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Drogas

Este diretor coloca membros reais de cartel em filmes

Eduardo Giralt Brun oferece a jovens em risco um jeito de sair do crime interpretando a si mesmos nas telas.

por Deborah Bonello; Traduzido por Marina Schnoor
11 Fevereiro 2019, 9:00am

Todas as fotos cortesia de Eduardo Giralt Brun.

Os braços cheios de tatuagens do diretor de elenco Eduardo Giralt Brun se movem animadamente enquanto ele fala sobre como procurou narcotraficantes de verdade nas montanhas de Sinaloa, no México. "Todos tinham experiência em crime e em matar para estrelar meu último filme", diz, com forte sotaque venezuelano.

E ele foi até o lugar certo. A maioria dos jovens que fuma em silêncio e ouve ele falar trabalha para o Cartel Sinaloa, antes controlado por Joaquin “el Chapo” Guzman, atualmente em julgamento nos EUA. Brun está aqui porque procura realismo para seu elenco. Ele atrai criminosos mexicanos para os holofotes enquanto oferece a diretores independentes uma chance de fazer filmes que refletem a realidade social do país.

O México é assolado pela violência de uma guerra às drogas que deixou porções do país controladas e cooptadas pelo crime organizado. Uma geração de jovens da classe trabalhadora – especialmente em estados como Sinaloa, que foi onde o tráfico organizado mexicano nasceu – é criada no negócio das drogas. O tráfico é atraente em parte pela falta de opções melhores de trabalho, mas também oferece status e poder para uma juventude deslocada. O tráfico pode ser uma experiência cheia de adrenalina a curto prazo, bem como a cocaína com que eles lidam.

A cultura popular mexicana sempre apresentou traficantes, então parece uma progressão natural que alguns diretores queiram eles no set. Brun acredita que só aqueles que realmente viveram algo podem retratar isso adequadamente nas telas.

“Estou falando dos párias e renegados. Você consegue ver isso nos olhos deles, como eles agem e se comportam, como se vestem e falam. Não tem como recriar isso e se houvesse um jeito, acho que seria perda de tempo porque nada é tão bom quanto a realidade”, ele disse.

Foi durante a produção de seu próprio filme que ele codirigiu com Raul Rico, Los Debiles, que Brun começou a mergulhar no crime organizado atrás de atores. O filme, que ganhou reconhecimento no circuito de festivais internacionais de cinema em 2017, acompanha um personagem procurando vingança depois que seus cachorros são mortos por uma gangue local. Muitos dos atores eram do mundo que o filme retrata, e tudo veio disso.

“Acho que em países como o México há uma grande necessidade de falar sobre o que está acontecendo, e a coisa mais justa é dar uma chance para as pessoas que são protagonistas na vida real e podem estar nas telas”, disse Brun.

A photo from one of Giralt Brun's recent casting trips
Uma foto de uma viagem recente de casting tirada por Brun. Foto cortesia de Eduardo Giralt Brun.

O feed do Instagram dele está cheio de vislumbres desse mundo. Ele vai até as comunidades, geralmente ajudado por locais, para fazer contato com la maña – criminosos, delinquentes e outras pessoas que vivem no submundo. Ele pede aos candidatos a ator para interpretar uma cena que ele grava no celular, e depois mostra as filmagens para diretores que o contratam para encontrar esses atores.

Brun já lidou com outros tipos de trabalho enquanto procurava pessoas reais para elencar – pedreiros na Cidade do México, por exemplo. Mas ele tem problemas com a disparidade de poder entre a indústria cinematográfica e as pessoas que ela tenta representar.

“Quando trabalho com as pessoas do crime organizado, me sinto na mesma posição de superioridade que você pode sentir trabalhando com pessoas indígenas, deslocadas, pessoas em construções”, ele disse. “Mas tem alguma coisa nos garotos envolvidos no tráfico que é diferente. Não sinto que estou tirando vantagem de ninguém. Na verdade é o oposto, eu estou na posição mais fraca.”

Muitos dos jovens que Brun elenca já têm uma posição em suas comunidades, geralmente como malandros, diferente de pessoas trabalhando em ocupações cotidianas, que ele diz serem mais submissas.

“Esses caras estão no controle”, disse Brun. “Se eles quiserem me fazer mal, eles podem e sabem disso, e isso muda completamente o jogo.”

As tarefas diárias desses jovens, de idades entre 15 e 25 anos, variam de vigias locais a sequestradores e assassinos.

Dito isso, eles precisam obedecer ordens ou não vão entrar para o elenco, disse Brun. “Eles precisam seguir direções muito concretas e específicas – direções com eles não podem ser conceituais ou metafóricas, como as que geralmente são dadas para atores profissionais.”

Ano passado, ele elencou alguns dos atores do filme independente Comprame Un Revolver, dirigido por Julio Hernánez Cordín. O filme é sobre uma menina morando com pai num campo de basebol abandonado usado por jovens narcos que trabalham para o capo, chefe do crime, local.

“A pessoa que encontrei sabia como segurar uma arma, como esconder drogas – ele sabia, ele esteve lá, ele sofreu”, diz Brun. “Ele era a coisa de verdade.”

O ator, chamado Lucho, não foi muito bem no teste, mas Brun tinha um palpite sobre o cara e o elencou mesmo assim. Ele acabou mostrando para o resto de elenco como manejar armas na frente das câmeras de um jeito realista.

Para quem Brun consegue tirar do submundo para as telas, essa é uma oportunidade de fazer algo diferente do dia a dia, de escapar do tédio inato de trabalhos como ser um vigia do cartel, além de ganhar um dinheiro extra. Brun contou que um membro de gangue disse que o processo de testes o deixou mais nervoso que a perspectiva de ter que sequestrar uma família inteira.

Os riscos que Brun encara para encontrar esses rostos são óbvios.

“Eduardo tem o mesmo compromisso com fazer filmes que um correspondente de guerra tem com o jornalismo. É inspirador e contagiante, então quero sempre apoiá-lo”, disse Gabriel Stavenhagen, fundador da produtora Cineburó.

Stavenhagen está apoiando Brun no seu novo projeto, um documentário sobre os sicários millennials. Baseado em parte na pesquisa para seu trabalho de casting, Brun agora está se colocando como uma mosca na parede na vida desses jovens, filmando tudo menos seus atos criminosos. Trabalhando com o parceiro Emmanuel Massú, um rapper local de Sinaloa mais conhecido como “El Enfermo”, ele está construindo um banco de personagens do submundo numa tentativa de retratar suas vidas diárias, motivações e lutas.

“É um desses projetos que chegou na hora certa e no lugar certo, então você tem que fazê-lo”, disse Stavenhagen.

“É muito comovente”, disse Brun, “ver esses caras, que passaram a vida toda ouvindo que não eram bons pra nada, encontrarem talento fazendo algo bom”.

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