O processo de grilo pra virar barrinha. Crédito: Hakkuna/ Divulgação

A barrinha de grilo é o futuro da barrinha de cereais no Brasil

Na onda da nova tendência alimentar, startups e laboratórios nacionais se preparam para servir insetos nutritivos em nossos desjejuns.

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10 Agosto 2017, 7:22pm

O processo de grilo pra virar barrinha. Crédito: Hakkuna/ Divulgação

Dizer que o ambiente está à beira do colapso é repetir o óbvio. Nossa fome insaciável por frango, porco, ovos e outros produtos alimentícios animais está ajudando a detonar o clima, as florestas e a camada de ozônio. Um relatório do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) estimou que, no Brasil, cada R$ 1 milhão gerado pela pecuária gera também R$ 22 milhões em impactos ambientais, com destaque para gases causadores do efeito estufa e desmatamento. A criação de gado degrada o solo, a água e os biomas locais. Se vacilarmos, vamos destruir o ambiente em nome de uma dieta dependente de proteína animal. A solução está naquilo que outrora pousava em nossas sopas: as moscas.

Para a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO, na sigla original), devemos nos preparar para dietas ricas em insetos. De acordo com um relatório da instituição, "insetos podem converter 2 kg de alimento em 1 kg de massa corporal; em comparação, bovinos necessitam de 8 kg de alimento para produzir 1 kg de ganho de peso". Outra vantagem no consumo dessas criaturas é que podem emitir de 10 a 100 vezes menos gases do efeito estufa que a pecuária tradicional. A alimentação dos insetos pode consistir de dejetos humanos e animais, diminuindo a necessidade da produção de rações, cultivo que é responsável por outros males ambientais, como a monocultura.

Embora insetos já façam parte dos hábitos alimentares de 2 bilhões de pessoas, a FAO quer incentivar o resto do mundo a colocar esses artrópodes no prato. Além de questões culturais, a organização afirma que é preciso que haja "aumento da inovação na mecanização, automação, processamento e logística para reduzir os custos de produção a um nível comparado a outras fontes de alimento".

O mercado já está se preparando. Nos EUA, Canadá e Europa, pequenas empresas e startups já começaram a surgir, dedicadas a criar e comercializar insetos como fonte de alimentação. A consultoria Arcluster estima que o mercado global de insetos para alimentação deverá ser de US$ 1,53 bilhão até 2021. No Brasil, a startup Hakkuna está pronta para começar a produzir barras de cereal feitas de grilo. Criada por Luiz Filipe Carvalho, engenheiro de materiais de formação, a empresa tem também o zoologista Gilberto Schickler como sócio. Atleta amador, começou a se interessar pela entomofagia durante o mestrado. "A bolsa não pagava muito bem e eu não queria comprar whey protein, que é muito caro", conta. Aluno de Schickler em cursos de criação de insetos, começou a fazer experimentações. "Peguei uma quantidade de grilo, desidratei e fiz um protótipo de uma granola com farinha de grilo. Ficou super gostoso e pensei que poderia dar certo."

A Hakkuna pretende comercializar as barras de proteína em ou ano ou menos. Atualmente, estão em busca de um investidor para estruturar o negócio e começar a produção numa escala razoável. Os sócios apostam na qualidade do produto. "Os insetos têm a mesma composição nutricional da maioria das carnes", explica Schickler. "Eles têm um 'pool' de aminoácidos que compreende todos os que o organismo necessita. Assim como as carnes, são uma fonte bem completa de nutrientes. Têm gorduras ômega 3, ômega 6, que são benéficas. É um alimento que promove saúde quando consumido de forma adequada. A gente abate o grilo, desidrata e faz um farinha com ele", diz Carvalho. "Cem por cento do inseto vira essa farinha, que tem 69% de proteína. Isso é interessante para atletas e quem busca proteína de qualidade; ela tem absorção boa."

A barrinha pronta. Crédito: Hakkuna/ Divulgação

Mas isso não quer dizer que esses animais vão substituir seu churrasco ou seu bife com fritas. "Insetos não vão substituir as carnes", afirma Schickler. "O objetivo é complementar a alimentação. Existe hambúrguer, nuggets, feitos com a farinha de grilo." Especialista em entomologia e pesquisador da inclusão de insetos na alimentação humana, Ramon Santos de Minas concorda: "Acredito que a substituição seja improvável" porque "o Brasil culturalmente é apaixonado por carne". Professor, biólogo e agrônomo, Santos de Minas trabalha com o tema no Instituto Federal de Mato Grosso do Sul.

" Os insetos são crocantes, lembram nozes. São como camarões."

"A criação de insetos é menos agressiva, o custo é infinitamente menor e os impactos ambientais praticamente não existem", diz o pesquisador. Na opinião dele, algumas barreiras precisam ser transpostas. "Acho que precisamos de divulgação, investimento por quem acredite no mercado e, principalmente, que as pessoas estejam abertas a novas experiências." O Brasil, acredita, tem grande potencial: "Já existem até escolas inserindo a ideia de tornar a Antropoentomofagia uma disciplina para os cursos de engenharia de alimentos e gastronomia. Ao meu ver falta investimentos e boa campanha de marketing." O preço, porém, torna o produto inviável. "Hoje um quilo de inseto desidratado custa R$ 350, bem mais que um quilo de picanha que custa R$ 45 ou de camarão, que custa R$ 60", estima.

Salada de larvas da Living Farms. Crédito: Divulgação

Uma alternativa é produzir insetos em casa. Se depender da designer industrial austríaca Katharina Unger, toda cozinha terá um suprimento de larvas de mosca. Unger é a dona e criadora do Livin Farms, um aparelho que cria insetos para consumo humano e não ocupa um espaço maior que um micro-ondas. A "colméia", como o aparelho é chamado, tem a capacidade de produzir 150 gramas de proteína de inseto por semana. Se as larvas de mosca soldado-negro (a espécie recomendada) forem consumidas puras, seu teor de proteína é o mesmo da carne bovina. Unger crê que os ocidentais vão consumir insetos "da mesma maneira as pessoas comem nozes e castanhas hoje em dia". "Será apenas 2% das necessidades de proteínas diárias, o que é muito pouco". Segundo a designer, para disseminar esse costume, o boca a boca será essencial. "A estratégia de curto prazo é motivar seus semelhantes. Quem vê seus amigos comer, ficará mais inclinado a comer. Motive a você mesmo primeiro, depois a outros. Também ajuda a falar de texturas agradáveis. Os insetos são crocantes, lembram nozes, lembram camarão. São como camarões."

Petiscos podem ser armazenados na geladeira. Crédito: Divulgação

Apesar do entusiasmo, há quem prefira ser cauteloso a respeito do futuro dos insetos. Um estudo feito por pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos EUA, diz que a criação de grilos só diminui de fato o impacto ambiental se os animais se alimentarem de dejetos. Caso contrário, a obtenção de proteína desse tipo de produção é muito similar à conseguida na pecuária.

De qualquer maneira, é melhor estar preparado. As moscas vão entrar na sua boca. E você, provavelmente, vai gostar.