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Testei a última tecnologia em camisinhas e foi surpreendentemente bom

Pela primeira vez em cinquenta anos, mudanças no design e material criam a possibilidade de existir uma camisinha realmente gostosa de usar.
14 Julho 2016, 6:00pm

Foto cortesia de LELO.

Matéria original da VICE US.

Alguns meses atrás, comprei camisinhas pela primeira vez na vida. Depois de meia hora na loja de conveniência, virando caixinhas e apertando os olhos para ler as descrições dos produtos — tomo pílula há anos, então isso é novidade para mim — escolhi a Trojan Pure Ecstasy ("É COMO SE VOCÊ NÃO ESTIVESSE USANDO NADA!", dizia a embalagem). Quando meu marido e eu experimentamos, foi uma decepção. Detestei a sensação do negócio dentro de mim, detestei o cheiro de látex que ficou depois. Meu marido disse que a camisinha estava larga em algumas partes e desconfortavelmente apertada na base do pênis. E como no caso de todos os produtos do tipo que ele já experimentou, a camisinha também entorpeceu suas sensações de prazer.

A experiência só confirmou o que nós dois já sabíamos: sexo com camisinha é tão legal quanto chupar bala com papel. E não somos os únicos; segundo a Pesquisa Nacional de Saúde e Comportamento Sexual de 2010, 1 em 4 coitos vaginais nos EUA envolve camisinha, e aqueles que dizem que a camisinha reduz o prazer tendem a não usar preservativo.

Mas são quase 20 milhões de novos casos de DST por ano nos EUA, e a camisinha é o único método contraceptivo, fora a abstinência, eficiente contra doenças sexualmente transmissíveis. A humanidade já pousou foguetes em plataformas no mar e criou transplantes de pênis, mas ainda não conseguiu fabricar uma camisinha gostosa de usar. Não houve nenhuma grande inovação no design de camisinha desde que a Durex criou o primeiro preservativo autolubrificado em 1957. Mas a mudança está vindo, como mostram as novas tecnologias divulgadas este ano, e há mais opções promissoras no horizonte.

Em novembro de 2013, a Bill and Melinda Gates Foundation distribuiu bolsa de $100 mil para que pesquisadores desenvolvessem uma camisinha melhor. "Preservativos salvam vidas", dizia o comunicado à imprensa, "mas um novo modo de pensar é necessário para garantir que homens e mulheres de todo o mundo usem camisinha sempre e corretamente, tanto para evitar gravidez indesejada como doenças sexualmente transmissíveis".

Depois de estudar 953 inscrições, a fundação concedeu a bolsa para 26 delas. Entre aqueles que receberam o dinheiro está Richard Chartoff, um cientista de polímeros da Oregon State University, que desenvolveu a ideia de camisinhas ultrafinas feitas de polímeros elásticos de poliuretano, que respondem ao calor do corpo e se conformam ao formato do pênis. "É mais forte", ele afirma, "e cerca de 8% da população é alérgica ao látex usado na maioria das camisinhas, então nosso preservativo também é alergênico".

Charles Powell, inventor do protótipo Galactic Cap, está entre as muitas pessoas que não levaram a bolsa. A inspiração para o design dele veio do tratamento pelo qual ele passou depois de sofrer neuropatia motora multifocal. Ele recebia a medicação através de um adesivo na pele aprovado pelo FDA, o Tegaderm, uma ideia que ele implementou no projeto do Galactic Cap. Depois de levantar fundos pelo Indiegogo e de muita tentativa e erro, Powell usou dois pedaços de poliuretano para criar uma capa que, quando colocada na cabeça do pênis, consegue capturar o sêmen liberado.

Powell espera que seu produto seja uma solução para quem não consegue ter prazer no sexo com camisinha. "Alguns homens são obrigados a usar algo que odeiam ou não usar nada — não tem meio termo." E o sexo com o Galactic Cap e tão bom quanto o sexo sem camisinha. Quando eu e meu marido experimentamos, o material era tão fino que mal notamos durante o sexo.

Mas algumas coisas ainda precisam ser melhoradas: mesmo seguindo cuidadosamente as instruções ilustradas, não conseguimos selar completamente a cabeça — algo que meu marido percebeu quando tirou o pênis. Se eu não tivesse um DIU, teria tipo um baita susto com a possibilidade de uma gravidez não planejada. "Um preservativo tem que ser estupidamente simples para que todo mundo possa usar", apontou meu marido.

E isso até ele tentar tirar a capa. "Ela ficou bem presa ali, uma parte bem sensível do corpo. Quase desisti de tirar." No final das contas, a Galactic Cap provavelmente é mais indicada para casais monogâmicos, já que não oferece uma cobertura total do pênis (cobrindo apenas a cabeça); e a embalagem alerta que o produto é apenas para fins contraceptivos.

Para quem procura proteção contra gravidez e DSTs, há a HEX, uma camisinha desenvolvida para a empresa de brinquedos eróticos de luxo LELO, depois que seus clientes pediram um preservativo que tivesse a mesma sensação de cetim na pele que os outros produtos da marca. O design da HEX se originou de um conto de fadas da infância do fundador da empresa, Filip Sedic. "A Filha Sábia do Camponês" conta a história de uma garota que se enrola numa rede de pesca quando o rei a mandar vir a seu castelo "nem nua, nem vestida".

"O design em rede hexagonal é o que mantém a camisinha unida", explica Sedic, "então a maior parte da superfície é fina sem perder a resistência. Mudamos radicalmente a performance do preservativo apenas manipulando sua estrutura."

E de fato, com a HEX, meu marido e eu tivemos a experiência com camisinha mais positiva até agora. O caimento era confortável, com o design hexagonal envolvendo o pênis sem apertar. A sensação local era menos embotada que o normal, já que essa é camisinha tradicional mais fina que já usamos. (Com 0.055mm, a HEX ainda é mais grossa que outras opções do mercado, mas os preservativos superfinos se mostraram muito apertados e enrolava antes de conseguirmos continuar.)

E tem mais: este ano, a myONE Perfect Fit da ONE Condoms vai trazer 56 tamanhos diferentes de preservativos para o mercado, permitindo que os homens usem um kit (veja abaixo) para medir o pênis e determinar qual o melhor tamanho para cada um. "A maioria das reclamações dos usuários de preservativos está relacionada ao caimento", afirma Jared Maraio, diretor sênior de estratégia de marca para a ONE Condoms. "Isso vai resolver vários problemas para um grande número de pessoas."

Maraio também explicou que antes não havia padrões de teste para camisinhas significantemente menores ou maiores do que as que existem hoje no mercado, já que os preservativos só são testados para verificar quanto ar conseguem conter antes de estourar. Esses padrões tiveram que ser desenvolvidos antes que as camisinhas ONE pudessem ser liberadas para a venda nos EUA.

Operações menores têm mais dificuldade para conseguir aprovação do governo: Chartoff, que recebeu a bolsa Gates, diz que sua equipe espera encontrar um patrocinador para passar pelo processo de aprovação do FDA, já que o dinheiro da bolsa "não é suficiente para implementar um produto comercial". Segundo o oficial sênior do programa da Gates Foundation, Papa Salif Sow, a bolsa é a primeira fase de uma iniciativa em que os participantes que fizerem o maior progresso serão convidados a se inscrever numa bolsa de $1 milhão.

Essa bolsa maior já foi dada a duas equipes: a de Ron Frezieres, diretor do California Family Health Council, que está desenvolvendo uma camisinha de polietileno, e a de Lakshminarayanan Ragupathy, um pesquisador da empresa indiana HLL Lifecare Ltd., que está incorporando grafeno aos preservativos de látex natural já existentes. Os dois projetos devem seguir adiante nos próximos dois anos.

Mas por enquanto, Sedic diz que é ridículo que os consumidores de preservativos ainda sejam obrigados a escolher entre prazer e segurança, e ele espera preencher esse vácuo imediatamente. "Você não sai de casa sem sapato", ele diz. "Então por que transaria sem camisinha?"

Tradução: Marina Schnoor

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