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A Anabel Hernadez Considera o Governo Mexicano o Maior Cartel de Drogas do Mundo

A jornalista fala sobre a corrupção incorporada no sistema político e sobre o luxo vivido na prisão pelo líder do Cartel de Sinaloa, El Chapo.

por Sam Clements
25 Setembro 2013, 4:35pm

No dia 19 de janeiro de 2001, o chefe do maior cartel de tráfico de drogas do México escapou de uma prisão de segurança máxima. De acordo com a jornalista investigativa Anabel Hernandez, Joaquín “El Chapo” Guzmán, líder do Cartel de Sinaloa, foi escoltado da prisão vestido como um oficial do governo — acompanhado de outros oficiais do governo — até um helicóptero que o tirou dali. O relatório oficial do governo afirma que El Chapo escapou num carrinho de roupas da lavanderia, o que — considerando que ele tem pouco mais de 1,5 metro e se parece mesmo com o Super Mario — parece plausível e ainda assim, pouco provável.

Se o que Hernandez encontrou enquanto pesquisava sobre a fuga de Guzmán é verdade, o episódio foi o auge da corrupção num governo que ajudou os cartéis a tomarem o controle do México por um longo e sangrento período.

Hernandez estava investigando a fuga de El Chapo como parte de sua pesquisa para o livro Narcoland: The Mexican Drug Lords and Their Godfathers (Narcolândia: Os Barões da Droga Mexicanos e seus Padrinhos), que fala sobre os lanços do governo e elite mexicanos com os cartéis de droga do país. No livro, ela afirma que o ex-presidente mexicano Vicente Fox começou a guerra entre os cartéis do México, e que — desde a fuga de El Chapo — o governo continuou a conspirar com o Cartel de Sinaloa, permitindo que a rede de corrupção que faz os cartéis prosperarem continuasse crescendo.

Falamos com a Anabel no começo do ano, depois que outra descoberta levou o Chefe de Polícia mexicano a supostamente instruir seus homens a fazer a jornalista desaparecer. Agora que seu livro foi lançado em inglês, entrei em contato com ela novamente para falar sobre suas descobertas.


O ex-presidente mexicano Vicente Fox. (Foto via)

VICE: Oi, Anabel. Como você descreveria a guerra do governo mexicano contra as drogas?
Anabel Hernandez: Desde os anos 1960, a guerra contra as drogas no México é falsa — na verdade, ela nunca existiu. Nos anos 1960, o governo federal forneceu proteção a todos os cartéis, deixando que eles crescessem e continuassem com seus negócios, desde que pagassem ao governo. E isso não era um suborno, era como um imposto; o governo mexicano usava esse dinheiro em projetos do próprio governo. Então, nos anos 1980 e 1990, cartéis e organizações criminais de médio porte começaram a crescer com o dinheiro da cocaína. O México começou a aumentar a escala da cocaína que vinha da Colômbia e os cartéis colocavam essa droga dentro dos Estados Unidos.

OK, e o que aconteceu depois?
[Os cartéis] disseram: “Bom, não queremos fazer um arranjo com o governo — não gostamos do governo dizendo o que podemos e o que não podemos fazer”. Então, eles passaram a subornar membros do governo, que começou a perder o controle sobre os cartéis. Os cartéis começaram a comprar juízes, congressistas, governadores, chefes de polícia e generais. Eles começaram a criar seu próprio mundo, em seus próprios termos.

Em suas pesquisas, você cruzou com algum acontecimento que resume realmente o grau de corrupção no México?
Em janeiro de 2001, aconteceu uma coisa que mudou o jogo: o governo federal ajudou El Chapo a escapar da cadeia. Desse momento em diante, o governo federal passou a proteger apenas um cartel e lutar contra os outros, e foi quando a guerra entre os cartéis começou. Antes disso, o México era relativamente pacífico. Foi [o então presidente] Vicente Fox que realmente começou a guerra entre os cartéis. O governo dele queria tomar o território do Cartel do Golfo e passá-lo para o Cartel de Sinaloa.

É possível afirmar que Fox sabia dessa corrupção?
Sim. Posso dizer com certeza porque a procuradoria geral tem todos os testemunhos. O governo tinha os testemunhos de que isso estava acontecendo. Ele não pode dizer que é uma surpresa para ele, porque seu procurador geral sabia. Seu governo tinha documentos que provam isso.

Você acha que é possível acabar com a corrupção quando ela está tão incorporada no sistema político?
Bom, o que descobri com minha investigação é que a corrupção no México trabalha de cima para baixo, não o contrário. Se o governo quer mesmo limpar o país, eles precisam prender as pessoas que estão no topo. Temos o chefe de polícia e centenas de policiais abaixo dele. Se ele é honesto, esses policiais serão honestos. Se ele é corrupto, esses policiais serão corruptos. O triste é que todos os envolvidos ganham com a corrupção, então ninguém quer realmente limpar o país.


O cartaz de procurado do DEA para Joaquín “El Chapo” Guzmán.

Historicamente, a CIA também teria ajudado a ascensão dos cartéis mexicanos ao poder?
A Nicarágua começou a se tornar um país comunista no final dos anos 1970, então, o governo Reagan decidiu que não podia deixar isso crescer. Eles já tinham Cuba e não queriam mais tensões, então, pediram dinheiro ao Congresso para fundar um grupo rebelde chamado Contras, para lutar contra o governo comunista na Nicarágua. [Depois que o apoio do Congresso foi removido], a CIA fez um acordo com os barões da droga mexicanos – o governo norte-americano deixaria as portas abertas para que a cocaína pudesse entrar no país, se os cartéis dessem uma parte do dinheiro para apoiar os Contras. Há uma coisa em minha mente sempre me dizendo: “Se o governo norte-americano fez isso uma vez, como ter certeza de que isso não está acontecendo agora?”

Quando El Chapo escapou da prisão, no que as pessoas acreditaram na época — na versão “oficial” de que ele tinha escapado num carrinho de lavanderia?
Quando o presidente e sua esposa receberam a notícia [da fuga], algumas das pessoas que trabalhavam para ele disseram, “Senhor, isso não é possível”. Porque essa prisão tinha sido muito bem construída. Quer dizer, não era brincadeira — era realmente uma prisão de segurança máxima. A prisão tinha sensores mesmo nos carrinhos da lavanderia — a prisão tinha sensores por toda parte — e portas automáticas. Não era possível. Uma pessoa disse para o presidente “Senhor, eu estava envolvido na construção dessa prisão e sei que isso não é possível. Alguém está mentindo para o senhor”. E o presidente disse “Fique calado”.

E o povo mexicano?
Acho que a sociedade realmente acredita que El Chapo escapou num carrinho de lavanderia. Se você perguntar aos mexicanos, claro que eles acreditam na versão oficial. Muitos jornalistas no mundo acreditam e repetem a versão oficial, mas só porque não tiveram acesso aos documentos oficiais que eu tive.

Seu livro descreve o luxo em que El Chapo vive na prisão. Fale mais sobre isso.
Ele recebia dinheiro na prisão para subornar os funcionários da base da hierarquia. Por fim, ele chegou a ter o diretor de Puente Grande [a prisão de segurança máxima] no bolso. No arquivo oficial sobre a fuga, li que o diretor participava das festas que El Chapo organizava dentro da cadeia — festas de Natal que duravam cinco dias. Ele convidava seus familiares, como se estivesse num hotel de luxo. Ele pedia comida de fora, colocava decorações de Natal por toda a prisão, convidava grupos musicais e até ordenou que sua cela fosse pintada de uma cor diferente. Ele realmente podia fazer o que quisesse na cadeia.

Uau. E as prostitutas?
Ele era um homem doente — um viciado em sexo. O diretor deixava prostitutas entrarem na prisão para estar com ele quase o tempo todo, mas se ele precisasse de sexo urgentemente, ele enviava as trabalhadoras do presídio. Ele podia fazer o que quisesse.


Z-40, o líder do Cartel Los Zetas capturado recentemente.

Miguel Ángele Treviño Morales — mais conhecido como Z-40, o líder do Los Zetas — foi capturado recentemente. Isso muda alguma coisa na guerra?
Não muda nada. O Los Zetas tem uma estrutura em que não importa o que acontece com o líder, sempre há alguém para tomar seu lugar. Quando o governo mexicano pegou El Chapo e o colocou na cadeia, eles nunca confiscaram seu dinheiro. Eles nunca fizeram isso — suas propriedades, seu dinheiro — nunca. Então, o que importa ele estar na cadeia se seu dinheiro ainda está dirigindo o cartel?

Verdade. Outros líderes de cartéis já “desapareceram” ou “morreram” antes, supostamente saindo do negócio e se aposentado com suas fortunas. Você acha que El Chapo vai fazer o mesmo em breve?
Bom, acho que, atualmente, o El Chapo é muito importante para o mercado das drogas. Ele é um símbolo do establishment — ele realmente controla o negócio. Ele é importante para o mercado das drogas porque cria confiança para as pessoas envolvidas, para os colombianos que estão produzindo a cocaína. Ele torna o negócio seguro.

OK.
Eu realmente não sei o que vai acontecer, mas tenho certeza de que ninguém quer pegá-lo. Nem o governo mexicano, nem o governo norte-americano. As filhas dele nasceram nos Estados Unidos e as pessoas dizem que ele está com elas na Califórnia agora. Se alguém realmente quer pegá-lo, como ele pode estar em qualquer lugar que quiser?

E você, Anabel? Vai continuar cobrindo a guerra contra as drogas no México?
Acho isso realmente necessário. Agora, no México, há censura — muitos jornalistas e fontes da mídia não querem dizer algumas coisas. A mídia recebe muito dinheiro de propaganda do governo, mas acredito que ainda há muitos jornalistas no México — não só eu — que querem continuar lutando pela liberdade de expressão porque a sociedade precisa de informação. Se a sociedade não sabe a verdade sobre o que está acontecendo, quem vai resolver essa bagunça? Acredito mesmo que a sociedade tem poder suficiente para mudar tudo isso, mas primeiro ela precisa saber o que está acontecendo.

Obrigado, Anabel. Boa sorte.

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