O Bernard Sumner falou sobre o processo de composição dos sons do New Order

Depois de lançar o décimo disco da banda, ‘Music Complete’, o líder do NO diz que quanto mais obscura a letra, mais autobiográfica ela é.
01 Fevereiro 2016, 11:00am
Photos by Nick Wilson.

Responder entrevistas durante 30 anos deve ser uma parada tediosa. As mesmas perguntas, ano após ano, levam a respostas enlatadas mesmo das almas mais criativas e generosas. Há limites para o que se pode dizer sobre a sua vida, o seu processo criativo ou o seu antigo baixista. Combine isso com um melhor amigo morto que era o vocalista da sua primeira banda, sendo elevado ao status de santo, e é perfeitamente compreensível que você recorra a respostas prontas e à nostalgia.

Levando isso em conta, falar com o vocalista, guitarrista, tecladista e fundador do New Order, Bernard Sumner (junto com Phil Cunningham e o novo baixista, Tom Chapman) podia ter sido muito pior. A banda e eu às vezes entramos num diálogo de surdos — seguidamente sem saber quando o outro estava brincando até muito, muito tempo depois. Mas ninguém morreu, chorou ou se enfiou embaixo da mesa para dormir, a decoração da sala de estar do Houston Four Seasons era agradável e havia balas de menta sobre a mesa. E o novo disco do New Order, Music Complete, é excelente, então, pelo menos, não tive que mentir.

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Music Complete, o décimo disco do New Order, tem sido aclamado como um retorno à velha forma, o melhor desde Technique, de 1989. Os aplausos são merecidos. Mesmo com a ausência absolutamente controversa do baixista original, Peter Hook (ele está processando a banda, eles estão *cof cof* decepcionados com ele), o New Order criou um dance-rock equilibrado, grudento e pulsante, que não ficaria deslocado na época em que eles criaram (ou pelo menos aperfeiçoaram) o gênero. O New Order nunca foi de ostentar nas suas inovações, preferindo combinar as coisas que adora — pop taciturno e faixas de pista — a expressar deliberadamente um feeling vanguardista. Mesmo sendo uma das maiores bandas do mundo, eles são agressivamente discretos. Talvez sejam os cortes de cabelo estilo recruta que eles mantêm há três décadas.

A banda estava em Houston para o Day For Night Festival, um evento multimídia de dois dias que trouxe artistas tão diversos quanto Phillip Glass e Kendrick Lamar para a cidade. O New Order tocou imediatamente depois da cantora de R&B Janelle Monáe, um show decididamente difícil de suceder. A apresentação foi excelente, misturando novas músicas de Music Complete com essencialmente todos os hits que a plateia esperava. Para uma banda que pode se apoiar no profissionalismo puro e simples para sobreviver, havia um prazer óbvio na maneira como eles tocavam. Só a sua performance de "Love Will Tear Us Apart" pareceu estranha; o telão com os dizeres "Joy Division Forever" atrás da banda deu ao cover um ar de karaokê, embora eu fosse o único na plateia extasiada que parecia se importar.

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No dia anterior, me sentei com três membros da banda para falar sobre o novo disco. Não perguntei sobre Peter Hook e sobre o Joy Division porque, francamente, a banda já falou muito sobre os dois assuntos, e os procedimentos legais referentes a Hook os proíbem de falar muito sobre o primeiro tópico. Apesar dessas limitações à conversa e do sentimento ocasional de que eles tinham bastante certeza de que estavam lidando com um legítimo idiota (o que, sabe, é justo), todos fizemos o melhor que podíamos. Sou grato a eles por terem dedicado seu tempo para discutir o seu processo de composição, além de impressões externas sobre as quais eles não têm nenhum controle e a sua fase favorita do Iggy Pop.

Li entrevistas antigas com o New Order, até dos anos 80. Vocês costumavam não falar sobre suas vidas pessoais. Acham que agora, que tudo é da conta de todo mundo, e ser confessional é obrigatório para os cantores pop, há mais pressão para falar sobre os seus sentimentos e as suas vidas?
Sumner: Ainda não falamos sobre nossas vidas pessoais. Mas escrevi um livro, Chapter and Verse, em que falo sobre minha vida pessoal. Acho que os jornalistas nunca nos perguntam sobre nossas vidas. Acho que nunca fizeram perguntas que poderiam soar invasivas. Costuma haver uma linha divisória entre a sua vida professional e a sua vida pessoal. Depende do seu humor se você quer cruzá-la ou não.

Pode ter sido um mal-entendido da minha parte, porque agora as bandas costumam ser muito autobiográficas nas suas letras.

Sumner: Bem, eu não diria que fui — sabe, às vezes, se as letras são autobiográficas, está meio escondido. Quanto mais obscura é a letra, mais autobiográfica ela é, no meu caso. Eu seguidamente escrevo sobre um cenário inventado, pessoas inventadas — você teria que investigar música a música. Acho que muitas das minhas primeiras letras eram autobiográficas, porque eu não estava muito feliz; estava tentando sair de um buraco emocional. Muitas delas falam sobre o desejo de sair desse buraco. Mas eu meio que escondo isso nas letras.

De que fase você fala?

Sumner: Dos anos oitenta.

Então remete até o Technique.

Sumner: Sim. Mas não são todas as músicas. "Temptation" é um bom exemplo. Acho que todos nós procuramos alguma coisa. Às vezes você precisa mesmo descobrir o que é. Você desiste de procurar quando é mais velho. [Risos]

"Quanto mais obscura é a letra, mais autobiográfica ela é, no meu caso." — Bernard Sumner

Você diria que a busca por alívio ou escape é um tema comum na dance music e no rock'n'roll?
Sumner: Bem, não posso falar sobre todos os gêneros musicais, mas você está procurando significado — um propósito na vida — não está? No último mês de turnê, você começa a se sentir como uma mala humana. A vida deve ser mais do que ser uma mala humana.

Então quando você está compondo de fato...
Sumner: Você está falando da música ou da letra?

Da letra, eu acho. Tendo a focar mais nas letras porque...
Sumner: A maioria dos jornalistas faz isso porque é o seu meio — as palavras.

Sim, porque não sabemos tocar nada. E somos preguiçosos.
Sumner: Bem, o que quero dizer é que pessoas diferentes vêem música de jeito diferentes. Quando escuto música, não foco imediatamente na letra. Elas são o último prato no cardápio para mim. O que escuto é a vibe geral — a melodia é muito importante.

A maneira como compomos é, primeiro escrevemos a música, e música que seja evocativa. Pego a música, escuto-a sozinha, vejo o que ela evoca e escrevo sobre o que ela evoca, e é assim que escrevo as letras. Algumas vezes, escrevi música e letra ao mesmo tempo, como em uma faixa chamada "Run Wild". Em "Unlearn this Hatred", de Music Complete, compus o vocal primeiro — mas foi uma situação à parte. A música instrumental pode ter muito peso e poder emocional — como muitas faixas de música clássica, por exemplo. E pode te emocionar de verdade, quase ao ponto das lágrimas. Uma das coisas mais mágicas a respeito da música é que, sem palavras, ela possa te emocionar tanto.

Você pode estragar uma música com o vocal errado muito facilmente. Pode pegar uma faixa que tem muita energia, rítmica e cheia de beats, e colocar um vocal meio crooner — um vocal legato que prolonga as notas — e estragá-la. Então você está muito consciente na etapa seguinte, que normalmente é a última, que é o vocal; você está muito consciente de que tem o futuro dessa música nas mãos. Você pode tanto melhorá-la quanto piorá-la.

Uma das coisas que faço é colocar e tirar o vocal para ver se [a música] soa melhor ou pior com o vocal. Se soa pior, descarto o vocal e começo de novo. Então ele precisa ajudar a música; de outro modo não faz sentido, e acho que isso se aplica a qualquer overdub ou instrumento que você use.

Certo, e você acha que esse é o caso com as faixas do New Order mais voltadas para a pista?
Sumner: Deus, essa é uma pergunta difícil. Acho que as músicas se beneficiam de um pouco de ar. Se você imaginá-las como moléculas, tem que haver espaço entre as moléculas. Se estão todas amontoadas, não soa bem. Precisa ter um pouco de ar — embora uma música mais despida possa soar chata. Muitos remixes que ouvi soam apenas como uma bateria eletrônica acompanhada de um vocal, e para mim, isso é entediante.

No mesmo espírito, não há nenhuma faixa neste disco com menos de quatro minutos. Essa escolha foi feita com um propósito imersivo ou em função da repetição necessária à dance music?
Sumner: Acho que é aquela história de sobrepor muito as coisas. Você pode fazer mais isso no rock do que na dance music. A dance music – como uma "Blue Monday" — não soaria bem se tivesse montes de camadas sobrepostas. As faixas são mais longas porque tentamos incluir as melhores ideias sem sobrepô-las como se fossem um baralho de cartas. Nós as organizamos sequencialmente.

Já que estamos falando de algumas faixas em particular, estou curioso sobre "People on the Highline". Sei que você tira os títulos de livros.
Sumner: Às vezes. Menos hoje em dia.

Achei que o título talvez tivesse sido tirado de um poema de Wisława Szymborska, mas não. De onde veio?
Sumner: Dei uma volta pelo High Line [um parque suspenso em Nova York].

É bacana, não é?
Sumner: [Risos] É. É ótimo. Para mim, é bom para observar pessoas e olhar os prédios e os jardins bonitos. Pode ser bastante entendiante às vezes, durante uma turnê, quando você está preso num hotel e não sabe o que fazer consigo mesmo. Acho que ele só ficou na minha cabeça, e achei que a faixa soava bastante como Nova York — então foi assim que fiz a conexão.

Vocês se vêem trabalhando dentro de uma tradição particular, seja o New Order que quebrava barreiras nos anos 80, ou a tradição mais antiga, da dance music em si? Ou não pensam sobre isso?
Sumner: Sequer pensamos nisso. Só olho a tarefa que tenho em mãos e tento fazê-la da melhor maneira possível. Obviamente, quando você está criando um disco, tem que dar o seu melhor, porque vai tocar todas essas músicas durante os próximos anos. Então se forem uma merda... Você vai ter que aguentar merda por alguns anos [A sala inteira tem um ataque de riso].

Tem alguma música que as pessoas adoram que vocês toquem e vocês ficam tipo: "MERDA, estamos tão cansados desta música"?
Sumner: Ehhh... Bem, não sabemos o que as pessoas querem que a gente toque. Todo mundo tem uma música preferida diferente. Acho que depende do temperamento da pessoa qual vai ser a música favorita dela do New Order. Às vezes não tem essa história de que uma é melhor do que outra. [As músicas] são apenas diferentes.

Como você se isola das exigências constantes de uma base de fãs mundial? Fugindo constantemente dos jornais?
Sumner: Qual é a pergunta?

Você apenas não lê o que sai na imprensa ou os fóruns de fãs?
Sumner: Não estamos nas redes sociais.

Alguns de vocês estão.
Tom Chapman: Sim, eu estou.

"Acho que as músicas se beneficiam de um pouco de ar. Se você imaginá-las como moléculas, tem que haver espaço entre as moléculas. Se estão todas amontoadas, não soa bem. Precisa ter um pouco de ar." — Bernard Sumner

Bem, você já falou no passado sobre a necessidade de ter uma carapaça grossa como cantor.
Sumner: Sim, a porta está aberta quando você está fazendo um disco — é quando você abre a porta. Quando você está fazendo um show — é aí que você abre a porta. Mas quando você não está fazendo essas coisas... De novo, depende do seu temperamento. Sou uma pessoa bastante reservada. Sou filho único. Às vezes gosto de estar rodeado de gente; às vezes gosto bastante de estar sozinho. E quando digo sozinho, digo sozinho. Posso pensar e sonhar quando estou sozinho, e você não pode fazer isso quando tem um monte de gente em volta. O Tom gosta muito de ir ao pub quando estamos em casa. Ele gosta de socializar tomando um chope.

Chapman: Não sou um alcóolatra, a propósito.

Claro!

Chapman: Gosto de sair!

Sumner: O alcóolatra sou eu. Por que se dar ao trabalho e sair por aí quando você pode simplesmente beber em casa? Acho que o que estou tentando dizer é... Sou infeliz. [Risos]

Sim, é isso que estou concluindo...
Sumner: Quero dizer, eu gostava mais de clubes, não de pubs.

Por que não dá para ouvir ninguém falar?
Sumner: Não, não — eu costumava ir a clubes porque tinha mais garotas lá. Você vai a um pub, só tem homens. Além disso, tem música envolvida, e dança — costumávamos socializar muito naquela época. É claro, era uma socialização quimicamente potencializada. Bem, socialização.

Eu costumava gostar de clubes, mas sabe, a coisa saiu meio fora de controle. Você sai às 19h e não volta para casa até o meio-dia do dia seguinte. Então você faz isso duas vezes em um fim de semana, Eventualmente, acabou comigo. Os clubes venceram e eu perdi. Mas só ir ao pub — eu só igualo isso com me sentir mal no dia seguinte. Ir para o clube e ficar 12 ou 14 horas — isso sim é uma noitada digna!

Quando foi a última vez que você viveu desse jeito?
Sumner: Na última vez que estive num clube, quase quebrei a perna — foi em Berlim, uns anos atrás. A maneira como me lembro é, estava tocando house, e eu estava dançando na pista. Então colocaram "Blue Monday" para tocar. Um monte gente foi para a pista, um monte, e eu pensei: "Não posso ser visto dançando minha própria música", então tive que sair. Bem no meio da pista tinha uma mesa de centro, e esta coisa branca de plástico que ficava bem embaixo, na altura...

Chapman: Na altura das canelas. Lembro de vê-lo tipo: "Eeeeei!"

Sumner: Voei por cima dela. Quase quebrei a perna. Acabei com um galo enorme na canela. E tínhamos um show no dia seguinte. Ficou meio perigoso.

Últimas perguntas, enquanto ainda temos tempo: o streaming fodeu vocês?
Sumner: Os negócios não são tão bons quanto costumavam ser, para ser brutalmente honesto, mas é assim que o mundo é agora, não é? Você tem que aceitar. Mas essa é mais uma pergunta para a gravadora.

Para uma música como "Stray Dog", que Iggy Pop recita em Music Complete — a letra/poema foi escrita com Iggy em mente?
Sumner: Acho que a escrevi e imediatamente depois pensei: "Iggy seria bom para isto", porque escrevi o poema, e tinha a faixa em mente para trabalhar com ela, então a escrevi, e acho que naquela noite ou na noite seguinte compus o vocal no estilo do Iggy Pop. Como uma imitação de Iggy Pop, então a mandei para Iggy.

Qual fase do Iggy Pop é a sua favorita? Você é um cara que curte os Stooges? A fase Bowie?
Sumner: Bowie, é, Bowie.

Tradução: Fernanda Botta

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