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Como as Spice Girls se apropriaram do 'Girl Power'

A história de como o quinteto feminino inglês se utilizou da mensagem fundada pelo movimento Riot Grrrl e o levou, pela primeira vez, para o mainstream.

por Jenny Stevens
14 Novembro 2016, 12:15pm

Ilustração por Marta Parszeniew.

Eu tinha 11 anos quando ouvi pela primeira vez as Spice Girls gritando sobre girl power. Eu morava num dos municípios mais pobres do Reino Unido, vizinha de gente sem poder, geralmente sem emprego e que acabaria muito prejudicada por 17 anos do partido conservador no poder. Eu idolatrava os caras da escola de artes: Blur, Suede e Pulp. Eu me agarrava ao swag arrogante do Oasis. Era o rock feito por homens que me libertava, não o pop mainstream.

Mas aí o girl power me sacudiu. "O silêncio é de ouro, mas gritar é divertido" era o lema das Spice Girls. "O feminismo precisa de um chute na bunda."

Eu não precisava saber o que era o feminismo. Ali estava um bando de garotas comuns — filhas de limpadores de janela e vendedores de seguros — na TV dizendo que era OK, como garota, fazer barulho, tomar espaço, ser ousada, impetuosa e desbocada e fazer tudo isso ao lado de outras mulheres.

Vinte anos depois me encontro com Geri Halliwell — agora Horner — para falar sobre o slogan que a tornou famosa. Hoje o termo é um dos divisores modernos da história do feminismo. Desprezado academicamente mas adorado pelo público, e, dependendo de onde você ler, o Girl Power pode ser tanto o salvador do feminismo moderno quanto seu leito de morte.

O girl power foi um slogan que despertou milhões de meninas para a ideia básica de igualdade de gênero, ou uma frase de efeito dos caras do marketing, transformando os ganhos políticos do feminismo em consumismo barato?

"Girl power era uma missão", ela diz. "Era tipo 'nos sentimos assim, e achamos que tem uma geração inteira de garotas que se sentem assim também.'"

Mas aquela geração cresceu. E crescemos achando que tínhamos direitos. Nos disseram que poderíamos ter tudo, mas fomos jogados num mundo onde não podemos ter tudo. Não é coincidência que, 20 anos depois que as Spice Girls lançaram seu álbum Spice, o feminismo nunca foi mais defendido, escrutinado, desmontado, vendido por grandes empresas e saudado por embaixadores celebridades. Mas onde o girl power nos deixou? Foi um slogan que despertou milhões de meninas para a ideia básica de igualdade de gênero, ou uma frase de efeito dos caras do marketing, transformando os ganhos políticos do feminismo em consumismo barato?

No final das contas, seria o girl power uma mentira?

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O girl power surgiu em Olympia, Washington, como termo de uma cena punk feminista efervescente que ficaria conhecida como Riot Grrrl. Sua base filosófica estava calcada na ideia de "Revolution Girl Style Now!" — um chamado radical que queria despertar o potencial revolucionário inexplorado das meninas como "uma força que pode, e vai, mudar o mundo de verdade".

O Riot Grrrl se desenvolveu como parte de uma reação contra a faceta cada vez mais misógina da cena punk de DC — em parte um jeito lançar luz sobre os horrores do abuso sexual, mas também mostrar a frustração de ser calada, degradada, vilipendiada e ridicularizada por ser uma garota tentando fazer música.

O Riot Girrrl não tinha líderes, mas a influência do Bikini Kill estava na espinha do movimento. A vocalista Kathleen Hanna lembra a primeira vez em que usou o termo "girl power" no começo dos anos 90, quando ela e a baterista da banda Tobi Vail estavam batizando o segundo fanzine do Bikini Kill. "Tobi e eu estávamos discutindo que palavra parecia totalmente errada junto com 'garota'", ela me disse por e-mail. "E chegamos ao poder."

O trailer de relançamento da primeira demo do Bikini Kill, 'Revolution Girl Style Now!'

O objetivo, me disse Hanna alguns anos atrás, era fazer do feminismo algo que pudesse ser abordado por todas as mulheres — não só universitárias brancas de classe média — numa era onde capas de revista anunciavam a morte do movimento.

"Nos anos 90, havia essa grande resposta negativa contra o feminismo", disse Hanna. "Havia essa crença de que as mulheres já eram iguais. Eu me preocupava com o feminismo. Minha irmã e eu fomos as primeiras pessoas da família a frequentar a faculdade. Parecia muito importante compartilhar o conhecimento que eu estava recebendo na escola com todo mundo — até com pessoas que achavam que o feminismo era ter perna peluda e odiar os homens. Havia o estereótipo de que as feministas não se divertiam."

Logo, o Riot Grrrl atraiu a atenção da mídia mainstream. Depois do primeiro artigo no LA Weekly em julho de 1992, todo mundo queria um pedaço delas — Rolling Stone, New York Times e até a Playboy. Mas apesar da atenção da imprensa ter dado ao movimento um público global, isso também ridicularizou a causa. Em uma entrevista para a Melody Maker, Hanna comparou a atenção que geralmente recebia a ser reduzida a uma Riot Barbie. Outras vezes elas eram mostradas como um coven de bruxas. O jornalista da Pitchfork Matt Kessler lembra dos rumores que ouviu no colegial: "Supostamente, algumas riot grrrls tinha amarrado um garoto numa árvore e 'chupado o pau dele até sangrar'. Essa era a lenda".

O escrutínio intenso era complicado. "As pessoas me diziam 'então, seu pai te estuprou? Por isso você tem tanta raiva?'", me disse Hanna. Como resultado, ela pediu um bloqueio da mídia no movimento em 1992 — uma decisão que parece ridícula agora na era da internet, e que acabaria fazendo o movimento se fragmentar, ainda que o impacto do movimento viveria por muito tempo depois que o Bikini Kill se separou em 1997.

Apesar da atenção da imprensa ter dado ao Riot Girrrl um público global, isso também ridicularizou a causa.

Pergunto a Horner se ela tinha ouvido falar de Hanna e do Riot Grrrl. Ela sorri, faz uma cara confusa, e balança a cabeça. "Não." Então de onde veio o Girl Power? "Da banda Shampoo", ela diz. "Eu vi essas garotas e pensei 'meu deus, isso é muito bom.'"

O Shampoo, de certa maneira, foi meio que a ponte entre o Riot Grrrl e o pop mainstream. Elas se vestiam como um pastiche do rosa-menininha. Usavam camisetas dizendo "tart" e "dolly bird" (uma versão mais SFW de quando Kathleen Hanna rabiscou "slut" numa camiseta). Elas eram selvagens, grossas, agressivas e preguiçosas. Em uma entrevista para a Melody Maker, elas encheram a cara, destruíram um quarto de hotel, jogaram curry na cama e dormiram em cima. Elas eram tudo que disseram que as adolescentes não deveriam ser. A faixa título de seu álbum Girl Power de 1996 começava assim: "I don't wanna be a boy / I wanna be a girl / I wanna play with knives / I wanna play with guns / I wanna smash the place up just for fun".

"Shampoo era um ultraje", diz Peter Levine, editor da revista Top of the Pops na época e que hoje é empresário de bandas como Saturdays. "Fui entrevistá-las em sua casa em Shepherd'd Bush, e elas tinham enchido a cara na noite anterior. Elas eram revoltadas, [o que significava que] elas não eram simpáticas para um público maior", diz.

Horner acha que roubou algo do Shampoo, e do Riot Grrrl? "Acho que fomos influenciadas", ela diz. "Quando compõe, você olha em volta e absorve da vida. É uma questão de passar o bastão." Ela se arrepende? "Era um termo de impacto", diz enquanto dá de ombros. Mas para quem estava envolvido no Riot Grrrl, isso não era simplesmente retransmitir um slogan, mais mercantilizar e cooptar a ideia de seus inquilinos mais radicais — e por dinheiro.

"Elas tinham muito dinheiro por trás delas, as Spice Girls", disse a jornalista musical Sylvia Patterson, que trabalhou na Smash Hits e depois na NME. "O Shampoo começou numa gravadora indie bem pequena [depois assinaram com a EMI], e como elas eram mal-humoradas e miseráveis, não tinha como as pessoas se identificarem com elas mais que com os mortais de costa e o descaramento das Spices."

As Spice Girls apertaram a tecla certa no momento certo. "'Feminismo', na época, era um termo que ninguém estava realmente usando", ela diz. "Isso não estava na atmosfera na época, como palavra – ou como força. Claro, durante o Britpop, você tinha algumas vozes femininas muito kitschy e coloridas. Era um mundo muito dominado pelos homens."

"Entre 1990 e 1996, houve uma calmaria real em se tratando de estrelas mulheres do pop", diz Peter Levine. "Se colocávamos uma mulher na capa da revista Top of Pops, a circulação caía."

A ascensão da cultura lad dos anos 90 (em 1997, a circulação das três principais revistas masculinas "lad", FHM, Loaded e Maxim, era de mais de 1,2 milhão) gerou um pânico moral sobre as chamadas ladettes – mulheres desbocadas que beliscavam a bunda dos homens e faziam piadas sujas como forma de autodeterminação. Se os caras iam agir assim, por que não agir como eles?

"As garotas estavam lá, bebendo tanto quanto os caras, usando tantas drogas quanto eles, se divertindo tanto quanto eles", diz Patterson. "A música dance tinha muito a ver com isso, e o ecstasy. Parecia uma época muito livre, como se pudéssemos fazer qualquer coisa. Achávamos que devíamos curtir a festa tanto quanto os caras – porque, bom, era isso mesmo."

Uma capa da 'FHM' de outubro de 1995.

Horner diz que estava muito presente na cena rave – e que isso influenciou sua visão política. "Vi a primeira mulher ser eleita como primeira-ministra. Ganhei uma bolsa de estudos só para garotas. Depois fui para raves e vi milhares de pessoas de todas as raças, culturas e status se juntarem num campo e dançarem juntas", ela diz. "Quando conheci as outras meninas, eu estava tentando emplacar uma carreira solo, mas, de repente, me ocorreu que havia uma coisa muito poderosa na ideia de 'nós' – quando mulheres, ou pessoas em geral, realmente se apoiavam entre si."

Em 1996, as Spice Girls deram uma entrevista para o Spectator, na qual Horner e Victoria pareceram muito pró-monarquia, antieuropa e pró-Tory. "'Nós Spice Girls somos verdadeiras Thatchers", disse Horner. "Thatcher foi a primeira Spice Girl, a pioneira da nossa ideologia – girl power."

Que Horner tenha saído da iluminação coletiva da cena rave para defender a primeira-ministra da Inglaterra – que, em 11 anos no poder, só promoveu uma mulher em seu gabinete, não se preocupava com trivialidades femininas como direitos maternais, teve de ter o braço torcido para introduzir exames de câncer de mama e afirmou que "não existe essa coisa de sociedade" – parecia, na melhor das hipóteses, ignorante, e na pior, uma traição da sororidade sobre a qual ela gostava tanto de falar.

As Spice Girls não era manufaturáveis, éramos incontroláveis. – Geri Horner

Pergunto se Horner olha para trás agora e se arrepende do que disse, e ela pensa por um longo tempo. "Acho que usá-la foi um ponto sensível", diz. "Porque obviamente ela é como Marmite. Há uma grande polaridade entre as pessoas que gostavam ou não dela por causa do que ela fez como primeira-ministra. Mas para mim, não julgo isso – vamos colocar isso de lado. Para mim, foi ver uma mulher onde nunca tinha havido uma antes – como primeira-ministra. Isso foi grande em si... eu não tinha idade suficiente para entender o que ela estava fazendo e quem ela estava desagradando."

Mas é possível "colocar isso de lado"? Como julgar uma figura política separadamente das políticas dela? "Acho que sempre que há o primeiro de qualquer coisa – seja Obama como o primeiro presidente negro, é sempre uma mudança", ela diz. "Quando você está num clube de garotos e é a única mulher ali, se destacando, não é uma escolha de vida fácil."

As Spice Girls encontram o príncipe Charles em 1997. Foto por John Giles / PA.

De certa maneira, as Spice Girls tinham muito mais em comum com Blair do que com Thatcher. A espinha dorsal acadêmica do blairismo (e, nos EUA, do clintorismo) era uma ideologia conhecida como "Terceira Opção", que visava casar socialismo e neoliberalismo. Em essência: você pode ficar rico, desde que pague impostos para ajudar os que não são. Era uma vertente similar ao mantra do girl power de individualismo e emancipação pessoal combinada à irmandade e amizade. Veja o filme Spice World, por exemplo, no qual a melhor amiga do grupo engravida de um garoto que a deixa assim que vê o positivo no teste de gravidez. As garotas deveriam fazer o maior show da vida delas; em vez disso, estão no hospital apoiado a amiga no parto.

A política feminista estava passando por um rebranding nos anos 90, e o girl power foi integral nisso. "Quando era menina, eu sentia que o movimento feminista era tão extremo que não era algo com que eu podia me identificar, então eu não entendia seu verdadeiro significado", diz Horner. Girl power era algo que podia "falar com todo mundo" – ou seja, "palatável, algo que podia ser traduzido".

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Fora das paradas de sucesso do pop, a repaginada geral das Spice Girls do impulso feminista presente não apenas no Riot Grrrl, mas também na cena do rock alternativo inglês, parecia um passo retrógrado.

"Os anos 90 foi a primeira vez em que vozes femininas alternativas estouraram no mainstream. Do nada, mulheres como eu estavam na capa das revistas", diz Shirley Manson, vocalista do Garbage, cujo single "Stupid Girl" – um ataque mordaz à despolitização e sexualização das mulheres no mundo pop – foi um grande sucesso de 1995. "Todas essas vozes alternativas da perspectiva feminina estavam sendo divulgadas. E isso não era mais só 'aquela mina punk'. Estávamos ouvindo gente como Fiona Apple, Missy Elliot, Lil Kim, Gwen Stefani, Elastica, Hole, Breeders... Parecia que, finalmente, tínhamos aqui mulheres que não estão jogando pelas leis tradicionais estabelecidas para elas, estávamos vencendo, e isso era emocionante."

Ainda assim, as Spice Girls venceram até na chamada imprensa alternativa. Em 1997, a NME colocou a banda na capa. "A NME está aqui, e até eles acham que somos de verdade, porra", gritou Mel B numa sala cheia de jornalistas para aquela edição. "E sim, achamos mesmo", respondeu a revista. "Achamos mesmo."

Shirley Manson. Foto: Yui Mok / PA Archive.

"Sempre odiei o termo girl power", diz Manson. "Sempre achei as Spice Girls detestáveis." Dito isso, ela admite que não era exatamente o público-alvo da banda: "Eu tinha 30 anos quando elas apareceram, acho... [Mas] eu sentia que elas seguiam um roteiro – que eram controladas – por homens que tinham pensado no slogan e juntado essas garotas. Aquilo era fingir ser uma mulher tomando o controle, mas nenhuma delas tomou o controle – elas não estavam compondo, não estavam produzindo, não estavam tocando... Achei aquilo tudo uma farsa."

Mas basta sugerir a Horner que o girl power foi uma construção de gravadora e empresas de marketing, e ela fica visivelmente irritada. "Isso é risível", ela diz. "Não éramos manufaturáveis, éramos incontroláveis."

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Tecnicamente, as Spice Girls foram boladas por uma empresa em 1994, depois de vários testes de elenco. Mas elas eram muito ambiciosas. "[Horner] sabia exatamente o que queria e como a coisa toda ia parecer, provavelmente muito mais do que eu sabia na época", disse o empresário original da banda Chris Herbert. Em 1995, a banda invadiu o escritório de Herbert, roubou as gravações originais de suas músicas e fugiu no carro de Horner. Horner, então, se tornou a empresária da banda por um tempo. Mais tarde, em 1998 – no pico de sua carreira – elas demitiram seu segundo empresário, Simon Fuller. Foi uma ação bem mais convincente e inteligente do que você esperaria das "Pop Tarts" (o termo usado pela Rolling Stone), como elas eram retratadas. Fuller tinha definitivamente ajudado as Spice Girls a enriquecerem. Como o jornalista David Sinclair aponta em seu livro de 1997 sobre a banda, Fuller ajudou as garotas a assinarem com a Pepsi, salgadinho Walkers, desodorante Impulse e o Playstation, e licenciou a imagem delas para tudo que você pode imaginar – de bonecas a jogos de cama e cartões de telefone. "Fizemos muito dinheiro, mas o meu pensamento era 'se posso fazer a Pepsi gastar $40 milhões no que é basicamente um comercial para o meu grupo, aleluia!'", diz Fuller.

As Spice Girls eram detestáveis... Aquilo era fingir ser uma mulher tomando o controle, mas nenhuma delas tomou o controle – elas não estavam compondo, não estavam produzindo, não estavam tocando... Achei aquilo tudo uma farsa. – Shirley Manson

Mas para as riot grrrls que tinham concebido o Girl Power, ver um movimento que tocava em questões pesadas como estupro e violência sexual ser cooptado por lucro foi devastador. Talvez nada resuma mais o sentimento do que a música "#1 Must Have" do Sleater Kinney – cuja banda anterior de Corin Tucker, Heavens to Betsy, era parte do movimento Riot Grrrl. "They took our ideas to their marketing stars / Now I'm spending all my days at girlpower.com / Trying to buy back a little piece of me", ela canta.

"Eu não era a demografia alvo quando as Spice Girls surgiram", diz Lauren Mayberry, vocalista e compositora da banda Chvrches. "Era estranho para mim, agora que sou adulta, ver como algo que poderia ser empoderador e empolgante para meninas ser usado para vender todo tipo de merda."

"Éramos garotas dos anos 90 que tinham crescido sob a influência do dinheiro e produtividade", diz Horner quando pergunto se ela realmente precisava de tanto merchandise. No começo da entrevista, citei uma frase dela do livro Girl Power Spice Girls, onde elas dizem "O feminismo precisa de um chute na bunda". Ela diz que não se lembra. Havia tanta coisa, tantos produtos, que era impossível acompanhar tudo que saía.

Imagino que seria muito diferente entrevistar Horner nos anos 90. Mais arrogância divertida, menos conversa de terapia – "Acho que educação e bondade espiritual são importantes", ela diz; "[Girl Power] era uma mistura de altruísmo e materialismo". Mas a política dela parece ter mudado com os anos. Em 2001, ela apoiou publicamente o Partido Trabalhista.

Ela fala sobre o trabalho depois das Spice Girls, quando se tornou embaixadora da boa vontade da ONU, promovendo direitos reprodutivos das mulheres. "Quando você educa as garotas, você ajuda no controle populacional, você ajuda a economia, você ajuda a saúde das pessoas, tudo começa a prosperar", diz ela.

As Spice Girls no BRITS em 1997. Foto por Fiona Hanson / PA.

Nesse sentido, Horner estava à frente de seu tempo. Hoje vivemos a era de ouro do altruísmo das celebridades. E a liberação feminina é a causa da moda, defendida pelas maiores estrelas do mundo – Beyoncé e Taylor Swift. O Pussy Riot, um coletivo de arte feminista que antigamente receberia o status de bruxas dado ao Riot Grrrl, se tornou celebrado globalmente. O feminismo é vendido de volta para nós em campanhas publicitárias e aparece nas passarelas da Chanel, a iconografia do Bikini Kill foi kibada descaradamente. Até a Barbie entrou nessa. Mas a questão principal que o girl power levantou – se o feminismo pode passar para o mainstream sem que sua mensagem seja dissolvida – nunca foi mais relevante.

"Sempre que me perguntam como descobri as ideias feministas, eu queria ter uma história mais profunda para contar", diz Lauren Mayberry. "Mas a maior parte das coisas que peguei foi da cultura pop." Mayberry hoje é uma ativista veemente contra o sexismo na indústria da música, e comanda um clube noturno e um fanzine inspirados no Riot Grrrl. "Tirar o feminismo dos livros e colocar na vida era, assim com na cultura pop, muito importante", ela disse. "Passamos muito tempo brigando entre nós quando deveríamos olhar para frente e mandar a luta para lá."

É estranho, agora que sou adulta, ver algo que poderia ser empoderador e excitante para meninas ser usado para vender todo tipo de merda. – Lauren Mayberry

Eu estaria mentindo se dissesse que ainda sou uma fã hardcore das Spice Girls. Quando tinha 12 anos, eu já achava a Baby Spice uma infantilização babaca. Mais tarde comecei a ouvir PJ Harvey, Hole e Elastica – cujas letras da vocalista Justine Frischmann sobre transar em carros ("Toda vez que vejo um capô brilhante, penso nas minhas costas nele") pareciam bem mais emancipatórias que o slogan "gritar é divertido!" das Spice Girls.

Ainda assim, nunca me esqueci do girl power. As críticas às Spices Girls são válidas e necessárias, mas o que escapa a elas com frequência é um fato muito simples: o girl power nunca pretendeu ser uma perspectiva feminista acadêmica; nunca quis promover uma visão pós-estruturalista de um futuro utópico onde a hegemonia masculina foi derrubada. Era música pop feita para meninas para inspirá-las a serem confiantes, acreditarem em suas capacidades e apoiarem suas amigas. Era uma ideia simples, fácil de entender e muito básica. E esse era exatamente o objetivo.

Horner se levanta para ir até seu próximo trabalho – uma sessão de fotos para uma campanha publicitária. Eu digo que gosto muito do Instagram dela. Principalmente das fotos de comida. Acho muito inspirador que uma mulher que sofreu de bulimia por grande parte da vida consiga achar prazer na comida de novo. Ela adotou o Instagram faz pouco tempo, ela diz. "As pessoas são todas retocadas e perfeitas. Não entendo isso. Só quero fazer a minha conta mais real, sabe?" Mas acrescenta: "Bom, acho que é uma geração diferente, né?"

Pergunto qual é o verdadeiro legado do Girl Power na opinião dela. "Havia vozes corajosas antes das Spice Girls e vozes corajosas depois de nós", ela diz. "Ouço outras artistas dizendo 'eu ouvia sua música, ouvia sua mensagem, e isso significou alguma coisa para mim', e isso me deixa muito orgulhosa. Mas não são só artistas. São mulheres com as mãos afundadas numa pia de cozinha dizendo 'sua música me ajudou a superar alguma coisa e me fez mudar minha vida'. E isso é tudo que importa."

E por mais brega que pareça, ela tem razão.

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Tradução: Marina Schnoor

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