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Encontrei a Salvação no Museu Criacionista de San Diego (Brincadeira, Foi um Saco)

Levei minha câmera para que você pudesse rir de tudo no conforto da sua casa, sem precisar ir até lá e lidar com gente esquisita.

por Jamie Lee Curtis Taete
27 Março 2013, 2:00pm

Além daquele museu criacionista multimilionário enorme no Kentucky, há vários outros museus menores e mais toscos espalhados pelos Estados Unidos. No final de semana passado viajei até o de San Diego, que se chama Museu da Criação e da História da Terra. Levei minha câmera para que você pudesse rir de tudo no conforto da sua casa, sem precisar ir até lá e lidar com gente esquisita.

Quando finalmente cheguei ao museu, pensei por um minuto que isso até que poderia ser legal. Do lado de fora, havia vários modelos de dinossauro e, logo na entrada, eles tinham uma daquelas coisas de plasma onde o raio fica seguindo seu dedo quando você encosta no globo. Todo mundo adora esses negócios, né? (Mas, como todas as coisas de museu que as crianças têm permissão para tocar, o globo de plasma estava coberto por uma substância melequenta que cheirava a McDonald's.)

Mas aí virei uma esquina e me vi no meio da praça central de Tediolândia. É basicamente assim que são todas as salas do museu: paredes cobertas de pequenos cartazes.

As pessoas que criaram isso nunca foram num museu de ciência de verdade? Eles são INCRÍVEIS! Eles têm aqueles tornados em ambiente fechado, operações de resgate espacial de brincadeira, robôs que conseguem interagir sozinhos com os visitantes... Eles até te deixam pilotar um trem de 350 toneladas, porra. Essa é a competição. E o Museu da Criação e História da Terra me vem com uma parede cheia de merda para ler?

E a caralhada de textos não fica só nos cartazes. Também tem esses panfletinhos impressos chamados “Insight...” do lado de cada exibição, para você levar para casa e ler mais sobre o assunto depois.

E se isso ainda NÃO for leitura o suficiente para você, eles têm aqueles códigos QR que revelam AINDA MAIS informação.

Li quase tudo no museu. (Na maioria das vezes tirei fotos para ler cada cartaz em casa depois. Sinceramente, não acho que dá para ler tudo o que tem lá num dia só.) Aqui vai um resumo do que aprendi sobre a versão deles da história:

- Deus criou o universo em sete dias.

- Não havia mal no mundo até aquele babaca do Adão comer uma maçã.

- A arca de Noé foi real e está presa em algum lugar no topo do Monte Ararat... Mas ninguém consegue achar.

- Os dinossauros morreram no dilúvio.

- O Grand Canyon prova que o dilúvio aconteceu.

- Os cientistas são uns idiotas hipócritas, porque tiveram opiniões diferentes sobre as coisas no curso da história mundial (todos os seis mil anos).

- Datação por carbono é mentira.

- As raças e línguas diferentes são o resultado da fuga das pessoas da Torre de Babel.

- Morcegos e alguns outros animais não mostram evidências de evolução em registros fósseis, e isso prova que o design inteligente aconteceu. (Vai saber o que os outros porrilhões de fósseis provam então.)

- Darwin era um babaca.

- Coisas de Deus.

Basicamente aquela conversa criacionista padrão. E dá para resumir tudo em, sei lá, umas mil palavras distribuídas em dez cartazes? Eles deveriam ter economizado essa grana e feito um parquinho temático do Gênesis com dinossauros ou qualquer outra coisa que realmente pudesse ganhar algumas mentes jovens para o lado deles.

Mas não, o museu é uma sala depois de outra, todas cheias de cartazes só com texto.

E nem é aquela coisa de textos espertos de fácil absorção. Os cartazes são todos escritos num nonsense indigerível e você precisa ler várias vezes para conseguir entender alguma coisa.

Aqui está um exemplo ótimo de como os curadores do museu fazem um serviço de merda com palavras. O lema do lugar é: “O Museu da Criação, um Lugar Onde a Observação Faz do Criador uma Questão Inevitável”.

Que porra é essa? Um slogan tem que ser tipo “Just Do It”, “Amo muito tudo isso” ou “Não mexe comigo, cara”, e não um negócio que você precisa ler quatro vezes para entender. Era como se tudo no museu tivesse sido traduzido para o japonês pelo tradutor do Google e depois para inglês de novo.

Quase fiquei me sentindo mal por eles. Será que alguém formado em inglês pode entrar em contato com esses caras e oferecer ajuda? Ou qualquer pessoa que saiba falar inglês?

Tudo isso só ajuda a criar uma atmosfera que é agressivamente chata para as crianças. Para todo lado que eu olhava, tinha um adulto lendo um cartaz enquanto os filhos tentavam achar um jeito de não morrer literalmente de tédio.

Por que é tão difícil para os cristãos criar qualquer coisa que possa ser remotamente divertida para uma criança? A cena acima aconteceu perto da saída. Essa criança no chão que está sendo arrastada pelo pai tentou fugir, mas foi pega antes de chegar à porta. Logo depois que tirei essa foto, ele foi carregado de volta para dentro, tentando se segurar nas paredes e gritando “NÃÃÃÃÃÃÃÃO!”. Tadinho.

Já aquela garotinha ao fundo teve uma boa chance de conseguir a liberdade.

Acho que a tentativa deles de tornar o lugar divertido para crianças foi espalhar exposições como essa por toda parte. Esse é meu melhor palpite, pelo menos. Fiquei olhando para essa foto por uns dez minutos, tentando descobrir o que esses objetos significavam, e de algum jeito fiquei mais confuso do que estava no começo.

Então vou fazer do mesmo jeito que o FBI fez para desvendar os códigos misteriosos daquele assassino, vou fazer crowdsourcing. Se alguém conseguir decifrar esse bagulho, pode escrever nos comentários abaixo, por favor.

Tinha umas coisas realmente estranhas e desnecessárias também. Tipo isso: “E seu desejo será para teu marido. E ele deverá te governar”.

Achei que os cristãos tinham concordado em simplesmente fingir que essas partes bizarras da Bíblia não existem. Tipo, como esses caras com tatuagens da bandeira confederada americana (“Não façam cortes em vossa carne por causa dos mortos, nem tatuagens em si mesmos.” - Levítico 19:28) vão lá e gritam com os gays porque eles são uma abominação (“Não se deite com um homem como quem se deita com uma mulher: isso é uma abominação.” - Levítico 18:22)?

Acho que eles podiam simplesmente ter deixado de colocar esse cartaz e evitado alienar metade de seus visitantes. Por que eles não têm uma exposição sobre aquela parte da Bíblia que diz que é proibido usar roupa de poliéster, por exemplo?

Em qualquer um dos cartazes onde eles mencionavam o ponto de vista oposto, o desgosto de quem preparou o cartaz ficava tão aparente que minava totalmente o que eles estavam dizendo. Como esse que explica a idade da Terra do ponto de vista cristão (“Deus criou a Terra e o universo com um propósito”) e depois do ponto de vista científico (“A vida foi espontaneamente formada a partir da não-vida e evoluiu por períodos de tempo extremamente longos através de processos naturais e do acaso para se tornar toda a biodiversidade do planeta, incluindo o homem”). Dá até para imaginar o cara revirando os olhos e rangendo os dentes enquanto digitava isso.

É tipo uma mãe recém-divorciada que fica tentando colocar os filhos contra o pai. Ela pode até estar levantando um ponto válido, mas ninguém vai prestar atenção se ela continuar se referindo ao cara como “o Caloteiro”.

Aí, estranhamente, o museu começa a se transformar num museu normal. A transição começa aqui, quando a linha do tempo histórica vai da Torre de Babel (mostrada à direita na foto acima, lenda) até a Porta de Ishtar (à esquerda, fato histórico).

Aí ele passa pelo Egito Antigo, vai até a Grécia Clássica e chega aos Pais Fundadores dos Estados Unidos.

Só que, no meio disso, a transformação da ficção para o fato é a parte mais louca do museu.

Como os cientologistas fizeram antes, me parece que os criacionistas se cansaram de simplesmente tentar provar seu ponto de vista e agora estão tentando acabar com a competição.

“O darwinismo forneceu a Hitler uma razão científica para seu intento perverso de eliminar algumas raças”, lê-se nessa seção do museu, dedicada a explicar “as consequências do pensamento evolucionista”. Que são Stalin, abortos e o Holocausto.

Você consegue imaginar como alguém chegou à ideia de usar o Holocausto para defender sua agenda maluca de merda? É um negócio muito tenebroso.

De repente, todos os traços de conversa mole criacionista desaparecem e o lugar se transforma num museu sobre o corpo humano.

Toda essa parte (que pega mais da metade do museu) não faz nenhuma menção a Deus, criação ou evolução. É só um monte de informações padrão sobre biologia humana. Procurei no Google alguns dos textos e tudo foi copiado literalmente de uma enciclopédia médica. O que é muito relaxo na minha opinião. E muito confuso também.

Tenho várias teorias sobre a razão de existir esse museu:

1. Eles colocam esse monte de fatos reais para você pensar: “Bom, essas coisas sobre o Egito e sobre pulmões são verdade, então acho que Darwin inventou mesmo o aborto”.

2. Como uma armadilha, para atrair as excursões das escolas perto dali.

3. Para derrotar as pessoas mentalmente. Eles ficam te bombardeando com palavras e informações até o ponto em que você perde a razão e se converte à causa deles. Tipo quando os soldados norte-americanos tocavam “These Boots Are Made For Walking” no volume máximo no complexo de Waco.

(Acho que é uma combinação dessas três coisas.)

Também não tenho certeza se as pessoas que fizeram a exposição sobre o corpo humano sabem o significado de “fatos” e “divertidos”. Toda seção tinha um quadro desses embaixo. Como você pode ver na foto, esse conjunto em particular de “fatos divertidos” contém uma coisa que não é um fato e cinco coisas que não são divertidas.

E finalmente acabou. Fiquei lá por muitas horas, sendo bombardeado por informação ininterruptamente. Enquanto eu caminhava tonto e exausto até a loja de lembranças, vi esse capítulo num livro sobre evolução e raça. Isso me deu um ataque de riso que ficou indo e voltando por umas 48 horas. Não consegui nem ler o resto e saber como embutidos suínos amaldiçoados são os responsáveis pelas pessoas negras.

Concluindo: não visite o Museu da Criação e História da Terra. Nem de zoeira. É uma tremenda cilada! É como se dois milhões de livros chatos tivessem explodido num prédio de paredes adesivas.

Siga o Jamie Lee Curtis no Twitter: @JLCT

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