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Entrevista

Por que protestos funcionam

A autora de um novo livro sobre ação direta diz que o principal objetivo de manifestações é deixar as pessoas no poder desconfortáveis.

por Philip Eil
07 Março 2017, 2:34pm

Esta entrevista foi originalmente publicada na VICE UK .

No final de seu novo livro Direct Action: Protest and the Reinvention of American Radicalism, a jornalista L. A. Kauffman aponta que já "experimentou um bom punhado de história recontada em primeira mão". Por quase quatro décadas, Kauffman tem participado de comícios contra o apartheid, ações do ACT UP, marchas lésbicas, acampamentos do Earth First!, ações diretas contra o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, e grandes protestos contra a Guerra no Iraque no começo dos anos 2000. "Tenho sido uma ativista imersa em vários mundos do radicalismo norte-americano desde 1980", escreve ela. "A primeira vez que fui presa num protesto foi em 1992, e tenho planejado participar de mais ações diretas do que consigo contar."

Essa experiência pessoal, combinada com pesquisa exaustiva, empresta autoridade para esse amplo estudo sobre protestos, táticas, ambições, disputas, vitórias e contratempos da esquerda nos últimos 45 anos. Os leitores são levados para os bastidores da "maior e mais audaciosa ação direta da história dos EUA" (os protestos contra a Guerra do Vietnã em 1971), aprendem sobre um manifestante de 1987 que perdeu a perna enquanto bloqueava a passagem de um trem com munição indo para a América Central, traçam as origens de expressões hoje familiares como "interseccionalidade" e "identidade política", e ouvem a análise de como os protestos na conferência da Organização Mundial de Comércio em Seattle foram "pacíficos e brilhantes". Se ação direta é "um laboratório para experimentações e inovações políticas", como Kauffman argumenta na introdução do seu livro, então esse é o relatório final da pesquisa. E não poderia ter sido lançado num momento melhor. Falei com Kauffman recentemente por telefone sobre o que é ação direta, por que protestos importam, e como esse livro se aplica à era do presidente Donald Trump.

L. A. Kauffman. Foto cortesia da editora Verso.

VICE: Como você define "ação direta"?
L. A. Kauffman: Não há um consenso sobre o que é ação direta. Geralmente defino isso como qualquer forma de organização ou ativismo fora dos canais autorizados de participação no nosso governo. Assim, votar seria a forma mais clássica de participação autorizada. E qualquer forma de protesto, seja um simples comício ou quando pessoas se acorrentam a algo para bloquear uma passagem — vejo um grande espectro coberto pela ação direta.

Você pode entrar em muita semântica aqui, tipo, "Uma marcha onde há permissão das autoridades é uma ação direta, ou uma forma autorizada de protesto?" Para algumas pessoas, ação direta é definida estritamente como algo que impede imediatamente uma injustiça em seu caminho. Então ação direta pode ser bloquear o caminho de um trator, mas não realizar um protesto na frente do gabinete que aprovou a demolição, por exemplo.

Estou interessada numa visão mais ampla e em movimentos mais inclusivos. Não gosto de definir que apenas privilegiados que podem aceitar grandes riscos estão envolvidos em ação direta.

O livro termina em Ferguson e no nascimento do movimento Black Lives Matter . Se você tivesse que escrever um capítulo sobre resistência ao Trump, o que você diria?
Quando Reagan assumiu em 1980, ele veio depois de um período de declínio da esquerda. E o contraste com esse novo presidente é que Trump assumiu depois de anos de ascensão do ativismo, começando com o Occupy Wall Street e os muitos grupos que meio que nasceram do Occupy, incluindo o Black Lives Matter e os protestos do Standing Rock Sioux. Então, o que me deixa mais impressionada, é quanto o caráter da resistência é moldado pelo que veio antes. Você tem um movimento de movimentos; é um modelo de descentralização, resistência em rede onde não há um líder ou um punhado de organizações que as pessoas podem apontar como base. Há muitos, muitos grupos diferentes, muitas redes diferentes... trabalhando juntas e se relacionando umas com as outras de jeitos que as pessoas nem sempre imaginam.

Por exemplo, quando você pensa nos protestos nos aeroportos [em oposição à ordem executiva sobre imigração e refugiados de Trump]. O New York Times disse que eles "vieram do nada". Repórteres mais sábios disseram que havia grupos de direitos dos imigrantes há tempos e que eles foram responsáveis por organizar os protestos. Mas pouquíssimas pessoas perceberam, por exemplo, que o Black Lives Matter estava muito envolvido nos protestos e mobilizando os atos em suas próprias redes. As redes de protesto do Dakota Access Pipeline foram mobilizadas e envolvidas. Então, havia muitos, muitos centros diferentes se organizando, uma grande rede de resistência.

"As pessoas precisam pensar nisso como um processo de longo prazo e não esgotar suas forças no meio do caminho."

Quais são alguns erros e acertos que os organizadores devem considerar agora?
Tem um jeito como as pessoas podem esgotar um ativismo puramente expressivo, quando você está essencialmente parado em frente a um prédio gritando "Não!", e tem uma qualidade nisso onde, como estamos nos mobilizando de crise em crise enquanto as pessoas tentam responder às várias ações da administração atual, há um risco de esgotamento em manter o volume da resistência e oposição alto, nesse pico de febre. Então acho que o conselho que eu daria é que as pessoas precisam pensar nisso como um processo de longo prazo e não esgotar suas forças no meio do caminho.

Por outro lado, aplaudo o fato de que há energia suficiente contribuindo para que a administração de Trump esteja em estado de crise desde a posse. O movimento básico para ação direta é criar uma crise para quem toma as decisões, seja quem for, qual for o caso e quais forem as circunstâncias com que você está lidando. E criar uma crise não é a mesma coisa que, por exemplo, retomar o Congresso em 2008 ou 2010, certo? Esses são projetos diferentes. Mas agora não há dúvidas que, criando uma crise para a administração Trump, os movimentos de resistência já têm um efeito além do que podemos medir.

"O movimento básico para ação direta é criar uma crise para quem toma as decisões. Criando uma crise para administração Trump, os movimentos de resistência já têm um efeito além do que podemos medir."

Se alguém te perguntar de cara: "Ação direta funciona?", o que você diria?
Sim. O que não significa que cada protesto que as pessoas já organizaram funcionou. Protestos são ferramentas. Há vários tipos de protestos, e alguns funcionam melhor que outros, do mesmo jeito como você não usaria um martelo quando precisa de uma chave de fenda. Mas na maior parte, a lição mais básica que aprendi, observando a história dos movimentos de base, é que movimentos que usam táticas de protesto mais ousadas têm mais vitórias que aqueles que não usam, e movimentos que se limitam a coisas como campanhas de escrever cartas ou reuniões marcadas com legisladores.

Uma das partes mais memoráveis do livro é quando você descreve que, depois da campanha contra o apartheid nos EUA nos anos 80, particularmente nas universidades, Nelson Mandela veio para o país e deu um discurso em Oakland onde disse, basicamente, "Obrigado. Vocês tiveram uma parte nisso". É algo muito impressionante de ler.
Sim, acho que isso te dá um frio na barriga. Quer dizer, os jeitos como ações diretas funcionam ou protestos funcionam, você geralmente vê causa e efeito imediatos. Raramente você tem um caso onde as pessoas que estão organizando os protestos são as mesmas que estarão, citando Hamilton, "na sala onde tudo acontece", a sala onde o negócio é fechado e um arranjo é feito para resolver a crise. Então esses momentos onde há uma clareza sobre isso e reconhecimento são extremamente poderosos. Porque, muitas vezes, as pessoas que trabalham nos acordos e depois clamam a vitória são muito diferentes das pessoas que colocaram o assunto na agenda em primeiro lugar. Isso é parte do que você faz: você coloca um assunto que antes estava em suspensão na agenda.

Tem um trecho no meio do livro que parece particularmente relevante hoje. Você escreve: "Os ativistas da geração pós-60 tipicamente eram radicalizados pela sensação de que seu futuro estava em risco: pela ameaça da aniquilação nuclear, catástrofe ecológica, insolvência do governo, pela erosão dos direitos de aborto ou a destruição provocada pela AIDS". Você acha que, em certo sentido, essa descrição se aplica ao que está acontecendo em 2017?
Sim. E isso é muito interessante. Quando escrevi isso, eu não estava pensando necessariamente no jeito como o mundo estaria quando o livro saísse. Como muita gente, achei que Hillary Clinton seria eleita, e achei que o livro sairia numa época em que as pessoas estariam se mobilizando para empurrá-la para a esquerda e conseguir mais avanços em cada questão. O timing do livro foi impressionante — li a versão final um dia depois da eleição.

E, sim, há uma ressonância profunda com aquelas experiências de lidar com a marginalização e derrota, particularmente nos anos Reagan, o que realmente me pegou de surpresa. Que isso seja tão relevante agora, que o senso de catástrofe iminente esteja mobilizando pessoas de maneiras diferentes agora, acho que a diferença é que os movimentos daquele período tendiam a ser minorias e se ver como minorias. Agora isso é uma resistência ampla e espalhada, de maneira fundamental, representando a maioria do país. Há simultaneamente a sensação de catástrofe iminente, e de que milhões e milhões de pessoas estão do nosso lado.

A ideia de que a resistência pode ser a maioria é impressionante.
Sim! E é aqui que estamos, certo? Todo mundo está ouvindo histórias de lugares que não são Berkeley, Califórnia ou Brooklyn, onde muitas pessoas apareceram na prefeitura, e os protestos foram muito fortes. Há uma sensação entre muita gente mais liberal e moderada, que não se consideraria radical, esquerdista ou nada disso, nessa paisagem sobre qual escrevi, abraçando o legado maior dos movimentos de resistência não-violenta por urgência e desespero.

Eu estava em DC durante a posse e depois no dia 21 [de janeiro, na Marcha das Mulheres]. Eu estava com algumas das organizadoras mais antigas, conseguimos passar pela multidão e finalmente chegamos ao meio do shopping. E, entre nós, uma ou outra tinha participado dos maiores protestos dos últimos 30 a 40 anos. E ficamos lá olhando em volta, e teve um momento em que percebemos: "Essa é a maior multidão que já vi na vida. E já estive em alguns dos maiores protestos da história dos EUA". Foi arrepiante.

E lá pude ver as influências das organizações que vieram antes, mas há algo especial acontecendo agora, algo extraordinário. Muitos dos organizadores que conheço estão sentindo a mesma sensação: ao mesmo tempo em que estamos aterrorizados com o que pode vir, há uma sensação de esperança em como muitas pessoas estão saindo de sua zona de conforto; fazendo coisas que nunca fizeram antes; se alongando, política e taticamente, para lutar por direitos e liberdades básicos agora. Então esse é um momento assustador e incrivelmente inspirador.

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Direct Action: Protest and the Reinvention of American Radicalism por L. A. Kauffman está disponível online pela Verso.

Tradução: Marina Schnoor

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