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Uma história oral do anarcopunk em São Paulo – parte 4

Na conclusiva parte do relato, um olhar sobre o visual anarco, tretas lendárias, União do Movimento Punk e balanço geral.

por Eduardo Ribeiro
03 Agosto 2018, 10:00am

Dando selinho em Curitiba, 1995. Foto: Maria Helena/Arquivo pessoal

Os capítulos um, dois e três desta história oral mostraram como o surgimento do anarcopunk subverteu os valores do próprio punk, antes calcado totalmente no som e no ganguismo. No meio anarco, diferentemente, o lance das bandas passou a representar só uma das expressões de uma cultura que se comunica por diversos outros meios criativos e práticas. Anarquia, liberdade e antimilitarismo foram algumas das primeiras bandeiras do movimento lá no começo dos anos 1990. Depois vieram as lutas anti-homofobia e anti-sexismo. Certos punks de outras bancas, que já enxergavam certo elitismo político nos anarcos, pegaram um pouco mal. E os anarcos até divertiam-se com suas transgressões, como quando um cumprimentava o outro com um selinho, uma lambida no rosto, ou traziam a androgenia para o visual.

Guardamos para a última parte os relatos sobre as diferenças do visual dos anarcos em relação ao tradicional punk ramoneiro, algo marcante nos anos 90. Em complemento, os entrevistados falam também dos atritos acontecidos pelo fato dos caras usarem saia e punks do mesmo gênero ficarem se beijando, a mítica treta da FATEC e outros conflitos lendários, as tentativas de unir os punks num só movimento e a respeito de como, aos poucos, o foco na militância, no faça você mesmo, vai amenizando as desavenças entre punks. Se liga aí:

Fontes: Antônio Carlos (Centro de Cultura Social, organizador do Arquivo Punk/CEDIC ), Diego Divino Duenhas (Movimento Anarco-Punk), Ivan Ribeiro (Anarquistas Contra o Racismo), Johnny Revolta (CCS Vila Dalva), Josimas Ramos (Execradores), Katy Fon (MAP), Keli de Fátima (KRAP - Koletivo de Resistência Anarco-Punk, zine Libertação Feminina), Marcolino Jeremias (ULBS - União Libertária da Baixada Santista), Maria Helena (Coletivo Anarco-Feminista, banda Ira dos Corvos, MAP), Marina Knup (Imprensa Marginal), Nenê Altro (Juventude Libertária), Paulo Poeta (Amor, Protesto y Ódio), Ruivo Lopes (ULBS), Sergio Valdez “Loquinho” (Coletivo Altruísta), Silvio Shina (Coletivo Altruísta, zine Punto de Vista Positivo).

Leia os capítulos anteriores da História Oral do Anarcopunk nos links abaixo:

Visu

Josimas Ramos: O anarcopunk no Brasil, no princípio, carregava uma estética extremamente espalhafatosa e colorida. Toda a discussão sobre criatividade foi estimulando as pessoas. Se você fosse num encontro anarcopunk em qualquer lugar, ia ver uma diversidade incrível. E nisso o visual se destacava completamente dos outros punks. Quando a gente chegava no ABC pra um evento era marcante a nossa chegada. É legal falar isso porque eu lembro que inclusive havia uma galera na época trabalhando muito o lance da costura. A galera pirava em coisa de costurar. A gente queria criar a nossa própria estética.

Nenê Altro: A verdade é que o pessoal anarco tinha um visual muito mais agressivo. Existiram os Punks da Cidade, que tiveram toda aquela influência de Nova York, do Stooges, de toda essa escola, e existiu o pessoal do ABC, que era aquela coisa podre, operária, de fazer visu com o que tinha à mão, criar o próprio visu, essa coisa meio dadaísta e tal. O movimento anarcopunk surgiu em Mauá, logo ele tinha muito mais influência do ABC, da coisa podrona. Só que como já tinha uma cultura de saber um pouco mais do que rolava lá fora, eles tinham influência do Disorder, do próprio Armagedom na época. As roupas que o Javier (vocalista) usava.

A banda nacional que todo mundo do anarcopunk gostava e escutava era o Armagedom. Tinha lá os caras do Crucifix, e era esse o visual incorporado aqui no Brasil. A calça xadrez, com patch, cabelo espetado no sabão, muito agressivo. Daí que nasceu o anarcopunk, entendeu? O que hoje virou o crust aí, graças ao anarcopunk. A diferença é o anarco era mais colorido, o crust é preto e branco. Eu tinha o visual rasgadão, mas como cresci na cidade, usava camiseta de banda, do Cólera, do Ratos. Aí os caras falavam: "Você gosta, beleza. Mas no movimento, tem que usar uma coisa mais do movimento." Sempre tinha aquele questionamento: "Por que você gosta dessa banda?".

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Exercendo o direito à preguiça. Foto: Maria Helena/Arquivo Pessoal

Punk de saia

Maria Helena: O visual sempre foi um importante modo de expressão dos anarcopunks. No começo, a gente achava que os caras tinham parado lá no punk rock, muito conservadores na estética. Pra gente o lance do punk era transgredir, então tínhamos que fazer um visual que representasse isso. Aquela coisa de queer, por exemplo, já fazia parte. Uns meninos já usavam saia, legging... Os outros punks ficavam chocados. Até virou lenda urbana a história de que o anarcopunk era um movimento gay.

Paulo Poeta: Hoje você vê que as pessoas deram uma evoluída, mas eu lembro da Tina e do Ariel, da Invasores de Cérebros, na época em que rolou o festival da USP, o USPCore, ali no prédio de história da universidade... Era um festival punk com as cenas misturadas, teve Extremamente Irritante, Invasores de Cérebros, banda anarcopunk, tudo junto. Na época, a Metropolixo, principalmente o Alan, e eu, que entrei na ideia junto, tínhamos mania de usar saia. E me lembro claramente do Ariel e da Tina falando assim: "Onde já se viu?! Um punk mijar sentado!". O mais engraçado da história é que, depois, quando começamos a dar rolê na Europa, a fazer turnê lá, na maior parte dos lugares, em todos os squats que a gente ia, encontrávamos avisos nos banheiros dizendo pra todo mundo fazer xixi sentado. Aí eu dava risada dessa ironia, né.

"Eu até bati de frente com a Tina Ramos no USPcore, porque ela começou a falar umas coisas muito nada a ver. Lembro que teve uma fala muito horrível lá no USPcore, dita pela Tina. Ela disse: 'E essa palhaçada aí de vocês? Punk não é ser viado, não.' Aí eu olhei e falei: 'Punk é a gente ser o que quiser.'"

Josimas Ramos: Lembro que em 95, no USPcore, rolava uma semana de discussões, bandas, atividades, lá no prédio de História da USP. Cada dia rolava um debate. Numa dessas ocasiões, estávamos na mesa eu, Valo Velho, Ariel e Kid Vinil. Foi uma discussão que terminou com todo mundo se xingando e querendo brigar. Depois teve o show e uma galera ficava perseguindo os punks que julgava serem gays, dando garrafada inclusive.

Maria Helena: Eu até bati de frente com a Tina Ramos no USPcore, porque ela começou a falar umas coisas muito nada a ver. Lembro que teve uma fala muito horrível lá no USPcore, dita pela Tina. Ela disse: "E essa palhaçada aí de vocês? Punk não é ser viado, não." Aí eu olhei e falei: "Punk é a gente ser o que quiser. E se um gay quiser ser punk, ele vai ser punk, muito mais do que você. Nós aqui estamos abertos pra tudo." Era uma homofobia horrível, sabe? Muitas vezes a gente falava que era "viado" mesmo, que era "bicha", "sapatão", tudo do que nos chamavam.

'Lick it up'

Paulo Poeta: Tinha muito anarco que se beijava na boca pra provocar mesmo os outros punks, não é que eles estavam namorando...

Maria Helena: Aconteciam mesmo as provocações do pessoal se beijar na boca só pra afrontar mesmo. Isso era um pensamento muito pequeno. Nós sempre tentamos romper essas fronteiras.

Ivan Ribeiro: Na época em que começamos existiam muitas gangues, todas bem beligerantes. Nossa abordagem, aliás, minha abordagem, era a de ser a antítese das gangues, violentas, assustadoras e territorialistas. Então a questão de cumprimentar as pessoas com apertos na bunda era uma atitude minha, uma contraposição às gangues. De apertar bundinha e dar beijos no rosto e lambidas. Por conta dessa minha atitude, a cena anarcopunk ficou com a pecha de ser formada por "um monte de viadinho".

Depois, começamos a trabalhar com a cena LGBT, a fazer os contatos, as parcerias com diversos coletivos LGBTs… Daí os punkzões foram à loucura. "Bando de viadinhos", ouvíamos, mas foi dessa forma atabalhoada que questionamos a homofobia e a extrema macheza do punk. De nossas fileiras saíram muitos meninos e meninas que, mais à frente ou mesmo na época, assumiram sua sexualidade. Cito o exemplo do Mama, de Londrina, da banda Seu Pai Já Sabe?. Ele já disse que, na época, o ACR (Anarquistas Contra o Racismo) e o MAP (Movimento Anarco-Punk) foram os responsáveis por abrir a discussão da homofobia num contexto em que não se discutia muito isso nem na sociedade, quanto menos na cena punk e udigrudi.

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Pogando até umas hora no evento em prol do MST em Jandira, São Paulo, em 1997. Foto: Maria Helena/Arquivo pessoal

Josimas Ramos: Lembro até que levei cópias do meu fanzine num encontro da UMP (União do Movimento Punk), e na capa tinha dois punks dando um beijinho. Um cara olhou aquilo e ficou indignadíssimo. Ele rasgava o zine e botava fogo, dizendo que não admitia participar de um grupo de punks gays. Esse cara, três anos depois, entrou para os White Powers. Espalhou-se a história de que, para ser anarcopunk, a pessoa tinha essencialmente que ser gay. E a gente tentava mostrar que não, que você essencialmente tem que ser quem você é. E por mais que explicássemos, no final diziam: "É assim, sim!". Nós só queríamos um espaço onde as pessoas pudessem se expressar livremente. Tanto que estivemos na organização da primeira Parada Gay de São Paulo – que tinha esse nome na época. Esse foi um dos principais pontos de discordância e antipatia.

Tretas lendárias

Josimas Ramos: Em meados dos anos 90 teve aquele problema da FATEC. Ali foi um ponto com o qual as pessoas não sabiam lidar. Uma pessoa morreu, ninguém sabia o que tinha acontecido, nem como, mas afetou todo mundo. Isso ocasionou um certo esvaziamento. Por outro lado, o esvaziamento gerou uma coesão maior entre aqueles que já estavam construindo a história do anarcopunk há muito tempo. Passamos a discutir os questionamentos gerados a partir das coisas que aconteceram em busca de respostas. Nisso que começou a surgir uma nova organização anarcopunk.

"Uma pessoa morreu, ninguém sabia o que tinha acontecido, nem como, mas afetou todo mundo. Isso ocasionou um certo esvaziamento. Por outro lado, o esvaziamento gerou uma coesão maior entre aqueles que já estavam construindo a história do anarcopunk há muito tempo."

Nenê Altro: No episódio do show da Faculdade de Tecnologia de São Paulo, quem marcou o evento foi um pessoal da Juventude Libertária mais recente, o Thelema e tal... Chamaram o Personal Choice, mas o que acontecia? Uns meses antes, quando a Verdurada já era no pico dos hare krishnas, o straight edge já estava deixando de ser político. Porque a coisa Nova York já estava influenciando a cena. Então começou-se a fazer concessões. A falar: "Pô, o Agnostic Front é skinhead. Então por que não colocamos o pessoal skinhead do ABC nos shows?". E foi quando o pessoal Carecas do ABC começou a colar. Como parou de haver a trava política, a merda se tornou inevitável.

Teve esse show do Personal Choice com No Violence e Abuso Sonoro na FATEC. E colou essa galera que não tinha nada a ver com nada, uns skinheads burros, violentos, gangueiros, nacionalistas... e rolou treta com quem eles naturalmente eram tretados, o pessoal anarquista e anarcopunk. Eu não sei nem quem deu o tiro, se foi algum anarco ou careca. Sei que teve uma morte na rua, na avenida, não lembro, mas lembro que deu essa bosta. Nessa época o Personal já estava se isolando. Pouco tempo depois, menos de um ano, acabou, e eu comecei o Dance of Days, me afastando completamente do rolê.

Marcolino Jeremias: Pessoalmente, nunca passei por situações de tretas nas ruas com punks ganguistas. A maior preocupação sempre foi o confronto direto com os skinheads, que são bem agressivos. Nos eventos anarcopunks, principalmente em São Paulo, sempre tinha uma comissão de segurança, cujo objetivo era manter a harmonia nos eventos e, caso preciso, combater de frente os skinheads. Geralmente, alguns membros dessa comissão de segurança andavam armados para esse tipo de situação. As armas eram chamadas pelo código de "livros". Mas esse confronto, nos eventos anarcopunks, nunca acontecia, pois os carecas nem se arriscavam a aparecer nesses eventos. Os confrontos eram mais nas ruas, em encontros casuais, quando ninguém estava esperando.

O mais próximo que passei disso foi nessa gig hardcore na FATEC, em 23 de setembro de 95, em que tocaram as bandas Abuso Sonoro, No Violence, Personal Choice e Street Bulldogs. Logo no caminho de entrada até o local da gig já estava cheio de Carecas do Brasil e um baita clima de treta no ar. Os Carecas estavam lá pra caçar anarcopunks. E os anarcopunks de São Paulo acabaram colando no evento. Eu não vi, nem participei do confronto, pois já estava lá dentro. O saldo foi um careca (Marcelo Torres de Souza, 21 anos) morto com um tiro.

Mesmo naquela época, sempre achamos que os carecas somente representavam perigo numa eventual possibilidade de agressão física. Politicamente, eram grupos tão minoritários e toscos que não representavam perigo algum. Nossa preocupação maior sempre foi com os grupos fascistas mais institucionais e organizados como os neo-integralistas e outros que se organizavam dentro da lei e divulgavam suas ideias conservadoras e reacionárias até em círculos universitários e buscavam meios de alcançar cargos públicos através das eleições. Esses eram os fascistas que mais nos preocupavam e que exigem mais de nossa atenção.

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2º Encontro Nacional Anarcopunk, Rio de Janeiro, 1998. Foto: Maria Helena/Arquivo pessoal

Loquinho: Vou falar uma coisa que poucos devem saber: eu e mais três amigos fundamos a Kaos Punk em 1991. Mas era só entre amigos. Depois disso o negócio virou gangue e tomou uma proporção diante da qual preferi sair. Tinha as outras gangues da época, como a Devastação, que andava com os Carecas do ABC e os White Power, a SP Punk, da zona norte, Phuneral Punk, Carniças, e várias outras. Anarcopunk, era aparecer e brigar com todo mundo. As gangues se odiavam, mas algumas até que se toleravam. A única coisa que todas tinham em comum era o ódio pelos anarcopunks.

"Tem gente que odeia que eu fale isso. Mas vou continuar falando: se tomarmos por origem ou mesmo por classe social, o punk, no seu surgimento, é um movimento de ignorantes, de gente sem perspectiva, sem formação. O punk, quando surge, não é um lance que vem de consciência política, ele vem de uma revolta, e, de modo geral, uma revolta bem cega."

Paulo Poeta: Teve uma vez que foi embaçado com Kaos Punk. Duas vezes, na verdade. Uma delas, no Bar do Bal, e outra ali na zona sul mesmo. A primeira foi com aquela galera do Extremamente Irritante... e a segunda, com esse pessoal que era Kaos Punk. E em ambas as ocasiões o motivo foi o mesmo: homofobia. Tem vários exemplos de homofobia contra anarcopunk. Mas é isso, numa das tretas a gente vazou do lugar, e na outra ficamos presos, porque os caras tavam do lado de fora esperando, e éramos minoria. Era uma homofobia burra, achar que alguém é "viado" porque veste saia.

Tem gente que odeia que eu fale isso. Mas vou continuar falando: se tomarmos por origem ou mesmo por classe social, o punk, no seu surgimento, é um movimento de ignorantes, de gente sem perspectiva, sem formação. O punk, quando surge, não é um lance que vem de consciência política, ele vem de uma revolta, e, de modo geral, uma revolta bem cega. Não tem muita diferença entre um aluno meu que vai pra aula armado e bota o cano em cima da mesa e o cara que forma uma gangue punk. São caras de periferia, sem perspectiva, e que não consegue engolir sapo. É basicamente isso. É marginal.

Antônio Carlos: Em 85 no Radar Tan-Tan, quando foram lançar a coletânea Ataque Sonoro, contrataram o Fonseca's Gang, um grupo que dava segurança em shows. Quando cheguei lá e vi aqueles caras, comecei a dar risada, só pensando: "Quando chegar a galera do mal esses caras estão fodidos! Vão tomar um cacete da porra!". Daqui a pouco, chegou. Os próprios punks que participaram do evento levaram as armas pra dentro do salão, escondidas nas caixas dos instrumentos. Lá dentro os carecas quebraram tudo e deram um pau fodido nos caras. Aí chegou o Redson e uma galera com quem eu conversava na época e falou pra chamar a polícia. "Chamar a polícia?", respondi. "Vamos quebrar a garrafa agora, cada um saca a sua faca, mata ou morre e foda-se. Se chama a polícia, ela vai prender e bater indiscriminadamente e não vai resolver porra nenhuma. Os caras vão continuar fazendo isso sem oposição." Chamaram a polícia, foi dito e feito: eles sentaram o sarrafo em todo mundo.

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'Liberdade, igualdade, amor, anarquia'. Praça Ramos, 1991. Foto: Maria Helena/Arquivo pessoal

Josimas Ramos: As gangues estão sempre se renovando. Você pode não acreditar, mas algumas em atividade são as mesmas das antigas. A chegada de integrantes novos ainda mantém vivas a Phuneral e a Devastação até hoje. São gangues perigosíssimas mesmo. Mas a perseguição aos anarcopunks acabou. Principalmente porque eles não conseguiram encontrar resposta. Porque a briga precisa ter dois lados, né. E o anarcopunk, por um tempo manteve essa coisa de combater, mas depois preferiu evitar o conflito e injetar energia nas coisas em que acreditávamos. Isso pra mim foi um quesito fundamental pro crescimento. Quando o anarcopunk sai do jogo. Mas as gangues sempre vão ter um inimigo. Neste momento, elas brigam entre si.

Maria Helena: O grande problema sempre foram os skins. Com as outras gangues era um negócio mais verbal. No geral, com o passar do tempo os outros punks começaram a respeitar os anarcos. Porque eles viram quem estava fazendo as coisas na rua, conversando com a população, movimentando, produzindo. Quem não nos aceitava eram as gangues que já tinham um diálogo com os carecas. Os caras que eram reaça, mesmo. Devastação Punk era tudo proto skin, né. Mas com o pessoal da Kaos Punk, SP Punk, o máximo que acontecia era bate-boca. Alguém falava merda, você rebatia o negócio na lata, e o cara não tinha nem argumento.

Silvio Shina: Era comum os anarcopunks serem chamados de "viadinhos" ou "anarcobichas" pelo pessoal das gangues. E ainda tinha toda a questão da suposta "união" entre punks e skins (Carecas do Brasil e do Subúrbio, na maioria). Algo que os anarcos não aceitavam de jeito nenhum. Os anos 80 deixaram um rastro de violência e morte dentro do punk. Muitas tretas, violência, atitudes destrutivas e até mesmo fascistas. E o anarcopunk queria falar de outras coisas, de lutar contra o Estado, contra o racismo, a homofobia, o machismo, sexismo, capitalismo; queria se organizar de forma autônoma, livre e igualitária e queria combater o fascismo.

E combater o fascismo, na época, dentro do anarcopunk, era também tretar com os Carecas do Brasil, do Subúrbio, do ABC e com os Neonazis. Muitas manifestações eram organizadas, muitas atividades político-culturais rolavam nesse sentido. Mas em alguns momentos, a violência aparecia. E em alguns momentos talvez fosse a única resposta. Mas também tinha muita gente que trazia, ainda, resquícios da sua vivência no punk dos anos 80 e parecia não conseguir, ou, não querer abrir mão disso.

De qualquer modo, sem sombra de dúvida os anarcos foram os responsáveis por trazer o anarquismo de volta nos anos 90. Me recordo muito bem dos anarcopunks serem chamados diversas vezes de "Os Novos Anarquistas". Ainda sobre o combate ao fascismo, os anarcos organizavam dossiês, discussões, e idealizaram o Fevereiro Antifascista, atividade com discussões, palestras e outras intervenções. O Fevereiro Antifascista foi criado à ocasião do assassinato de Edson Néris (um adestrador de cães que era homossexual) na República, por um grupo de Carecas do ABC. Essa atividade já acontece há 16 anos.

A gangue Kaos Punk era da minha quebrada. Só via esses caras fazerem merda. Eram machistas, homofóbicos e muito violentos e inconsequentes. Todo rolê que esses tipos colavam, arrumavam treta. Lembro de uma vez que o Alan (Metropolixo) foi espancado por eles e teve que se fingir de desmaiado pra que parassem de bater. Tudo isso porque, num show da Metropolixo, ele começou a rebolar enquanto cantava, em vez de "pogar" como um "punk de verdade". Devastação, Carniça e outras gangues, pra minha sorte, eu só ouvia as histórias. Ainda bem.

União do Movimento Punk

Diego Divino Duenhas: Posso dizer que conseguimos, em algum momento, graças a iniciativas da UMP (União do Movimento Punk), viver um período muito bacana de paz e integração com algumas gangues, aquelas que primordialmente eram anti-skinheads, como a Kaos Punk. Houve alguns atritos, mas nada muito sério. Com as gangues que aceitaram contato com skinheads não houve aproximação, e, quando ocorreu algum conflito, felizmente não foi nada muito grave, até onde me lembro. O objetivo dos anarcopunks nunca foi se envolver nesse universo das gangues. Todos os incidentes que ocorreram foram no sentido de autodefesa. Alguém de gangue colou certa vez num evento e começou a ameaçar e desrespeitar as pessoas e se desentendeu com alguém, mas, mesmo assim, na maioria das vezes o diálogo predominava.

Antônio Carlos: A primeira tentativa de unir os punks foi em 84. Um pessoal do ABC – Corte Marcial, Infratores, Garotos Podres – vem pra Punk Rock Discos, que era lá na Augusta, e encontra Redson, Renato Martins, o próprio Fabião, todos esses caras, e eles rediscutem a questão de acabar com as tretas. Acho que esse é um lance do faça-você-mesmo que foi muito significativo. Isso aumentou o público, os lugares para tocar... Achei isso brilhante, o Redson participou muito desse processo.

Diego Divino Duenhas: Fizemos um punknique de 1º de maio (acho que em 1995 ou 96), no Hortoflorestal. Sabiámos que estava rolando uma reunião dessa iniciativa da União do Movimento Punk no mesmo dia, mas decidimos, consensualmente, não participar, pois ainda estávamos com o pé atrás com essa história. Na saída do Horto, no final da tarde, encontramos um grande número de punks vindo em nossa direção. Disseram que estavam tentando fazer a União do Movimento Punk e queriam nossa presença. Foi uma conversa longa e amistosa, e logo depois as coisas começaram a acontecer nesse sentido. Vejo como uma grande iniciativa e que foi muito interessante por alguns anos.

Ruivo Lopes: A UMP era uma iniciativa para aproximar punks dispersos, que tinham um jeito muito diferente de viver o punk, mas que também queriam companhia, trocar materiais, informações, montar bandas, organizar coisas juntos, e, nesse sentido, deu muito certo. Muitas confusões foram desfeitas na UMP, outras também começaram, mas de outra natureza. Começou a ter menos gangues e mais politização por conta da influência do Movimento Anarco-Punk presente na UMP. Muitos punks oriundos dessas gangues foram para o Movimento Anarco-Punk. Aí também se tentou definir o inimigo comum, os racistas, fascistas e neonazistas representados pelos carecas, skinheads e white powers. O assassinato do Edson Nery reforçou a necessidade de denunciar conjuntamente essas gangues que atuavam – e atuam – na cidade. E isso foi muito positivo. Graças às denúncias, passou-se a identificar essas gangues e a denunciá-las.

Maria Helena: Existiram duas fases da UMP. A primeira, em 96, não acompanhei muito porque eu estava lá em Curitiba. Da segunda eu participei, aí já era outra mentalidade. Voltei em 2002, mas sempre ligada no que acontecia em São Paulo. Estava rolando a UMP, um outro coletivo feminista, o GRML (Grito de Revolta das Mulheres Libertárias), que durou mó tempão, até 2011. Mas a segunda UMP foi legal, os encontros eram no Trianon. Rolavam eventos conjuntos.

Loquinho: A UMP não deu certo.

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Reunião da UMP em 2004. Foto: Diego Divino Duenhas/Arquivo pessoal

Mais militância, menos tretas

Katy Fon: Na década de 90, alguns casos de ataques skins motivaram o pessoal a estreitar contato com grupos e movimentos sociais. Em 93, por exemplo, após a morte do estudante negro Fábio dos Santos, em Santo André, assassinado por skins, o movimento anarcopunk começou a ampliar sua rede de contatos com movimentos sociais, grupos de mulheres, negros, comunidade judaica, nordestinos, pessoal LGBT. O Anarquistas Contra o Racismo nasce nesse contexto. Acho importante citar essa prática de ampliar contatos, realizar denúncias, divulgar pra sociedade os ataques que aconteciam, que a direita estava crescendo e que a carecada estava nas ruas. Penso que isso foi um marco para o movimento. Anos mais tarde o Movimento foi homenageado pelo pessoal da organização da Parada LGBT, por todo o envolvimento na luta contra a homofobia. Os anarcopunks participaram da primeira Parada, então, eles resolveram fazer essa homenagem. Eu me lembro do dia, fui receber com uma turma enorme esse prêmio [risos], foi muito emocionante!

Participei de alguns grupos e coletivos dentro do anarcopunk. Criamos a ORGAP mais ou menos em 2000. Através dela, elaboramos um site de comunicação e difusão de material anarcopunk e libertário. O site ainda existe, mantido pelo pessoal do MAP. Nós da ORGAP, junto com o pessoal do Germinal e Resistência Libertária, organizamos muitos eventos e shows fudidos. Trouxemos o Sin Dios pro Brasil e começamos a organizar eventos que duravam todo o final de semana, com várias bandas, palestras, filmes, teatro: Dias de Criar, O Trabalho Danifica, etc. Depois começamos a organizar umas festas que chamávamos de Festa da Diversidade. Uma travesti chamada Dandara, muito parceira, cedia sua boate para nós, e rolavam altos sons, bandas, discotecagem e muito show de travesti. Era "Babado", o nome do bar, e as festas eram do babado mesmo!

Mais tarde conseguimos fazer em outro espaço, no Susi in Transe, e a renda das festas era revertida para as Jornadas Antifascistas, que rolam até hoje. Eram as Festas do Antifa, também nos moldes do Babado. Em 2005, Josimas e Paulo propuseram a mim e ao meu compa, o Marcelo Burchauser, que reabríssemos o Germinal. Dessa vez no Centro de São Paulo, na Rua Treze de Maio, no Bixiga. Era uma vivência de comunidade mesmo, mas infelizmente problemas pessoais fizeram tudo desandar.

Josimas Ramos: Entre os coletivos importantes, na época tinha o ALDA (Anarquistas na Luta pelos Direitos dos Animais), que editava o fanzine Naturapunx.

Maria Helena: O movimento anarcopunk participou ativamente do Comitê Avante Zapatistas!. O pessoal até foi àquele encontro em Belém, e participou de todas as ações das Jornadas Antiglobalização, do Centro de Mídia Independente...

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Flyer da Comuna Goulai Polé. Imagem: Marcolino Jeremias/Arquivo pessoal

Diego Divino Duenhas: Estivemos na primeira manifestação antiglobalização, S26. Na seguinte, o A20, optamos por não ir coletivamente, pois imaginávamos que haveria represália devido às ocorrências do S26. Quem quisesse ir meio que iria por conta. Os objetivos já não estavam muito claros também. O ACR era predominantemente tocado por anarcopunks. Nas outras iniciativas a participação era menor, mas rolava.

Marcolino Jeremias: Uma nas iniciativas frutíferas de destaque foi o Coletivo Anarco-Feminista (CAF), fundado em São Paulo em março de 93. Este coletivo, entre a data de sua criação e 94, publicou quatro números do boletim informativo Pandora, além de panfletos como "Bases de Acordo do Coletivo Anarco-Feminista", "Tudo o Que Você Gostaria de Saber Sobre Anarco-Feminismo, Mas Tinha Medo de Perguntar", "O Feminismo Na Versão Anarquista", de Peggy Kornegger, etc. Também considero o CAF extremamente importante por ter sido o primeiro coletivo assumidamente anarco-feminista dentro do movimento, e por ter levantado questões que não eram muito discutidas, o que gerou polêmica entre algumas pessoas.

Em 88, teve início na cidade de São Vicente, o Núcleo de Conscientização Contra a Corrida Armamentista (NCCCA), que tinha como finalidade fazer propaganda pela desmilitarização da sociedade. Esse núcleo realizou atividades até 89. Em 94, a ULBS retomou essas atividades com o nome de Núcleo de Conscientização Anti-Militarista (NCAM), que em 96, a partir da criação de mais um núcleo em São Paulo, mudou para Projeto de Conscientização Anti-Militarista (PCAM). Estes núcleos tiveram bastante atuação com o Movimento de Objeção de Consciência (que também rolava forte no Rio Grande do Sul, especialmente em São Leopoldo), e com o Serviço Paz e Justiça (SERPAJ), inclusive incentivando jovens na faixa dos 18 anos a não servirem e nem se apresentarem no serviço militar obrigatório. Lógico que existia para isso um amparo jurídico e oferecíamos esse apoio e solidariedade aos jovens.

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Josimas organizando suas pilhas de publicações. Foto: Felipe Larozza/VICE

Nenê Altro: Eu fiz bosta pra caralho, cara, mas sabe o que acontece? Eu me orgulho disso, porque se não fosse por essas bostas, não teria virado o caos que virou, e depois do caos nasceu um monte de coisa legal. O bagulho da treta entre mim e o pessoal da cena hardcore foi uma delas. Fiz uma grande bosta, aí teve uma puta treta ridícula que teve o meu lado errado, mas teve o lado mais errado ainda do que eles fizeram. Só que disso surgiram um monte de outras coisas. E eu sempre estive no meio das confusões, né [risos]. Já estou até acostumado [risos]! Você tem que se jogar de cabeça se quiser mudar a história. A história está aí pra ser transformada.

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2º Encontro Nacional Anarcopunk, Rio de Janeiro, 1998. Foto: Maria Helena/Arquivo pessoal

Antônio Carlos: Não desmereço de maneira alguma tudo o que o MAP fez em termos de militância anarquista no Brasil. Eu diria que uma parcela significativa do anarquismo atual veio do movimento punk ou de contracultura. A estrutura atual do movimento só foi possível após a resolução de inúmeros conflitos de procedimentos internos. Chega um determinado momento em que é necessário fazer uma reflexão. Aqui no CCS rolou uma história de um cara que teve um surto de tudo quanto é bagulho que ele usava, quebrou as câmeras do condomínio, pá, aí expulsaram o cara. Eu mesmo fui expulso daqui. Quando eu voltei e fiquei sabendo da história, falei: "Quem nunca fez cagada no mundo aqui? Se tem alguém aqui que não fez é santo, está no lugar errado. Somos humanos e falhamos." Não era mais fácil sentar com o cara e falar pra ele resolver o problema dele com o condomínio? E depois trocar ideia coletiva, pra não passar batido? Uma discussão como companheiros? Você começa a criar mecanismos pra evitar determinadas situações. Isso é aprendizado.

Só que aí no punk tem os extremos. Por exemplo, eu ouvi de um cara certa vez, quando fui palestrar em Santos: "Eu viajo fazendo meus trampos de artesanato, com a minha família." Pô, ele estava com uma criança pequena. Eu pensava: "Mas essa criança não teve a condição de escolher se quer ou não isso pra sua vida." Essa coisa de viver uma vida muito difícil, muito dura. Para a criança pode ser uma aventura também, mas como ela constrói isso lá na frente? Se a gente pegar a escola de Summerhill, você tem um elogio fodido, mas também declarações de ex-alunos dizendo que não entenderam, porque depois de viverem aquilo se depararam com uma sociedade diferente. Então como se lida com isso? Eu racho o bico até hoje com o seguinte: o cara é militante e acha que o filho dele também tem que ser. Isso não é diferente da minha mãe, que me obrigava a ir na igreja.

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Galera na Comuna do Bresser. Foto: Ivan Ribeiro/Arquivo pessoal

Keli de Fátima: Aquele lance do Jello Biafra, de dizer "Punk uma vez, punk sempre", é real. Tenho contato ainda com vários punks, o pessoal passa às vezes aqui pela minha casa, de BH, do sul... ano passado tive contato com anarcopunks da Colômbia também, que eram malabaristas, foi um convívio legal. Estou sempre aberta, aqui [Florianópolis] é um lugar de muitos viajantes, a gente sempre tromba um punk pra lá, outro aqui, às vezes paro, converso, mas não participo de nenhum grupo social. Eu trabalho em casa, tenho cachorro, gato, filho. Mas teve coisas que mantive, sou vegetariana... tenho meu coturno [risos], meu visual, escuto umas podreiras de vez em quando, adoro Detestation, tenho os vinis, as k7s, zines... Uma porta aberta jamais se fecha. Depois que você conhece a anarquia, começa a questionar muitos valores. É a prática do dia a dia, o que você está sendo com seu companheiro e vice versa, a educação que está dando para o seu filho, como se comporta com seus amigos, quem você tolera do seu lado. Tem homem que bate em mulher, e é complicado você beber, fumar um baseado com um louco que faz isso, com alguém homofóbico, racista, um cara que gosta de Bolsonaro, aí não faz parte do meu círculo. Saio fora mesmo, me dá ânsia de vômito!

Johnny Revolta: O anarcopunk, enquanto organização, se fragmentou. Ele nada mais é do que uma associação entre indivíduos e coletivos anarcopunks. Agora, dentro disso, existem os princípios que criamos, agregando as diferentes lutas, diversidade, LGBT, antifascismo, feminismo, combate ao racismo, aí já vem junto a causa indígena, quilombola... porque antigamente um monte de gente do movimento era de descendência indígena, negra... era tudo pessoal da periferia, quebrada, de favela, era tudo subúrbio mesmo. No final dos anos 2000 tem uma abertura pra classe média, é aonde começa um monte de coisa errada dentro do movimento, mas isso é outra história... Começamos a agregar as lutas porque nos víamos nelas. O pessoal começa a ter filhos e entra a questão das crianças também, de se reeducar pra poder preparar a molecada, de ter ambientes seguros pra eles.

Ser punk, ao contrário do que muita gente acha, não é o que você tem, mas como você vive e o que faz com isso. Quem não tem nunca vai ter, porque quem tem, já tinha. Só vai lutar mesmo quem tem essa necessidade. Quem não tem, fica só no discurso, na teoria. Quem não precisa trabalhar, cuidar do filho, da filha, arrumar a casa, tem tempo pra ler, pra estudar. Por isso muita gente buscou o autodidatismo. Hoje em dia um monte de gente tem faculdade, doutorado... Mas isso é hoje. Antes a nossa faculdade era na rua, autodidatismo. Antigamente o pessoal não tinha sobrenome, era o Podrão, o Linguiça. Hoje? É o "José Antônio". Se você falar o apelido, a pessoa te corrige.

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