Como fazer o poliamor dar certo?

Um debate sobre o estado atual do sexo, amor, e os modelos de comprometimento — os que seguimos e os que queremos destruir.

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28 Abril 2016, 10:00pm

Colagem por Zoe Ligon.

Colagem por Zoe Ligon.

Matéria original da edição de abril da revista VICE.

A monogamia não morreu, e o poliamor está mais vivo que nunca. Este ano, o OkCupid criou uma opção para casais que estão procurando alguém; a atriz e comediante Mo'Nique está fazendo um podcast para falar sobre seu casamento aberto; e o Showtime fez um reality chamado Polyamory: Married & Dating. Quando o assunto é "relacionamento aberto", essas mesmas relações se metamorfoseiam de sistemas para espaços, e neles devemos criar e saber navegar.

Para a primeira The Talk, uma nova coluna em que eu junto de um pequeno grupo de pessoas para discutir o estado atual do sexo e relacionamentos, falamos sobre modelos de comprometimento — os que seguimos e os que queremos destruir.

Me encontrei com três amigos para explorar como as pessoas em estruturas de relacionamento diferentes fazem o esquema funcionar. O escritor e editor David Velasco, a ensaísta Charlotte Shane e a poeta e assistente social Jasmine Gibson exploram e evoluem em seus relacionamentos monogâmicos e abertos. Para nossa conversa, usamos um modelo testado e aprovado: no brunch, com todo mundo sendo sincero.

David Velasco: O vocabulário para esse tipo de coisa é sempre tão difícil para mim. Mesmo o termo "relacionamento" parece inadequado — como se "meu relacionamento" fosse o único que tive, ou como se os outros relacionamentos da minha vida fossem menores.

Estou com um dos meus parceiros há 12 anos. Desde o início, sempre fomos abertos; não gostamos de nos chamar de "namorados". Achamos que somos duas pessoas que se amam e gostam da companhia um do outro. Temos outros parceiros com quem estamos há vários anos. Entender como definir isso tem sido um processo interessante. Relacionado com essa ideia de "modelos de relacionamento", pessoalmente, não quero definir um.

Ana Cecilia Alvarez: "Modelo" é uma palavra divertida nesse sentido; implica um sistema mas também algo para as pessoas emularem, algo a ser seguido.

Velasco: Tem um livro muito útil para tudo isso. Cresci em Portland, Oregon, nos anos 90 — o paraíso para um jovem queer tentando entender a vida. Lá encontrei esse livro excepcional chamado The Ethical Slut. Um dos meus parceiros baixou o audiolivro. As autoras, Dossie Easton e Janet W. Hardy narram. As vozes delas são suaves e terapêuticas, e elas descrevem todas as possibilidades e potenciais sem julgar e têm ótimas técnicas para negociar conflito. Uma das minhas favoritas é praticar tendo discussões com seu parceiro regularmente. Vocês simplesmente gritam um com o outro falando qualquer besteira, para tirar isso dos seus sistemas.

Charlotte Shane: Isso também funcionaria com conversas de sexo! No momento, estou num relacionamento que, pelo que sei, é monogâmico. E isso é meio novo para mim, porque lembro que quando era garota não entendia essas ideias sobre pureza sexual. Você não quer que seu parceiro seja bom de sexo, e isso só vai acontecer com experiência não é? Eu queria que em nossa cultura — e isso pode estar mudando de qualquer maneira — o padrão fosse relacionamentos abertos, e a monogamia fosse a exceção.

Acho que muitos relacionamentos são supostamente monogâmicos mas com vários casos. Na maioria dos relacionamentos abertos, parece que os participantes não entendem tanto o sexo como um comentário sobre a qualidade de sua união, do mesmo jeito que relacionamentos monogâmicos fazem. Mas a coisa com os casos, o que acho que é mais prejudicial no final das contas, é a desonestidade e o elemento de independência.

Jasmine Gibson: Estive num relacionamento monogâmico antes da faculdade, e não funcionou. Quando as pessoas me perguntam como um relacionamento aberto funciona, eles dizem "Deve ser tão difícil", ou o oposto, "Aí ninguém fica bravo". As pessoas ainda podem trair num relacionamento aberto.

Alvarez: As pessoas supõem que num relacionamento aberto há muito mais conflito ou nenhum.

Gibson: Relacionamento aberto não é mais difícil que qualquer outro modelo de relacionamento — ou mais fácil. Ainda há políticas que você tem que acatar.

Alvarez: Estou num relacionamento aberto, mas não sei até que ponto meu parceiro e eu determinamos que não podemos ser monogâmicos. Estamos abertos a tentar a monogamia algum dia.

Gibson: Acho que relacionamentos são fluídos e temporários. Eles podem terminar, embalar ou se transformar em outra coisa. Houve períodos em que meu parceiro e eu só queríamos sair um com o outro, e outros em que estávamos com outras pessoas. Foi quando começamos a criar fronteiras que tivemos problemas. "Nós" é uma coisa estranha, fluída e elástica. Isso me dá paz de espírito.

Velasco: Já tive conversas sobre monogamia e se seria interessante tentar isso por um tempo. Tem algo de erótico nesse arranjo.

Gibson: Acho que monogamia é erótico do mesmo jeito que erotizamos o cowboy solitário, esse símbolo da excepcionalidade dos EUA. Essa ideia de que há apenas uma pessoa que responde a todas as nossas necessidades, que só há uma pessoa forte o suficiente para preencher todos os nossos desejos. É tão erótico porque é sombrio. Monogamia mostra como pensamos sobre produtividade. Ela supõe que só podemos ser produtivos com uma pessoa. Já me perguntaram como consigo fazer as coisas — escrever e frequentar as aulas — se estou sempre transando. As pessoas se surpreendem que posso ser produtiva e que qualquer coisa de valor possa sair de um relacionamento assim.

Velasco: E quanto aos prazeres do ciúme?

Alvarez: Detesto admitir, mas me sinto motivada com outras pessoas estando com meu parceiro.

Velasco: O que torna admitir isso desconfortável?

Alvarez: Num relacionamento aberto, tenho que aceitar meu eu verdadeiro versus meu eu ideal. Meu eu ideal é tranquilo, confiante e curioso — não controlador, mas empático — encorajador, profundamente seguro e satisfeito. Meu eu verdadeiro é inseguro, medroso e malcriado.

Shane: Entendo o que você diz sobre o seu eu ideal intelectualmente maduro, e seu eu real emocional. Há uma mistura muito potente de medo e insegurança que pode ser muito broxante. Mesmo sendo monogâmica, ainda me machuco da mesma maneira que fazia quando estava num relacionamento aberto. Ainda faço meu namorado me contar tudo sobre seus relacionamentos passados e depois me sinto mal.

Gibson: Meu ex foi casado, e eu disse para ele "Preciso saber tudo sobre essa mulher!"

Alvarez: Para mim, eles parecem estranhos íntimos. Temos algo similar porque a mesma pessoa se apaixonou por nós dois. Minha única ideia de arte performática é convidar todo mundo com quem já transei, colocá-los numa sala e deixá-los lá.

Velasco: Acho que já estive nessa sala! Um dos meus parceiros — odeio a palavra "parceiro" — prefiro "amante". Uma das pessoas por quem estou apaixonado, uma pessoa anterior por quem ele estava apaixonado é um grande amigo nosso. Uma vez, fomos os três para a Argentina. No avião, teve um incidente em que essa família — um homem uma mulher e o filho — queria sentar junto, e alguém de fora estava enchendo o saco para tentar fazer a gente trocar de lugar. A pessoa estava argumentando enfaticamente "Eles são uma família". E o ex-amante do meu amante respondeu "Nós também somos uma família!"

Todos: Awwww!

Velasco: Nunca transei com ele; não é esse tipo de coisa. Mas se tenho uma ideia do mundo em que gostaria de viver, isso incluiria a ideia mais expansiva possível de família.

Alvarez: Isso me faz pensar em ter filhos em parceria ou fantasias sobre morar em espaços comunais onde todo mundo come todo mundo.

Gibson: Meu parceiro e nossos dois amantes já conversamos alegremente sobre morar juntos numa mesma casa e ter um bebê em parceria. Achamos que essa é a melhor maneira de criar uma criança — tendo relacionamentos saudáveis com adultos, onde a mamãe e o papai importam menos que o amor que a criança recebe.

Velasco: Um dos meus amantes vive no mesmo prédio que eu, mas em outro andar, e os outros moram à distância de uma volta de bicicleta. Adoro a ideia de morar num espaço comunal — a ideia de estar próximo de todo mundo que amo, amigos, amantes e tudo que estiver no meio disso. Agora que estou ficando mais velho, a questão de filhos vem surgindo mais. Não consigo imaginar uma negociação mais complicada. Já acho relacionamentos tão complicados. Mas filhos são uma complicação de outro nível.

Alvarez: É engraçado. Não tenho nenhuma fantasia de procriação, mas se estivesse interessada em imaginar novas maneiras de pessoas se relacionarem e cuidarem umas das outras, por que eu não ia querer ser mãe? Mas concordo, essas coisas de relacionamento são fichinha perto de ter filhos.


Tradução: Marina Schnoor

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