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A história do hino ufanista do regime militar "Eu Te Amo Meu Brasil"

Vinhetas do SBT resgataram o adesismo à ditadura na música popular.

por Thatiana Mazza
13 Novembro 2018, 5:56pm

Foto via Mercado Livre

Os versos “Eu te amo, meu Brasil, eu te amo / Meu coração é verde, amarelo, branco, azul-anil / Eu te amo, meu Brasil, eu te amo / Ninguém segura a juventude do Brasil” voltaram às telinhas brasileiras no canal de Silvio Santos. Na última terça-feira (6) vinhetas trouxeram os dizeres ufanistas da ditadura militar brasileira de volta à tona. Tratou-se de uma manobra da emissora para simpatizar com o novo presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL).

A música é uma composição de Dom, da dupla Dom & Ravel feita em 1970. Ravel acabou levando a fama junto com seu irmão, nesse caso, pelo que não fez. A dupla cearense ficou marcada como adesista — como eram chamados os artistas que eram favoráveis ao regime militar — e acabaram marcados também por outras músicas que louvaram o Brasil da ditadura como “Terra Boa”, “Êxodo rural” e “Você também é responsável”, que foi um hino da MOBRAL, o programa de alfabetização do governo Médici, anos mais tarde. Ainda na década de 70, foram hostilizados pelo público por essa adesão.

“Eu te amo meu Brasil” foi gravada pelo grupo Os Incríveis naquele mesmo ano. A banda paulistana aceitou gravá-la por conta do clima de Copa do Mundo. A canção tornou-se ainda mais popular que a própria música oficial da competição “Pra Frente, Brasil”, de Miguel Gustavo — também trilha sonora de uma das vinhetas nacionalistas do SBT.

O grupo surgiu em 1963, quando o guitarrista Mingo saiu da banda The Jet Blacks e sugeriu a Antonio Aguilar, um produtor de nome da época, a formação de uma nova banda de rock. Os The Clevers assinaram com a Continental, gravadora que lançou diversos artistas de renome em LP, e fizeram muito sucesso. Em menos de um ano, lançaram dois discos. Os incríveis The Clevers foi um dos mais vendidos daquele primeiro ano de golpe militar.

Em 1965, já sob o nome “Os Incríveis”, o grupo se apresentou no primeiro programa da Jovem Guarda, da TV Record. Nos anos seguintes, a carreira do grupo deslanchou, e lançaram diversos sucessos como “O Milionário”, “Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones” — que era a versão brasileira de uma canção de rock italiana que criticava o militarismo da Guerra do Vietnã.

Para o professor da USP, Eduardo Vicente, "foi uma decisão pragmática, pensando no sucesso imediato que a música poderia ter diante do clima de ufanismo inflado pela propaganda oficial, pela conquista da seleção e pelo momento de 'milagre econômico'."

A música realmente foi um sucesso nas rádios e esteve em 2º e 3º lugar na parada Nopem de LPs mais vendidos dos dois anos seguintes. Mas marcou o início do declínio do grupo, que ainda gravou mais alguns discos no final da década de 70, mas sem a mesma popularidade de antes.

Mais tarde, Luiz Franco Thomaz, o Netinho, que é baterista e líder da banda, fundou o grupo Casa das Máquinas e voltou a se reunir com parte do grupo em estúdio 37 anos depois para gravar um disco inédito, A Paz É Possível.

Netinho afirma que o grupo fora surpreendido pelo recorde de vendas, e acredita que por conta disso, alguns políticos usaram-na em suas campanhas. “Essa música não fala de política. Aliás não entendi ainda onde é que as pessoas veem relação política na letra. Cabe a culpa disso à banda?”, pergunta.

Na época do lançamento o governo fazia uma forte propaganda nacionalista, que ia muito além dos slogans “Brasil, ame-o ou deixe-o”. A paixão e a expectativa pelo tricampeonato da Copa de 1970 eram usadas como forte apelo à aprovação do novo regime autoritário. Também acontecia uma guerra ideológica dentro da indústria fonográfica. A maioria dos artistas intelectualizados, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento e Gal Costa eram opositores ao militarismo, e escreviam letras politizadas como forma de protesto.

Havia um mal estar entre aqueles que não se posicionavam contra o governo, que eram tidos como “alienados”, como alguns dos astros da Jovem Guarda. Também existia uma rejeição por parte dos artistas contrários ao regime, que eram originalmente mais populares. O professor de música da Unicamp, José Roberto Zan, acredita que com o surgimento do movimento de apologia aos feitos do governo militar “muitos artistas veem uma oportunidade de se popularizarem e entram na onda nacionalista, que foi o caso de muitas duplas caipiras”.

Segundo Zan, Eduardo Araújo em “Salve Salve, Brasileiro”, Os Originais do Samba em “Brasileiro” e “Brasil, Eu Fico” de composição de Jorge Ben Jor e gravada na voz de Wilson Simonal, marcaram a trilha ufanista do regime. Outros artistas também são lembrados como adesistas, como Tonico e Tinoco, Marcos Valle e Elis Regina.

Mais tarde, com a ditadura mais repressiva, a história se confunde e tanto adesão, quanto oportunismo e pragmatismo comercial, misturam-se. Pedro Alexandre Sanches, jornalista e autor de Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba diz que “a verdade de fatos tão complexos, que podem ir da adesão voluntária à coação. Só os participantes diretos (muitos deles já mortos) sabem."

O ufanismo e o saudosismo à ditadura não foram vistos com bons olhos pela maior parte dos telespectadores. O SBT retirou a vinheta com o hino nacional com o lema “Brasil, ame-o ou deixe-o” do ar no dia seguinte, após fortes críticas nas redes sociais. Mas as outras vinhetas, com as músicas “Para Frente Brasil” e “Eu Te Amo meu Brasil” continuam no ar.

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