algumas diferentes facetas: lançado como álbum visual, conta também com um média-metragem (produzido pelo Filmes da Diaba) e um site (feito pelo artista Dedos, ou Rafael Trabasso) para construir sua narrativa. Numa tarde de julho, Luiza recebeu o Noisey na casa dela pra falar sobre o processo de concepção de Oyá Tempo e sua trajetória como artista.

Foto: Larissa Zaidan

A cantora mora na zona oeste paulistana, numa casa grande que divide com amigos. Interrompida algumas vezes pelo miado do gato laranja Pitanga, ela contou que o primeiro vislumbre do disco veio ao final de 2015, quando começou a compôr uma série de poesias sobre a ideia de encosto. "Foi numa época que eu tinha saído do Facebook e estava meio agoniada com essa coisa de internet, essa ultraexposição", conta. "E o encosto é uma espécie de rastro que você deixa, um resíduo que mesmo em vida vai ficando nos outros. Eu sinto que a humanidade está caminhando para a criação desses fantasmas. Um exemplo tosco disso é Facebook de morto. Eram angústias que estavam me atravessando bastante, e isso foi saindo nesses poemas."

Dentro desse conjunto, intitulado "Ensaio Sobre o Encosto", estavam algumas das letras mais etéreas do álbum, como "Tem Luz (Úmido V)" e "Cadeira". Luiza construiu um site para colocar as poesias e, em seguida, teve a ideia de montar uma performance spoken word com os textos. Ao final do processo de construir a apresentação, tinha Oyá Tempo em mãos. "Mas a ideia não era 'vou fazer um disco'. Era 'vou fazer uma performance'. Daí eu acabei fazendo um disco, porque eu gosto muito de fazer disco."

Foto: Larissa Zaidan

Luiza apresentou seus poemas, gravados em áudio, para o amigo Charles Tixier, companheiro de selo e membro das bandas Charlie e os Marretas e Holger. Por cima das bases, Charles construiu batidas novas e usou algumas que já tinha na gaveta. As faixas criadas ficaram com uma estrutura solta. A sonoridade, por sua vez, foi comparada aos mais diferentes estilos musicais internet afora: funk carioca, trip-hop, art pop, vaporwave.

"Achei engraçado, porque muito do que as pessoas falaram que parecia eu nunca tinha ouvido", me contou por telefone Charles, que diz ter se inspirado pelo uso da voz em álbuns como Rodeo, do rapper americano Travis Scott, e nas batidas do produtor britânico Hudson Mohawke. "Ouvindo depois, percebi que eu tentei achar alguma coisa do Brasil. Curto muito hip hop, esses beatzões de trap. Eu gosto muito de música americana, mas tentei não fazer música americana."

Luiza, por sua vez, diz não ter pensado em nenhuma influência em particular. "Não estava pensando num estilo, não estava pensando em um álbum. Estava pensando só em performance, que no fim é a única coisa que eu não fiz [risos]. É louco produzir em cima de uma imagem, uma ideia, e não ter uma pressão do que vai ser", diz.

Oyá Tempo é um ponto fora da curva para Luiza, que, até então, tinha envolvimento com uma MPB "bem paulistana", jazz e blues. Começou a cantar profissionalmente durante o Ensino Médio, com a banda Noite Torta (cujo nome foi tirado de uma música da principal referência da banda, Itamar Assumpção), que fazia versões de Beatles, Caetano Veloso e Clube da Esquina em bares da zona oeste paulistana, como Zé Presidente e Café Aprendiz — nesses espaços, segundo a cantora, formaram-se diversas bandas que hoje compõem o cenário do qual ela faz parte, como O Terno e Garotas Suecas.

Foto: Larissa Zaidan

Quando lançaram o primeiro álbum de composições autorais, o Noite Torta já tinha dez anos de trajetória. "Eu aprendi tudo com esses caras, mas precisava ter um projeto em que eu decidiria, que eu não tinha que negociar", conta Luiza, que se tornou voz do Nuage Jazz assim que deixou a primeira banda. O grupo — formado inicialmente por ela, Charles, Eduardo Camargo e Guilherme Giraldi (fundador do RISCO) e mais tarde integrado por Tim Bernardes e Guilherme Peixe (ambos d'O Terno) — foi o ponto de partida para o lançamento de seu álbum solo de estreia.

Resgatando alguns dos pontos do pai, pai-de-santo de terreiros da tradição do Santo Daime, e algumas das faixas já interpretadas pela mãe, também cantora, ela e os companheiros de banda montaram Luiza Lian, uma mistura de muitos dos estilos de música que Luiza tinha cantado até então — completamente diferente do que viria a ser seu segundo disco.

" Luiza Lian tem a cara de todo mundo. Oyá Tempo tem muito a cara do Charles — acho que foi o trabalho em que ele mais se colocou — mas, ao mesmo tempo, ele tem mais a minha cara e menos a cara de um monte de gente. Me sinto mais livre, mais ainda autoral."

Foto: Larissa Zaidan

O lado mais inédito e latente de Luiza em Oyá é, certamente, a espiritualidade. Em faixas como "Tucum", "Oyá" e "Manada", a cantora evoca a tradição do Santo Daime e da umbanda — das quais participa desde criança, como puxadora dos cantos do terreiro — para construir um entendimento de vingança, verdade e, principalmente, de tempo.

"Existe um tempo que é o tempo narrativo da vida em que você nasce, você cresce, as coisas se deterioram, renovam e morrem. Mas existe um outro tempo, que sempre que você considera seu passado e futuro é como se eles estivessem acontecendo agora, no seu presente. Assim como o seu futuro a partir do seu agora. Isso você pode ver como uma filosofia, como um jeito de olhar pra isso, ou como uma crença do tempo, de que existe uma espécie de portal que liga todos esses tempo", fala Luiza, explicando a entidade que nomeia o disco: " Oyá Tempo é a guardiã desse portal do tempo, na minha visão, que é o tempo espiral: não é nem o tempo horizontal, das narrativas, nem o tempo vertical, de você e seus ancestrais. Eles acontecem numa mesma linha."

Foto: Larissa Zaidan

O tempo espiral de Oyá Tempo está presente em todas as facetas do conjunto de faixas que levou seu nome: na relação da complexa trilha sonora com a simplicidade narrativa do álbum visual, nos mausoléus pixelados do site construído para ele, na mistura dos temas religiosos e beats eletrônicos que se estende pelos 25 minutos de disco e na apresentação ao vivo do projeto, que acontecerá em sua forma completa pela primeira vez neste sábado, no Auditório do Ibirapuera. "O show é uma instalação. Uso uma saia de plástico com umas projeções em cima e algumas televisões", conta.

No começo do mês passado, vi uma versão menor da apresentação no festival MECA e me surpreendi com a recepção que Luiza recebeu. O público, que a acompanhou da dança em "Tucum" às palmas em "Manada", parecia ter comprado o risco que a cantora tomou ao fazer um disco um tanto difícil de classificar. Risco esse que não deixa de ter ligação com o selo que o concebeu: apesar de ser casa para alguns dos velhos conhecidos da cena paulistana, a label continua se aventurando a apostar num esquisitão como Oyá Tempo. Da minha parte, posso dizer que com sucesso.

Enquanto assiste à mudança de direção em sua carreira após o lançamento do álbum, Luiza se recusa a entender sua trajetória como um processo de evolução. "Está tudo no mesmo eixo", explica. "Onde passado, presente e futuro se encontram."