Crédito: Jennifer Ilett/Motherboard

O mercado de heroína dos EUA está destruindo as florestas tropicais

Embora o fenômeno do narco-desmatamento seja um velho conhecido, o crescimento da venda de opiáceos e analgésicos vem piorando — e muito — a situação das florestas tropicais.

por Kaleigh Rogers; Traduzido por Ananda Pieratti
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02 Maio 2017, 2:37pm

Crédito: Jennifer Ilett/Motherboard

As florestas do norte da Guatemala são um dos habitats mais biodiversos ao norte da Amazônia. No entanto, esse bioma, um dos últimos refúgios de espécimes como onças-pintadas, antas e araras-vermelhas, está sendo destruído de forma sistemática.

Um grande número de fatores contribui para o desmatamento na região, mas, ao contrário de outros, o crescente impacto ambiental do tráfico de drogas pode ser mensurado. Traficantes de drogas dominaram a região, tomaram terras e derrubaram árvores para construir pistas de pouso e fazendas usadas para lavagem de dinheiro. O narco-desmatamento, como a prática é conhecida, é um problema muito antigo, mas a epidemia de opiáceos que atualmente aflige o continente americano está piorando — e muito — a situação.

Embora essa relação ainda não tenha sido tema de estudos, dados de organizações pró-conservação, agências de controle de drogas e pesquisas do campo da saúde indicam que nosso vício em analgésicos está acelerando a destruição desse precioso ecossistema.

Nos EUA, o crescimento do vício em medicamentos como o OxyContin vem abrindo as portas para o tráfico de heroína, cuja composição química é quase idêntica a de opiáceos vendidos em farmácias. A heroína costuma ser mais barata do que remédios de tarja preta, além de mais potente e de fácil acesso.

Com o crescimento da demanda por heroína no território norte-americano, os cartéis da América Central e do Sul têm ainda mais motivos para desmatar as florestas tropicais de seus países. Estatísticas mostram que o desmatamento está crescendo de forma proporcional ao aumento da procura por heroína.

Fiquei sabendo dessa reação em cadeia durante viagem de trabalho à Guatemala. Fascinada pelas forças ocultas que influenciam a epidemia de opiáceos dos EUA, fiquei curiosa para saber se a situação havia afetado, de alguma forma, a América Central. Assim, enquanto visitava algumas parteiras indígenas na região bucólica e montanhosa de Tecpán, perguntei à minha intérprete se o tráfico de drogas local havia sofrido alguma mudança nos últimos anos.

Ela assentiu enfaticamente. Disse que a situação "havia piorado muito" e que os cartéis do norte do país estavam "destruindo a floresta".

"Tudo isso por causa da cocaína?", perguntei.

"Cocaína", concordou ela. "Mas por causa da heroína, também."

As florestas tropicais da Guatemala são um dos ecossistemas mais diversos do planeta. Crédito: Walter Rodriguez/Flickr

Entre 1990 e 2005, 17% da cobertura vegetal da Guatemala foi destruída — uma perda de aproximadamente um milhão de hectares de mata virgem — de acordo com a Agência Espacial Europeia, que registra o desmatamento usando imagens de satélite. O desmatamento vem seguindo ritmo parecido desde então, particularmente em áreas ecologicamente vulneráveis como as florestas tropicais, onde, segundo um estudo publicado na revista Science, o aumento do tráfico de drogas coincidiu com uma perda de vegetação de 10% entre 2006 e 2010.

Infelizmente, essa situação só tende a piorar.

"O desmatamento não caiu nem um pouco nos últimos quatro anos", disse Matthew Taylor, professor de geografia da Universidade de Denver, nos EUA, que vem pesquisando o impacto do tráfico de drogas no meio-ambiente. "Segundo minhas fontes e minhas pesquisas de campo, o desmatamento só aumentou."

Embora a agricultura e a extração ilegal de madeira representem uma grande parte do desmatamento na América Central e do Sul, o narco-desmatamento também tem desempenhado papel significativo. O cultivo voltado para a produção de drogas como a cocaína e a heroína tem um grande impacto: a Organização dos Estados Americanos estima que 2.5 milhões de hectares da floresta amazônica peruana foram destruídos para o cultivo de coca, enquanto mais de um milhão de hectares de vegetação na Colômbia foram derrubados para o plantio de papoula, a planta utilizada na fabricação da heroína.

No entanto, de acordo com Kendra McSweeney, professora de Geografia na Universidade Estadual de Ohio, o desmatamento na América Central é causado não em função do plantio de substâncias ilícitas, mas sim pelas atividades ligadas à cadeia de abastecimento do tráfico.

"Os traficantes precisam de muitas terras para transportar essas drogas", conta McSweeney. "Para garantir a segurança de suas rotas, eles compram terras e destroem a floresta a fim de construir estradas, pistas de pouso, ancouradoros para barcos e rotas de carga e descarga."

O desmatamento na América Central é causado não em função do plantio de substâncias ilícitas, mas sim pelas atividades ligadas à cadeia de abastecimento do tráfico.

Cartéis de drogas também derrubam a vegetação para construir fazendas de gado, uma forma simples de lavar dinheiro, explica McSweeney. Além disso, comprar terras é uma forma de diversificar os negócios: caso o cartel seja desmantelado, eles podem revender essas terras, compradas por eles mediante coerção, acima do valor de compra (é impossível negociar justamente com traficantes).

Esses métodos estão aumentando drasticamente os níveis de desmatamento, especialmente em regiões mais vulneráveis, afirma McSweeney. Ela e outros pesquisadores estimam que o tráfico é responsável por pelo menos 30% de todo o desmatamento da América Central, chegando a ser responsável por 50% do desmatamento em algumas regiões — entre elas as florestas tropicais do norte da Guatemala, localizadas na região de Petén.

A heroína não é o único produto traficado por essas organizações criminosas. A cocaína ainda é o carro-chefe dessas quadrilhas, e muitas delas também plantam maconha e produzem metanfetamina. Nos últimos anos, entretanto, a heroína deu origem a um crescente mercado de exportação na América Central, fato corroborado por dados da DEA, agência americana que combate o narcotráfico e que afirma que as apreensões de heroína na fronteira EUA-México dobraram entre 2010 e 2015.

Grande parte dessa heroína vem diretamente do México, mas a DEA afirma que parte da heroína que entra nos EUA é produzida na Guatemala ou na Colômbia e transportada por meio de rotas erguidas na América Central. É difícil definir quanto do lucro desses cartéis depende da venda de heroína, mas é correto afirmar que a droga tem papel fundamental no narcotráfico.

"O público não tem acesso ao que esse grupos fazem ou não", disse Ben Hodgdon, diretor geral de proteção ambiental da Rainforest Alliance, uma ONG que trabalha em defesa da biodiversidade. "Mas essas organizações criminosas estão ligadas ao tráfico de diferentes drogas, então acho que é razoável concluir que há, sim, alguma relação."

Enquanto o o narcotráfico desmatava as florestas da América Central, a venda de heroína nos Estados Unidos explodia. De acordo com um estudo recente, o consumo de heroína nos EUA aumentou cinco vezes entre 2001 e 2013. Isso significa que, em 2013, aproximadamente 3.8 milhões de americanos já haviam consumido heroína pelo menos uma vez na vida.

Dados do CDC e Martins et al, JAMA Psychiatry, Março, 2017 Crédito: Sarah MacReading/Motherboard

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças afirma que o consumo de heroína nos EUA aumentou em praticamente todos os grupos demográficos. O consumo mais do que duplicou entre jovens com idades entre 18 e 25 anos, e o número de overdoses causadas pela droga também está em ascensão. Em 2013, a taxa de mortes em decorrência do uso de heroína foi quase quatro vezes maior do que a taxa de 2002, com mais de 8.200 overdoses registradas em 2013. Em 2015, o número de overdoses decorrentes do uso de opioides nos EUA ultrapassou o número de homícidios por armas de fogo pela primeira vez na história.

Nem todos os viciados em analgésicos chegam a consumir heroína, mas estudos mostram que uma parcela significativa dos usuários de heroína possui um histórico de uso de opióides. Entre 75% e 80% dos usuários de heroína já consumiu analgésicos de forma indevida, e usuários de opiáceos são 40 vezes mais propensos a desenvolver vício em heroína.

Todos esses dados nos levam a uma conclusão perturbadora: o consumo exagerado de analgésicos transformou milhares de americanos que nunca teriam consumido heroína em viciados. Isso, por consequência, aumenta a demanda por heroína e dá para os traficantes da América Central e do Sul um mercado maior para abastecer e mais meios para destruir, de forma sistemática, alguns dos mais valiosos ecossistemas do planeta.

"Isso está totalmente ligado ao que está acontecendo nos EUA", disse McSweeney.

Mas nem tudo está perdido: os especialistas que entrevistei acreditam que há formas de reverter essa situação. McSweeney, por exemplo, acredita que o fim da guerra às drogas e a criação de uma política de saúde pública diminuiria os danos à biodiversidade. Hodgson, por sua vez, acredita que é preciso ajudar as comunidades locais a recuperar suas terras — sua pesquisa mostra que os cartéis tendem a evitar áreas já ocupadas.

Além disso, está claro que o fim da epidemia de opiáceos dos EUA, promessa feita mas não cumprida pelo atual presidente Donald Trump, poderia ter impacto positivo nos esforços de preservação ambiental. Isso não acabaria com o desmatamento, é claro, mas talvez nos ajudasse a salvar uma das últimas florestas tropicais do hemisfério norte de seu maior inimigo: o próprio vício.