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Tá putinho!? Reclama com o Papa!

A "Semana do Papa" no Rio de Janeiro teve protestos, repressão, passeatas e penetração anal.

por Matias Maxx
31 Julho 2013, 9:00pm

Os últimos sete anos foram marcados por muitos discursos sobre como o governo estava preparando o Rio de Janeiro para sediar os “grandes eventos” que aconteceriam a partir de 2012, que incluem o Rio+20, a Copa do Mundo e das Confederações, as Olimpíadas e a Jornada Mundial da Juventude. Muitas promessas de melhorias na cidade foram feitas, mas o que se viu na prática aconteceu a custo de muita corrupção e mortes, inauguração de várias UPPs, militarização das favelas e hipervalorização dos imóveis e do custo de vida da cidade. O sucesso do filme Tropa de Elite reforçou esse modelo armamentista, e toda a propaganda do governo federal, estadual e municipal (alinhados pela primeira vez em muitos anos) de que o "Brasil está bombando" conseguiram deixar o povo quieto por muito tempo, enquanto Dilma, Cabral e Paes sorriam bonito para as fotos de inauguração de cada UPP ou nas coletivas de imprensa sobre os "grandes eventos". Mas, uma hora o carioca se emputeceu.

Como diz um amigo meu, o Rio de Janeiro é tradição na porrada, e de fato, o Comando Vermelho, a família Gracie e o Caveirão estão aí para provar. O clima de insatisfação começou a crescer ano passado, quando os números de gastos da Copa começaram a aparecer e o povo assistiu à covarde e ilegal desocupação da “Aldeia Maracanã”, uma comunidade indígena que ocupava o antigo Museu do Índio há décadas. Embora tenha sido tombado, ele será demolido para a construção de um estacionamento que faz parte do complexo do novo estádio do Maracanã. Essa ocupação ganhou o reforço de punks, anarquistas, feministas e os mesmos partidos de esquerda de sempre, mas, ainda assim, não teve fôlego para encarar a Tropa de Choque.

Cerca de seis meses depois, quando os protestos convocados pelo MPL em São Paulo colocaram o Brasil em chamas, a galera aproveitou para trazer de volta todas as pautas que incomodam os moradores do Rio: as remoções ilegais, a militarização da policia e, sobretudo, a má gestão da dupla Cabral e Paes, e toda a fortuna gasta nos grandes eventos. Eis que, no meio disso tudo, soma-se mais uma pauta: o desaparecimento do pedreiro Amarildo, morador da Rocinha  que foi levado pela PM para uma averiguação na sede da UPP (o que já é errado, pois esse procedimento deve ser feito numa delegacia) e nunca mais voltou. Questionando sobre imagens das câmeras, a família ouviu uma resposta descarada — o equipamento quebrou justamente na hora em que ele foi liberado. O governador Sergio Cabral demorou dez dias para se pronunciar sobre o tema.

No final de semana passada, o Rio de Janeiro recebeu três milhões de peregrinos de todos os cantos do Brasil e do mundo, sobretudo da América Latina. Ficou impossível circular pela cidade sem esbarrar com grupos de jovens andando de mãos dadas, vestindo camisetas com as cores da bandeira nacional e cantarolando algo sobre Jesus ou Maria. A cidade ficou tão inchada que a prefeitura decretou dois dias de feriado e dois de ponto facultativo. Esses jovens vieram participar da Jornada Mundial da Juventude, uma espécie de Rock in Rio católico só que com muito mais gente e que teve como estrela principal o Papa Francisco I, argentino, franciscano e gente boa — o personagem perfeito para a Igreja Católica tentar recuperar seu rebanho na América Latina, onde as igrejas evangélicas crescem exponencialmente em números de fiéis, cifras e poder político.

O Papa chegou ao Rio às 16h da segunda-feira e, após ser recebido pela presidenta Dilma no aeroporto, seguiu para o centro num carro comum, com a janela aberta. O motorista errou o caminho, foi parar no meio de um engarrafamento e teve o carro cercado por fiéis. Um amigo brincou na internet que estava realizado ali o primeiro milagre de Francisco I, ficar parado no engarrafamento do Rio de janela aberta sem ser assaltado. Chegando ao centro do Rio, ele entrou no Papamóvel aberto e deu um rolé pelo centro, beijou algumas crianças e rumou para o Palácio Guanabara de helicóptero, é claro. O governo não ia permitir que ele visse de perto o megaesquema de segurança de dois mil policiais da PM, Tropa de Choque, Forças Especiais e alguns cachorros para proteger a recepção que custou R$830 mil aos cofres públicos e que contou com vários outros convidados ilustres como Sergio Cabral, Eduardo Paes, Michel Temer, Joaquim Barbosa et caterva.

Uma galera do movimento LGBT encabeçou o ato com beijaços e corinhos do tipo “Ei, polícia, dar o cu é uma delicia!” e “Sexo anal! Derruba o capital”. Mal a galera do Skate da XV pendurou o já clássico boneco de Judas do Sergio Cabral, as bandeiras arco-íris purpurinaram e foram substituídas por bandeiras pretas e vermelhas, além de câmeras, muitas câmeras. Mal a fogueira havia sido acendida, as luzes da rua começaram a oscilar. Normalmente, eles só as apagam na hora do pau, mas, de certo, naquele dia estavam tentando dar uma disfarçada. Mais ou menos às 8h, quando os convidados ilustres já tinham ido embora de helicóptero, começou uma correria. Manifestantes derrubaram a grade que os separava da Polícia, e dois molotovs voaram na direção da PM que respondeu com tiros de borracha, bombas de gás lacrimogêneo e o caminhão-tanque. Várias imagens publicadas na internet levam a crer que essas pessoas que arremessaram os molotovs eram policiais infiltrados. Um vídeo feito pelo morador de um prédio mostra dois caras encapuzados correndo para dentro das linhas da polícia logo no início do confronto.

Durante a parte pacífica do protesto, vários agentes infiltrados já haviam sido identificados e expulsos de volta às linhas da polícia. Fotos publicadas na rede mostravam que os P2s usavam pulseiras pretas para identificarem uns aos outros e, embora tenha assumido o uso de agentes infiltrados, o comandante da polícia negou fortemente que eles teriam atacado seus colegas de farda. O governador tentou tirar o dele da reta, dizendo que não sabia de nada e que quem toma essas decisões é o Secretário de Segurança Pública José Mariano Beltrame.

Quando a treta começou, a maioria dos manifestantes fugiu rumo ao Largo do Machado e à Praça São Salvador, e foram perseguidos pela polícia, que realizava prisões arbitrárias. O fotógrafo Victor F. conta que estava tentando chegar à Rua Farani quando foi abordado, por volta das 20h05, por PMs da Tropa de Choque posicionados na rua Presidente Carlos de Campos.

“Eu não me opus à revista. No momento, eu estava com uma câmera fotográfica na mão, o celular e um iPod que uso para filmagem na outra, e uma mochila contendo um casaco (verde) para chuva, um guarda-chuva, uma mascara de gás, documentos, uma lanterna que uso para iluminar as filmagens e uma bandeira escrito "fora Cabral" que encontrei no chão pelo caminho. Durante a revista os PM questionaram se eu era fotógrafo ou manifestante. Falei que estava fotografando e gravando ao vivo. Um deles já se irritou por eu estar com a bandeira “fora Cabral” e, por isso, concluiu que eu era sim um manifestante. Enquanto meu casaco era inspecionado, um PM começou a mexer na lanterna que estava dentro de minha mochila na hora da abordagem. Ele descobriu duas travas da lanterna e depois acionou um botão na mesma que aciona um choque. Nesse momento, todos se irritaram e falaram que aquilo era uma arma e iriam me deter. Fui de carro para o 10º DP, seguindo para 12ª e, finalmente, parando na 9ª. Não houve agressões por parte da PM, nem fui algemado. Na DP, fiquei até as 23h45, saindo depois de assinar o depoimento, me dispondo de comparecer em juízo. Não houve acusação até o momento, só saberei depois do encontro com o juiz. O que me espanta é que foram usados três carros do choque e um total de dez PMs para me levar para a DP e, chegando lá, fico sabendo que tinham mais dois cinegrafistas detidos.”

Os cinegrafistas a quem Victor se refere eram dois integrantes da autointitulada “Mídia Ninja” [a nova aposta do projeto de poder Fora do Eixo após alguns reveses na área cultural na qual se criaram] que transmitiam a manifestação e, inclusive, sua prisão ao vivo pela internet. O Tenente Daniel Puga abordou o jornalista Felipe Peçanha na escadaria da igreja do Largo do Machado, tomada por manifestantes. Ele o pegou pelo braço e conduziu até o camburão, quando Felipe se deu conta de que estava sendo preso, ainda teve de ouvir algo do tipo “você veio por vontade própria” (na manhã seguinte, pipocaram pela rede links para um dossiê com nome, filiação, endereço e perfil de Facebook do Tenente Puga, que ele acabou por excluir). Pouco depois dessa prisão, o grupo de manifestantes deixou a escadaria e rumou para a 9ª Delegacia Policial, no Catete, uma das mais antigas do Rio de Janeiro, onde havia um total de sete detidos por crimes como desacato, formação de quadrilha, incitação à violência, depredação e porte de explosivo. O advogado André Barros, voluntário da comissão de direitos humanos da OAB conta o que ocorria do lado de dentro da delegacia: “Bom, espalhamos os advogados e cada um ficou com um caso. Com relação ao cara que defendi, primeiro colocaram material explosivo nele, mas conseguimos uma contradição dos policiais. Daí mudaram para formação de quadrilha e aplicaram uma fiança de R$ 1.000. Já tínhamos 500 e a galera fez uma vaquinha de mais 500 na porta da DP, pagamos e tiramos”. Uma manifestante, distraída o suficiente para ir na manifestação sem documento, foi conduzida ao Instituto Felix Pacheco para reconhecimento.

Enquanto advogados, Policia Civil e PMs travavam uma batalha legal do lado de dentro da delegacia, do lado de fora a Choque fazia de tudo para provocar os manifestantes, chegando a usar gás de pimenta contra a multidão duas vezes. O ápice do absurdo foi quando resolveram dar uma geral num grupo de jovens moradores de uma favela próxima que passava pela área e tinha parado para observar a bagunça. Nessa hora, um PM sem noção tentou evitar que eu me aproximasse para filmar. Depois de um breve bate-boca com ele, me reposicionei, continuei fotografando e falei pra um PM que era negro, “Mas que coincidência, essa galera que tá levando geral... São todos negros, né?” e num tom, que não soube se era ironia pra um lado ou pro outro ele responde “Que coincidência...” No final, sobrou apenas um manifestante preso. Bruno Ferreira Telles foi acusado de jogar molotov na polícia, ainda que várias pessoas já tivessem disponibilizado fotos e vídeos mostrando ele no momento em que os molotovs foram arremessados. Enquadraram-no em porte de explosivos, crime inafiançável. Um grupo de umas 30 pessoas rumou até o fórum para tentar pressionar o juiz de plantão. Eram umas quatro da manhã quando fui embora. O habeas corpus para o Bruno responder em liberdade só foi deferido às 16h do dia seguinte, quando ele já havia sido transferido para o complexo penitenciário de Bangu. Por “coincidência” o Bruno é pardo e morador de Duque de Caxias...

Na terça-feira, o Papa foi visitar o Santuário de Aparecida e a guerra foi instaurada na Internet, onde vídeos inocentando o Bruno e acusando os P2s de terem jogado os molotovs não paravam de pipocar. Na quarta-feira, teve a final da Libertadores da América e os cariocas ficaram secando o Galo mas, nos dias seguintes, os principais da Jornada Mundial da Juventude, o bicho voltou a pegar, desta vez sem repressão, pois a PM não ia querer nenhum peregrino atingido por balas de borracha.

Na quinta-feira, pelo menos três eventos convidavam para um protesto em frente à residência do Cabral, no Leblon. Um deles, mais bem-humorado, chamava para uma missa de sétimo dia pelos manequins da Toulon, loja que, uma semana atrás, foi totalmente saqueada e teve seus manequins arremessados a uma grande fogueira enquanto a PM observava de longe sem fazer nada, numa clara intenção de jogar a opinião pública (sobretudo os bem-afortunados e influentes moradores do Leblon) contra os manifestantes. Como era de se esperar, a rua do governador estava novamente fechada, com um forte esquema de segurança. Após uma breve plenária, os manifestantes resolveram abandonar o bairro e marchar até Copacabana para bater de frente com a JMJ que, àquela altura da semana, já estava enchendo o saco de todo mundo. Só para ter uma ideia, além de gerar engarrafamentos homéricos e lotar todos os ônibus disponíveis, na terça-feira, faltou luz no metrô, deixando vários trens lotados parados entre as 17h e 18h. O metrô acabou reabrindo bem mais tarde, deixando todos os trabalhadores e moradores da cidade na maior roubada. Os peregrinos chiaram pouco, afinal passar perrengue faz parte do pacote da JMJ, mas a pergunta que ecoava era “Imagina na Copa!”. Não dá para esperar a mesma reação de um metrô parado cheio de torcedores bêbados correndo o risco de perder o jogo pelo qual pagaram em média R$500 por ingresso...

Voltando à quinta-feira, um grupo Black Bloc de braços dados puxou a marcha rumo à Copacabana, sempre na contramão das vias, enfrentando o trânsito. Pela primeira vez em muito tempo, a marcha foi escoltada por policiais, que não traziam identificações com seus nomes, mas eram identificados por letras e números nos coletes e quepes. Um comandante gente boa, sempre assistido por uma suboficial, esforçava-se para manter a tropa calma e mantinha diálogo constante com os manifestantes. Alguns PMs da Choque, estacionados estrategicamente (como na esquina da casa do Beltrame), faziam suas poses de soldadinho de chumbo, devidamente mascarados e não identificados, mas o foco era a JMJ e o povo passou direto, batucando os ônibus lotados de peregrinos, a maioria chocados ou sem entender nada, e alguns poucos, muito poucos, pegando bem e tirando fotos.

A maioria dos motoristas, talvez temendo que seus ônibus fossem depredados, piscavam a luz interna em solidariedade, o que deixava a galera da JMJ ainda mais confusa. Quando a marcha finalmente chegou ao Leme, o Papa já tinha ido embora e vários policiais cercavam todos os acessos aos palcos do Leme e de Copacabana, daí a galera rumou para a Princesa Isabel e resolveu cruzar o túnel rumo Botafogo, para o Palácio Guanabara. Foi quando o comandante gente boa interviu, dizendo alguma balela do tipo “É proibido fechar um túnel sem autorização prévia, e se vocês tentarem fazer isso não vamos deixar”.  Nesse meio-tempo, a Choque tinha chegado, e ficou o recado de que tomar bombas de gás dentro de um túnel não deve ser uma experiência agradável. Os manifestantes resolveram permanecer ali na Princesa Isabel, fechando os acessos ao túnel, quando rolaram dois dos três incidentes relevantes da noite.

Diferente de todos os 8 km do trajeto, no qual motoristas esperaram pacientemente a marcha passar ou se organizaram para sair de marcha ré, um taxista visivelmente embriagado tentou jogar o carro em cima dos manifestantes e, depois de cercado, inclusive pela polícia, saiu e começou a apontar o dedo na cara de todo mundo, a galera gritava “Bafômetro! Bafômetro” e ficou enchendo o saco do cara por uns dez minutos, até enjoar e finalmente abrir passagem, mas não sem batucar no táxi, que parou e ameaçou sair do carro de novo, mas foi impedido por um PM irritado que gritou pro cara “Mermão, VAZA!!!!”.

Pouco depois, houve outro bloqueio, mais próximo do túnel. Um taxista saiu do carro putaço (e também embriagado), gritando algo do tipo “ninguém vai quebrar meu carro”. Um manifestante que estava mais próximo dele disse “ninguém está aqui pra quebrar o teu carro, relaxa”. Foi quando o sujeito entrou de volta ao carro e sacou uma ferramenta que de longe parecia uma pistola e começou a apontar para a galera, que aí sim, ficou muito puta da vida e obrigou o cara a ir embora de ré (como já tinha feito todo mundo atrás dele), não sem antes detonar todos os faróis traseiros e dianteiros. Dessa vez, a polícia não se meteu.

Por volta de uma da manhã, a galera começou a se dispersar em pequenos grupos, e os carros da Choque começaram a patrulhar o bairro. Receosos de tomar uma geral, um grupo Black Bloc que atravessava o túnel achou legal dispensar seus flagrantes (cabeções de nego e sinalizadores) dentro do túnel. Realmente, o barulho que uma porra dessas faz dentro de um túnel é muito maneiro, mas não foi uma atitude muito esperta, porque fez a PM arremessar a única bomba de gás da noite contra a galera que ainda continuava ali na Princesa Isabel. A maioria, fotógrafos e P2s, os mesmos de segunda que tiveram suas fotos compartilhadas milhares de vezes na rede. Um deles, descarado, tentava passar batido usando uma discreta mochila amarela da JMJ.

Na sexta-feira, foi realizada uma encenação megaproduzida da Via Crucis da Paixão de Cristo por Copacabana, com o Papa assistindo a tudo do palco principal. Nesse dia, a concentração do protesto foi marcada na Praça General Arco-Verde, em Copacabana. O bairro estava completamente fechado, como costuma ser no Réveillon. O metrô só funcionava com bilhetes de hora marcada comprados com antecedência, então, a única opção para a maioria das pessoas era vir a pé desde Botafogo ou Ipanema. Por conta disso, demorou bastante para a manifestação atingir um quórum decente e, finalmente, sair rumo ao palco principal. Eram cerca de 19h40 quando chegamos à Princesa Isabel e rumamos para o palco. Efetivos da polícia e da Força Nacional correram para cercar e fechar os acessos e, por muito, muito pouco, questão de alguns metros ou minutos, os manifestantes não conseguiram se debruçar na grade quando o Papamóvel passou. A galera começou a contornar os bloqueios aos poucos e chegar cada vez mais próxima do palco, quando, por algum motivo qualquer, resolveram prender dois manifestantes, um deles atingido por um taser no rosto. Como era de se esperar, os manifestantes pararam e se agruparam ao redor da polícia, exigindo que eles fossem soltos.

Ficou clara a intenção desesperada da despreparada polícia em frear o avanço dos manifestantes a qualquer custo. Estes, gritavam coisas do tipo “A praia é pública” e “Eu moro aqui, porra!” e trocaram empurrões com os policiais, finalmente chegando na areia. A Força Nacional tentou organizar um cordão de isolamento para cercar a manifestação e tentar empurrá-la para o mar. Mas a galera conseguiu dar um olé neles e logo a linha de frente do Black Bloc estava armada em frente ao palco principal, com a bandeira negra tremulando. Tal como o mar vermelho, uma multidão de peregrinos apavorada abriu o espaço para os manifestantes, que conseguiram chegar bem perto e entrar com seus cartazes e coros de “Fora Cabral” e “Cadê o Amarildo?” nos links que transmitiam o evento ao vivo para vários países. Quando a programação de bandas gospel terminou, a galera se reagrupou na Av. Atlântica e rumou primeiro para a delegacia, para soltar os presos da noite (que acabaram liberados sem acusações), e, de lá, caminharam 11 quilômetros até a Lapa, aonde chegaram em tempo de avacalhar um show do Alexandre Pires (aquele que bebeu e atropelou um cara, lembram?) na Praça dos Arcos para a juventude católica.

No sábado e domingo, a programação da Jornada aconteceria no distante bairro de Guaratiba, na Zona Oeste. Os peregrinos teriam de caminhar 13 km até chegar ao Campus Fidei, uma área enorme cuja construção derrubou 300 árvores em área de preservação ambiental. Por conta das fortes chuvas (mais que esperadas nesta época do ano), a área (que é de mangue) ficou totalmente inundada, inviabilizando a realização da Jornada lá e frustrando seriamente comerciantes e moradores de Guaratiba (uma região bem pobre) que pretendiam lucrar com a JMJ. Para ele, ficou só a promessa do prefeito de que lá será construído um bairro popular, o que, como a gente já sabe é motivo para novas licitações fraudulentas e novos protestos. Os eventos da Jornada em Guaratiba, que incluíam missas rezadas pelo Papa e uma vigília de doze horas, foram transferidos para Copacabana, fato que, certamente, frustrou as Forças Armadas, que montaram um superesquema em Guaratiba que impediria a aproximação de qualquer manifestante mascarado. O Ministério Público suspeita que o terreno de Guaratiba foi aterrado com entulho de obras e lixo hospitalar.

No sábado, aconteceu a Marcha das Vadias em Copacabana, que estava marcada há meses. O trajeto original seria do Posto 5 a Prado Junior mas, por conta da JMJ, foi invertido, do Posto 5 ao 9, em Ipanema. Por volta das 13h, feministas, militantes do movimento LGBT e a galera em geral começaram a se aglomerar numa marcha extremamente colorida e alegórica. Grupos de teatro faziam uma encenação de uma espécie de Via Crucis, que mostravam Maria sofrendo um aborto. Mulheres de peito de fora batucavam versões feministas para os funks da Anitta e um casal de punks completamente nus, salvo por camisetas pretas amarradas na cara e uma imagem de cristo usada pelo homem como tapa-sexo, começaram uma performance na qual quebraram vários crucifixos e imagens religiosas. O ápice da performance foi quando o sujeito faz um quadradinho de oito e foi sodomizado por um crucifixo (de madeira, grosso, daqueles que tem uma imagem de cristo de cerâmica) por sua companheira. A organização da Marcha posteriormente emitiu uma nota reforçando que esta ação não foi programada pela organização do evento.




Depois dessa imagem, que vai ficar para sempre gravada em Full HD na cabeça de todos, absolutamente nada que acontecesse seria mais radical e a Marcha seguiu para Ipanema sem grandes incidentes, inclusive ao passar em frente a uma Igreja na Rua Francisco Otaviano. As vadias realizaram um cordão de isolamento para protegê-la de manifestantes mais exaltadas. Palavras de ordem como “Chupo pau! Chupo buceta! E se for pro inferno, chupo até o do capeta!” se revezavam com “Ei Cabral! Toma da polícia! Porque tomar no cu, eu te garanto, é uma delícia!” e o onipresente “Cadê o Amarildo?”. Finalmente, no Posto 9 começou aquela pajelança, com muita música e vários militantes da Marcha da Maconha se agrupando para um smoke-in. Alguns Black Blocs apareceram e resolveram puxar a Marcha de volta para Copacabana, para enfrentar mais uma vez a JMJ.

Já em Copacabana, a primeira tentativa de tomar a areia foi rapidamente evitada pela Força Nacional, que fez um cordão de isolamento, separando manifestantes de peregrinos. Várias mulheres começaram a peitar a situação literalmente, subindo nos ombros de outros manifestantes e pagando peitinho (ou peitão) pros peregrinos. Logo, a Força Nacional começou a montar uma barreira com grades e aí ficou feio. Duas meninas começaram a disputar uma queda de braço com a Força Nacional tentando empurrar e evitar que colocassem as grades; um soldadinho atacou com gás pimenta e outro jogou areia em minha câmera. Foi quando resolvi passar do jornalismo pra ação direta e convoquei um bonde pra ajudar na queda de braço. Aí a gente teve uma ideia genial: é muito mais fácil puxar a grade do que empurrar. Vários policiais tropeçaram, o que foi bem engraçado e, rapidamente, desmontamos a barreira. Enquanto um grupo batia de frente com a Força Nacional, outros iam contornando a barreira em grupos pequenos e logo o protesto, que começou na Marcha das Vadias, estava dentro do perímetro da JMJ, onde três milhões de peregrinos faziam vigília acampando em absolutamente cada metro quadrado da areia, calçadas e pistas da praia de Copacabana. Mesmo em número expressivamente menor, a Marcha seguiu abrindo caminho pelos peregrinos, que respondiam nossas palavras de ordem com o coro “Esta es la juventud del Papa!”. Salvo um ou outro coroa esquentadinho, a marcha conseguiu chegar ao palco sem problemas.

No domingo, após rezar uma missa, Papa Francisco foi finalmente embora, fazendo um coraçãzinho com as mãos de dentro do avião. Mais um protesto foi convocado, novamente para os arredores da casa do governador Sergio Cabral. Não houve confronto e os manifestantes resolveram acampar lá, repetindo o movimento “Ocupa Cabral”. Até o fechamento desta matéria, manifestantes continuavam por lá. 

Anteriormente no Rio de Janeiro:

Leblon em Chamas