Um dia com os racistas do século 21 da Carolina do Sul
Todas as fotos por T.J. Kirkpatrick.
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Um dia com os racistas do século 21 da Carolina do Sul

Na cidade de Laurens, nos EUA, há uma crença generalizada de que qualquer preconceito mais contido que cães rosnando, cruzes pegando fogo e cartazes de “Apenas Brancos” não é racismo.
26 Fevereiro 2016, 7:11pm

A noite começa a cair em Laurens, na Carolina do Sul, nos Estados Unidos, alguns dias antes das primárias presidenciais do Partido Republicano. Estou no Capitol Theatre and Cafe com o representante estadual do Condado de Laurens, Michael Pitts. Ele é um republicano que em certos momentos soa como paródia. No mês passado, propôs uma lei para criar um registro de "jornalistas responsáveis" apenas para provar um ponto sobre a cobertura da mídia na questão do acesso a armas.

Ano passado, depois que o nacionalista Dylann Roof matou nove pessoas numa igreja negra em Charleston, Pitts propôs 54 emendas para bloquear a lei que removeria a bandeira confederada da Câmara Estadual da Carolina do Sul. Não funcionou. A bandeira foi baixada. Agora estou aqui para falar com ele.

Ao vivo, Pitt é generoso, prestativo e vigilante num estilo paternalista. Ele está usando suspensórios prateados e uma gravata vermelha. O rosto dele, careca e com um bigodão branco, é do tipo que você espera ver numa moeda.

"Você me lembra um colega do serviço militar", ele me diz, trabalhando um pedaço de bolo veludo vermelho com uma estratégia precisa. "Ele parecia muito com você. Mais baixo. Um cigano de Nova Jersey. Eu o chamava de rato porque ele era muito pequeno. Ele era um cara legal. Um cara muito legal."

Digo a ele que acho que a bandeira confederada simboliza um período de brutalidade, racismo e destruição. "Foi difícil para os brancos pobres também", diz Pitts. Digo que não acho que as experiências podem ser comparadas. "Mas foi durante a Reconstrução", ele diz. "É só estudar um pouco de história. A Reconstrução em si foi tipo um 'toma essa' para os sulistas. Se você não acredita, veja por que o Sul se tornou o Sul Democrático."

Mais tarde, Pitts e eu andamos até a praça da cidade. Não tenho certeza se posso conciliar minha objeção categórica a cada uma das ideologias políticas dele. Às vezes me vejo hipnotizado pelas sílabas longas que ele usa quando lista os prédios locais e os nomes de seus donos, as famílias dos donos e o que essas famílias gostam de cozinhar. Muitas das histórias dele terminam com "a propósito", o que me faz estremecer. Há muitos racistas "a propósito" na cidade.

A cidade foi batizada em homenagem ao traficante de escravos do século 18 Henry Laurens, um político da Guerra Revolucionária e sócio de uma das maiores casas de tráfico negreiro da América do Norte. Em 1776, Laurens escreveu uma carta particular sobre "a queda abjeta na escravidão dos nossos negros". Seu filho, John, pediu a ele que libertasse seus escravos. E Henry libertou – um deles seu servo pessoal, George. Seus outros 260 escravos continuaram onde estavam. Durante a Reconstrução, o condado de Laurens, como a maioria do Upcountry, foi um ponto de atividade da Ku Klux Klan visando impedir o voto negro, e a cidade continuou sendo foco de nacionalismo branco nos séculos seguintes.

Pitts me leva até um prédio abandonado, fechado com placas de madeira. O lugar já foi um cinema – "Dei meu primeiro beijo nesse cinema", diz Pitts. Nos anos 90, um klansman local transformou o lugar na Redneck Shop, onde vendia bonequinhos da KKK, adesivos "David Duke para Presidente" e fotos de cruzes em chamas.

"Eu usava uma bandeira confederada na escola. Eu jogava futebol com os garotos negros, bebia com eles quando conseguíamos arranjar alguma coisa. Ninguém via problema nisso", me diz Pitts, olhando para o prédio que já hospedou reuniões de supremacistas brancos e neonazistas. Não entendo muito bem o carinho dele pelo lugar, e ele não parece muito preocupado em me fazer entender.

A Redneck Shop fechou em 2012; não vejo mais túnicas brancas em Laurens agora. Mas existe a crença aqui – uma crença perigosa e generalizada, acho – que qualquer preconceito mais contido que cães rosnando, cruzes pegando fogo e cartazes de "Apenas Brancos" não é racismo, e sim algo entranhado numa cultura perdida, algo que não é malicioso ou ativo mas embutido, secreto e, portanto, perdoável. Uma crença de que se a história da escravidão está emaranhada com uma ideia excêntrica de tempo e espaço, devemos desculpar toda crueldade que vem com isso.

A vitória decisiva de Donald Trump sábado passado nas primárias da Carolina do Sul parece amplificar esse racismo pouco disfarçado. Uma pesquisa da PPP divulgada alguns dias antes descobriu que, entre os simpatizantes de Trump, 70% acham que a bandeira confederada deve continuar sendo hasteada em prédios públicos e 38% gostariam que o Sul tivesse vencido a Guerra Civil Americana. Segundo a pesquisa, 80% dos simpatizantes de Trump apoiam a proibição de imigrantes muçulmanos – apenas 44% acreditam que o Islã deve ser legalizado nos EUA – e um terço acha que os EUA deveriam proibir imigrantes gays também.

No clube de veteranos de Laurens, conheço um homem de 77 anos chamado Lamar Patterson. Ele tem os dentes rachados, ri das próprias piadas e chacoalha como um homem que fez da vida um dedo do meio para a idade e a guerra a que sobreviveu. Ele usa um relógio dourado e a camiseta enfiada na calça jeans. Seu cabelo curto e grosso cobre sua cabeça inteira, como uma bola de tênis branca. Pergunto em quem ele vai votar nas primárias no sábado. Ele diz que tinha gostado de Marco Rubio no começo, mas que mudou de ideia quando soube que Rubio tinha faltado a reuniões de comitê no Senado. Agora ele vai votar em Trump. "Ele fala muito, mas muita gente faz isso quando está com raiva", diz.

Também pergunto a ele sobre a bandeira confederada. "Acho que as pessoas querem usar a bandeira para começar uma polêmica", diz Patterson. "Quando eu era garoto, a gente costumava ficar na frente da drogaria. Havia um garoto negro – nós dois tínhamos Chevys 56. Tínhamos um clube chamado Rebels. O garoto negro nunca disse nada sobre isso. Acho que negros e brancos se davam muito melhor naquela época. Quanto mais os anos passam, essas cotas tornam as coisas mais difíceis."

Mais tarde, em outra parte da cidade, falo com um mecânico chamado Klaus. Ele trabalha em sua garagem numa rua sem saída, no final de um caminho longo cercado de árvores altas. Quando chego, ele está agachado ao lado de um El Camino 1965 da cor de um morango maduro. Klaus, que não quis dizer seu sobrenome, saiu da Marinha Americana em 1969; ele trabalhou os 30 anos seguintes numa fábrica local de rolamentos. Agora que está aposentado, ele passa os dias na garagem, consertando Chevys Impala e Malibu, desmontando e montando coisas.

"Não gosto de coisas novas", ele me diz. Latas de Ajax e sprays sem rótulos com um líquido azulado estão em todas as superfícies. Ele tem revistas de carro empilhadas até o teto, as páginas manchadas de preto por causa de anos de poeira e gordura. Um cartaz na parede diz "RESTAURE, NÃO DESTRUA". Há pôsteres de loiras de biquíni, Tom Selleck, as líderes de torcida do Dallas Cowboy dos anos 70 e um ônibus espacial sendo lançado.

Pegunto a ele sobre Trump. "Fala demais", diz Klaus. "Ele também não tem educação. Ele diz ser cristão também, mas não tenho certeza. Você não chama as pessoas de idiotas, mentirosas, você não rebaixa os outros." Ele não quer dizer em quem vai votar, mas me diz que acha que Obama é muçulmano – "óbvio". "Provavelmente sou o cara mais conservador que você vai conhecer", ele acrescenta.

No clube dos veteranos, Patterson tinha mencionado um bar de Laurens chamado Waterhole. Mais tarde, pergunto a Pitts sobre o lugar. Ele arregala os olhos, me olhando de cima a baixo, talvez considerando meu jeito cigano de Nova Jersey. "Se você for lá e parecer meio porto-riquenho ou algo assim, é melhor ter cuidado com o que diz", ele me avisa. "Eles podem ser... alguns deles são uns neandertais."

Decido ir assim mesmo. Uma placa na porta da frente diz que é proibido entrar com armas. É o tipo de bar que cheira a mictório em qualquer lugar que você sente, povoado por homens de barba e jaqueta de clubes de moto. Há uma névoa de fumaça de cigarro tão forte que, mais tarde, quando volto ao hotel, consigo sentir o cheiro embaixo das minhas unhas e nas notas de dólar que tiro do bolso.

O que está tocando na jukebox definitivamente não é Lynyrd Skynyrd, mas quase com certeza é Lynyrd Skynyrd. De qualquer maneira, uma loira baixinha está pedindo dinheiro ao seu acompanhante para tocar Lynyrd Skynyrd na jukebox. O cara se apresenta como "Bagre".

Algumas pessoas ali não são neandertais e ninguém me acusa de ser porto-riquenho. "Não somos da KKK", uma mulher chamada Diana Norris me diz. Sua amiga, Shannon Rayford, a única pessoa negra no estabelecimento, se aproxima de mim. "Não somos assim", diz Rayford. "Alguns são. Mas geralmente não conseguem nem pagar uma cerveja."

Mas algumas pessoas presentes parecem um pouco com isso, sim. Ali perto, parado contra a parede, está um homem chamado Steven Pettit. Pergunto a ele sobre Trump, a Carolina do Sul e a Guerra Civil. "A escravidão foi eras atrás. Superamos isso", ele diz, bebendo Budweiser numa camisinha de cerveja de isopor. "Nunca tive escravos. As pessoas que conheço, meus amigos, eles não tiveram escravos. Só estamos vivendo nossas vidas." A bandeira confederada, acrescenta, "não é herança só minha – é dos negros, dos brancos, de todo mundo".

"É uma grande merda eles quererem tirar a bandeira, se você quer saber o que eu acho", me diz Kelly Holtzclaw, a mulher atendendo no balcão, enquanto passa uma lata de Miller Lite. Sobre o atirador de Charleston Dylann Roof, ela acrescenta: "Um idiota, ele não sabia o que isso significa para nós".

Nesse momento percebo que, apesar de odiar autoridade, o governo federal e a APA, os conservadores endossam uma espécie de Agência de Proteção Ambiental da mente – regulando a maneira como as pessoas pensam, determinando o que é racista, quando é hora de superar isso, quão fácil deveria ser comprar armas, quão difícil deveria ser conseguir cupons de alimentação ou controle de natalidade, como os negros devem se comportar depois de fazer um touchdown. Eles acham que, como cresceram com garotos negros, podem decidir quando as minorias estão sendo sensíveis demais e também quando os EUA não estão sendo sensíveis o suficiente com a Constituição. Eles são caras durões que querem poder falar com a professora quando se sentirem magoados.

"Queria que as pessoas fossem mais inteligentes, que aprendessem sobre a história confederada em vez de sempre trazer o racismo para isso", diz Pettit. "Deixe isso para trás. O que aconteceu em Charleston, odiamos essa merda, mas isso não tem nada a ver com nenhum de nós."

Você pode fechar o prédio onde costumavam vender lembrancinhas da KKK, você pode fazer uma grande cerimônia e deixar de hastear uma relíquia racista, mas isso não vai desaparecer. Aquela supremacia branca discreta, que gostaria de te espancar até a morte, está em bares enfumaçados usando jaqueta de couro em lanchonetes e cortando meticulosamente seu bolo veludo vermelho com o garfo.

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Tradução: Marina Schnoor

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