Foto: Alisson Louback/VICE

A história do pirata de Iemanjá

A saga de um homem, em Salvador, que coleciona e revende os objetos ofertados à Rainha do Mar.

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fev 2 2017, 10:00am

Foto: Alisson Louback/VICE

Estátuas, espelhos, espadas, vasos, bonecas, perfumes, sabonetes e até um consolo de silicone. São essas algumas das oferendas à Iemanjá coletadas pelo biólogo baiano Marcelo Pinrra no mar do Rio Vermelho, em Salvador, especialmente logo depois de 2 de fevereiro, quando dezenas de milhares de pessoas se reúnem para reverenciar a rainha do mar.

Mensalmente Marcelo mergulha com boia, sacola, máscara, cinturão de chumbo e roupa neoprene para pescar o que os devotos jogam no oceano como oferenda para o orixá.

Alguns colares "pescados" por Marcelo. Foto: Alisson Louback/VICE

Com isso, o quarto de Marceleza — como ele também é conhecido — no mesmo bairro em que acontece a festa e onde mora desde que nasceu, há 55 anos, virou um verdadeiro antiquário. Entre o sem fim de cacarecos, encontramos três revólveres e um saco de boxe, pesando quase 50 quilos, cheio de colares, guias, contas, terços e correntes das mais diversas.   

Os fiéis de Iemanjá acreditam que ela atende aos seus pedidos se for presenteada com objetos que enalteçam sua beleza. "Já passei um ano inteiro tomando banho só com sabonete que achei ali", conta, Marcelo. 

Marcelo, o pirata de Iemanjá. Foto: Alisson Louback/VICE

Questionado se o que faz não é falta de respeito com a religião alheia, o baiano é enfático: "Rapaz, falta de respeito é sujar o mar desse jeito. Por que esse povo que se diz religioso, não doa essas coisas aos pobres?", questiona. "Quem faz essa merda deveria sentir culpa, não eu", retruca o biólogo, que também é bacharel em Recursos Ambientais.

Quanto à energia que essas coisas podem carregar e o medo de ser castigado, Marcelo rebate: "Dizem que estou desafiando Iemanjá. Eu não ligo pra nada: Deus, diabo, Iemanjá, nada. Só acredito na ciência", confessa e ri.

Com olhar vidrado e sorriso fixo, ele relembra que foi na infância que começou a praticar seu passatempo favorito, hoje sua principal fonte de renda. O biólogo transforma algumas das coisas em arte e revende. "Eu acho bonito. Me sinto menino descobrindo tesouros. É fato que antes tinha mais coisa de valor, mas nunca vou parar de fazer isso".

O biólogo transforma as oferendas em arte e revende. Foto: Alisson Louback/VICE

Ele jura que uma vez achou um cordão de ouro maciço e um broche e chegou a vendê-los por R$ 6 mil. Diz também que já presenteou muita gente com seus achados, e que ninguém recusa ou fala "da tal energia negativa" quando é algo bonito e de valor. "O discurso acaba na hora".

No ano passado cerca de um milhão de pessoas participaram da festa no Rio Vermelho. A colônia de pescadores local, que há décadas organiza o evento, afirma ter distribuído cerca de 500 balaios de vime em 2016 para a população jogar suas oferendas, e estima que outros 200, de fora, foram arremessados ao mar, junto a um incontável número de barquinhos de isopor, altamente poluentes. 

Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria Cidade Sustentável de Salvador, há dois anos a prefeitura promove o programa Balaio Verde, pedindo para que os devotos só joguem no mar cestas que contenham exclusivamente elementos biodegradáveis. "Flores naturais embebidas do perfume de alfazema — para não atirar os frascos ao mar — pentes de madeira, fitas e adereços de fibra natural e bonecas de pano", orienta a campanha.

Em 2016 150 kg de oferendas poluentes foram recolhidas do mar do Rio Vermelho. Foto: Alisson Louback/VICE

Ainda assim, no ano passado o projeto Fundo Limpo recolheu cerca de 150 kg de oferendas poluentes do mar do Rio Vermelho.  

Em 2011 o Grupo de Estudos sobre Lixo Marinho do Departamento de Oceanografia da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e a organização Global Garbage realizaram 147 entrevistas intencionais (sem pretensão estatística) durante a festa de Iemanjá. Na ocasião, um questionário com perguntas referentes aos presentes ofertados foi aplicado: O que você costuma oferecer a Iemanjá? O que acontece com os presentes depois da festa? Você concorda com presentes feitos de qualquer material? Por quê? Quais presentes são mais adequados?

77% dos entrevistados respondeu que se preocupa em ofertar somente coisas orgânicas, porém, a coordenadora da pesquisa, Iracema Reimão, acredita que os participantes foram condicionados a dar essa resposta, devido à circunstância em que respondiam às perguntas.

Apesar de não haver a realização e acompanhamento contínuo para avaliar os resultados dos programas, a conscientização parece estar gradualmente aumentando. Em dezembro de 2015 a líder espiritual Mãe Stella de Oxóssi deu uma grande contribuição à causa ao anunciar que seu terreiro de Candomblé, o Ilê Axé Opô Afonjá, só presentearia Iemanjá com cânticos a partir de 2016: "A festa adquiriu uma amplitude que ultrapassa a religião. No início era um grupo restrito, mas (agora) uma multidão coloca presentes no mar e nem tudo faz bem ao meio ambiente", disse em seu texto, publicado no jornal A Tarde. "Quem for consciente e corajoso entenderá que os ritos podem e devem ser adaptados às transformações do planeta e da sociedade".

Marceleza, por sua vez, se prepara para fazer a sua festa de submersão solitária no próximo dia 3 de fevereiro, cedinho, quando tiver acabado todas as entregas oficiais no mar. 

Dia desses foi salvar uma galinha de oferenda na encruzilhada e em seguida, furou o pé num prego. Quase se afogou pirateando os presentes de Iemanjá agora em janeiro, mas nem assim apelou pra rainha do mar. Como bom agnóstico, jamais associa qualquer desgraça à sua atividade.

"Não acredito em Deus, mas no poder na mente. Deus não tem começo nem fim. Como esse lixo", finaliza. 

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