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Tecnologia

A Morte de uma Máquina Sexual Alienígena

A criatividade de muitos artistas vem de seus próprios demônios, mas em nenhum isso aconteceu tão literalmente quanto com H. R. Giger, pintor e escultor surrealista suíço que morreu aos 74 anos, na segunda-feira, devido a lesões sofridas numa queda.

por Claire L. Evans
14 Maio 2014, 6:13pm

A criatividade de muitos artistas vem de seus próprios demônios, mas em nenhum outro isso aconteceu tão literalmente quanto com H. R. Giger, pintor e escultor surrealista suíço que morreu aos 74 anos, na segunda-feira, devido a lesões sofridas em decorrência de uma queda.

Giger deixou para trás um castelo gótico cheio de arte – o Château St. Germain em Gruyères, Suíça, que abriga o Museu H. R. Giger. Mas será lembrado em grande parte por seu trabalho no filme Alien, de Ridley Scott. O alienígena endoparasitoide fálico da franquia foi inspirado em uma pintura de Giger chamada Necronom IV (mostrada acima), que Scott escolheu a dedo por sua mistura particularmente perturbadora de sexo e horror.

O alienígena de Alien, como muitas das criações de Giger, é um amálgama infernal de sexo e morte; uma criatura sem olhos e sem gênero que é igualmente um falo insectoide e uma vagina dentata metálica. Com sua boca dentro da boca, o alienígena evoca um tipo de horror corporal fractal. “Ele poderia facilmente te foder antes de te matar”, explicou o produtor de Alien Ivor Powell, que fez a criatura “ainda mais desconcertante”.

Duna, de Jodorowsky.

Giger foi recomendado a Ridley Scott pelo roteirista de Alien Dan O'Bannon. O'Bannon tinha trabalhado com Giger por quase dois anos na adaptação de Duna do visionário cineasta chileno Alejandro Jodorowsky, que acabou arquivada por Hollywood por estar um século à frente de seu tempo.

Para o Duna de Jodorowsky, Giger foi responsável por tudo que fosse Harkonnen; ele faria o design do planeta Harkonnen, um “planeta [...] dominado pelo mal, um lugar onde a magia negra era praticada, agressões corriam soltas e intemperança e perversões eram a ordem do dia”. O lugar perfeito para as paisagens de horror de Giger – seus desenhos e modelos para Duna continuam entre as grandes visões nunca realizadas da história do cinema.

Suas visões eram tão incisivamente abjetas e repulsivas que é de se surpreender no quanto seu trabalho se infiltrou na cultura popular. Além de trabalhar no vencedor do Oscar Alien, ele fez clipes e a arte de discos para Debbie Harry, Dazing, Dead Kennedys e Celtic Frost, desenhou guitarras elétricas para a Ibanez, publicou dois best-sellers (Necronomicon e Necronomicon II), criou capas luxuriantes para a revista Omni e projetou o interior de três bares temáticos, dois ainda em funcionamento na Suíça. O terceiro, um ponto semioficial em Tóquio, fechou em meados dos anos 1980. William Gibson tuitou ontem que esse “devia ser o bar temático mais legal da história”.

Giger também trabalhou em dois jogos de computador, duas aventuras de apontar e clicar chamadas Dark Seed e Dark Seed II, lançados para Amiga, DOS, Amiga CD32, Macintosh, Sega Saturn e PlayStation. Nos jogos, que eram mesmo aterrorizantes, mas cheios de defeitos, o jogador é Mike Dawson, um homem que acorda de um terrível pesadelo unicamente para descobrir a existência de um universo paralelo chamado “Dark World”, um mundo dominado por macabros alienígenas antigos – uma referência a H. P. Lovecraft, escritor de terror da virada do século, por quem Giger tinha grande admiração.

A ênfase de Giger na fusão fria de corpos humanos e máquinas – ele usava a palavra “biomecânica” para descrever o estilo – foi uma grande influência para escritores de ficção científica cyberpunk dos anos 1980 e 1990, que entendiam (de maneira presciente) que a tecnologia não é distinta da humanidade, mas sim, é algo que é parte de nós, pronta para se meter na carne de nosso cérebro e debaixo de nossa pele a qualquer momento. William Gibson é um admirador direto, colocando referências escondidas ao artista em seus romances: um personagem de Virtual Light tem New York XXIV de Giger tatuada nas costas, prédios japoneses em Idoru são descritos como “Giger-esque”.

Giger sofria de terrores noturnos, uma desordem relativamente rara que causa sensações incontroláveis de pavor durante as primeiras horas no sono REM. Ele começou a pintar no meio dos anos 1960, depois de estudar desenho industrial na Escola de Arte Comercial de Zurique como uma forma de terapia. Os terrores continuaram e, por fim, ele fez as pazes com os pesadelos. “Tenho um sentimento diferente sobre essas coisas”, ele explicou num documentário de 2007 intitulado H. R. Giger's Sanctuary, “caveiras e coisas do tipo são agradáveis para mim”.

Museu Giger.

Esse Giger confortável com o macabro não era surpresa para quem tivesse assistido a uma entrevista com o cara; no documentário recente Jodorowsky's Dune e no tão aguardado box da Antologia Alien em DVD/BluRay, ele aparece exatamente como um esquisitão macabro de outro mundo. Vestido de preto, pálido como um fantasma e sentado em um móvel quitinoso de ébano desenhado por ele mesmo, ele fala com um sotaque suíço estridente que lembra tanto um gênio do mal quanto alguém que respirou um balão de hélio.

A arte de Giger – alimentada por terrores noturnos e colorida pelo aerógrafo de um ser humano singular – atrai as pessoas não por causa de sua estranheza, mas, de alguma forma, apesar disso. Além de genitália insectoide, pistões e falos, esqueletos monstruosos e paisagens góticas tenebrosas, Giger se confundia com algo profundo, um medo primitivo que transcende o gênero. E, sem dúvida, vai transcender a morte também.

Tradução: Marina Schnoor

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