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Uma História do Cocô Enquanto Arma

Já ouvimos histórias de gente usando os dentes, os peitos, os punhos, os joelhos, os pés, o pinto, os cotovelos e a cabeça como armas – então, por que não cocô?

por Jamie Lee Curtis Taete
16 Outubro 2015, 4:30pm

Outro dia, me lembrei de um comentário deixado numa antiga matéria que escrevi para a VICE. Não lembro as palavras exatas, mas a essência era que o comentarista queria deixar um cocô seu congelando durante a noite e depois usá-lo para me esfaquear até a morte.

Isso me deixou pensando se alguém realmente já tinha matado outra pessoa com suas fezes. Certeza, né? Quer dizer, as pessoas ficam putas e atacam com o que tiverem na mão, e cocô é basicamente uma arma escondida que carregamos o tempo todo. Só que eu nunca tinha ouvido um caso em que alguém realmente havia sido atacado com isso. Já ouvi histórias de gente usando os dentes, os peitos, os punhos, os joelhos, os pés, o pinto, os cotovelos e a cabeça como armas – então, por que não cocô?

Decidi dar uma pesquisada, e acontece que minha intuição estava certa. As pessoas já mataram usando merda. O que segue abaixo é uma história cronológica (provavelmente incompleta) do cocô enquanto arma.

COCÔ COMO UMA DAS PRIMEIRAS ARMAS QUÍMICAS

Apesar de as pessoas pela história nunca terem sido muito bem informadas quando se tratava de espalhar doenças através de cocô e outros fluidos corporais, há alguns exemplos de gente usando fezes como um tipo de arma biológica primitiva.

Um dos primeiros exemplos que encontrei foi o dos citas, um povo nômade eurasiano que esteve por aqui por volta do século 9 A.C. até o século 4 D.C. Uma das especialidades deles durante a guerra era usar flechas envenenadas, segundo o livro Greek Fire, Poison Arrows, and Scorpion Bombs: Biological and Chemical Warfare in the Ancient World, com uma mistura de veneno de cobra, cadáveres de cobra, sangue humano e merda. As flechas, quando feriam alguém, podiam causar gangrena e tétano (por causa do sangue e da merda), além de outras infecções pelo veneno de cobra. "Mesmo as pessoas que não eram feridas pelos projéteis venenosos sofriam com seu cheiro terrível", apontou Estrabo, um geógrafo grego.

Um pouco depois, durante a Idade Média, as fezes de vítimas da peste bubônica eram jogadas por cima das muralhas dos castelos com catapultas para infectar quem estivesse lá dentro.

Na China do século 12, uma versão ligeiramente mais avançada da catapulta de merda era usada, conforme Stephen Turnbull escreveu em seu livro Siege Weapons of the Far East (1): DC 612 – 1300. A arma, que o autor chama de "catapulta de bomba de excremento", era um tipo de aparelho explosivo feito com corda de cânhamo e estava cheio de pólvora, cocô humano e veneno. Ele era aceso com um ferro em brasa e atirado nos inimigos.

Essa tradição de usar merda como substância para humilhar e infectar por pessoas sem recursos disponíveis continua até hoje. No ano passado, o LA Times deu a notícia de que houve um aumento nos casos de detentos da Los Angeles Men's Central Jail jogando sua merda e seus fluidos corporais nos carcereiros. "Os detentos às vezes misturam o excremento com geleia de fruta para que isso tenha mais chance de grudar no alvo", escreveu o jornal. "Caixas de leite são usadas como contêineres e, às vezes, como lançadores para forçar a substância através das grades estreitas."

COMEÇO DOS ANOS 40, PARIS, SPRAY DE MERDA MILITAR

Who Me era um desenvolvedor secreto de armas para o Escritório de Aparelhos Estratégicos (hoje uma agência defunta dos EUA) durante a Segunda Guerra Mundial.

Apesar de a arma não conter fezes de verdade, Who Me se inspirava em cocô humano, então vou incluir isso aqui. A arma, na verdade, era um químico de cheiro ruim que era mandado para membros da resistência francesa em pequenos nebulizadores.

O objetivo era espirrar isso em oficiais alemães para humilhá-los diante de seus colegas, fazendo parecer que eles não conseguiam controlar o próprio intestino. "Imagine a pior lata de lixo deixada na rua por um longo tempo no meio do verão – isso te dá uma ideia da qualidade do produto de Who Me", descreveu Pam Dalton, uma psicóloga cognitiva, ao New Scientist em 2001.

Who Me acabou não obtendo sucesso, já que, obviamente, é impossível usar um químico tão fedido sem deixar tudo ao redor cheirando também, incluindo a pessoa que espirrou a substância.

Não está claro se a arma foi realmente usada em combate. Porém, se foi, imagino que isso era apenas um aborrecimento menor da vida dos nazistas.

ANOS 50, NORTE DO CANADÁ, A FACA DE MERDA INUÍTE

Pelo que encontrei, só há um caso documentado de alguém usando uma faca de merda congelada como aquela com que o comentarista pretendia me esfaquear.

Wade Davis, um pesquisador antropólogo e etnógrafo de Vancouver, Canadá, contou várias vezes a história de como um velho inuíte fez uma faca com a própria merda para escapar do governo canadense. Wades diz que a história lhe foi contada por uma família que ele conheceu em Arctic Bay, uma comunidade inuíte do norte do Canadá.

Nos anos 50, o governo canadense obrigou o povo inuíte a se mudar para acampamentos de assentamento em áreas altas do ártico. A família de Arctic Bay falava que seu avô não queria ser realocado, decidindo desafiar as ordens do governo e ficar.

A família, temendo a repercussão que o avô poderia enfrentar se se recusasse a cooperar com o plano de reassentamento, tirou as ferramentas e os equipamentos do homem antes de o deixar para trás em seu iglu, com nada além de dois cães. Eles fizeram isso, segundo a história, esperando que o avô não tivesse escolha a não ser se juntar a eles mais para o norte.

"Vocês precisam entender", explicou Wade numa palestra do TED em 2007, "os inuítes não temem o frio – eles tiram vantagem disso".

"Ele simplesmente foi para fora, abaixou suas calças de pele de foca e defecou na mão – e, enquanto o cocô congelava, ele moldou isso na forma de uma lâmina", acrescentou Wade.

Quando a faca de merda estava suficientemente dura, o homem matou um dos cachorros com ela. Depois, segundo a série de TV Canada: A People's History, ele tirou a pele do cachorro para fazer um casaco e as costelas, para fazer um trenó, construindo ainda um arreio com as tripas.

Depois de alimentar a si mesmo e ao cachorro vivo com a carne do outro cão, o homem colocou o arreio de tripas no outro cachorro, a faca de merda no cinto e avançou com o seu trenó para a escuridão.


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ANOS 60, VIETNÃ, PUNJIS

Durante a guerra do Vietnã, os vietcongues faziam uso de uma arma simples, mas efetiva (e nojenta), conhecida como punji.

Os punjis eram feitos com varas de bambu afiadas que, em seguida, eram mergulhadas em excremento humano (ou veneno de plantas e animais). As lanças cheias de caca eram colocadas no chão: escondidas por folhagens ou sob um alçapão, elas eram deixadas como uma armadilha para o inimigo. Os punjis geralmente não matavam a pessoa que caía neles, embora, suponho, não fossem a coisa mais agradável do mundo de se ter enfiada na sua pele.

2009, RÚSSIA, CANHÃO DE MERDA

Aleksandr Georgievich Semenov, um inventor russo com aproximadamente 200 patentes em seu nome, preencheu uma requisição de patente em 2009 para algo intitulado "Método de remoção de resíduos biológicos de espaços isolados".

O que, em linguagem normal, quer dizer que esse é um aparelho que permite que tanques disparem cocô humano.

A ideia é a seguinte: quando um soldado num tanque precisasse cagar, ele faria isso num cartucho especial contendo espaço suficiente para o cocô e uma carga explosiva. Aí ele colocaria o cartucho na arma do tanque e dispararia isso contra o inimigo, o cobrindo de merda.

Isso é prático por dois motivos: primeiro, isso livraria um tanque, que é um espaço fechado onde os soldados frequentemente são obrigados a ficar por longos períodos, de indesejados resíduos humanos; segundo, isso iria cobrir o inimigo e seu espaço com cocô, algo que o inventor descreveu para o Guardian como tendo "efeitos psicológicos e políticos adicionais".

Foto do soro via Wikimedia Commons.

2014, ARIZONA, INJETANDO MERDA

No ano passado, uma ex-enfermeira de 65 anos chamada Rosemary Vogel, de Chandler, Arizona, foi acusada de tentativa de homicídio depois de um incidente em que injetou matéria fecal no marido.

O marido, Philip, estava se recuperando de uma cirurgia cardíaca no Chandler Regional Hospital quando as enfermeiras ouviram o alarme de seu soro, indicando que havia um problema. Quando entraram na sala, as enfermeiras encontraram Rosemary mexendo no soro de Philip. Depois da inspeção, elas acharam uma substância marrom no tubo. Os testes no hospital mostraram que a substância marrom era cocô.

Quando Rosemary foi a julgamento, seu marido a defendeu. "Ela teve um surto psicológico naquela manhã", ele testemunhou. "Ela estava totalmente fora de si." Rosemary, que alegou não se lembrar do incidente, se declarou culpada.

O juiz, dizendo que acreditava que Rosemary tinha sofrido uma crise mental naquele dia, simpatizou com ela e a sentenciou a finais de semana na cadeia por um ano.

Essa não é a primeira vez que alguém é acusado de injetar fezes em soro. Em 2005, Stephanie McMullen, de Wilmington, Delaware (que, estranhamente, também é uma enfermeira registrada como Rosemary), foi acusada de fazer isso com o filho de dois anos. E, no meio dos anos 90, Kathy Bush recebeu atenção nacional por deixar a filha doente colocando cocô em seu soro. No ano passado, uma mulher da Virgínia Ocidental supostamente foi pega num vídeo fazendo o mesmo com o filho de nove anos.

Houve outras tentativas em anos recentes de usar fezes como veneno que não por via intravenosa. No meio dos anos 80, um surto de um parasita intestinal em Edinburgh foi rastreado até alguém que colocou intencionalmente merda infectada na caixa d'água de um prédio de apartamentos. E, em 2010, uma adolescente na Califórnia envenenou a mãe colocando cocô de cachorro e inseticida na comida dela. A mãe sobreviveu.

E isso é tudo que encontrei sobre pessoas usando cocô para ferir outros seres vivos. Espero que ter lido isso tenha sido um bom uso do seu tempo.

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Tradução: Marina Schnoor.

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