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Time brasileiro está nos planos da Overwatch League

"Seria incrível ver São Paulo vs. Buenos Aires”, revelou o dirigente da liga internacional de 'Overwatch' em entrevista exclusiva.
10 Agosto 2017, 9:49pm
Todas as imagens: Blizzard/Divulgação

Não existe uma liga de esport no mundo que tenha a mesma ambição da Overwatch League. Seguindo os padrões das grandes ligas profissionais de futebol e basquete, a OWL faz parte de uma proposta da Blizzard para elevar o nível da infraestrutura de esports no mundo. Mas, entre o anúncio e o sucesso verdadeiro da liga, a dona de Overwatch terá que enfrentar um processo longo e trabalhoso.

Até a estreia da liga, prevista para iniciar na temporada de 2018, o maior desafio da Blizzard está em convencer toda a comunidade competitiva – não só de Overwatch – de que o grandiosismo é o melhor caminho para uma liga internacional de esport. A OWL exige uma entrada no valor de US$ 10 milhões para cada time, além de uma estrutura obrigatória pros jogadores, incluindo um salário mínimo anual de US$ 50 mil.

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Tudo isso é novidade para um cenário de esports acostumado com um amadorismo sistêmico em quase todo o mundo. Com exceção da Coreia do Sul, os mercados regionais de games competitivos ainda estão em desenvolvimento, o que significa que a realidade desses cenários é muito diferente da estrutura proposta pela Blizzard. Até mesmo o Waypoint levantou a ideia de que a OWL poderia alienar ligas regionais menores, que estão longe de atender às suas exigências.

Mesmo com toda a complexidade da OWL, hoje a Blizzard anunciou mais duas equipes que irão participar da liga, se juntando aos outros sete times que já confirmaram a entrada. A Cloud9, veterana dos esports, será responsável pelo time de Londres, a primeira equipe europeia da liga, enquanto os irmãos Stan e Josh Kroenke, sócios do grupo Kroenke Sports & Entertainment (que, por sua vez, é um dos proprietários do Arsenal), compraram a vaga para um segundo time da cidade de Los Angeles.

"A gente acredita que o cenário de esports está pronto para mais infraestrutura e uma liga mais profissional como a nossa", explicou Nate Nanzer, dirigente da OWL, em uma entrevista exclusiva à VICE. Com o anúncio dos novos times, fomos conversar com Nate sobre o cenário de esports atual, os problemas que a Blizzard irá enfrentar com essa nova empreitada e quando teremos, finalmente, um time brasileiro na Overwatch League.

Nate Nanzer, dirigente da Overwatch League.

VICE: A OWL certamente tem um formato ideal, com salários e altos investimentos obrigatórios para manter os times e jogadores, mas ela é realista? O cenário de esports atual está no mesmo patamar da liga?
Nate: A Blizzard é familiarizada com esports há quase 20 anos e já vimos [o cenário] crescer, desde os primeiros anos de Starcraft até onde estamos hoje. Definitivamente atingimos um ponto crítico, é algo que está na mente dos jogadores muito mais que antigamente, e isso deve continuar a crescer. A gente acredita que uma das coisas mais vitais pros esports atingirem o próximo nível de profissionalismo e crescimento é justamente mais infraestrutura pras ligas. Assim, criamos mais oportunidades de crescimento pros times, jogadores e fãs.

Na Blizzard, temos estruturas de esport diferentes para cada jogo, porque acreditamos que os jogos são únicos e merecem um tratamento especial como esport. Overwatch se tornou uma oportunidade incrível, nossa primeira nova franquia em 17 anos, e nós repensamos o que os esports poderiam ser desde o lançamento do jogo. Juntando isso com o rápido crescimento dos esports e o fato de que o público é enorme, é fácil perceber que esse é o momento ideal para lançar a OWL.

Mesmo assim, você tem razão: o cenário de esports está crescendo, você lê sobre isso em todos os lugares. Hoje temos uns 300 milhões de espectadores de esports no mundo e dois bilhões de pessoas que jogam games, de uma forma ou de outra – ou seja, ainda temos muito espaço para crescimento. Acreditamos que a OWL pode ser a ponta de lança desse crescimento e que os esports possam alcançar ainda mais jogadores pelo mundo.

"A Champions League prejudica o futebol brasileiro? Eu acho que não."

Justamente por estarem em todo o mundo, os esports são diferentes em cada país. O cenário da Coreia é diferente do norte-americano, que é diferente do brasileiro. Você acredita que o alto padrão definido pela OWL possa prejudicar o crescimento de ligas em desenvolvimento, como a do Brasil?
A Champions League prejudica o futebol brasileiro? Eu acho que não. A gente presta muita atenção em futebol para construir o competitivo de Overwatch, porque o futebol é um dos poucos esportes verdadeiramente globais, jogado em todos os lugares do mundo. Basquete também tem uma certa presença global, mas não é muito grande em alguns países da Europa e Ásia, mas o futebol é realmente global. Acreditamos que Overwatch também é um jogo global. O que o faz ser um jogo de esport tão único é que ele não é só jogado no ocidente, ou só na China, ou só na Coreia – não, ele é jogado em todo o mundo.

Por isso, nós observamos as estruturas que são muito comuns no futebol. Então, a nossa visão pro esport de Overwatch, não só a OWL, é que exista uma enorme competição em todos os níveis de jogadores. OWL é o ápice da competição internacional, mas abaixo disso temos ligas regionais que estão em desenvolvimento, além de competições amadoras também. Fizemos muito progresso nessa parte.

Por exemplo, o Overwatch Contenders [liga norte-americana para amadores que querem virar profissionais] é um passo nessa direção. Acabei de voltar da Coreia, onde assistimos às finais da APEX, mas também temos uma liga na China e outra em Taiwan. Queremos lançar uma liga regional na América Latina em breve também. O nosso objetivo é ter ligas regionais em todo o mundo. Além disso, até 2020 vamos começar a investir em ligas realmente amadoras. A visão do nosso time é que só teremos uma liga internacional de muito sucesso se também tivermos um ecossistema robusto que a apoie. Esse será o nosso foco e teremos mais novidades sobre como será a temporada de 2018 nos próximos meses.

O que falta no cenário sul-americano para termos uma liga regional de Overwatch?
A América do Sul é obviamente um mercado atraente pra gente, ele está crescendo muito rápido. A Blizzard está investindo cada vez mais na região, temos servidores no Brasil e nos sabemos que o país tem grandes jogadores, principalmente em CS:GO, além de jogadores incríveis de Overwatch também. Acho que a grande diferença da América do Sul é que a estrutura de esports ainda não está completamente formada. Mesmo um lugar como a Coreia – o país mais desenvolvido [dos esports] das últimas décadas, mais que a América do Norte, inclusive – ainda está desenvolvendo a sua estrutura. Partes da Europa também, a China está crescendo rapidamente, mas na América do Sul falta algumas estruturas básicas dos esports.

Eu acredito que o próprio mercado de games ainda esteja em desenvolvimento na América do Sul. Não existe um histórico tão grande de disputas e campanhas de games, que foram um problema pro nosso crescimento no passado – em particular, os custos de se produzir para consoles sempre foram muito altos no Brasil e jogos para PC também tem um custo elevado. Tudo isso está mudando e crescendo muito rápido, essa é uma região de grande interesse pra gente.

A gente quer muito ter um time da América do Sul na OWL, vários times na verdade, no futuro. Essas rivalidades regionais, em um nível internacional, são muito interessantes. Vai ser legal assistir Los Angeles jogar contra San Francisco, mas mais incrível ainda seria ver São Paulo versus Buenos Aires. É esse tipo de rivalidade que queremos construir, porque são muito poderosas.

A Blizzard tem um longo histórico de jogos competitivos, vocês estavam lá no começo dos esports. O que vocês aprenderam com os seus jogos do passado?
A gente aprendeu muito sobre como criar um conteúdo interessante e como organizar competições. Eu diria que o mais importante é receber feedback da comunidade – não só dos fãs, mas também dos jogadores profissionais, a gente está em comunicação constante com eles. Um das coisas que hoje fazemos frequentemente, e poucas pessoas sabem disso, são reuniões com 20, 30 pro players só para eles darem feedback. Tipo, "Como está o cenário competitivo?", "Como estão as coisas pra vocês?", "O que você acha que a gente deveria consertar?". Apreciar os comentários e feedback dos fãs e jogadores profissionais é a maior lição que aprendemos com os esports até agora.

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