​Quem poderá salvar o Rio Doce? Para o governo, é a própria Samarco

Enquanto os rejeitos continuam vazando nas águas do Rio Doce, há quem acredite que a lama da Lava Jato sombreou a lama de Mariana.

|
22 Março 2016, 10:00pm

No início do mês, o governo federal e os estados de Minas Gerais e do Espírito Santo assinaram um acordo extrajudicial com as empresas Samarco, Vale e BHP Billiton para mitigar os prejuízos causados à Bacia do Rio Doce, catastroficamente afetada pelo rompimento da barragem de rejeitos em novembro do ano passado. O investimento será de mais de R$ 4 bilhões. Porém, especialistas no assunto contestam a "carta branca" oferecida à Samarco, que contratou a Golden Associates, uma consultoria internacional, para mapear os impactos ambientais e traçar o plano de ações de recuperação.

A desconfiança parte também do Ministério Público Federal (MPF), que, em nota oficial, questionou a decisão por entender que ela "prioriza a proteção do patrimônio das empresas em detrimento da proteção das populações afetadas e do meio ambiente".

Margem do Rio Doce após o rompimento da barragem em Bento Rodrigues. Foto: Felipe Larozza/ VICE

Em seu site oficial, a Samarco detalha que o acordo definiu a criação de uma Fundação que será composta por "Conselho de Curadores, Diretoria Executiva, Conselho Consultivo e Conselho Fiscal; além de especialistas técnicos e auditorias independentes".

Para o engenheiro industrial e ativista dos direitos dos animais Alexandre G. Valente, "a Golden Associates vai apresentar o relatório que ficar conveniente pra mineradora". Ele também acredita que o acordo firmado é desprovido de cláusulas específicas. "Ele não preconiza nada do que será feito no rio", relata.

Quatro meses depois do episódio, o leito do Rio Doce continua a ser contaminado com rejeitos da barragem, já que o vazamento até hoje não foi contido. "Isso significa que estamos com um problema ainda em curso", alerta Carlos Rezende, professor titular e chefe do laboratório de Ciências Ambientais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF).

Moradores de Governador Valadares (MG) rezando durante distribuição voluntária de água. Foto: Felipe Larozza/ VICE

Para ele, o mapeamento dos impactos ambientais na região deveria ficar a cargo de um comitê de bacia, como o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Doce. "Um órgão colegiado com representações de diferentes usuários e [que] tem como pressuposto organizar o uso múltiplo das águas de um determinado recurso hídrico."

De acordo com o especialista, será necessário muito empenho por parte da Samarco para trazer o Rio Doce e toda a região de volta à vida. "Os peixes foram temporariamente dizimados, assim como uma fauna pouco conhecida", detalha. "Então, essa ausência de informação prejudica terrivelmente qualquer estimativa."

Morador de Resplendor (MG), lamenta a vista para um Rio Doce enlameado. Foto: Felipe Larozza/ VICE

Se o debate popular acerca do acontecido em Mariana se dissipou ou caiu no esquecimento, o coordenador de campanhas do Greenpeace, Nilo D'Avila, tem uma teoria. "A lama da Lava Jato sombreou a lama de Mariana", pontua. Para ele, o Brasil vive um momento político conturbado. "As questões ambientais estão longe de ocupar a opinião pública."

Há também o lado social do ocorrido. Sob o ponto de vista do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), a decisão "representa a rendição ao criminoso". Em nota oficial, o movimento denuncia que o acordo foi "realizado em gabinetes e sem participação nenhuma das vítimas que foram atingidas".

Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter e Instagram.