Como os Hells Angels conquistaram o Canadá

A gangue norte-americana expandiu sua atuação para se tornar empreendimento criminoso dominante no país.

por Patrick Lejtenyi; Traduzido por Marina Schnoor
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12 Setembro 2017, 10:00am

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE Canadá .

No dia 5 de dezembro de 1977, os Popeyes, uma gangue de motoqueiros de Quebec, estavam se preparando para se juntar à gangue norte-americana numa festa em Laval, um subúrbio ao norte de Montreal. Era um triunfo tanto para os Hells como para os Popeyes, diz Isnor, e era o primeiro passo de um caminho que levaria os Hells Angels a se tornar um dos, se não o, empreendimento criminoso dominante no país.

Isso segundo Len Isnor, e ele sabe do que está falando. O sargento da província de Ontário está no comando da unidade especializada em gangues de moto local, e viu em primeira mão as fortunas da gangue de motoqueiros mais famosa irem e virem com os anos. E enquanto o fronte do motoclubes tem estado em silêncio há algum tempo, ele, assim como outros especialistas canadenses em crimes contatados para esta matéria, acredita que alguma coisa está mudando nas gangues de moto.

O indicador mais óbvio é o influxo nas ruas de algumas dezenas de motoqueiros presos em 2009 como parte da operação SharQc. A grande ofensiva liderada pelo Sûreté du Québec e Polícia Montada resultou em 156 prisões, mas muitas das acusações foram retiradas quando o megajulgamento foi acusado de violar direitos básicos de vários réus.

"Voltamos à primeira casa", ele disse. "E eles estão muito mais espertos agora [por causa da divulgação das provas dos julgamentos]. Tivemos que dar à defesa todas as informações sobre como chegamos até a organização."

Esse conhecimento, acredita Isnor, vai ajudar os criminosos a se adaptarem, mudarem e se transformarem em novas ameaças. "Vamos ter que trabalhar muito mais, e vamos precisar de muito mais dinheiro", ele diz.

E enquanto isso, os observadores do crime organizado estão antecipando um tremor no equilíbrio de poder existente. Quão violenta a situação pode se tornar, ninguém sabe dizer.

Membros dos Hells Angels da Colúmbia Britânica e Ontário entram na área dos Nomads do Hells Angeles durante o evento Canada Run em Carlsbad Springs, Ontário, em julho de 2016. Foto por CP/Justin Tang.

O caminho do Hells Angels para o topo da cena criminosa canadense foi sangrento, mas também cuidadosamente pensado e executado. A gangue de motoqueiros tem mantido a presença dominante com ajuda de uma mistura de diplomacia, senso dos negócios, marketing e violência.

"Você não pode subestimar o poder do patch", diz Isnor. "Você vê alguém usando as cores dos Hells Angels, isso quer dizer alguma coisa. Há uma reputação que aquele patch construiu com os anos."

Em 2018, os Hells Angels comemoram 70 anos de existência. Como a maioria das outras gangues de motoqueiros, o Hells Angels foi fundado por veteranos da Segunda Guerra Mundial entediados com a vida civil. Nas décadas desde seu nascimento em 1948, o motoclube Hells Angels se expandiu e metamorfoseou na organização criminosa que é hoje. Quando chegaram ao Canadá em 1977, eles eram experientes e durões o suficiente para absorver ou substituir as gangues locais.

Como Isnor me contou, os Hells Angels estavam estudando uma possível franquia no Canadá por algum tempo, e eventualmente escolheram os Popeyes. "Eles tinham a reputação de serem os mais prósperos e violentos", ele diz. "Eles enfrentavam qualquer um. E venciam." Ter acesso ao Porto de Montreal era um bônus, com laços preexistentes com organizações criminosas como a Máfia Italiana e a predominantemente irlandesa West End Gang.

O timing também era importante. Nos EUA, os Angels estavam envolvidos numa longa disputa com uma gangue rival, os Outlaws, que tinham se estabelecido em Ontário meses antes e já tinham começado a investir no Quebec. De 1977 a 1982, os Outlaws e os Hells Angels lutaram o que ficaria conhecida como a Primeira Guerra Biker. Os Angels venceram. Enquanto os Outlaws recuavam para Ontário, os Angels começaram a consolidar suas atividades criminosas e a expandir, partindo para cidades portuárias como Halifax e Vancouver.

E enquanto isso, os Hells Angels provaram para as máfias irlandesa e italiana que ter acesso ao grupo cujo maior propósito era estar sempre na estrada tinha suas vantagens. A gangue de motoqueiros conseguiu formar uma rede que se estendia de costa a costa, gradualmente estabelecendo ramificações em cada província.

Os Hells Angels também se tornaram mortalmente sérios. Apesar de terem ganhado reputação sendo selvagens, imprudentes e cheiradores, sua liderança percebeu que eles precisavam de uma abordagem mais empreendedora se queriam chegar à próxima fase da hierarquia criminal. Para provar que estavam falando sério, e reforçar a noção de que uma nova filosofia de gerenciamento estava sendo implementada, em março de 1985, cinco membros do ramo mais notoriamente party animal do Hells Angels Laval foram atraídos para um encontro em Lennoxville, uma pequena cidade no leste do Quebec, e assassinados. Seus corpos foram enrolados em cobertores com pesos e jogados no rio St. Lawrence. Um sexto membro foi morto algumas semanas depois.

Para muitos, os assassinatos plantaram as sementes da Segunda Guerra Biker, um conflito que tirou mais de 150 vidas entre 1994 e 2002, e mostrou ao público quão influente as gangues de motoqueiros eram no submundo da província e do país.

A Segunda Guerra Biker começou com o desentendimento de dois amigos. Maurice Boucher e Salvatore Cazzetta eram membros do mesmo motoclube supremacista branco, o SS, em Point-aux-Trembles, na ponta oriental de Montreal, na época do Massacre de Lennoxville. Os Hells Angels conheciam o SS e aparentemente planejavam absorvê-lo.

Mas quando a notícia de que os Hells Angels tinham matado seis de seus próprios membros se espalhou, Cazzetta teria ficado tão indignado com esse suposto desrespeito ao código dos fora da leis que fundou sua própria gangue, a Rock Machine, junto com seu irmão Giovanni no ano seguinte.

Boucher, por outro lado, foi recrutado pelos Angels, logo depois de cumprir 60 meses de prisão por atacar sexualmente uma garota de 16 anos. Mas graças à sua inteligência e abordagem de negócios, ele rapidamente avançou pelos escalões, até se tornar um dos criminosos mais poderosos da província, graças a seus negócios envolvendo drogas e agiotagem.

Por um tempo, a Rock Machine e os Hells Angels coexistiram, até Cazzetta ser preso por tráfico em 1994. Com o RM sem líder, os Angels fizeram seu movimento para se apoderar da distribuição de drogas nas ruas, e os dois clubes entraram em guerra. Foi um negócio sangrento, e em 2002, o conflito já tinha matado 160 pessoas. Mas, de novo, os Angels saíram por cima, e cimentaram sua dominância sobre o crime no Canadá. Incluindo Ontário, onde no dia 29 de dezembro de 2000, quase 200 motoqueiros se tornaram Hells Angels. O principal rival, a Rock Machine, passou para os Bandidos, um clube do Texas com ramificações fortes na Europa, em 1º de dezembro.

Mas operações policiais como os projetos Amigo e Retire, visando os Bandidos e os Outlaws, enfraqueceram a oposição biker aos Angels. O massacre de oito Bandidos em 2006, mortos por colegas de clube numa fazenda a sudoeste de Ontário, foi o último prego no caixão do clube. Logo depois desse massacre, os Bandidos se retiraram do Canadá. E segundo Isnor, "os Hells Angels estavam num clima propício. Eles tinham o monopólio em todo o Canadá".

Peter Edwards, um repórter do Toronto Star que também cobriu o Massacre de Shedden e escreveu vários livros sobre o crime organizado, concorda. Por quase meia década, entre o final da Segunda Guerra Biker e o final dos anos 2000, o Hells praticamente não tinham uma oposição significativa.

"Em Ontário, você tinha os Hells Angels e as pessoas que os Hells Angels deixavam existir", ele disse à VICE. "Ou eles trabalhavam com você, ou não davam a mínima para o que você estava fazendo."

O funeral de Kenny Bédard, um membro do Hells Angels Quebec. Foto por Nick Rose.

Com a guerra entre os motoqueiros aparentemente terminada, e com o preço das commodities decolando nas Pradarias e no Oeste, a expansão se tornou uma prioridade. Edwards diz que os Hells Angels confiavam em membros ou associados que não eram criminosos em tempo integral para plantar bandeira nos territórios em que estavam interessados.

"Os clubes de Ontários tinham vários trabalhadores", ele diz. "Muitos mecânicos e metalúrgicos, pessoas com trabalhos normais. Então alguns deles foram para o oeste e arranjaram trabalhos legítimos, e ao mesmo tempo iam fazendo contatos."

No Quebec, as gangues já tinham se espalhado pela província e se estabelecido como os distribuidores de drogas dominantes. Pierre de Champlain, um ex-analista civil para a Polícia Montada e autor de livros sobre o crime organizado, diz que "Desde 2000, os Hells Angels têm controle completo do Quebec, de Sept-Iles a Granby. Ninguém quer trabalhar contra o Hells Angels independentemente porque não é do interesse deles".

E trabalhar com os Hells Angels tem várias vantagens. Primeiro, você basicamente consegue uma licença para vender drogas sob a proteção da gangue. Segundo, você tem o direito de se gabar de trabalhar com uma grande marca internacional, com toda sua pompa e símbolos.

"Veja o funeral de Kenny Bédard [em agosto]", ele diz. Bérdard, de 51 anos, tinha acabado de se tornar um membro sênior do Hells Angels quando morreu num acidente na estrada em New Brunswick. Seu enterro em Montreal, diz Champlain, atraiu "300 motoqueiros, mas também de mil a 3 mil pessoas que vieram assistir. Elas queriam ver o desfile, o caixão puxado por motos. E tenho que admitir, foi espetacular mesmo".

Esse tipo de show pode ser uma ferramenta de recrutamento poderosa entre os jovens, ele explica. Muitos deles fariam qualquer coisa para se tornar membros reconhecidos. Para Stéphane "Godasse" Gagné, isso incluiu assassinar dois carcereiros em 1997, um crime que chocou o público e atraiu ainda mais atenção da polícia para as gangues de moto em geral e Maurice Boucher em particular.

Boucher acabaria condenado por ordenar os assassinatos, e atualmente está cumprindo prisão perpétua.

Ainda assim, diz Champlain, há uma atração que pode ser irresistível. "Os jovens tentam atingir esse nível de comprometimento porque acham que vão se tornar milionários", ele diz. "Eles estão atrás do prestígio."

Na verdade, o antigo amigo de Boucher que se tornou seu rival Salvatore Cazzetta, cofundador da Rock Machine, passou para os Hells Angels em 2005, depois de um período na cadeia por tráfico. Ele também ascendeu os ranques e é um dos líderes do clube. Recentemente ele teve uma queixa por formação de quadrilha derrubada no tribunal, apesar de encarar penas por um caso diferente.

Uma motocicleta fúnebre – a única do tipo no Canadá – no funeral de Kenny Bédard. Foto por Nick Rose.

Mas a atração que o patch do Hells Angels ainda tem ajuda a organização a usar clubes juniores para fazer o trabalho sujo, incluindo assegurar seu território, fornecer segurança para eventos públicos como funerais e montar redes de distribuição de drogas. "Essas coisas apresentam uma oportunidade para se provar para os Hells Angels, para se tornar um candidato", ele diz.

Um ex-policial disfarçado do Reino Unido, que trabalhou contra gangues de motoqueiros na Europa, faz um paralelo entre o uso de clubes juniores para negócios escusos nos dois lados do oceano.

"Há uma paranoia de que novos recrutas podem ser infiltrados pela polícia ou até jornalistas, o que causa uma grande angústia na seleção deles", escreveu ele por e-mail. "Para tentar evitar isso, os membros em potencial são tratados como lixo e devem realizar várias tarefas para provar seu valor. Essas tarefas geralmente são degradantes ou ilegais, porque eles acreditam que um policial ou algo assim não teria estômago para essas coisas ou não teria autoridade para realmente cometer crimes. O lado negativo é que as taxas de atrito são altas. Muitos wannabes aprendem e não se incomodam com isso. No entanto, aqueles determinados a usar o patch geralmente ficam felizes em obedecer ordens e é isso que torna essas gangues tão perigosas."

Ele acrescenta que enquanto essas gangues europeias com certeza não são incompetentes quando se trata de criminalidade, existe uma reverência aos colegas do Norte. "Conheci pessoalmente alguns membros do Outlaws MC na França que reconheciam um privilégio de seus anfitriões os visitando. Os franceses queriam se mostrar na frente de seus convidados e se comportavam pior que o normal — mais violentos. Em termos de criminalidade, os europeus respeitam os colegas norte-americanos pelo tráfico de drogas e acesso a armas de fogo."

(Mas o respeito não é recíproco quando se trata do Reino Unido, ele aponta. "A maioria dos One Percenters norte-americanos veem seus colegas britânicos como uma piada", ele diz, acrescentando que "os motoqueiros do Reino Unido são menos organizados e não têm a mesma perspicácia criminal que seus irmãos".)

Diferentemente das gangues tradicionais étnicas, sejam italianas, irlandesas ou asiáticas, os Angels (apesar de serem uniformemente brancos) têm uma base de recrutamento muito mais ampla à sua disposição. No caso do Quebec, diz Champlain, "a Máfia está apenas em Montreal e Laval. Os motoqueiros se expandiram por todo o território do Quebec. Sua principal característica é a capacidade de se apresentar em qualquer lugar".

Os tempos fáceis chegaram ao fim em 2009. A Opération SharQc, o último sucesso nacional da polícia com relação às gangues de moto, jogou mais de 150 Hells Angels do Quebec e associados na cadeia, decapitando temporariamente a gangue e a jogando no caos. Mas apesar das prisões terem, sem dúvida, representando um dano de longo prazo no grupo, elas não tiraram os Angels do negócio. Nem chegaram perto, diz Champlain.

"Os clubes juniores mantém o grupo respirando", diz. "Os Hells Angels têm a capacidade de se adaptar a mudanças. É algo que eles aprenderam com a Máfia. Eles conseguem se adaptar a situações que não são necessariamente favoráveis, principalmente se escondendo e ficando quietos por um tempo."

Um campo de recrutamento mais amplo dá aos Angels a oportunidade de se renovar periodicamente, mantendo os ranques inchados mesmo sob pressão da polícia. Mas Champlain reconhece que há limites. Várias ramificações de Quebec, incluindo Quebec City e Trois-Rivières, permanecem inativos porque as regras do clube estipulam um mínimo de seis membros para que o ramo seja considerado ativo. Champlain acredita que esses ramos logo serão reativados, já que membros presos na SharQc voltarão às ruas, especialmente vendo como o governo derrubou o caso contra muitos dos acusados.

"Não podemos negar que os Hells Angels estão fazendo um grande retorno ao Canadá, especialmente em Quebec", ele diz. "Não há dúvidas de que eles estão se reestruturando e se reconstruindo."

Ele duvida que haverá muita violência quando os Hells presos estiverem se reestabelecendo nas ruas. "Os Hells Angels não estão interessados em entrar em guerra com seus clubes juniores", ele diz. "Há uma certa coesão já que todo mundo espera se juntar a esse clube mítico um dia."

Mas não é todo mundo que acha que esse será um processo suave e indolor. Edwards, o repórter do Star, sugere que há potencial para conflito interno. "Se alguém vai preso, suas rotas de drogas são tomadas", ele diz. "Eventualmente, [a pessoa que tomou essas rotas] começa achar que a área é dele."

E mesmo que haja regras governando a resolução de conflitos, segundo Edwards, em muitos casos "há personalidades extremas envolvidas. Eles não são tão governáveis assim".

Governáveis ou não, os Hells Angels continuam o maior motoclube do país. Estima-se que são 450 membros do HA no Canadá, mais do que todos os outros motoclubes juntos.

E como o recente fiasco no tribunal em Montreal demonstrou, desmantelar os Hells Angels permanentemente é extremamente difícil. E enquanto eles emergem da rodada de 2009 e reconstroem sua organização, Champlain diz que os Hells Angels vão se tornar ainda mais poderosos, especialmente em Quebec, onde a presença canadense começou.

"Os Hells Angels não vão substituir a Máfia Italiana, mas vão barganhar uma posição de poder", ele diz. "O próximo chefe da Máfia de Montreal terá que ter muito carisma e força de personalidade para lidar com Salvatore Cazzetta."

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