Identidade

Como é ser ilegalmente gay em Myanmar

“Meu pai estava tentando fazer de mim um inimigo... Ele me odiava porque eu era gay.”

por Libby Hogan; Traduzido por Marina Schnoor
25 Abril 2019, 10:00am

Quando não está no palco, David é maquiador profissional. Todas as imagens pela autora. 

Para David Morona, ser gay em Myanmar significou ser expulso da casa de sua família. Nascido num pequeno vilarejo na fronteira de Myanmar com a Índia, David explica que sempre soube que não se encaixava nos estereótipos tradicionais de masculinidade. Desde cedo, ele sabia que era gay, mas tentou esconder isso da família.

“Meu pai estava tentando fazer de mim um inimigo”, ele diz de maneira muito direta. “Ele sempre me batia, mesmo quando eu não tinha feito nada de errado. Ele me odiava porque eu era gay.”

Quando o ódio e a violência não funcionaram, o pai de David começou a pedir para homens mais velhos o levarem para bares – o que, claro, não funcionou também. “Eles esperavam me fazer um homem como eles”, ele diz, mas explica que só aprendeu a beber e a fumar.

Finalmente, depois que as brigas com o pai se tornaram insuportáveis, David decidiu mudar para a maior cidade do país, Yangon, onde ele descobriu uma comunidade onde podia ser ele mesmo.

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David se maquia em casa antes do evento PRIDE.

Estou assistindo ele se preparar para a semana PRIDE de Yangon. Num país onde mais de 70% das pessoas praticam o budismo e são relativamente conservadoras, o festival é uma das poucas novas plataformas da nação para a comunidade LGBTQ. Este ano, o governo de Yangon deu permissão para eventos públicos serem realizados num dos maiores parques do centro da cidade. E assim, o festival não foi só um espaço para pessoas queer se reunirem e celebrarem sua identidade, mas também para a sociedade de Myanmar vir e mostrar seu apoio.

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Este ano foi a segunda vez que eventos públicos foram permitidos para a semana PRIDE, que celebra a comunidade LGBTQ.

Para Morona, se apresentar no PRIDE marca um momento feliz numa longa jornada. Depois de se mudar para Yangon, ele conseguiu um emprego vendendo maquiagem e trabalhando como maquiador. “No começo, eu via os artistas lá no palco e sonhava em estar ali, mas não ousava”, ele lembra. Aí ele fez sua primeira apresentação em drag três anos atrás num bar gay.

“Eu estava uma pilha de nervos na minha primeira performance”, ele diz. “Meus joelhos estavam tremendo e meu coração estava disparado.”

Hoje em dia, nem dá pra imaginar que Morona fica nervoso no palco. Ele faz cuidadosamente o contorno do nariz e coloca sua peruca loira platinada, a franja tocando seus cílios postiços. David não aceita só passar uma base: é maquiagem de show ou nada. Depois ele sai trotando em seus saltos de 24 centímetros – apesar de admitir que cola os pés com fita adesiva para o calçado parecer mais botas espaciais que salto alto.

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Artistas no palco do PRIDE em Yangon.

Qualquer um que se assume gay em Myanmar encara enormes barreiras culturais e sociais. Segundo interpretações tradicionais do Budismo, homossexualidade é “não-natural” e portando uma fonte de karma ruim. Isso também é criminalizado sob a seção 377 do Código Penal, uma lei raramente usada, mas sua simples existência já ilustra como a comunidade LGBTQ continua sendo marginalizada.

Para Morona, se apresentar em drag é uma oportunidade de deixar esse tipo de medo e julgamento para trás. Colocar uma peruca e se vestir como sua musa Lady Gaga permite que Morona se torne um novo personagem à sua escolha. “Parei de ligar [para os comentários negativos]. Quando faço o drag de Lady Gaga no palco, não ouço mais aqueles comentários”, ele diz, enquanto Poker Face toca ao fundo no repeat. “Pra mim ela é perfeita, todas as imperfeições dela mostram que é OK ser um pouco louco.”

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Mais tarde, assisto Morona apresentar Poker Face no palco para cerca de 12 mil pessoas na noite de abertura do PRIDE. É um show apaixonado e poderoso, e o público vai à loucura.

Quando ele sai do palco, enrolando uma corda que usou como acessório na apresentação, a peruca dele cintila sob as luzes, assim como seu grande sorriso. Quando pergunto o que ele espera para o futuro, ele suspira:

“Só quero que as pessoas aceitem quem é diferente. Não é fácil quando as pessoas fazem comentários grosseiros. Quando estou em drag, não sou mais a pessoa tímida que normalmente sou, e no palco as pessoas não sabem quem eu sou. Só ouço os aplausos.”

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Matéria originalmente publicada pela VICE Ásia.

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