A ginasta Simone Biles pelas lentes da fotojornalista brasileira Bruna Prado

​Onde estão as mulheres na cobertura fotográfica das Olimpíadas?

"Às vezes, olho ao redor no campo de futebol e só tem eu de mulher", relata a repórter fotográfica Adriana Spaca.

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19 Agosto 2016, 9:30pm

A ginasta Simone Biles pelas lentes da fotojornalista brasileira Bruna Prado

"Às vezes, olho ao redor no campo de futebol e só tem eu de mulher, além de outros 30 fotógrafos homens. É muito desproporcional", lamenta a repórter fotográfica Adriana Spaca, 42, há seis anos na profissão. De uns tempos pra cá, a falta de mulheres incomodou muitos universos: das indicações ao Oscar até o ministério majoritariamente masculino formado pelo presidente interino do Brasil, Michel Temer. Na cobertura fotográfica olímpica da Rio 2016, a questão ficou ainda mais pungente: foi difícil (quiçá raro) ver alguma mulher no aglomerado de fotógrafos disputando uma imagem.

A repórter fotográfica Adriana Spaca em ação nas Olimpíadas. Foto: Adriana Spaca

"O esporte ainda é muito, muito machista. Principalmente o futebol masculino. É difícil entrar nesse mundo e não ser taxada de 'menininha', 'bonitinha'", reclama Spaca, que pela primeira vez cobriu as Olimpíadas e teve uma imagem sua estampando a capa de um dos principais jornais do país e até mesmo o Instagram do Neymar. "Tem muito assédio por sermos mulher e muito machismo por acharem que não somos capazes. Fico fodida quando vejo essas coisas em campo, como assessor de imprensa de clube que prefere dar exclusiva pra um repórter homem do que para uma menina que está ali todo dia. Mulher é tão capaz pra ter exclusiva quanto homem."

Os jogadores Gabriel Barbosa, o famoso Gabigol, e Neymar Jr. durante o jogo Brasil X Dinamarca, no dia 10/08/2016. O próprio Neymar postou esta foto no Instagram. Foto: Adriana Spaca

Debatendo o assunto em sua página pessoal de Facebook, a fotojornalista Bruna Prado, 38, se deparou com a teoria de que a falta de mulheres na área se daria por falta de interesse das próprias. "Não vejo por aí. Temos muitos homens fotojornalistas que não são especializados em esportes, mas estão cobrindo os jogos olímpicos", afirma a profissional, que além das Olimpíadas também irá cobrir as Paralimpíadas, que começam em setembro.

A judoca Rafaela Silva emocionada depois de levar medalha de ouro. Foto: Bruna Prado

"Não vou dizer que é desleal, mas acho que precisamos ter mais espaço. Os editores e os veículos de comunicação precisam repensar isso."

Para Bruna, a diferença ainda é muito desproporcional. "É uma sensação estranha, porque você sabe que existe talento pra outras pessoas estarem ali."

As jogadoras Andressa Alves e Marta se abraçam durante o jogo contra a China nas Olimpíadas. Foto: Bruna Prado

Ela considera falacioso o argumento de que o esforço físico seja um impeditivo para as mulheres. "Tenho carregado 20 quilos de equipamento por dia", revela, tranquila. Dia desses, ao vê-la cheia de malas a caminho de uma competição, um senhor ofereceu ajuda. Ela negou educadamente e riu. O senhor insistiu, mas não conseguiu nem tirar a mala do chão. "Isso não impede a gente de nada. Mas aquele pensamento de que o homem é mais forte física e emocionalmente é um discurso antigo. Já provamos, não só na fotografia, mas em várias outras áreas e na vida que nossa capacidade de suportar tudo isso às vezes é até maior", pondera.

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