Entrevista

Como é fotografar a brutal guerra às drogas nas Filipinas

Falamos com um fotojornalista local sobre como é testemunhar o massacre que já conta com mais de 6 mil mortos.

por Tess McClure
24 Fevereiro 2017, 4:05pm

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE US .

Mais de 6 mil pessoas já foram mortas nas Filipinas na infame guerra às drogas do presidente Rodrigo Duterte. O presidente construiu sua popularidade com uma abordagem de tolerância zero ao crime, fazendo uma campanha que incluía a promessa de matar 100 mil criminosos, e despejar tantos corpos na Baía de Manila que "os peixes ficarão gordo". Desde que venceu as eleições em julho passado, Duterte começou a cumprir essas promessas. Falamos com o premiado fotojornalista local Jes Aznar sobre a situação atual nas Filipinas, a natureza dos assassinatos e o trabalho de um jornalista para documentar tudo isso.

Leia também: "Morte e vida no Iraque pelas lentes de um brasileiro"

Quando falamos com Aznar, ele estava trabalhando direto há cinco meses, dormindo durante o dia e saíndo à noite para documentar as mortes nas ruas de Manila. Suas fotos da guerra às drogas — e as consequências do embate — já apareceram no New York Times, Getty e Der Spiegel.

VICE: O que acontece quando você sai para fazer a cobertura? Você segue a polícia ou visita as comunidades?
Jes Aznar: Nos reunimos na sala de reunião com a imprensa da Polícia de Manila — uma das maiores delegacias da cidade. Todo mundo se encontra lá, jornalistas locais, internacionais, fotógrafos – é um escritório de imprensa que todo mundo frequenta. Mas não temos realmente chance de sair com a polícia — a polícia não permite que nenhuma mídia a acompanhe durante as operações. Eles citam várias razões, como segurança, que não querem comprometer as operações, coisas assim. Não conheço nenhum caso em que a mídia teve permissão para cobrir uma operação da polícia. Só podemos cobrir os eventos depois: quando há um cadáver. Depois dos tiroteios. Muitas vezes, o pessoal mais útil para nós é o da funerária. Eles sabem se é um caso relacionado a drogas, eles vão buscar o corpo, então nos ligam ou mandam mensagem dizendo: "Ei, vamos pegar um corpo em tal área".

Um legista prepara o corpo de Paul Lester Lorenzo, 32 anos, morto pela polícia numa operação em Manila em 17 de agosto de 2016. A esposa de Lorenzo, Aileen Ferrer, 32 anos, diz que Lorenzo foi visto pela última vez por vizinhos, algemado pela polícia antes de aparecer morto. Foto: Jes Aznar.

Desde que começou, você deve ter entrevistado muitas famílias e entes queridos dos mortos. Tem alguma história específica que você pode contar sobre as pessoas que conheceu?
Logo após os tiroteios, logo depois que o parente foi morto, a família geralmente está muito emotiva e não quer conversar. O que fazemos é voltar no dia seguinte para fazer nossas entrevistas. Muitos [repórteres] tentam respeitar o espaço deles, especialmente nesse momento em que viram um parente ser morto. Fazemos algumas perguntas, geralmente coisas pequenas: nome, se podemos voltar depois. Tentamos respeitar o espaço deles.

Mas é difícil escolher um caso que me marcou, porque todos os casos... toda noite deixa uma marca. Não tem como classificar todas as mortes que estão acontecendo. Agora, vejo em média dez mortes por noite, desde julho do ano passado. Então você pode imaginar quantas pessoas morreram e quantas cenas de crimes visitamos. Mas o mais perturbador para mim são os casos em que as vítimas foram executadas sumariamente. Muitas vezes achamos essas pessoas sem nenhum documento, sem nenhuma marca de identificação, só um corpo caído na rua. Eles são enrolados em fita, fita adesiva. O rosto enrolado em fita adesiva, as mãos amarradas. Outro João Ninguém. Essa cena, esses casos em particular, me marcam porque — é uma pessoa, sabe? Ele foi assassinado, e nem teve a chance ou a dignidade de ser identificado. Ele foi jogado ali, como um animal, não como um ser humano. Esses são os momentos que me deixam realmente triste. E perturbado. Por que, sabe, não quero acabar assim. Ninguém quer acabar assim.

Um revólver calibre 38 perto da mão de um suspeito de tráfico de drogas, depois de uma troca de tiros com a polícia em Manila em 17 de agosto de 2016. Foto: Jes Aznar.

Quantos casos assim você já viu nos últimos cinco meses?
Ah, não tenho ideia. Provavelmente dezenas.

Recentemente, Duterte anunciou que deve suspender a guerra às drogas. Você tem alguma esperança de que isso possa realmente acontecer?
Sim, claro. Mas palavras são diferentes do que está acontecendo, diferente das ações. Apesar de dizerem que a guerra às drogas está temporariamente suspensa, ela continua acontecendo. Mas a polícia mudou o jeito como fala. Por exemplo, outra noite, algumas pessoas foram mortas, mas a polícia disse "Ah não, não foi um caso relacionado a drogas. É um caso de roubo de carro" ou outros crimes.

Como uma morte geralmente acontece? É um cara anônimo passando numa moto? Como essas coisas se desenrolam?
Sim, há muitas maneiras. Podem ser pistoleiros não identificados em motos. Eles param e matam a pessoa com um tiro direto na rua. Mas as pessoas dizem que vários dias antes de um crime, elas veem desconhecidos na área, talvez observando a pessoa, aprendendo sua rotina, coisas assim. Outro jeito é quando dezenas de homens mascarados entram numa comunidade, invadem uma casa e matam uma ou várias pessoas. Ano passado — antes de Duterte anunciar a suspensão das operações — a polícia conduzia esses ataques legitimamente. Eles entravam numa comunidade dizendo que tinham uma pista, que havia um usuário ou traficante em tal casa naquela área. Então eles prendiam a pessoa. Aí, depois da prisão, algumas horas depois, recebíamos uma ligação — a pessoa já estava morta. E a polícia dizia que ela tinha tentado fugir ou pegar uma arma. Geralmente essa era a razão que eles davam. São milhares de casos assim, em que a pessoa supostamente tentou pegar sua arma e escapar enquanto permanecia algemada.

Outro tipo de morte é quando a pessoa desaparece por dias. Ninguém sabe onde ela está ou quem pode ter levado ela. Aí, alguns dias depois, encontram a pessoa morta em algum lugar.

Nestor Hilbano consola a esposa, Alma, depois de ver o filho num saco de cadáver num beco escuro em Tatalon. Eles eram os pais de Richard Hilbano, 32 anos, morto pela polícia numa operação contra o tráfico de drogas. A polícia na cena relatou que Richard estava fumando maconha com outras três pessoas quando todos foram baleados e mortos. Foto: Jes Aznar.

Então alguém simplesmente desaparece de sua comunidade, ninguém sabe o que aconteceu, e aí a pessoa aparece morta alguns dias depois?
Sim, a pessoa é encontrada num beco escuro em algum lugar, com o papelão colado no corpo dizendo "Sou traficante", "Sou viciado", coisas assim. Aqui nas Filipinas é basicamente assim: se você odeia alguém, é só sequestrar a pessoa, matá-la e colocar um papelão dizendo que ela era um traficante, e ninguém vai se dar ao trabalho de investigar [a morte].

E semana passada também começaram discussões sobre transferir responsabilidade da polícia para o FAF, o exército se juntando à polícia na guerra às drogas. Isso marca uma mudança significativa?
Sim. As FAF (Forças Armadas das Filipinas) é uma organização militar. A PNF (Polícia Nacional das Filipinas) é uma organização civil — a obrigação desta última é manter a paz e a ordem na comunidade. É a mesma coisa em todo lugar, você não pode empregar militares em trabalho civil. Aqui nas Filipinas já vimos muitas atrocidades dos militares, desde o tempo de Marcos, desde o tempo da lei marcial, o tempo de Cory Aquino, os presidentes depois dele. Os militares têm uma reputação de violação de direitos humanos, onde quer que estejam e o que quer que estejam fazendo nas comunidades. Então, quer dizer, considerando isso, acho que devemos saber o que esperar depois que Duterte disse que os militares agora podem se juntar aos esforços da guerra às drogas.

Você acredita que o envolvimento militar vai representar uma mudança significativa de abordagem? Como isso aconteceria?
Bom, os militares têm uma presença nas províncias e comunidades remotas. Então, como vejo, isso vai dar outro alcance à guerra [as drogas]. A guerra às drogas agora será implementada em vilarejos distantes, nas montanhas. No interior, nas áreas rurais, todos esses lugares. As mortes estavam confinadas a áreas urbanas. Mas essa é só minha opinião – vamos ver.

É interessante, vendo a situação de outro país — a popularidade de Duterte ainda é incrivelmente alta nas Filipinas. Por quê?
Não estou realmente surpreso. As pessoas estão cansadas do que acontece aqui. O povo se cansou de como a administração anterior estava lidando com o país, a economia, os pobres ficando mais pobres, e esses oligarcas, os ricos que estão no controle de tudo. As pessoas ficaram de saco cheio, e agora você tem alguém que não é de nenhuma família política tradicional. Provavelmente as pessoas o veem como um tipo de esperança.

E você acha que ele está correspondendo a isso? Qual o clima aí depois de tudo que aconteceu, depois que ele subiu ao poder?
Bom, há pessoas no gabinete dele realmente fazendo seu trabalho. Implementando programas para os pobres, para os camponeses. A secretaria de meio ambiente está fechando grandes empresas de mineração que destruíam a natureza, coisas assim. É muito difícil condenar o governo todo.

E quanto ao ambiente para você e seus colegas, para os jornalistas fazendo a cobertura?
Para começo de conversa, Filipinas já é um dos lugares mais perigosos para jornalistas no mundo inteiro. Globalmente, acho que estamos em segundo lugar, logo atrás da Síria, como o lugar mais perigoso. Temos uma média de dois jornalistas mortos por semana aqui. Mas por enquanto, não há nenhum relato de jornalista morto reportando sobre a guerra às drogas. Mas o interessante é que, nas redes sociais, você vê que os jornalistas estão sendo demonizados e atacados — se um jornal publica uma matéria criticando Duterte e suas políticas, algumas pessoas automaticamente vão dizer: "Isso não é verdade, vocês estão espalhando rumores, vocês são pagos pela oposição". Coisas assim. As pessoas são muito rápidas em demonizar, mesmo com o New York Times, as pessoas vão dizer que o New York Times é pago pela oposição. Seja o New York Times, Der Speigel, Al Jazira, CNN, BBC, eles vão dizer que todos foram comprados. É uma loucura — não apenas loucura, é perigoso, minar a liberdade de imprensa, minar mesmo a segurança dos jornalistas.

Desde quando comecei a cobrir a guerra às drogas, tenho recebido mensagens de ódio e ameaças na internet. A primeira cobertura que fiz para a Open Society, acho que foi ano passado. Era só uma cobertura por Instagram. Não esperávamos as dezenas de mensagens de ódio aparecendo lá. Depois disso, a série de reportagens para o New York Times, e o vídeo que fizemos com uma testemunha que era membro do Esquadrão da Morte Davao, que supostamente foi criado por Duterte em Davao. E foi quando a merda realmente atingiu o ventilador — milhares de pessoas não gostaram. Tenho tentado pegar mais leve nessas últimas semanas. Não cubro a violência tão intensamente desde janeiro. Eu estava cansado demais. Era pesado para mim, ver todos aqueles corpos e famílias chorando toda noite. Achei que eu precisava de um descanso para me reagrupar, só para poder tirar um pouco da cabeça todas essas imagens sangrentas.

Você tem alguma esperança para como tudo isso pode acabar?
Bom, temos algumas esperanças. Todos esperamos algumas coisas. Mas como jornalista, o que posso fazer, certo? Tudo que você pode fazer é ser vigilante, relatar o que realmente está acontecendo. Contar para as pessoas, esse é o nosso trabalho. Qualquer ajuda que podemos trazer está fora do nosso controle, fora do meu controle. Só podemos fazer nosso trabalho.

Mais do trabalho de Jes Aznar no site dele e no seu Instagram .

Siga a Tess McClure no Twitter .

Tradução do inglês por Marina Schnoor.

Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter e Instagram.