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O emo foi o último movimento importante do rock brasileiro

O que a ascensão e queda de bandas como NX Zero, Fresno e Hateen falam sobre as mudanças que a indústria musical passou nos últimos 15 anos.

por Amanda Cavalcanti
13 Julho 2018, 10:00am

Capas de 'Redenção' (2008), da Fresno e 'NX Zero' (2006), do NX Zero.

Em um domingo de outubro de 2005, foi ao ar uma matéria no Fantástico que falava de bandas que faziam um som “pesado” mas, ao mesmo tempo, encontravam espaço pra falar de amor e sentimentos. O emotional hardcore, ou emo, como o programa dominical definiu, ganhava tração no Brasil e era facilmente identificável pela “franjinha pro lado pra eles, lacinho no cabelo pra elas, boné de lado, piercing no lábio, meia arrastão, colar de bolinha, cinto de rebite” dos adolescentes que andavam pela Galeria do Rock, no centro de São Paulo.

A reportagem se tornou folclórica — seja pelas descrições detalhadas de Pedro Bial do estilo dos fãs ou pelas declarações dos próprios, como Rafael, na época com 17 anos, que disse sofrer ouvindo emo porque “minha mina me corneou” — e, até hoje, é citada quando o assunto é emo no Brasil, mesmo que o grosso do movimento já tivesse passado nos Estados Unidos quando foi ao ar. Surgido em meados dos anos 80 em Washington D.C., pelas mãos de bandas como Embrace e Rites of Spring, o emo já embarcava em sua terceira ou quarta onda em seu país de origem quando finalmente deu as caras no Brasil.

Com esse nome, pelo menos. Até metade dos anos 2000, o emo não tinha uma cena pra chamar de sua e ficou camuflado entre o punk, hardcore e rock alternativo que rolava por diversas capitais do Brasil. “As cenas já eram todas bem desenvolvidas, com muitas bandas, espaços para shows. Tudo bem feito no esquema ‘faça você mesmo’, sem grandes produções, mas tinha show todo final de semana”, conta Rodrigo Koala, do Hateen, sobre o cenário que originou a banda em São Paulo, em 1994. Nessa época, eles gravavam demos tirando dinheiro do próprio bolso e distribuíam o material de mão em mão em shows de outras bandas nacionais e internacionais que eles julgavam ter o som parecido com o deles. “Era uma cena que nascia ali, forjada pelas bandas e pelas principais casas da época que abriam suas portas para os shows. Todo mundo saía ganhando.”

O emo como movimento no Brasil ainda estava longe de existir, mas Koala se lembra de ouvir de fãs e colegas que o Hateen fazia um som “emocore”. “Até então eu só estava interessado em bandas alternativas e de hardcore melódico. Já ouvia muitas das tais bandas 'emo', mas pra mim elas ainda tinham outra classificação. Eu achava que o Sunny Day Real Estate era grunge, não emo.”

Mesmo que ninguém soubesse direito sua nomenclatura, do começo dos anos 2000 pra frente, o som melódico e sensível do emo foi aparecendo cada vez mais nas cenas hardcore não só de São Paulo. Por volta de 2001, a Fresno já despontava no underground de Porto Alegre com lançamentos como O Acaso do Erro e Quarto dos Livros.

“Hardcore era uma coisa muito grande no final dos anos 90, mas eu tinha isso por osmose. Nunca me vi como um cara do hardcore. Eu tinha 17 anos, escrevia muito sobre ser apaixonado por uma menina do meu colégio, sobre não saber o que seria da minha vida depois de me formar. A situação normal de 80% dos adolescentes do Brasil urbano”, fala Lucas Silveira, vocalista e membro fundador da banda gaúcha. “No primeiro show que a Fresno fez em Porto Alegre tinha um cara chamado Canela, que era organizador de shows por lá, e ele nos viu e falou ‘pô, o som de vocês é emo pra caralho.’”

Em São Paulo, além do Hateen, o hardcore melódico ganhava força pelas mãos do já mais antigo CPM 22 e do NX Zero, quinteto surgido também em 2001. Com a ajuda da internet e de pequenas gravadoras, como a paulistana Urubuz Records, para a divulgação, essas bandas passaram a expandir seu espaço no underground mais do que qualquer ato antes deles. Por volta de 2004 ou 2005, elas já batiam no teto do que poderia ser considerado underground.

“Foram quatro, cinco anos fazendo shows em Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Recife, Manaus. No underground, a gente já tinha viajado o país inteiro. A primeira vez que a gente deu sold out no Hangar [110, na capital paulista] ninguém conhecia nossa cara, porque não tinha foto da banda. Foi o momento que eu percebi que a gente tinha algo grande em mãos”, fala Lucas. “Já éramos grandes no circuito independente. Lotando casas, vendendo nosso disco independente, fazendo a roda girar sozinhos. Isso chama a atenção”, conta Daniel Weksler, baterista do NX Zero.

E o emo, de fato, chamou a atenção. Em 2006, o NX Zero se tornou a primeira banda independente a alcançar a primeira posição do agora extinto programa de videoclipes Disk MTV com a faixa “Apenas um Olhar” e a Fresno ganhou ainda mais tração com o lançamento do álbum Ciano. No ano seguinte, ambas as bandas, junto ao Hateen e ao CPM 22, entraram para o catálogo da Universal Music pelas mãos do produtor Rick Bonadio. Foi aí que o talvez maior hit do emo brasileiro, “Razões e Emoções”, do NX Zero, chegou ao topo das paradas de rádio em todo o país.

A partir desse momento, a repercussão foi imensurável. Além da matéria do Fantástico, repercutida por outras redes de TV e veículos impressos, as bandas protagonizaram outros programas da MTV, como o Família MTV e ganharam prêmios na premiação da emissora e de outras, como o Multishow. A Fresno ganhou Disco de Ouro com seu primeiro álbum pela Universal, Redenção, e o NX Zero fez parcerias com artistas como Nelly Furtado e o rapper Freddie Gibbs.

“Essa época de 2007, 2008, foram anos que cada dia você acordava mais famoso. Cada dia tinha uma coisa nova acontecendo. E a gente nem percebia porque estava muito dentro do furacão”, fala Lucas. “Nunca ganhamos dinheiro com banda, mas [nessa época] a gente sonhou grande. Começamos a fazer shows em lugares maiores. Ter uma equipe de produção, roadie, técnico de som… Muitas vezes a gente locava um ônibus pra ir pro show, enchia de amigos e equipe e passava o final de semana inteiro na estrada tocando. Era a realização do que a gente começou a sonhar em 1994”, conta Koala.

A onda de sucesso, ainda, despertou o rápido surgimento e ascensão de bandas com um pé no emo, mas muito mais embebidas no pop punk e pop rock, como Fake Number, Hevo84 e Replace. “Quanto mais a imprensa falava, mais bandas iam surgindo. Eu fui capa da Folha de S. Paulo nessa época. Isso, pra quem tem 17, 18 anos, é muito louco”, fala Elektra, vocalista do Fake Number, que surgiu em Lorena, interior de São Paulo, em 2006. Ainda nessa onda, veio o tal happy rock (ou os “coloridos”), popularizado por bandas como as paulistanas Cine e Restart e que levaram alfinetadas até do Regis Tadeu.

A coisa ficou tão popular que saiu do controle de quem havia a começado e, é claro, desapareceu tão de repente quanto havia aparecido. Um dos últimos movimentos a usar o maquinário do mainstream, ou seja, o rádio e a TV, o emo em alguns anos foi engolido pela mesma internet que os ajudou em seu começo imediato e perdeu o lugar para gêneros como o sertanejo e o funk, hoje os mais ouvidos no país — mesmo com a óbvia ligação estética entre o movimento e a tradição de música romântica brasileira (se lembre do Estúdio Coca-Cola com Fresno e Chitãozinho e Xororó e da ligação de Di Ferrero com o sertanejo).

Não foi sem deixar marcas, porém, que o emo saiu da indústria musical e imaginário popular brasileiro. O debate sobre o que podia ou não ser considerado emo naquela época ainda é um dos que persiste entre os que participam de cenas musicais e/ou discutem sobre música no Brasil, e mesmo no auge do movimento causava controvérsia entre seus participantes. Em maio de 2007, o vocalista do NX Zero Di Ferrero disse em entrevista ao UOL que “essa história de emo já passou do limite”; era fato conhecido que a banda não gostava do termo.

“O [termo emo] tirava o foco do som, virou pejorativo, e servia apenas para falar de algo que para nós era irrelevante: se usávamos franja ou olhos pintados”, opina Daniel. Koala não rejeita o termo por si, mas argumenta que o gênero, na verdade, nunca chegou ao Brasil: “O emocore tem 0% a ver com o emo que ficou conhecido aqui. Isso tudo foi jogada de marketing de gravadora, e de umas bandinhas safadas querendo ganhar grana. O emo que nasceu aqui já nasceu morto e era odiado por todos, inclusive pelos emos...”

Lucas, porém, acredita que o buraco da rejeição do termo emo no Brasil é mais embaixo e tem raízes homofóbicas — ele e Koala relatam terem sofrido ofensas nesse teor por estarem envolvidos com o movimento. “Isso mexeu com todo mundo e expôs pra nós mesmos a nossa própria homofobia de achar que tínhamos que lutar contra um estigma criado porque fazíamos música de um determinado jeito. Ver que um pouco disso resiste até hoje revela uma ignorância sem fim, e é triste quando isso vem do público roqueiro, que eram justamente as pessoas que lutavam pra que minorias fossem enxergadas e vistas como inspiradoras”, fala Lucas. “Hoje eu vejo que isso gerou um subproduto que é o roqueirão conservador, o roqueiro inseguro da sua sexualidade, e que vê na expressão de outra pessoa uma ofensa pra ele.”

Com o fim do sucesso estrondoso, as bandas seguem tocando, conquistando fãs e aproveitando algumas consequências do lugar ao sol que ocuparam por alguns anos. O NX Zero entrou em hiato no ano passado, com o vocalista Di Ferrero e o guitarrista Gee Rocha trabalhando em projetos solo (este produziu o mais recente EP do Luccas Carlos), mas a Fresno segue em atividade — em maio, a banda tocou no Festival Bananada e continua lançando discos consistentemente —, e o Hateen está prestes a lançar um DVD, gravado no Hangar 110 em dezembro. No fim, as bandas voltaram ao underground do qual saíram há mais de dez anos e permanecem como o último grande movimento do rock no Brasil. “Quem ocupou esse lugar foi o rap. O rock está em vários estilos, mas como atitude. Ele volta mas não como era antes, e essa é a graça”, fala Daniel.

As bandas comentam do momento de sucesso com carinho mas, no fim, concordam que é bom crescer. “Esse mainstream te expõe a um público que não tem fidelidade nenhuma, mas a Fresno só se manteve fazendo isso até hoje porque também existe um público que está cagando pro que está tocando no rádio ou na TV”, fala Lucas. Koala conclui: “Fazemos o que gostamos ainda, mesmo depois de quase 25 anos... Isso é sucesso também.”

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