Na Tanzânia Estão Caçando Albinos Para Vender a Pele a US$ 75 Mil

No último mês, uma onda de ataques violentos a pessoas com albinismo na Tanzânia tem destacado uma prática mórbida ligada à bruxaria.

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set 9 2014, 9:30pm

No último mês, uma onda de ataques violentos a pessoas com albinismo na Tanzânia tem destacado uma prática mórbida ligada à bruxaria.

Pessoas com albinismo nascem com uma deficiência de pigmentação melânica. Aqueles com uma completa falta de pigmentação têm a pele e os cabelos extremamente pálidos, e seus olhos geralmente são de um tom claro de azul. A condição é resultado de genes recessivos carregados pelos pais. O albinismo na África acarreta a seus portadores uma chance maior de desenvolvimento de câncer de pele fatal; além disso, a falta de pigmentação para proteger os olhos contra o brilho do sol pode causar problemas de visão.

Africanos nessa condição ainda sofrem com um estigma social alienante, já que, em algumas comunidades, vizinhos e parentes podem acreditar que eles são fantasmas, amaldiçoados ou intelectualmente incapacitados. Em algumas regiões, eles encaram ameaças quase constantes de violência.

Em agosto, oficiais da ONU e grupos de direitos humanos relataram pelo menos cinco ataques a albinos na Tanzânia em menos de duas semanas.

No dia 5 de agosto, três homens armados com facões cortaram o braço direito de uma garota de 15 anos, bem abaixo do ombro, na região de Tabora. Ameaçada de morte, a família não pode pedir ajuda. Mais tarde naquele dia, os agressores tentaram atacar o tio da garota, que também sofre de albinismo, mas ele conseguiu escapar.

Os três homens foram presos, incluindo um curandeiro local, que informou às autoridades que compradores estavam dispostos a pagar até US$ 600 pelo braço da garota.

Em 14 de agosto, o corpo mutilado de um jovem albino foi encontrado numa área pantanosa nos arredores de Dar es Salam. Fotos da vítima compartilhadas nas redes sociais mostravam, além de um furo no abdômen, que uma grande porção da pele havia sido removida do torso.

Dois dias depois, dois homens atacaram uma mulher albina de 35 anos num vilarejo em Tabora. Eles mataram o marido dela, que tentou defendê-la; depois, cortaram a parte de baixo do seu braço esquerdo e fugiram.

“O estigma e a discriminação são surpreendentes.”

Embora esses atos de mutilação sejam amplamente abominados e as práticas espirituais na região variem muito, em áreas isoladas, onde há pouco acesso a informações médicas, ainda acredita-se que partes do corpo de pessoas com albinismo trazem benefícios místicos e mágicos.

“Na África Subsaariana existe uma crença significativa em bruxaria, que geralmente envolve partes de corpos humanos”, disse Peter Ash, que chefia o grupo de direitos dos albinos Under the Same Sun, à VICE News. “Esse é o caso na região há muito tempo, bem antes da colonização. É parte de uma prática cultural, histórica e espiritual profundamente arraigada.”

Em partes da região dos Grande Lagos na África Oriental, oficiais da ONU relataram que mineiros de ouro usam amuletos feitos de ossos de albinos para dar sorte e que pescadores entrelaçam seus cabelos nas redes para garantir uma boa pesca.

Desde 1998, a Under the Same Sun documentou 332 ataques a pessoas com albinismo em 24 países da África, 147 apenas na Tanzânia. Ash pontuou que esses números são apenas uma fração dos ataques totais no continente. A maioria dos incidentes acontece em zonas rurais, onde acabam não sendo denunciados e raramente investigados.

Em muitas partes da África, o albinismo ocorre em taxas maiores que no resto do mundo. Na Tanzânia, uma em cada 1.400 pessoas têm o transtorno – quase 35 mil no país. Globalmente, a taxa é de uma a cada 20 mil pessoas.

Com membros vendidos por centenas de dólares e corpos inteiros supostamente custando em torno de US$ 75 mil – isso num país cuja renda média anual é de menos de US$ 600 –, supõe-se que na Tanzânia e no resto da África membros da elite econômica e política estejam por trás dessa demanda. Um aumento nos ataques é documentado em países onde as eleições se aproximam, quando candidatos usam o serviço de curandeiros para aumentar a chance de vitória.

“Esses curandeiros são influentes há muito tempo nas comunidades, mas agora eles querem ganhar dinheiro, não apenas ser profissionais idosos e respeitados”, informou Ash. “Agora eles são empreendedores.”

“Eles são rejeitados pela família e pela comunidade, eles não têm acesso à saúde ou educação. É um ciclo vicioso de discriminação e pobreza.”

Apesar de a Tanzânia –  onde 93% dos cristãos e muçulmanos dizem acreditar em bruxaria, de acordo com um relatório de 2010 da Pew Research – ser frequentemente retratada como o epicentro desse terrível fenômeno, muito dessa percepção decorre da presença no país de ONGs como a Under the Same Sun, que conta com 20 empregados que podem ser despachados para documentar os crimes.

Depois que um relatório de 2008 da BBC sobre o tráfico tanzaniano de membros humanos ter horrorizado a comunidade internacional, ativistas começaram a prestar mais atenção no sofrimento dessa parcela discriminada no país. Mas isso não acontece no resto da África, onde a liberdade de imprensa é fraca e as taxas de violência contra albinos, quase desconhecidas.

Como vizinhos e parentes frequentemente estão envolvidos nos ataques a pessoas com albinismo, a polícia encara grandes obstáculos mesmo quando está disposta a investigar. As famílias geralmente enterram albinos falecidos em covas não marcadas, temendo que os corpos sejam perturbados até depois da morte.

Em meio ao aumento dos ataques nos últimos anos, o governo tanzaniano vem abrigado crianças com albinismo em escolas criadas para crianças com deficiências – uma medida ostensivamente protetora que tem gerado suspeitas de segregação.

“Quando isso foi proposto, era uma situação de emergência, mas isso se tornou uma solução de longo prazo”, criticou à VICE NEWS Alicia Londono, oficial de direitos humanos da ONU que visitou o país recentemente. “As condições são péssimas. Algumas das crianças já estão nos primeiros estágios do câncer de pele, e a equipe não é treinada para cuidar dessa doença.”

Mais da metade dessas escolas abrigam agora crianças albinas. Londono as descreve como “casas de despejo” onde as famílias largam os filhos não desejados, apontando que esses abrigados correm risco de abuso físico e sexual nessas instalações.

“Elas são rejeitadas pela família e pela comunidade, elas não têm acesso à saúde e à educação”, ela disse. “É um ciclo vicioso de discriminação e pobreza.”

Ikponwosa Ero, uma pesquisadora nigeriana que tem albinismo e trabalha com a Under the Same Sun, afirmou à VICE News que o dia a dia das crianças nessa condição é imensamente difícil.

“O estigma e a discriminação são surpreendentes”, lamentou. “Fora os ataques físicos, o sofrimento delas é além da compreensão. Expulsão da escola, rejeição da sociedade. Eu não podia sair de casa à noite sem um parente e estava sempre consciente de que ataques ritualísticos eram uma possibilidade.”

Ativistas e oficiais da ONU acreditam que os esforços para educar o público sobre o albinismo vão ajudar a combater os ataques a pessoas com esse problema de pigmentação, garantindo, assim, que eles tenham um maior acesso a serviços e a apoio – mas Londono diz que isso não será fácil.

“Todo mundo, das autoridades que conheci até o motorista do meu táxi, se referiram a crenças ligadas a essa condição, crenças de que eles são seres sub-humanos”, destacou.

Siga o Samuel Oakford no Twitter: @samueloakford

Tradução: Marina Schnoor

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